A minha avó contou-me que se refugiou numa casa abandonada na aldeia. Ofereci-lhe ajuda, mas ela recusou com gentileza, dizendo que já tem tudo o que precisa.

Numa tarde insólita de outono, estava sentada na paragem de autocarro à espera do 356 para Évora. As nuvens enrolavam-se como mantas cinzentas sobre Lisboa e começou a chover miudinho, mas ainda faltavam cinco minutos para arrancar. Fugi das gotas e entrei na sala de espera iluminada, sentei-me numa cadeira fria de plástico e tirei o telemóvel para espreitar as notícias do dia.

Ao meu lado, uma senhora idosa, de voz melodiosa e olhar brilhante, acomodou-se com uma mala bordada nos joelhos. Chamava-se Otília Vasconcelos, e com a naturalidade dos sonhos, começámos a conversar como se já nos conhecêssemos. Ela queria companhia, e falámos do tempo, dos dias de chuva em Aveiro, dos ventos estranhos. De repente, as palavras dela saltaram entre espirais de memórias, e contou-me a história da sua vida como sempre acontece nos sonhos, tudo se misturava num fluxo surreal.

Otília não tivera uma existência fácil. De súbito, a tragédia dançou no seu caminho e ficou sem abrigo. A casa dela em Almada era para duas famílias; habitava um lado e do outro morava uma vizinhança inquieta. Durante uma festa extravagante, tudo saiu dos limites: um incêndio começou no lado dos vizinhos e devorou a casa inteira, incluindo a parte de Otília. Salvou meia dúzia de objetos uma almofada, dois retratos, um par de sapatos, mas o lar perdeu-se no fumo.

Sem para onde ir, refugiou-se na casa da filha, em Setúbal. Só que, sete dias depois, a filha, chamada Isilda, manifestou-se irritada dizia que a mãe era um fardo impossível e que já não podia ficar. O meu coração apertou-se ao ouvir que a filha voltara as costas, depois de tudo que Otília fizera por ela e pelos netos.

Perguntei-lhe então onde vivia agora. Sorriu com uma tranquilidade sonhadora e explicou: tinha encontrado refúgio numa casa vazia na aldeia de Vilarinho das Azenhas, perdida entre oliveiras. Ofereci-me para ajudar, mas ela recusou, afirmando, com suaves palavras, que nada lhe faltava. A conversa flutuou, e como nos sonhos, tirei-lhe uma fotografia junto do autocarro azul, com o nome do seu destino escrito na lateral, antes de nos despedirmos.

Depois, em casa, sentada à mesa de madeira, fui consumida por um sentimento de urgência e decidi agir. Procurei o presidente da junta de freguesia de Vilarinho das Azenhas. Uma semana mais tarde, voltei à aldeia com um grupo de amigos, todos mestres em construção Manuel, Hermínio, e Duarte cada um trazia ferramentas, boa disposição e alguma esperança.

Guiados pelas palavras do presidente e pela imagem insólita da cabana de Otília, traçámos um plano. Mas ao chegar ao sítio, a triste realidade da casa quase nos comoveu às lágrimas. Não havia chão, nem telhado, e a água corria só aos soluços pela canalização enferrujada. O dinheiro faltava nem um cêntimo a mais que os duzentos euros que nos tinham sobrado das doações.

Com determinação de sonho, trabalhámos durante uma semana. O apoio dos vizinhos e as ofertas generosas permitiram restaurar aquele abrigo: Otília ganhou água corrente, sanitário funcional, paredes replantadas com argamassa e um chão novo feito de tábuas cheias de histórias. O seu sorriso, ao ver a casa transformada, foi o melhor pagamento: abraçou-nos a todos, como se a alegria escorresse pelos dedos.

E a bondade alastrou; o povo inteiro mobilizou-se. Construíram-lhe um pequeno portão de ferro, limparam o pátio de folhas velhas, prepararam-nos refeições em panelas de barro e abriram as portas das suas casas, dando-nos abrigo e companhia. No final, acordei do sonho convencida da força absoluta da compaixão portuguesa e do calor da nossa gente onde mesmo entre estranhos, reina o poder delicado da solidariedade.

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A minha avó contou-me que se refugiou numa casa abandonada na aldeia. Ofereci-lhe ajuda, mas ela recusou com gentileza, dizendo que já tem tudo o que precisa.