Nunca me passou pela cabeça que a minha própria família fosse capaz de me dar uma facada nas costas, aproveitando-se da minha confiança e, para cúmulo, deixando-me sem um tostão furado. No nosso T2 em Lisboa, eu, a minha mãe e a minha irmã tínhamos partes iguais da propriedade. A nossa avó, dona também de um T2 em Almada, prometera que faria testamento, deixando metade do apartamento aos seus dois netos: a mim e à minha irmã, a famosa Filomena. O plano era simples: escolhia-se quem ficava com o apartamento ou vendia-se e rachava-se o dinheiro cada uma recebia os seus euros e amigos à mesma.
Naquela altura, a Filomena já se tinha mudado para casa da mãe depois de uma gravidez inesperada. Eu, por minha vez, andava perdida por Coimbra, por causa da faculdade. Com o tempo, a minha irmã apoderou-se do quarto maior do apartamento, enquanto a minha mãe foi encolhida para o quarto mais pequeno. Quando eu vinha de visita, tinha de dividir a mini-cela com a minha mãe, ciente de que não tinha lugar garantido ali depois de acabar o curso, graças ao meu excelentíssimo cunhado. A minha mãe, com aquele jeitinho só dela de evitar confronto, pediu-me encarecidamente para não causar confusões, não fosse ela ficar mal vista pelo genro.
Desabafei com a minha avó, a Dona Amélia, que me sugeriu, qual perita em esquemas, uma solução salomónica: eu passava a parte da Filomena do T2 para o nome dela, mas em troca, alterava-se o testamento para me deixar o T1. Falei deste plano com a minha mãe e a minha irmã. Esta última, com o cinismo que só ela tem, limitou-se a sorrir e a dizer que, se eu não gostasse, que fosse à justiça não perdia ela o sono, pois estava certa que ganhava em tribunal.
Lá assinei a renúncia da minha parte. Só que, para minha (má) sorte, a minha avó não teve tempo de reescrever o testamento. A saúde dela deu o berro e faleceu antes de mudar o papel. Resultado: a Filomena ficou com o T2 inteirinho e ainda abocanhou metade do T1, que já era o ninho dela. Tentei apelar ao coração da minha mãe, mas ela, sem nem olhar de frente, pôs-se ao lado da Filomena, mesmo com tudo escrito, preto no branco. Jogou aquele velho argumento: Vivemos todos debaixo do mesmo teto, não há por que arranjar problemas. Pois, pois
Agora, veja-se a cena: em casa da minha irmã, a minha mãe virou empregada doméstica e babysitter útil enquanto a pensão dela ainda cobre as despesas e os saquinhos de supermercado. O que me preocupa é o que será da minha mãe quando deixarem de precisar dela para limpar e andar a correr atrás dos miúdos. Sem mais ninguém da família por perto, sinto que já nada me prende a esta cidade. A minha mãe e a Filomena são uma dupla imbatível, mas eu cá decidi sair deste filme: não faço questão de manter contacto. Afinal, continuo a sentir o nó na garganta cada vez que penso nesta novela digna de uma telenovela portuguesa.







