Adotámos um menino que já tinha sido devolvido por três famílias diferentes por considerarem que ele era “demasiado difícil”

Adotámos um menino que já tinha sido devolvido por três famílias diferentes, porque diziam que era difícil de mais.

Muitos disseram-nos que estávamos a cometer um erro.

Mas, anos mais tarde, quando perdemos tudo, foi ele o único que escolheu ficar.

Diziam-me sempre que aquele rapaz não duraria connosco.

A assistente social falava num tom suave, ajeitando uma pasta grossa, recheada de papéis que pareciam já ter passado por demasiadas mãos.

Lá fora, o sol batia forte sobre o pátio do colégio de acolhimento. Ouvia-se o som longínquo das carrinhas a cruzar a estrada e o pregão de um vendedor de castanhas.

Já foram três famílias disse ela. Todas o trouxeram de volta.

O meu marido, Manuel, franziu o sobrolho:

Porquê?

A mulher hesitou antes de responder.

Dizem que… é difícil. Não fala muito. Não obedece logo. Não gosta de ser tocado ou abraçado. E nunca chora, nem quando devia.

Fez uma pausa profunda antes de concluir:

Parece estar sempre à espera de ser deixado outra vez.

Olhei para o menino sentado do outro lado da sala, numa cadeira de plástico pequena.

Tinha as mãos sobre os joelhos. As costas direitas, como quem aprendeu a ocupar o mínimo espaço possível.

Não brincava.

Não fazia perguntas.

Nem sequer olhava à volta.

Só esperava.

Quando os nossos olhos se cruzaram, ele não sorriu.

Mas também não desviou o olhar.

E qualquer coisa em mim quebrou.

Disseram-nos para pensarmos bem.

Que ainda podíamos escolher outra criança.

Havia tantas que eram mais fáceis.

Que não nos devíamos meter em trabalhos.

Até a minha irmã, sempre emotiva, me ligou naquela noite:

Filomena, pensa bem já não tens vinte anos. Porque trazeres para casa um problema destes? Às vezes essas crianças crescem revoltadas com o mundo.

Enquanto falava com ela, reparei na nossa cozinha pequena.

Os azulejos antigos.

Uma mesa para quatro.

Mas raramente se sentava lá toda a gente.

Silêncio a mais.

Tudo arrumado de mais.

Vazio a mais.

Precisamente respondi-lhe. Porque ninguém quer escolhê-lo.

Manuel não disse palavra nessa noite.

Sentou-se apenas ao meu lado na cama, respirou fundo e apertou-me a mão.

Tens a certeza?

Não admiti. Mas sei que, se o deixarmos lá, alguém o vai abandonar outra vez.

E com isso terminou a conversa.

Foi assim que começou a vida do Tomás connosco.

Nos primeiros tempos, era como ter um hóspede.

Não um filho.

O Tomás nunca tocava em nada sem perguntar.

Não fazia birras.

Não partia coisas.

Não se queixava.

Não pedia guloseimas.

Não pedia histórias para adormecer.

Nem pedia colo.

E isso era o que mais doía.

Um dia, estava eu a cozer feijão verde na cozinha e perguntei-lhe:

Queres ajudar?

Abanou a cabeça.

Queres ver televisão?

Abanou de novo.

O que é que gostavas de fazer?

Ficou calado muito tempo antes de responder.

O que a senhora mandar.

Senhora.

Não mãe.

Não tia, nada.

Era só mais uma pessoa de passagem.

Como já tinham sido tantas antes.

Numa madrugada, percebi finalmente o tamanho do seu medo.

Ouvi barulho na sala.

Julguei logo que algum ladrão tinha entrado.

O Manuel agarrou no cabo de vassoura e avançámos devagar.

O Tomás estava sentado no sofá.

Calçado.

Com a mochila pequena apertada no colo.

O que fazes aqui, filho? perguntei.

Não respondeu.

Porque não dormes?

Os olhos abertos.

Atento.

Como um passarinho habituado a sobreviver, pronto para fugir a qualquer momento.

Estou pronto murmurou.

Pronto para quê?

Baixou a cabeça e disse quase sem som:

Caso me mandem embora.

Aquilo doeu-me como uma facada.

Não vais sair desta casa.

Ele não respondeu.

Porque não acreditava.

E com razão.

Ninguém nunca lhe tinha cumprido essa promessa antes.

Os anos foram passando.

Devagar, tão devagar

O Tomás começou a mudar.

Primeiro, pequenos gestos.

Uma tarde, enquanto eu lavava a loiça, entrou na cozinha e pôs um desenho em cima da mesa, sem dizer nada.

Três bonecos de pau.

Uma mulher.

Um homem.

E um menino pequeno entre eles.

Por cima, escrito com letras tortas, uma palavra:

Família.

Fiquei a olhar muito tempo para aquele papel.

Tanto tempo que as lágrimas caíram e mancharam o desenho.

O Manuel viu-o à noite e acenou, sem dizer palavra.

É que o amor, às vezes, chega de mansinho.

Como a chuva depois de muitos dias secos.

O Tomás nunca se tornou uma criança ruidosa.

Nunca enchia a casa com gritos ou gargalhadas.

Mas começou a aproximar-se.

A sentar-se ao lado do Manuel na garagem, enquanto ele arranjava rádios velhos.

A ajudar-me a preparar o arroz de forno.

Começou a deixar bilhetes no frigorífico.

Bom dia.

Obrigado.

Boa noite.

Da primeira vez que me chamou mãe, foi sem querer.

Corria para me mostrar um teste da escola que tinha passado.

Mãe

Ficou rígido, assim que a palavra lhe escapou.

Os olhos arregalados.

Como se tivesse quebrado qualquer coisa preciosa.

Mas eu só abri os braços.

E, pela primeira vez na vida…

O Tomás abraçou alguém.

Nem tudo foi fácil.

Houve noites em que acordava a tremer, com pesadelos.

Às vezes fazia perguntas estranhas.

As pessoas vão-se embora quando crescemos?

Os pais deixam de gostar dos filhos?

Se eu fizer asneira, devolvem-me?

Sempre respondíamos o mesmo:

Não.

E depois provávamos.

Dia após dia.

Ano após ano.

O amor, descobrimos, não se constrói num só momento.

Ergue-se devagar, em mil dias comuns.

O Tomás cresceu e tornou-se um adolescente calado, muito atento.

Os professores diziam que era homem antes do tempo.

Ouvia muito, falava pouco.

E quando falava, todos ouviam.

Porque as palavras, nele, pesavam mais.

Aos dezoito anos, era já o jovem em quem toda a vizinhança confiava.

Ajudava os vizinhos a consertar muros.

Acompanhava idosos até casa ao anoitecer.

Fazia voluntariado naquele mesmo colégio de acolhimento onde nos conhecemos.

Às vezes sentava-se com meninos que não queriam falar.

Como ele já tinha sido.

Nunca forçava.

Só ficava.

Porque percebeu o que poucos entendem.

Que a maior prova de amor, por vezes, é simplesmente não partir.

Mas a vida gosta de nos pôr à prova.

Quando o Tomás tinha vinte e três anos, o negócio de construção do Manuel faliu.

Um sócio enganou-o.

As dívidas acumularam-se.

Num ano, perdemos a casa.

A garagem.

As poupanças de tantos anos.

Tudo.

Mudámo-nos para um apartamentozito alugado, paredes descascadas, um quarto minúsculo.

Os amigos afastaram-se.

Nem os familiares ligavam.

Pessoas que admiravam o Manuel começaram a evitá-lo na rua.

O fracasso constrange.

Mostra o quão frágil é tudo.

Numa noite, o Manuel estava na mesa pequena da cozinha, a olhar para as faturas em atraso.

Os ombros pesados como nunca lhe vi.

Talvez devêssemos pedir ao Tomás para ir murmurou.

O quê?

É novo. Merece melhor do que isto.

Antes que eu dissesse algo, ouvi-se a porta.

O Tomás chegava do trabalho.

Pousou o saco, olhou para os papéis.

Percebeu logo tudo.

O Manuel tentou sorrir.

Não te preocupes com isto, filho.

O Tomás não respondeu.

Limitou-se a puxar uma cadeira e a sentar-se connosco.

Quanto é?

O Manuel franziu a testa.

Como assim?

Quanto devemos?

O Manuel suspirou.

Demais.

O Tomás acenou, pensativo.

E então, disse algo que fez a sala ficar em silêncio.

Não vou sair.

O Manuel abanou a cabeça.

Não entendes

O Tomás olhou-o nos olhos.

Sereno.

Firme.

O mesmo olhar do primeiro dia.

Não.

Quem não entendeu foste tu.

Levantou-se e foi buscar um envelope gasto.

Colocou-o na mesa.

Dentro, papéis do banco.

Poupanças.

Bolsas.

Dinheiro de anos de trabalhos em part-time.

O Manuel olhou, espantado.

Tomás, tu guardaste isto tudo?

Ele encolheu os ombros.

Caso precisassem de mim.

As mesmas palavras.

A mesma voz baixa.

Mas agora queriam dizer outra coisa.

O Manuel tapou a cara com as mãos.

Só o vi chorar assim uma vez.

O dia em que trouxemos o Tomás para casa.

Nada se resolveu por magia.

Continuámos a lutar.

A trabalhar dobrado.

O Tomás arranjou dois empregos.

Depois, três.

Ajudou o Manuel a recuperar um pequeno negócio de reparações.

Devagar

Com dificuldade

Fomos recuperando o equilíbrio.

Anos mais tarde, já tudo mais sereno, perguntaram ao Tomás, numa entrevista da Junta de Freguesia:

Porque é tão dedicado aos seus pais?

O Tomás pensou um pouco.

Depois, sorriu.

Um sorriso verdadeiro.

Raro nele.

Porque, quando todos achavam que eu era demasiado difícil… foram eles que me escolheram.

O entrevistador acenou.

E quando perderam tudo?

O Tomás respondeu, simples.

Ficou a ser a minha vez de os escolher.

Hoje, o Tomás tem trinta e dois anos.

Tem uma pequena empresa de engenharia.

Continua a ser voluntário no colégio de acolhimento.

Mas para ele, o mais importante é muito mais simples.

Todos os domingos, vem almoçar a nossa casa.

A mesa, antes tão silenciosa, está agora cheia.

O Manuel conta sempre as mesmas histórias.

Eu faço comida a mais.

E o Tomás senta-se entre nós.

Tal como no primeiro desenho que fez.

Três pessoas.

Uma família.

E, quando a casa volta ao sossego, depois de todos partirem

Lembro-me daquela manhã distante.

Um menino no sofá.

Sapatos calçados.

Mochila pronta.

À espera de ser mandado embora outra vez.

Se pudesse voltar atrás, dir-lhe-ia o que nunca acreditaria.

Ajoelhar-me-ia à frente dele e diria:

Já não precisas estar pronto para partir.

Finalmente, esta é a tua casa.E, mesmo não podendo voltar ao passado, sei que ele me ouviu.

Porque há domingos em que, no fim do almoço, ao levantar a mesa, Tomás me abraça. Um abraço longo, tranquilo, sem pressa de acabar. E chamo-lhe filho baixinho, com o coração leve. O Manuel pisca-me o olho, cúmplice, e sorrimos, gratos, por termos ignorado todos os avisos.

A felicidade, afinal, foi aprender a ficar. Uns pelos outros. Sempre.

E já ninguém está à espera de partir.

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Adotámos um menino que já tinha sido devolvido por três famílias diferentes por considerarem que ele era “demasiado difícil”