A Segunda Sogra
A mulher de bata azul, com logótipo de serviços de limpeza bordado, espreita com cautela para dentro do gabinete do dono da clínica de cirurgia estética Eclipse. Chamava-se Constança, e agora fazia todos os movimentos devagarinho, quase sem ruído, como nos sonhos em que tudo se arrasta em câmara lenta.
Ouvi dizer que há vaga para massagista júnior sussurrou no ar saturado de perfume artificial.
Tomás Brandão levantou os olhos, severos como lápidas num jazigo antigo. Nesse instante sentia-se impaciente como nunca: acabavam de lhe comunicar que os investidores rejeitaram o negócio, e a cabeça tilintava, como uma campainha de igreja ao meio-dia.
E você, de esfregona na mão, acha que pode amassar clientes? resmungou, a voz trespassando o ar como lâmina de peixeiro.
Não, mas fiz cursos online… até escrevi currículo constata Constança, envergonhada, e estende um papel amarrotado que mais parece uma carta de amor de infância.
Nesse instante, entra o braço direito de Tomás, o ponderado Luís Sequeira. O chefe, esfregando as têmporas, explode:
Ó Luís, porque é que as empregadas andam por onde querem? Por favor, tira-me esta senhora daqui. Achou-se massagista só porque segura na esfregona… bota-a porta fora e deixa-lhe bem claro que não volta a meter-se nisto.
Sem sequer esperar resposta, rasga o papel em pedaços e atira-os aos pés de Constança, tal como a chuva miúda atinge a calçada.
Constança, a roer o lábio como quem esconde soluços, agacha-se, vai apanhando os retalhos com o cheiro das mãos. Luís Sequeira pega-lhe no braço sem cerimónias e arrasta-a pelo corredor afora, passando pelos clientes delicados, empedernidos, e acaba por a empurrar para a arrecadação, à beira de um armário de areia contra incêndios tão antigo que parecia existir desde os tempos do Infante Dom Henrique.
Ali, sentada num caixote, Constança começa a chorar como se todo o Atlântico lhe subisse pelos sapatos.
Na Eclipse, trabalhava há pouco. Não sonhava com baldes de água e desinfectante; ali só porque o ordenado era quase o dobro dos outros sítios. E Tomás Brandão era tido como uma referência: diziam dele que subiu sozinho, construiu a clínica com as próprias mãos, teimoso como um velho marinheiro.
E era verdade. Brandão cresceu em orfanato, nunca conheceu pai nem mãe, passou a vida adulta à procura de um rasto qualquer dos progenitores e nunca encontrou. Tornou-se cirurgião, depois mestre nas artes da estética. A ele acorriam atrizes lisboetas e senhoras de Cascais, dispostas a gastar centenas de euros. Todos os anos subia preços, todos os meses aumentava o requinte.
Por isso Constança arriscou: soube da vaga, e decidiu que merecia pelo menos tentar.
Queria ser massagista tinha lido livros, seguido um programa de escola técnica, ensinando a si própria, mas faltava-lhe diploma oficial. Ia juntando dinheiro para estudar a sério, mas o marido sumiu-se um dia, levando tudo. Ficaram ela, a filha Beatriz e a mãe, Maria do Céu, num T1 exíguo, só sobrevivendo com a pensão.
Maria do Céu era um furacão de otimismo: ex-ginasta, campeã, teimosa. Assumia tudo pela neta e permitia que Constança tentasse um dia qualquer futuro diferente.
Depois vieram cursinhos baratos de massagistas, cujo certificado estava agora entre os papéis rasgados no gabinete de Brandão.
Enxugou as lágrimas e foi acabar os corredores: o balde era um penedo no braço. Quando o arrastou para o pátio, o porteiro, Senhor Bernardo único amigo ali tirou-lho das mãos, sorrindo com ternura.
Senhor Bernardo não humilhava ninguém. Dava-lhe broas caseiras ao domingo, fazia-lhe festa no ombro. Graças a ele, Constança acreditou ser capaz de apresentar aquele papel ridículo ao patrão.
Ao rever Bernardo, chorou mais ainda.
Não chores, filha. Isto muda disse-lhe ele, voz entornada de vinho tinto e saudade.
Não devia ter tentado, só piorei as coisas gemeu Constança.
Tomás hoje está com os santos de casa baralhados. Noutro dia, tenta de novo sugeriu ele.
Já me mandaram calar e não voltar a tentar respondeu, seca de esperança. Achei que podia subir como ele, dos degraus da vida… Afinal, só diplomas é que valem.
Bernardo encolheu os ombros e foi embora. Constança pousou o material na arrecadação, saiu pela porta pequena. No caminho para casa, pensou nos euros sempre escassos. Beatriz queria um brinquedo caro e não havia maneira.
Em casa, tudo parecia parado no tempo: Maria do Céu escondia o choro como se tivesse engolido um osso. Se a mãe chorava, era porque a tragédia rondava.
Mãe, o que se passa? perguntou Constança.
Não é nada, filha, não te preocupes murmurou Maria do Céu.
Diz-me, mãe.
A mãe cedeu e chorou.
Fui ao médico, por causa do teatro aquele teatro de bonecos de bairro onde ela ajudava os figurinos. Descobriram uma coisa má. Preciso de operação, senão talvez tenha só mais um ano. Filas de espera, exames em Lisboa, tudo caro, tudo longo. Já foi o meu tempo.
Não digas isso, mãe reagiu Constança. Vamos resolver.
Com o teu ordenado de limpeza e a minha reforma? respondeu Maria do Céu, amarga. Não se faz omeletes sem ovos.
A noite passou sem sono. De manhã, Constança decidiu: ou tentava com Brandão de novo, ou não sobreviveriam.
Mas nesse dia nem a deixaram entrar na clínica. Disseram-lhe que fora despedida, estavam a cortar pessoal. Pagaram-lhe três ordenados mínimos e bye-bye.
Bernardo ainda a obrigou a apontar o seu número. Ela decorou-o sem pensar. E agora, como vou fazer? pensava, olhando as moedas.
Não era mulher de cruzar os braços. Disfarçou o despedimento, disse à mãe que era escolha dela. E procurou anúncios de emprego. Não havia nada digno. No entanto, encontrou algo surreal: Procura-se cuidadora interna, não precisa de formação médica oficial, mas tem que saber cozinhar, limpar, tratar de casa.
Constança respirou fundo soaria menos humilhante que limpar sanitas em clínicas. Mandou currículo. Ligaram em menos de uma hora. Era uma agência. O patrão: uma senhora rica e só.
Pediram-lhe documentação, cédula e cartão do SNS, e logo a seguir sentou-se à frente de Clara, a chefe dos recursos humanos, entrevistadora fria.
Não quero ilusões, aviso já começou Clara. Esta cliente é difícil. Será a décima cuidadora. Nenhuma aguenta muito.
Constança, nervosa, calou-se.
É um nome que já ouviu: Graça Cardoso. Ex-diva da Ópera do Porto, cheia de caprichos, fortuna e excentricidades. Falam que teve muitos admiradores abastados.
Não me importa quem seja disse Constança. Preciso de trabalho.
Se tem filha, preste atenção: Dona Graça detesta crianças. E bichos também. Anda de andarilho, mas gosta de ser empurrada em cadeira de rodas. Período de três meses de experiência. Se vencer, contrato anual e dobro do salário.
Constança acenou sem hesitações. O ordenado já era o dobro do antigo. Era uma luz para salvar a mãe, e não ia desperdiçá-la.
Começava logo na manhã seguinte. Sete da manhã.
À noite, procurou na Internet pistas sobre a futura patroa. Apareceram anúncios antigos: fotos de uma mulher robusta, cabelo pretíssimo, olhos de gavião. Isso não a preparou para o absurdo à espera.
À porta, um segurança. O casarão, florindo no centro da cidade, parecia de outro universo constelação de cromados, tapeçarias e móveis dourados.
Que é que estás a olhar? Vês se levas alguma coisa? guinchou uma voz de papel rasgado.
No salão, surgia uma cadeira de rodas eléctrica de última geração. No assento, uma senhora pequeníssima, cabelos de algodão, olhos de lince.
Bom dia, Dona Graça murmurou Constança.
Fala alto! Não sussurres. Mãos onde eu veja. Calça as proteções de lá, apontava um balde com panos macios. Calçou-os desajeitada, não eram de plástico azul mas de tecido, como toucas de cirurgia.
Seguiu a patroa.
Penteia-me o cabelo, mas devagar, criatura! Não esse pente, ai mulher, que burrice… Guarda essa rede, pega a peruca, vai buscar a escova.
Peço desculpa, não percebi
Sempre incompetentes, mandam sempre lasanhas! Vai buscar-me chá. Já!
Na cozinha:
Não batas com os pés, que parece trovão! Anda, maldita, mexes com os nervos!
A patroa examinou o chá à luz da janela, como se procurasse veneno. De repente atirou o líquido quente à cara de Constança.
Foste tu que me empurraste o braço. Culpa tua.
Constança engoliu o orgulho.
Onde posso lavar-me?
No WC do pessoal, no rés-do-chão disparou Dona Graça, apertando os lábios. E não vais responder?
Para quê? murmurou Constança. Já estava curiosa: quantos truques teria ainda a patroa?
Vai, vai… rosnou ela. E troca de roupa, põe aquilo a lavar.
Fez tudo, voltou. O resto do dia Graça divertiu-se a pregar-lhe rasteiras e humilhações, como se testasse o estofo da empregada. Constança percebeu rápido: era ritual de iniciação, um teste de areia quente nos pés. Fechou-se em si e não reagiu a patroa cansaria cedo ou tarde.
E assim foi: ao cair da noite, Graça estava mansa. Antes de dormir, Constança fez-lhe uma massagem leve nos ombros. Quando a senhora adormeceu, arrumou-lhe a peruca no manequim e despediu-se do porteiro.
De manhã, o porteiro substituto piscou-lhe o olho:
O que é que lhe fizeste? Dorme que nem pedra! A Dulce, a empregada, nunca viu tal coisa.
Não fiz nada demais encolheu os ombros Constança. Talvez só estivesse cansada.
No segundo dia, Graça mostrou-se arrogante, para variar:
Vestes-te sem graça, nunca vais arranjar homem, nem pintada!
Constança assentia, preparando a rotina da patroa. Agora, o ritual da peruca era já dominado.
Graça pediu manicure, quis vestir-se de quimono japonês, foi ao boudoir.
O motivo revelou-se sentido à hora do café: chegava o senhor Mário, um velho amigo da família, afável, esguio como bailarino reformado. Dona Graça apresentou: O Mário, meu companheiro de guerras antigas. Queria impressioná-lo.
Constança fez café numa máquina que parecia nave espacial, tremendo de nervos. Ao pé do amigo, Graça portou-se como uma dama.
Já ao final do dia, lançou a pergunta:
O que é aquilo que me fizeste ontem ao deitar?
Massagem, Dona Graça
Mas és profissional?
Não, só autodidata.
Então repete, vá lá.
E assim acabou o segundo dia.
Os três meses de experiência passaram num fio de espesso sonho. Constança tinha só um dia de folga por semana. Via pouco a filha, mas agora Maria do Céu já quase não trabalhava o peso, no teatro, era duro.
No casarão, tudo tomava tons de pintura a óleo. Constança percebeu que Graça estudava-lhe a alma, testava-lhe a fibra como os professores testam alunos. Um dia, inesperadamente, Graça perguntou:
E quem cuida da tua Beatriz com este horário?
Só a minha mãe e eu respondeu Constança. Não há escolha.
Quantos anos tem a miúda? Gosta de alguma coisa?
Quase seis. Adora desenhar Constança lembrou o alerta: nada de crianças.
Traz cá. Quero conhecer.
E Beatriz começou a frequentar o casarão, papel e lápis nas mãos. Um dia desenhou Graça num retrato tão igual que a patroa mandou emoldurar.
A relação foi aquecendo. Constança deixou de temer perder o emprego.
Graça sofria de doença rara nas articulações as operações não serviam para nada. Nos dias de dor, Constança fazia-lhe longas massagens até a senhora adormecer aliviada. Uma noite, Graça pediu que a filha e neta dormissem lá, e destinou-lhes um quarto.
Constança adormeceu ouvindo Beatriz respirar, sonhando que viviam ali desde sempre. Até o ar do casarão tinha gosto a infância recuperada.
No dia seguinte, Graça estava bem-disposta. Tomaram pequeno-almoço juntas, Beatriz e a nova avó. Depois, Graça mandou Constança arrumar o gabinete e limpar os bibelôs antigos.
Ao remexer numa prateleira, Constança encontrou um albúm amarelo. Curiosa, levou-o para a sala.
Dona Graça, posso ver?
Outros tempos… murmurou Graça. Abre, vá lá, já nem sei o que guardo.
Sentaram-se as três ao redor da mesa oval. As primeiras fotos eram de infância. De repente, Beatriz gritou:
Olha, é a avó! Temos essa foto em casa!
Constança arregalou os olhos: na página, uma jovem Maria do Céu.
Como tem esta foto, Dona Graça?
Graça apertou os olhos, estudou Constança:
Tu és filha da Céuzinha? Agora percebo de onde vem esse olhar…
Conheceu a minha mãe?
Claro! Fomos companheiras na juventude. Eu fugia do Conservatório, ela dos treinos. Sempre de braço dado, até que um treinador, Francisco, entrou no caminho. Brigámos pelo rapaz e nunca mais nos falámos a sério.
Mas… e depois?
Eu fiquei com ele, foi meu marido uns meses mas divorciámo-nos cedo. Apanhei-lhe só o apelido. A tua mãe perdeu o grupo olímpico e seguiu outro destino.
Desde esse momento, Constança só pensava em reunir as duas. Surgiu logo a ocasião.
Graça pediu mais uma noite de companhia. No dia seguinte, Beatriz tinha visita de estudo. Constança pediu à mãe que lhe fosse buscar a neta.
Maria do Céu apareceu nesse palácio, de casaco remendado. Graça preparava-se para dormir, mas foi até ao átrio, onde Constança juntava os lápis e cadernos.
Quem veio aí? Não pedi ninguém agora! indagou Graça.
Olá, Graça respondeu Maria do Céu, fria como vento de inverno. Sinceramente, não é um prazer rever-te.
O sentimento é mútuo rosnou Graça. A vida não te deixou isenta de dificuldades, pelo que vejo.
Nem mais, mas pelo menos tenho filha e neta. E tu? Tens gente que te acode na doença? Nem com os teus mil maridos…
Pois, mas melhor isso do que uma solidão despercebida atirou Graça. Ainda usas o mesmo apelido de solteira.
Maria do Céu sorriu com ternura:
És igual… Nunca deixei de me orgulhar de ti. Lembras-te de há cinco anos, uma chamada anónima a avisar-te sobre aquele golpista da companhia de teatro?
Graça empalideceu.
Foste tu? perguntou, a voz a tremer.
Sim, ouvi o tipo a gabar-se, então liguei-te. Não conseguia odiar-te.
Graça baixou a cabeça:
Salvaste-me. Depois disso, pus detetive atrás dele. Era mesmo patife.
Pronto, agora temos que ir. Beatriz está com sono.
Céuzinha, espera… Como estás a viver?
Num T1, desde que a câmara desmantelou a velha pensão. Não é este palácio, mas chega-nos.
Acabou! anunciou Graça, batendo com a mão na mesa. Amanhã mudam-se. Sobra espaço. Quero fazer um quarto digno para a Beatriz. Já nem quero ouvir discussão.
Maria do Céu caiu sentada num banco.
Oito meses, mais coisa menos coisa…
Quê? Graça ficou pálida. Cancro?
Não… O coração. A operação custa mais do que temos. Saúde não se compra. Nem com sorte.
Assim fica. Mudam-se e depois conversamos. E nem protestes. Fico-te a dever, minha velha amiga.
E ainda te lembras do Francisco do 6.º ano…? riram-se ambas.
Hoje vão para casa. Amanhã trato de tudo. O meu motorista leva-as. E depois vai buscar as vossas tralhas com a Constança.
Nessa noite, Graça chamou Constança após o ritual do creme e das compressas. Queria saber tudo sobre a doença da mãe, sobre a infância, sobre os amores falhados e as novelas da TV. As mágoas antigas derreteram-se. O velho palácio, agora, era casa cheia.
Uma semana de mudanças loucas: papéis de parede, amostras de móveis, electricistas e carpinteiros. À noite, chá e fados à volta da mesa oval.
Chegado o fim da reforma, Graça fez um anúncio durante o jantar:
Maria, já falei com o cirurgião. Em duas semanas fazes a operação. O médico é novo, porreiro, filho do professor Cardoso. Comporta-te, não te aproveites!
Arranjaste vaga no hospital? Como?
Paguei tudo do meu bolso. Não há filas, não há Estado. Só aceitas. A Beatriz precisa da avó em forma, já que esta avó aqui está de rastos.
Obrigada, Graça Maria quase se desfazia em lágrimas. Não devias…
Para que hei-de querer dinheiro? Não vai comigo para o cemitério disse Graça. É para cuidar das minhas meninas. Tu operas, Constança cuida, e eu vejo da casa e da Beatriz. Fim.
Duas semanas depois, Maria ficou internada no melhor hospital do Porto. O cirurgião era o jovem promissor Valentim Silveira, que largara Lisboa pelo Norte: tinha fama de humano e competente. Reparou na dedicação de Constança e comentou:
Raros são os laços familiares assim. Sua mãe é uma sortuda. Aposto que um marido ainda seria mais sortudo.
Não tenho, só a minha filha corou Constança.
Não duvido que é extraordinária sorriu o médico. Casei cedo, por pressão dos meus pais. Ela queria luxo, não aguentou a vida dura. Paciência. Talvez ainda encontre quem queira só o que sou.
Vai ver, vai respondeu Constança. Ou talvez… já encontrou.
Valentim desviou o olhar, tímido. Constança sentia crescer dentro de si uma ternura nova pelo médico.
A reabilitação de Maria demorou pouco. Graça, entrevada, tentava manter tudo como sempre para não preocupar. Beatriz chamava-lhe avó, já era parte da família.
Noites inteiras Constança massajava Graça, que sofria mais a cada dia. As forças fugiam-lhe, os músculos endureciam. Um dia, antes de dormir, Graça rompeu:
Está na hora de deixares de ser minha cuidadora.
Quer trocar de empregada? assustou-se Constança.
Parva, para quê? Já tenho casa cheia. Quero que estude a sério. Faço questão de pagar-lhe bom curso e diploma credenciado. Mereço ter massagista particular!
Constança aceitou. Graça sustentava a casa, mas Constança prometeu pagar-lhe tudo de volta.
Os cursos, dados pelo respeitado mestre Samuel Azevedo, abriram-lhe um mundo. O próprio Samuel disse-lhe ao terminar:
Conhece o spa Vanilla?
Toda a gente sonha trabalhar lá…
Eu sou o dono. Preciso de alguém para pós-operatório e reabilitação. Aceita o convite?
Constança só conseguiu assentir, quase a chorar de alegria.
A partir daí, o treino endureceu ainda mais. Samuel pagou o resto da formação, chamando-lhe bolsa. Brevemente, Constança já trabalhava no Vanilla. O horário permitia tempo para a mãe, Graça e Beatriz.
Logo era a massagista mais procurada. Ao mesmo tempo, a amizade com Valentim adensava-se; passavam fins de semana juntos, iam a circos e museus com Beatriz, passeavam pelos jardins do Palácio de Cristal.
Maria voltou ao trabalho, mas Graça sucumbia aos poucos, passando os dias na cama, dorida. Massagens só aliviavam por momentos.
Valentim começou a encaminhar-lhe pacientes para reabilitação. Muitas eram pessoas frágeis, precisavam mãos ternas. Constança estudou tudo sobre reabilitação cardíaca. O diálogo com Valentim, cada dia, era mais íntimo.
Ele visitava agora a casa-palácio no Porto como um verdadeiro filho. E Graça, com a franqueza dos velhos, declarou:
Oiça bem, doutor: trate bem das minhas meninas. Que nunca fiquem tristes, nem sozinhas nesta casa de sonhos que afinal sempre foi só uma família adiada.






