O toque da campainha ecoou pela casa numa noite silenciosa em Lisboa. Gonçalo abriu os olhos de repente, meio zonzo. Ao lado dele, a esposa, Filipa, revirava-se, com o olhar aflito. Ele passou-lhe suavemente a mão pelo ombro:
Amor, descansa. Eu vou ver quem é.
Lentamente, Gonçalo arrastou-se até à porta e sussurrou pelo postigo:
Quem é a estas horas?
Assim que abriu a porta, deparou-se com a tia Laurinda, carregando uma mala enorme, robusta, tão típica das viagens intermináveis entre o Porto e Lisboa. O tio Álvaro, com um olhar resignado, esperava atrás dela.
Meu querido sobrinho! exclamou tia Laurinda, com a voz estridente. Não ficas contente por me ver? Anda cá, dá um abraço à tua tia agarrou Gonçalo com tanta força, que ele mal conseguia respirar.
«Adeus tranquilidade», pensou Gonçalo, carregando as malas pesadas pela estreita entrada do apartamento.
A madrugada foi um verdadeiro pandemónio. Laurinda recusava terminantemente a ideia de dormir no sofá, dizendo que aquilo parecia tábua de ferro. Depois sugeriu descaradamente que o sobrinho a ajudasse a acomodar-se numa cama de jeito.
Filipa olhava para tudo, estupefacta. Mal tinha passado uma hora desde a chegada da tia, e já parecia que a casa inteira tinha passado por um furacão. Às tantas, todos se recolheram: Laurinda e Álvaro haviam ocupado a cama do casal, deixando Gonçalo e Filipa com o sofá estreito.
Quanto tempo achas que vão ficar? sussurrou Filipa, enquanto lhe oferecia café e uma torrada na manhã seguinte.
Não faço ideia Pergunto quando voltar do trabalho.
Filipa ouvia de longe o ressonar tempestuoso do quarto, apertando as mãos, nervosa.
Gonçalo, eu tenho mesmo medo deles Não podes vir mais cedo hoje?
Vou tentar, prometo respondeu ele, antes de sair para mais um dia longo.
Ao regressar, Gonçalo encontrou a mesa posta com muito cuidado, até com um ramo de flores improvisado num copo de vidro. Da cozinha, Laurinda gritou animada:
Entra, meu querido! Hoje é dia de celebrar a família reunida!
Filipa, de canto, dirigia-lhe um sorriso forçado:
Ainda bem que chegaste
Sentaram-se todos e Gonçalo arriscou:
Tia Laurinda, por acaso sabe quanto tempo nos vai brindar com a vossa presença?
Já nos estás a expulsar, é isso? resmungou ela, fitando o marido. Vês? Ninguém nos quer
Tia, não é nada disso Fiquem o tempo que quiserem! Gonçalo tentava disfarçar a apreensão.
Pois olha, vamos ficar para sempre! Vendemos o nosso apartamento em Braga. Só nos reste da família tu. Não vais deitar os teus tios na rua, pois não? Aguentas mais uns aninhos de companhia, não aguentas? Laurinda secou teatralmente uma lágrima dos olhos.
O maxilar de Gonçalo caiu de espanto. Filipa, já sem forças, desatou a chorar e fugiu para a varanda.
O silêncio caiu como um manto pesado sobre a sala, cortado apenas pelo som monótono do talher de Álvaro a remexer a salada.
Então, não dizes nada? irrompeu Laurinda, indignada. Só sabes comer. Podias ao menos dizer uma palavra.
Estou, como sempre, inteiramente de acordo contigo, Laurinda respondeu Álvaro com a voz arrastada.
És uma ameba, homem! vociferou Laurinda. Tudo aqui em casa decido eu, ele só diz que sim. Que grande homem, hã? olhou para Gonçalo. E tu, meu sobrinho, estás contente com aquilo que tens?
Podem ficar cá o tempo que quiserem murmurou Gonçalo, ao mesmo tempo que ouvia o soluçar de Filipa, distante.
Pegou no prato a medo. O som mastigado dos tios parecia ensurdecedor.
No fim da refeição, Laurinda recostou-se, satisfeita:
Estou cheia. Gonçalo, estava só a gozar contigo. Viemos só por uns dias, temos umas consultas no Hospital de Santa Maria. Daqui a três dias vamos embora. Foste impecável, meu querido. Notou-se que te assustaste, mas não perdeste o sentido de família. Um dia, quando já cá não estiver, o meu apartamento será teu. És o único a quem posso deixar. Não temos filhos, sabes bem.
Gonçalo nunca sentira tamanho alívio na vida.
Que a tia viva cem anos, pelo amor de Deus respondeu com um sorriso frouxo.
Durante estes dias, Filipa transformou-se numa sombra: chorava baixinho no quarto sem conseguir satisfazer Laurinda, que criticava a sopa, dizia que os panados estavam rijos, implicava com a lavagem das toalhas e ralhava porque o chão não brilhava como devia.
Quando chegou o dia da partida, Laurinda sussurrou ao ouvido do sobrinho, perante o sorriso sem graça de Filipa:
Como é que arranjaste uma mulher tão chorona? Está grávida, só pode Anda sempre de lágrima ao canto do olho.
Assim que a porta bateu e os tios sumiram pelo corredor, Filipa começou a rodopiar de felicidade:
Talvez nunca mais voltem! disse, com esperança inédita nos olhos.
Não digo nada Acho que a tia Laurinda até gostou de estar cá!
Já não aguento mais! suspirou ela, um riso nervoso entre as lágrimas.
De súbito, o toque longínquo de um despertador quebrou tudo.
Outra vez, não? saltou Gonçalo, mas logo se recompôs. Afinal, é só o despertador sorriu com alívio, já a imaginar um novo dia, livre de dramas familiares.







