A Rapariga com Uma Fotografia
Vi-a logo no primeiro dia.
Estava sentada na última cama, ao lado da parede, de olhos postos em algo que segurava nas mãos. Não se mexia. Não dava atenção ao barulho das vozes lá atrás e ali havia sempre confusão: alguém discutia junto à distribuição de mantas, alguém tossia num canto, o rádio antigo da janela debitava previsões do tempo em tom abafado. Entre trinta camas naquele salão, ela parecia ausente, como se o seu corpo já fizesse parte da mobília.
Coloquei a caixa com livros no chão e aproximei-me da Rita.
Quem é? perguntei.
A Rita nem levantou o olhar. Distribuía os lençóis pela carruagem, contando-os com os lábios. Tinha trinta e oito anos, era coordenadora do abrigo, cansada de tudo antes mesmo do almoço.
É a Filipa. Chegou há quatro meses. Nunca nos dirigiu uma palavra. Não fala com ninguém.
Mesmo com ninguém?
Com ninguém. Come, dorme, lava-se. E fica ali, desse jeito. Com aquela coisa nas mãos. Pensei que era um santinho. Nada disso. É uma fotografia.
Sem documentos?
Nada. Nem cartão de cidadão, nem número de utente, nem pensão. Tentámos ajudar a recuperar, recusou. Nem uma palavra só abanou a cabeça e virou costas.
Olhei para a Filipa. Segurava algo pequeno, do tamanho da palma da mão. Os cantos gastos e dobrados, manchas antigas e acastanhadas. Olhava para aquilo como se lançasse o olhar para fora de um comboio, já noite fechada, vendo apenas o próprio reflexo no vidro escuro.
Tenho vinte e seis anos. Faço a licenciatura em Serviço Social, quando consigo, depois do trabalho. Três vezes por semana venho ao Porto Seguro, abrigo para pessoas em situação de sem-abrigo, no terceiro andar de um velho prédio em Chelas. Cheira a lixívia e papas de aveia. As janelas dão para o parque de estacionamento de um supermercado. À noite, o letreiro amarelo inunda tudo de claridade e as mulheres que dormem às camas do lado queixam-se que não conseguem dormir. Ali não há morada, não há registos. Quando se pergunta onde vive?, a resposta é o silêncio.
Não venho para aqui por causa dos créditos da faculdade. Venho porque a minha avó, nos seus últimos três anos, ficou sozinha num T1 em Setúbal. Ligava-lhe ao domingo. Dez, quinze minutos. Achei que bastava. Pensei que ela dava conta. Quando fui ao funeral, a vizinha, dona Graça, segurou-me a mão: Ela ia todos os dias até às escadas. Ficava a olhar para a porta. À espera que alguém viesse. Eu ia quando podia. Mas não sou tu.
Nunca mais quero chegar atrasada. A ninguém.
Espalhei os livros pela mesa da sala comum. Policiais, romances, um ou outro livro de poesia. Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos, Lídia Jorge aquilo que se lê realmente, não apenas se acumula. Separei um título: A Voz Além da Porta, de Sérgio Matos. Vinha numa caixa com a etiqueta, 2,50 rabiscado no verso. Nem olhei para o autor. Tirei-o da pilha e coloquei junto aos policiais.
A Filipa não se aproximou. Ninguém das camas dos lados se chegou aqui os livros só se levam quando acham que ninguém está a ver. Ao final do dia tinham desaparecido três. A Voz Além da Porta continuava ali.
E, no dia seguinte, ali ficou.
***
Uma semana depois, levei chá.
Não para a cantina, não para a distribuição, onde os copos de plástico brancos e saquetas de açúcar alinham-se nos tabuleiros. Deitei chá em dois copos do termo que trouxe de casa com hortelã, como a minha avó fazia e fui sentar-me ao lado da Filipa. Pousei um copo na mesa-de-cabeceira à sua frente.
Ela não me olhou.
Fiquei em silêncio. Bebi do meu chá. Cheirava a verão. Dez minutos. Depois levantei-me e fui embora. O copo permaneceu intacto.
No dia seguinte, tudo igual. Dois copos, silêncio, cheiro a hortelã. No terceiro dia, a Filipa pegou no copo. Não agradeceu, não anuiu. Pegou e bebeu lentamente, as duas mãos envolvendo o copo, como quem precisa mais do calor das mãos do que do chá.
Reparei nos seus dedos longos, juntas bem marcadas. Unhas curtas, recortadas com precisão, limpas. Cortava-as ali, com cuidado, num salão onde ninguém quer saber do que não seja o pequeno-almoço do dia seguinte.
A Rita já me tinha avisado não esperes. Há pessoas que não voltam. Desaparecem dentro delas próprias e nunca regressam. Já vi dezenas assim, disse, ajeitando o lenço na cabeça. Meio ano e lá vão os papéis para Segurança Social; seguem para institucionalização. Depois, não é nossa função.
Mas reparei em coisas que a Rita não via ou, se via, não achava importantes.
A Filipa fazia a cama todas as manhãs. Dobrava os cantos, esticava o cobertor até nem um vinco ficar. O seu casaco cinzento-escuro, tecido pesado, bolso cuidadosamente remendado pendurava religiosamente na cadeira com o mesmo gesto. Os pontos do remendo: rectos, milimétricos. Aquilo é feito por quem sempre organizou, controlou, manteve coisas no sítio. Quem manteve registos, corrigiu cadernos, fez horários.
Não era alguém que desistiu.
No décimo dia, levei-lhe um livro. O tal A Voz Além da Porta. Deixei-o junto ao chá.
É bom, li-o aos quinze anos disse.
A Filipa pousou o olhar na capa. E, pela primeira vez, o rosto mudou. Não foi sorriso nem a sombra disso. Mas o músculo ao canto da boca tremeu e os dedos tocaram a lombada, seguros.
Levou o livro.
Ao sair, olhei para trás: a Filipa estava deitada, a ler. A fotografia repousava na almofada, junto ao rosto. Como quem precisa, ao mesmo tempo, do passado junto à cabeça e de uma história entre mãos.
Ao sair, senti-me mais quente por dentro do que ali dentro.
Passaram duas semanas.
Continuei a levar chá. Sentava-me ao lado, falava do tempo, dos livros que tinham chegado, dos croissants de cereja no café em frente. Coisas pequenas, seguras. Nada de íntimo, nada de doloroso. A Filipa escutava. Por vezes, acenava. Um dia virou ligeiramente a cara quando contei do gato que rondava o átrio, a aparecer à porta dos fundos à espera de ração.
E, depois, falou.
Foi numa terça-feira, catorze de março. Lá fora, chuva miúda misturada com o frio dos restos de inverno. O rádio noticiava trânsito na Ponte 25 de Abril. A Filipa terminou o chá, pousou o copo, disse:
Queres saber o que está na fotografia.
Não era pergunta. Era certeza. A voz, grave, bem articulada cada palavra completa, cada consoante distinta. Voz de quem esteve vinte anos frente a uma sala de aula e sabe que, se não se ouvir até ao fundo, ninguém aprende.
Só se quiser mostrar respondi.
Ela ficou calada. Cinco segundos, pareceram mais. Depois, tirou a fotografia do bolso do casaco do bolso remendado. Com todo o cuidado, dois dedos, como quem pega num copo de cristal. Estendeu-ma.
Amassada, manchas de água antiga, bordos dobrados. Na foto, uma mulher junto a um quadro de escola, rodeada de miúdos. Blusa clara, cabelo apanhado, mãos sobre os ombros de dois meninos da primeira fila. Sorria sorriso largo, de quem não sabe que vão tirar foto, ou sabe e não se importa, porque está feliz. E as crianças também. Uns quinze, turma do sexto ano. Um rapaz de ténis desapertado, uma miúda com laço branco na trança.
Sou eu disse a Filipa. Vinte e dois anos atrás.
Olhei para ela. E para a foto. Na foto, uma mulher talvez com quarenta. Segura, luminosa. Costas direitas, mãos de quem está habituada ao giz. À minha frente, Filipa, acima dos sessenta, casaco escuro, ombros estreitos. Mas o olhar o mesmo: direito, atento, de quem vê não apenas olha.
Dei aulas de Português e Literatura durante vinte anos. Escola 47, Barreiro.
Português?
Sim. Desde 1986 até 2020. Trinta e quatro anos. Depois fecharam a escola reestruturação, disseram. Falou com serenidade, palavra de diagnóstico, sem mágoa. Um ano depois, o António morreu. Meu marido. AVC. A casa ficou apertada para pagar. Ficámos sem ela.
Falava de factos, não de emoções. Como médico que lê um historial: sem intervalos, porque se parar perde-se.
Vivi na casa de amigas. Um ano. Colegas da escola, antigas da faculdade. Depois, tornou-se constrangedor. Para elas, para mim. E vim-me embora.
E a fotografia?
Filipa pegou nela. Alisou cada canto devagar.
Para me lembrar de quem fui. Para nunca esquecer: é possível regressar.
A garganta ficou-me seca. Não foi pena. Foi outra coisa. Sobretudo porque disse, não com esperança, mas com certeza. Como quem fala de um teorema.
Filipa Moreira disse eu. E os miúdos da fotografia? Quem são?
Meus alunos. Sexto B, dois mil e quatro. Uns emigraram. Outros mudaram. Um rapaz escreve livros agora. Ouvi-o na rádio. Já não recordo o apelido. Mas reconheci a voz.
A voz?
Em criança, tinha uma voz baixinha. Mas, a ler poesia em voz alta, a turma parava para ouvir. Até o Luís, que só fazia disparates, ficava calado. Na rádio, igual. Ia no autocarro, ouvi e agarrei-me ao varão.
Guardou a fotografia no bolso remendado, certificando-se com o dedo que estava ali, intacta.
Era um miúdo fechado. O pai saiu cedo, a mãe trabalhava a dobrar. Ficava depois das aulas na sala. Dizia que ia estudar História. Na verdade, não queria ir para uma casa vazia. Eu deixava-lhe uma maçã na mesa e conversávamos. Sobre livros, personagens, se o Raskólnikov devia ou não ir ter com a Sónia. Perguntava sempre: Professora, e se o herói não voltar? O que acontece? Eu dizia: O verdadeiro herói volta sempre. Mesmo que demore.
Caiu no silêncio. Olhava para a parede, não para mim, nem para o salão como se visse um outro tempo, uma sala de aula que já não existia.
Fiquei em silêncio também. Às vezes, é tudo o que há a fazer.
***
À noite, sentei-me no café da esquina. Pequeno, cinco mesas, cheiro a grãos e canela. Portátil aberto, latte frio ao lado. Decidi procurar.
Escola 47, Barreiro. Alunos conhecidos.
Sem pistas. Escola encerrada, passara a outro serviço. Site apagado, Facebook em branco há anos. Mas no arquivo online encontrei uma secção: Os Nossos Ex-Alunos. Três nomes, um doutorado, um gestor, e Sérgio Matos, escritor.
Procurei: Sérgio Matos escritor.
Gelou-me o corpo.
Sérgio Matos, trinta e quatro anos. Três romances. Prémio Literário Nacional. Primeiro livro: A Voz Além da Porta, 2015.
A Voz Além da Porta.
O livro que deixei na mesa da Filipa.
O mesmo que li aos quinze, nas férias de verão na casa da avó, em Setúbal. Chovia, ela fazia um chá de maçã; lia deitada com a almofada bordada debaixo da cabeça. Pensei: quero isto. Quero ouvir as pessoas. Quero estar lá quando importa. Não depois, não por telefone, não só aos domingos.
Por culpa deste livro escolhi Serviço Social. Não pelas cadeiras, nem pelos manuais. Pelas páginas sobre o miúdo e a professora que lhe deixava maçãs.
Abri uma entrevista do Sérgio ao Expresso, dois anos antes. Falava da escola, do Barreiro, do cheiro do giz e das cadeiras a arrastar no fim do dia. E dela.
A minha professora de Português, Filipa Moreira. Foi a única que viu em mim qualquer coisa quando nem eu vi. Escrevi a minha primeira obra a pensar nela. No que ela fazia, esperando e ouvindo. Não por obrigação, mas porque lhe importava.
Desci a página. Abri o livro online, edição comemorativa, disponível na editora. Primeira página, e o que não reparei aos quinze:
F.M. à professora que soube escutar-me.
F.M. Filipa Moreira.
Fiquei a olhar para o ecrã. O latte arrefeceu completamente. O café fechava em meia hora.
A mulher que fez o Sérgio ser escritor. Que inspirou o livro que me trouxe até este abrigo. Dorme hoje numa cama encostada à parede, sem cartão, sem reforma, com nada senão uma fotografia amarrotada num bolso remendado.
Procurei o contacto da editora. Encontrei o e-mail de propostas.
Comecei a escrever.
Boa tarde. Chamo-me Leonor. Sou voluntária num abrigo em Lisboa. Escrevo ao Sérgio Matos. Sei a quem dedicou A Voz Além da Porta. A Filipa Moreira está viva. Ela tem a fotografia da vossa turma, do sexto B, de 2004. E lembra-se do rapaz que ficava a ler poemas depois das aulas.
Anexei a foto, tirada discretamente quando ma mostrou. Desfocada, brilho do candeeiro, mas os rostos viam-se.
Enviei.
Fechei o portátil, pedi a conta, e saí para o vento da noite de Março a cheirar a asfalto molhado. Só na paragem, à procura do passe no casaco, reparei que me tremiam as mãos.
Passaram três dias, sem resposta.
Verificava o e-mail de duas em duas horas. Nada. Se calhar era spam. Talvez nem lhe chegasse. Ou não acreditava.
Continuei a visitar o abrigo. Chá com a Filipa. Agora falava mais só da escola. História de alunos: Uma rapariga escrevia poemas e escondia-os na gaveta. Eu punha um rebuçado junto ao caderno, para saber que li e gostei. Um ano depois, declamou num sarau, a tremer, mas não gaguejou. Ou: Um rapaz andava sempre à porrada. Mãos vermelhas, ninguém queria saber. Dei-lhe O Principezinho. Passou. Não logo. Um mês depois. Disse-me: Professora, o Principezinho também estava sozinho, não estava?
Falava deles como se ainda estivessem ali. Como se fosse ontem.
O quarto dia, chegou finalmente resposta.
Estava no autocarro; o telefone vibrava no bolso. E-mail pessoal: Leonor. Recebi a sua mensagem. Estou a caminho. Diga quando posso ir. Procurei a Filipa Moreira há quatro anos. Disseram-me que a escola fechou. O telefone já não dava. O endereço era de outras pessoas. Não consegui. Obrigado por me ter achado.
Quatro anos. Procurou-a sem sucesso. Quando ela já andava de sofá em sofá, e depois, a lado nenhum.
Respondi com data e endereço do abrigo.
Faltava o mais difícil dizer à Filipa.
***
Fui manhã cedo, sexta-feira. Filipa sentada, fotografia nas mãos, casaco na cadeira. Pela janela entrava o primeiro sol. Passarinhos lá fora, rádio a tocar fadista antiga.
Sentei-me ao lado, chá na mesa.
Filipa, tenho algo a dizer-lhe.
Esperou.
Encontrei o seu aluno. O que escreveu livros. Sérgio Matos. Ele quer vir vê-la.
Ficou imóvel. O copo intocado nos lábios. O salão calou-se, até o rádio parou.
Não.
Espere, Filipa
Não quero. Não quero que me veja aqui. Assim. Não.
Baixou a cabeça. Pela primeira vez em semanas, vi-lhe as mãos trémulas. Os dedos brancos, o copo quase caiu.
Tinha vinte e seis anos. Não sabia o que dizer. Diante de quem passou a vida a encontrar as palavras certas, faltaram-me todas. Tudo o que dizia não chegava para aquele momento.
Lembrei-me das palavras dela.
Disse-me: Para me lembrar, tenho de acreditar que se pode regressar.
Ergueu a cabeça.
Foi o que disse repeti. Não eu. Você. Todos os dias olha aquela fotografia porque acredita que é possível regressar. E ele vem. Ele lembra-se de si, Filipa. Procurou-a quatro anos. O número já não era o seu, a morada também não. E não desistiu.
Olhou para mim. E algo mudou-lhe no olhar, de fundo, como um ponto remendado a abrir, depois de muito tempo apertado.
Quatro anos? murmurou.
Quatro.
O olhar pousou na fotografia. O dedo no rosto magro do rapaz da segunda fila cabelo escuro, baixo.
É ele sussurrou. Sérginho. Sentava-se junto à janela, olhava sempre para fora. Mas, quando o chamava, lia como se ficasse sem ar.
Dobrou a fotografia, guardou-a.
Está bem.
O Sérgio chegou ao sábado.
Fiquei à porta à espera. Saiu do táxi, alto, casaco escuro, pele marcada pelo sol de quem trabalha no alpendre ou no jardim. Trazia um saco. Dentro, algo quadrado.
Leonor? perguntou.
Sim.
Obrigado. Vi-lhe o esforço para falar. Não era nervosismo. Era algo mais pesado.
Levei-o até à sala. Filipa estava de pé, junto à cama, como na fotografia. Costas direitas, mão no bolso remendado.
O Sérgio parou a três passos.
Filipa?
Acenou com a cabeça.
Ele aproximou-se.
É mesmo a senhora. Reconheci pela voz quando disse está bem. Dizia sempre assim quando eu, finalmente, percebia o que explicava. Está bem. E sorria só de um lado.
Filipa ficou a olhar, e o queixo tremeu-lhe uma vez.
Cresceste, Sérgio.
Cresci assentiu. E escrevi um livro. Sobre si. A Voz Além da Porta é sobre si. Foi a única a ouvir-me, quando eu preferia calar.
Tirou o livro do saco edição especial, capa dura. Abriu na primeira página.
F.M. à professora que soube escutar-me.
É seu disse. Sempre foi.
Filipa apertou o livro contra o peito. Fechou os olhos.
Afastei-me, deixei-os juntos. Era o momento deles, não o meu.
Sentaram-se a conversar. Uma hora, talvez mais. Não percebia as palavras pela distância e pelo rumor do rádio, mas vi a Filipa rir. Riu como só quem já nem se lembra como é. O Sérgio também. Depois, calaram-se, e ele pôs a mão sobre o bolso remendado.
Chamou-me:
Leonor, venha cá.
Cheguei perto.
Filipa diz que trouxe o meu livro sem saber que era meu.
Sim. Calhou vir na caixa. Só isso.
E leu aos quinze.
Sim.
Olhou-me nos olhos. Era um olhar impossível de definir. Não surpresa. Não alegria. Outra coisa, maior.
Sabe o que está a acontecer, não sabe?
Sabia. Filipa ensinou-o. Ele escreveu o livro. O livro chegou a mim. Vim para o abrigo. Encontrei-a.
Fechou-se o círculo.
Sei murmurei.
Levantou-se.
Filipa, não pode ficar aqui. Quero ajudar. Com papéis, casa, trabalho se quiser.
Não quero caridade contestou. A voz rígida, professora.
Não é caridade. É dívida. Deu-me a vida, deu-me as palavras, deixava-me maçãs, ficava comigo no vazio dos dias. Tenho casa, prémio, três livros. E a Filipa aqui. Isso está errado. Quero corrigir.
Ela calou-se, sem desviar o olhar.
Não em um dia, nem numa semana. O tempo que precisar. Papéis, quarto, tempo. Não desapareço. Já o fiz uma vez, perdi-lhe o rasto. Não desapareço mais.
Olhou-o. Era o mesmo olhar da fotografia, directo, de quem avalia a verdade.
Está bem disse, sorrindo por um só canto da boca.
***
Passou um mês.
Subi ao segundo andar do prédio de tijolo em Chelas. Mesma zona, dez minutos do abrigo. Quarto num apartamento partilhado, corredor com bicicleta encostada e cheiro a cebola frita da cozinha vizinha. A Filipa ocupava o quarto do fundo, janela sobre o pátio das traseiras.
Porta aberta.
Quarto pequeno: cama, cadeira, uma mesa de cabeceira e estante. Limpo. Sobre a janela, três livros empilhados. No cabide, o velho casaco cinzento, o bolso remendado, vazio.
A fotografia agora estava numa moldura de madeira na mesa de cabeceira, à vista. Deixou de ser algo escondido no bolso Filipa passou-lhe o ferro, esticou sob o vidro. Parecia outra. Deixara de ser fragmento de passado; passou a ser pedaço de presente. Algo para mostrar, não para esconder.
Estava sentada a ler. Levantou os olhos.
Chá? perguntou.
Quero, sim respondi.
Levantou-se, foi até à cozinha. Ouvi-lhe a voz no corredor, falando para a dona Adelaide, vizinha. Bom dia, Adelaide. O fogão está livre? Voz grave, bem articulada. Mas leve. Muito mais leve.
Olhei a fotografia. Mulher ao quadro, crianças à volta. O rapaz magro da segunda fila, que foi escritor. A professora que foi sem-abrigo. E deixou de o ser.
Sérgio cumpriu. Advogado tratou dos papéis em três semanas: cartão, NIF, número de utente. O quarto, arranjado por Rita tinha conhecidos na Junta. O Sérgio pagou meio ano. E a Filipa já candidatou-se ao lugar de auxiliar de biblioteca, na Biblioteca Municipal do Vale de Chelas a Rita ajudou na papelada e referência.
Voltou da cozinha com dois copos de chá, cheios de hortelã. Como antes, no abrigo mas agora ao contrário. Antes, eu levava chá, punha-lhe na frente. Desta vez, ela pô-lo à minha frente.
Obrigada disse eu.
Pelo chá?
Pela frase. Sobre ser possível regressar.
Sentou-se. Trazia uma blusa clara, gola pequenina parecida à da fotografia.
Sabes, voltar não é ir para onde estiveste. Não é a escola, nem o Barreiro, nem 2004. Voltar é regressar a quem és no fundo. Achei que a fotografia era só passado. Mas era futuro. Sobre o que ficou inteiro cá dentro, mesmo quando tudo lá fora desmoronou.
Olhou a fotografia, depois para mim. Entendi: agora olha-me, não para a fotografia. Está de volta.
Acabei o chá, levantei-me.
Venho quinta disse.
Vem respondeu, sorrindo. Eu estou cá.
Duas palavras: Estou cá. Para quem, há meio ano, não tinha morada, isso significa o mundo.
Saí para a rua. Abril, o ar cheirava a terra molhada e verde, já com folhas novas nos arbustos do pátio. Caminhei a pensar: aos quinze anos li um livro e decidi querer estar quando faz falta.
E estou aqui. Perto.
A fotografia está na mesa. Não no bolso. Nem nas mãos. Na moldura, à vista. E a mulher na foto sorri aberta, feliz, como alguém que está bem.
Tal como Filipa, há minutos, ao servir-me chá.
É possível regressar. Ela provou.







