Foi há muitos anos, numa Lisboa que ainda guardava a calma dos bairros antigos, que esta história se desenrolou. Recordo bem a forma como tudo começou com uma esplanada de fumo montada mesmo à porta do meu apartamento, graças à filha da minha vizinha Rita.
Mas onde é que está escrito que o ar é só teu? A escada é de todos, fumo se me apetecer e cuspo se quiser. Vai estudar as leis, mulher!
Carolina, a filha de vinte anos de Rita, soprou uma nuvem densa de vapor aromatizado mesmo na cara da Dona Mafalda. Ao redor, dois rapazes estendiam-se no parapeito das escadas entre o segundo e o terceiro andar, rindo desavergonhadamente. Pelo chão de mosaico esparramavam-se beatas, cascas de tremoços, e latas vazias de Sumol.
Mafalda, contabilista sénior da fábrica da Baixa, não tossiu nem levantou a voz, tal como certamente esperavam os jovens. Limitou-se a ajeitar os óculos e a olhar para Carolina com aquele ar frio e avaliatório que fazia temer até o gerente da firma quando se aproximava a altura das contas.
Sendo este espaço comum, Carolina, disse ela com uma voz de gelo não se fuma, não se cospe e não se monta aqui um chiqueiro. Tens cinco minutos para limpar isto tudo. Caso contrário, conversaremos de outra forma.
Ui, que medo! troçou Carolina, deixando cair propositadamente cinzas sobre o chão imaculado, lavado pela senhora das limpezas naquela mesma manhã. Vai mas é tomar um comprimido para a tensão, senão ainda te dá um fanico. Vais queixar-te à minha mãe? Foi ela que me disse para ficar aqui, para não fumar em casa!
Os rapazes gargalharam. Mafalda fechou a porta do seu apartamento, abafando o barulho que vinha da escada.
O corredor cheirava a batatas fritas e madeira antiga, um aroma reconfortante a casa portuguesa agora vencido pelo odor do tabaco barato a entranhar-se pela fechadura. Na cozinha, Agostinho estava sentado encurvado sobre a mesa.
Agostinho, com trinta e dois anos mas ar de quarentão devido à calvície precoce e costas dobradas, era sobrinho do falecido marido de Mafalda, vivia com ela havia já uma década. Homem calado, nervoso e de fala presa, trabalhava numa loja de conserto de relógios e evitava até a própria sombra. Para os vizinhos era apenas o coitadinho, uma distração fácil para as piadas fáceis.
D-dona Mafalda, eles estão lá fora outra vez? perguntou num sussurro, encolhendo-se ao escutar mais risos pela porta.
Come, Agostinho. Não te preocupes com isso, respondeu Mafalda, enchendo-lhe o prato de batatas. No íntimo, contudo, fervia de indignação.
Nessa noite, foi à porta de Rita. A vizinha abriu com a cara embrulhada numa toalha, máscara de beleza a secar e o telemóvel colado à orelha.
Rita, a tua filha arranjou uma fumarada à minha porta. O cheiro entra todo em casa, o barulho dura até tarde. Exijo que faças alguma coisa.
Rita revirou os olhos, sem sequer desligar o telemóvel:
Ó Mafalda, já começas? São jovens! Onde querias que estivessem? Está um frio de rachar lá fora. Não são marginais, estão só a conversar. Olha que não tens filhos, por isso também não percebes. E o teu Agostinho é um desgraçado, para ele tanto faz…
O golpe foi do mais baixo e certeiro. Mafalda expirou lentamente.
Então é coisa de jovens? E o meu Agostinho incomoda-te? Fica registado, Rita. Fica registado.
Regressou a casa, sentou-se à secretária e puxou da pasta dos papéis. Emoções não movem o mundo para isso, em Portugal, serve o Código Civil e o Regulamento do Condomínio.
Durante a semana seguinte, Mafalda parecia ter-se resignado. Carolina, convencida de que a velha resmungona desistira, apoderou-se da escada. Trouxe um velho cadeirão da rua e a música ecoava noite dentro.
A reviravolta aconteceu numa sexta-feira.
Agostinho vinha do trabalho, com um saco com compras e uma pequena caixa de relógio para entregar a um cliente. Ao passar por Carolina e companhia, um dos rapazes, chamado Mangas, estendeu o pé.
Agostinho tropeçou, o saco rasgou-se, maçãs a rebolar pelo chão imundo entre cinzas. A caixa do relógio bateu contra a parede.
Olha o avestruz a voar! riu-se Mangas.
Carolina soltou o fumo devagar:
Ó desgraçado, olha por onde andas. Cuidas do ar como se fosse só teu. Apanha isso, antes que me apeteça atirar fora.
Agostinho, roxo de humilhação, começou a recolher as maçãs com mãos trémulas. Lágrimas de impotência nos olhos já se habituara àquele desprezo, à indiferença.
A porta abriu-se de rompante. Mafalda surgiu no limiar. Não empunhava um rolo de cozinha nem uma vassoura, mas sim o telemóvel, a câmara apontada a Mangas.
Pequeno vandalismo, insultos e danos, declarou. Tenho tudo registado. Chamo já a polícia e levo isto amanhã ao condomínio.
Tire daí essa m****, tia! gritou o rapaz, sem coragem de avançar o olhar de Mafalda gelava o sangue.
Agostinho, entra, ordenou, sem se distrair com a raiva dele.
M-mas as maçãs balbuciou.
Deixa. São lixo. Como tudo que se encontra aqui neste momento.
Quando ele entrou, Mafalda voltou-se para Carolina.
Agora escuta, menina. Pensaste que tolerei durante uma semana? Estive a juntar provas.
Que provas? bufou Carolina, já sem tanta firmeza na voz.
Contactei o proprietário a tua mãe não é dona, pois não? O apartamento é do teu pai, que vive no Porto, convencido de que tem uma filha dedicada a estudar medicina, não uma rapariga a fazer festas no prédio.
O rosto de Carolina ficou lívido. O pai era conhecido pela rigidez sustentava a família mediante bom comportamento da filha.
Tu não vais murmurou.
Já fui. Recebeu há dez minutos as imagens e o relatório do condomínio e da esquadra. Tem todas as datas, lixo, barulho, fumo. A polícia passa cá dentro de meia hora. O teu pai chega amanhã de manhã.
No sábado cedo, o prédio estremecia com a voz grave de um homem.
Mafalda tomava chá quando bateram à porta. Lá estava um homem alto, imponente, de sobretudo caro João Manuel, pai de Carolina. Ao lado, Rita chorava em silêncio. De Carolina, nem sinal.
Dona Mafalda? disse com polidez firme. Venho pedir desculpa pelo que se passou. A limpeza já foi feita, as paredes vão ser pintadas a meu custo. Carolina vai para um quarto em residência. O dinheiro acabou-se-lhes.
Mafalda assentiu, como se fosse natural.
Muito bem. Mas há outra questão.
Chamou Agostinho. Ele saiu de mansinho, cabeça baixa, à espera de ser novamente alvo de troça.
Ontem, um dos seus convidados insultou e estragou o trabalho do meu sobrinho, afirmou Mafalda serenamente. O Agostinho é mestre relojoeiro, restaura peças que ninguém consegue arranjar, nem mesmo na Suíça.
João Manuel olhou intrigado para Agostinho.
Relojoeiro?
R-restaurador corrigiu Agostinho, tímido.
É mesmo? E, num gesto inesperado, João Manuel avançou e estendeu-lhe a mão. Tenho uma coleção de Breguet de bolso. Uma peça está parada faz um ano, já passou por três oficinas. Queres tentar?
Agostinho ergueu os olhos. Sentiu-se olhado com respeito não como mais um coitadinho, mas como profissional.
P-posso ver Se o fuso estiver intacto.
Combinado, João Manuel apertou-lhe a mão. Peço desculpa, amigo. Falhei na educação da minha filha. Conto contigo para me restaurares o relógio, e dou-te a devida compensação.
Quando a porta se fechou, Agostinho contemplou a própria mão. Endireitou as costas. Pela primeira vez em muitos anos, os seus ombros não estavam caídos.
Tia Mafalda, disse quase sem gaguejar, acho que ainda vou recolher aquelas maçãs. É pecado desperdiçar comida.
Mafalda virou-se para a janela, para que ele não reparasse nas lágrimas nos seus olhos.
Vai, Agostinho. E põe água ao lume. Hoje é dia de festa.
Na escada reinava o silêncio e brilhava a limpeza, cheirava a lixívia e a tinta fresca. Da casa de Mafalda saíam aromas de bolo caseiro e a voz tranquila de Agostinho, que explicava à tia os segredos de um turbilhão relojoeiro.
A esplanada de fumo fora encerrada. Para sempre.







