— «Acredito que somos pessoas modernas.» — Proponho vivermos juntos, mas com uma condição: despesas 50/50, só que as tarefas domésticas ficam contigo, porque és mulher… Nesse momento ficou tudo em silêncio… Fiquei completamente chocada…

“Acho que somos pessoas modernas.” proponho vivermos juntos, mas com a condição: despesas 50/50, mas o dia-a-dia fica por tua conta, afinal és mulher… De repente, o silêncio instala-se… Fiquei completamente surpreendida…

Nós namorámos durante seis meses. Foi aquele tempo em que as pequenas imperfeições do outro parecem encantadoras e o futuro se desenha radiante. O Vasco parecia quase perfeito: inteligente, financeiramente estável, culto, sempre impecavelmente vestido. Passávamos os fins de semana em cafés acolhedores de Lisboa, passeávamos pelo Jardim da Estrela, discutíamos filmes, e parecia que tínhamos os mesmos pensamentos e interesses.

Mas rapidamente percebi que olhávamos para direções diferentes. Eu pensava numa relação como uma parceria igualitária; ele via tudo como uma maneira de conseguir conforto sem esforço.

A conversa sobre mudarmos de casa surgiu num jantar normal. Ele servia o chá e, de repente, disse: Olha, estamos ambos fartos de andar para casa um do outro. Dois arrendamentos não fazem sentido. Vamos viver juntos? Arranjamos um T2 jeitoso perto do centro.

Sorri, já andava a dar-lhe sinais para esse passo. Mas as palavras que vieram a seguir fizeram-me pousar a chávena e olhar para ele com novos olhos.

Mas temos de discutir as regras, continuou com um tom sério, como se falássemos de um contrato, não de formar uma família. Somos pessoas modernas. Acho que o orçamento deve ser separado e as despesas comuns repartidas ao meio. Renda, contas, compras tudo 50/50.

Assenti. Igualdade é igualdade.

E quanto ao dia-a-dia? perguntei, esperando ouvir o mesmo “ao meio”.

O Vasco hesitou, depois sorriu e respondeu: Isso a natureza resolve. Tu és mulher, tens o dom de criar conforto. Então, cozinhar, limpar, lavar fica contigo. Eu ajudo se estiver com vontade: levo o lixo ou arranjo uma prateleira se cair, mas o trabalho principal é teu. Não queres ser a dona da tua casa?

O silêncio caiu. Olhei para ele, tentando juntar as peças.

Para quê pagar a uma empregada, se há “namorada”?

Decidi falar-lhe no mesmo registo.

Vasco, ouvi-te, disse calmamente. Queres parceria nas despesas, é justo. Queres conforto: bom jantar, camisas limpas, chão lavado. Mas tal como tu, trabalho o dia inteiro. Não tenho energia nem vontade de gastar as noites a tratar da casa.

Ele ficou tenso, mas escutou.

Por isso tenho uma proposta, continuei. Se dividimos as despesas a meio, vamos ser civilizados. Contratamos uma empregada duas vezes por semana: limpeza, passar a ferro, cozinhar para uns dias. Dividimos o custo, também a meio. Assim, tudo limpo, comida feita e ninguém sobrecarregado. O ambiente crio eu com velas, cortinas bonitas.

O rosto dele mudou: primeiro surpreso, depois amuado, por fim distante. Via-o a fazer contas e o resultado não lhe agradava.

Para quê ter uma estranha em casa? reclamou. É uma despesa desnecessária. És mulher, custa assim tanto cozinhar para o teu namorado? Isso é carinho, não trabalho.

Quando o tema era o valor real do trabalho doméstico feminino, tudo se tornava “amor” e “vocação”. Cozinhar é cuidado; mas repartir o dinheiro, aí já é negócio.

Vasco, disse suavemente, se eu faço jantar depois de oito horas de trabalho, enquanto tu jogas ou vês séries, não é carinho, é exploração. Decidimos orçamento separado, então dividimos tudo. Ou partilhamos as tarefas, ou contratamos alguém e pagamos. Não aceito pagar tanto como tu e trabalhar o dobro.

Ele ficou em silêncio. O jantar decorreu tenso e só disse que “precisava pensar”.

No dia seguinte não veio o habitual “Bom dia”. Ao fim do dia, recebi uma mensagem distante: ia ficar a trabalhar até tarde. Três dias depois, desapareceu. Não atendia as chamadas.

Uma semana depois soube, por amigos comuns: “acabaram porque és muito materialista e não sabes cuidar da casa”. Que só quero dinheiro e não estou preparada para a vida a dois.

No início doeu. Seis meses de planos e sonhos. Mas depois veio o alívio.

O sumiço dele foi a melhor resposta. Ele não queria-me a mim, queria um “ninho quentinho”, sem esforço.

Vasco desapareceu graças a Deus. Contratei uma empregada para mim. Chego a casa limpa, faço chá e percebo: é uma felicidade não servir a quem não me aprecia.

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— «Acredito que somos pessoas modernas.» — Proponho vivermos juntos, mas com uma condição: despesas 50/50, só que as tarefas domésticas ficam contigo, porque és mulher… Nesse momento ficou tudo em silêncio… Fiquei completamente chocada…