A Minha Mãe Quis Cobrar-me Pelos Legumes Que Cultivou na Sua Horta — O Ano em que a Minha Mãe Reform…

No ano passado, a minha mãe fez algo que só podia acontecer num sonho estranho: decidiu vender-nos legumes da sua horta. Disse que não íamos lá, que nunca a ajudávamos, e que assim seria. E quem pagou a água, as estufas, quem contratou aquele vizinho do lado para cavar a terra e montar as camas de cultivo, rapidamente ficou esquecido, como se a memória deslizesse como água a correr por entre os dedos.

Os legumes e frutas comprávamos baratos no supermercado, embalados, redondos, sem terra.

Nunca tivemos quinta ou casa de verão na Serra. Sempre vivemos em Lisboa, e suspeito que o meu pai nunca viu batatas antes de elas aparecerem já embaladas na prateleira. A minha mãe, pelo contrário, sempre foi do norte de Portugal, crescida num campo enorme, levemente sufocada por todas aquelas memórias de infância carregadas de terra, chuva e cheiro a salsa. Depois de adulta, só queria sossego, sem enxadas à vista.

Enquanto o meu pai estava vivo, nunca foi preciso ajudar na cultura de subsistência. Ele era uma espécie de mágico, capaz de manter a casa a flutuar mesmo quando parecia impossível. A minha mãe também trabalhava, mas era ele o pilar de todas as despesas.

Tudo permaneceu igual, imóvel como um quadro antigo, mesmo depois disso.

Só quando cresci e comecei a trabalhar podia ajudar. Morávamos juntos, partilhávamos contas e supermercados. Só saí da casa da mãe ao casar, há pouco mais de dois anos.

No ano passado, a minha mãe reformou-se. Quis comprar um terreno com uma casinha em Sintra, cheia de saudades daqueles tempos de infância passados na horta da avó. Sacou o dinheiro do Banco Espírito Santo, comprou o pedaço de terra. Para mim parecia tudo meio desconfortável, torto, mas a mãe sorriu e isso bastava, como se tudo ganhasse luz só porque ela queria muito.

Naturalmente, eu e o meu marido tivemos que entrar com dinheiro para arranjar a casa e o terreno. Podíamos ajudar, tínhamos bons empregos. Não era suficiente para construir um solar minhoto, mas servia para arranjar a casinha, levar água canalizada ao terreno e fechar a varanda a vidro.

Recusámo-nos de imediato a fazer de força braçal. Não tínhamos vontade nenhuma nem sequer destreza para mexer na terra. Nós, lisboetas de gema, queríamos era dormir até tarde nos fins de semana, ir ao cinema ou sair com os amigos, não passar a vida a tirar pedras e plantar couves.

Por essa preguiça diante da epopeia agrícola, a mãe brindou-nos com longas reprimendas, mas que sempre acabavam quando o cartão bancário aquecia de novo. Foram muitas as despesas fantasmagóricas: estufas, canteiros, caixas para plantar morangos, tangerinas, não sei explicarsempre havia mais um projeto, mais um pedido para pagar, mas a mãe não precisou mexer uma palha para os seus sonhos verdes nascerem.

Até o táxi do senhor António pagámos, sempre que a mãe, carregada de compras do Continente, não queria arrastar sacos entre comboios e autocarros.

Ocasionalmente, a minha mãe contava-me as aventuras da sua horta, mostrava-me fotos: os tomates reluzentes, as cores berrantes das alfacinhas, filas de cenouras quase dançantes. Eu fingia pasmo, porque não percebia bem aquele mundo. Assim foi, sonho atrás de sonho, até ao dia em que recebi a foto dos morangos.

Grandes, vermelhos, a brilhar como rubis ao sol, até senti na boca o gosto da infâncianaquele instante a saliva tomou conta de mim. Pedi, encantada, para guardar uns quantos num tupperware, para eu passar a buscar depois do trabalho. Nem me ocorreu que a mãe fosse enviar-me outro conjunto de fotos: frascos e recipientes, tamanhos vários, tudo acompanhado de preços em euros, como etiquetas de feira.

Reparei e reli, achei que tinha sonhado mal, talvez a mãe tivesse mudado de assunto. Mas liguei-lhe e perguntei: Estás mesmo a querer vender-me os morangos? E ela respondeu que sim.

E esperavas o quê? Eu cá me mato a tratar de cada morangueiro, enquanto tu e o teu marido não vieram cá uma única vez cavar uma batata! E porque havia de dar-vos assim de mão beijada? Quem não trabalha, não come, filha sentenciou com uma voz feita de terra e de costume.

Lembrei-lhe, aborrecida, que nós é que financiámos toda aquela fauna agrícola. Isso deixou-a indignada, como se fosse um crime relembrar-lhe favores: “Falarias assim à tua própria mãe?”

Eu, por princípio, recuso-me a comprar produtos da horta da mãe. Que faça fortuna com as vizinhas ou amigas. Eu e o meu marido compraremos tudo o que precisamos na praça: no Mercado da Ribeira não faltam legumes bonitos.

Ainda tentou vender-nos pepinos e courgettes resposta nossa, um não lógico e sonâmbulo.

Ajudar-na mais? Só, talvez, para os remédios ou uma conta de luz, mas para a horta, nunca mais. Na terra dos sonhos, cada um colhe apenas o que planta, entre morangos vermelhos e frases soltas na bruma.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A Minha Mãe Quis Cobrar-me Pelos Legumes Que Cultivou na Sua Horta — O Ano em que a Minha Mãe Reform…