A minha irmã esteve oito anos sem me dirigir a palavra. No sábado, ligou-me como se nada fosse e pediu-me dinheiro para uma operação

Olha, amiga, deixa-me contar-te o que me aconteceu este fim de semana, porque ainda estou a digerir tudo.

A minha irmã, que não me dizia uma palavra há oito anos oito anos! telefonou-me no sábado como se nada fosse. Se alguém me dissesse há uns anos que uma única frase ao telefone podia doer mais do que quase uma década de silêncio, eu juro que me punha a rir. Estava longe de imaginar.

Quando desliguei, acabei sentada no chão da cozinha, a chorar com o pano da loiça numa mão e o telemóvel na outra. Senti-me com dez anos outra vez.

A minha irmã chama-se Margarida é quatro anos mais velha do que eu. Quando éramos miúdas, lá no nosso apartamento em Benfica, dormíamos no mesmo quarto. À noite, o pai colava-se à televisão a ver o Benfica, a mãe engomava na cozinha, e nós inventávamos histórias. Dizíamos que íamos viver juntas numa casa enorme, que nunca nos íamos zangar. E eu acreditava mesmo nisso.

Trabalho na junta de freguesia há vinte e três anos a minha vida é rotina, precisa de ser, senão eu dava em maluca.

O pai ficou doente há nove anos, foi um cancro no pulmão. Dois anos a correr para hospitais, noites em claro. A Margarida veio três vezes da primeira ficou só umas horas, e era sempre porque tinha que ir, o cão, as obras lá em casa, qualquer coisa.

Fui eu que tirei licenças, que troquei turnos, fui eu que lhe dava de comer, que o lavava, que o levava aos tratamentos. Não me queixei era o meu pai.

Quando ele partiu, soube que um ano antes já quando quase não se levantava da cama a mãe o convenceu a passar o apartamento em nome da Margarida. Testamento oficial, tudo certinho.

A mãe dizia que era o mais justo porque a Margarida tinha a vida mais difícil. A Margarida, que durante a doença do pai apareceu meia dúzia de vezes, que nunca lavou um prato, que nem sabia que remédios é que ele tomava.

Tentei falar, com as duas. A mãe dizia-me sempre: Não se chateiem, o teu pai não queria isso. A minha irmã encolhia os ombros, Foi decisão dele, dizia. Olhava-me como se eu fosse transparente.

Meio ano depois, a Margarida já tinha vendido o apartamento. Comprou uma vivenda algures em Oeiras, jardim e garagem. Nunca mais atendeu o telefone. Nem apareceu nos meus cinquentas anos.

No funeral da mãe, há quatro anos, ficámos cada uma de um lado da campa. Nem um olhar trocámos. Alguém da família murmurou: O Joaquim não merecia isto. E é verdade, o pai nunca teria aguentado ver-nos assim.

Foram oito Natais com um prato vazio na mesa primeiro porque a mãe insistia, depois eu, por hábito. Oito anos a convencer-me que não tenho irmã.

E depois vem este sábado. Estava eu a lavar a loiça do almoço. O Manel na sala, a ver bola, o meu filho liga a combinar vir no domingo com a pequenota. Nada de especial. O telefone toca, vejo o nome da Margarida no ecrã nunca apaguei, nem sei porquê.

Leonor? Sou eu, a Guida. A voz diferente da que eu lembrava, mais fina, cansada, ou só destreinada de quem não fala com gente da família.

Limitei-me a dizer: Estou. Que mais podia dizer?

Ela desatou a falar sem parar quase percebi o medo de eu desligar. Que estava com o joelho péssimo, que pelo SNS ia esperar anos, que a operação privada são 15 mil euros, que o marido se foi embora há três anos, que a casa consome tudo, que não tem a quem pedir que eu era a irmã dela.

És minha irmã, repetiu, como se só ali se lembrasse disso ao fim de oito anos.

Fiquei ali, mãos molhadas, a sentir o peito apertar, como se um muro me tivesse crescido por dentro a tapar tudo.

Margarida, disse o mais calma que consegui, não ligaste uma vez em oito anos para saber se eu estava viva. Não sei se consigo dar-te resposta agora.

Leonor mas é uma operação! Mal ando

Desculpa, não posso ajudar-te.

O silêncio foi denso, daqueles que até se ouve a respiração, sentes o sangue nos ouvidos.

E então ela veio com aquela frase: Sabes, o pai tinha razão. Sempre disse que tu eras fria, sem coração. E ele tinha razão.

O meu pai nunca disse isso, eu sei. Estive com ele todos os dias. Sabia cada palavra, cada careta, cada sorriso quando eu lhe levava chá com limão. Ele nunca diria isso.

Mas a Margarida sabia como magoar e usou o nome dele como uma faca. Porque o pai morreu, não está cá para defender a filha. Porque fica sempre aquela gota de dúvida, aquele e se?, dito uma vez, há séculos, só comigo ausente

Desliguei. Fiquei sentada no chão, o pano na mão, o telemóvel na outra. O Manel apareceu, sentou-se comigo, sem uma palavra. Depois de trinta anos juntos, ele sabe quando só precisa estar.

Fiquei ali uns vinte minutos a pensar no pai, na mãe, na Guida miúda daquele quarto, na miúda que prometia que íamos viver sempre juntas. Pensei como o silêncio dói, mas é limpo diz-te, não conto contigo. Mas aquela frase, aquela frase sujou tudo. Pegou na pessoa que ambas amávamos e fez dele arma.

Não a liguei de volta. Não sei se algum dia ligarei.

Só sei que no dia seguinte, quando a minha neta Matilde entrou na cozinha e pediu: Avó, fazes-me umas panquecas?, senti uma coisa que a Margarida, se calhar, nunca vai perceber. Senti que tenho uma casa, e não preciso que ninguém me passe nada de herança.

E sei que o pai, lá onde estiver, sorriu. Não porque tivesse razão. Mas porque sabe que nunca o desiludi e isso basta-me.

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