Ai, Ana, tu não vais acreditar nas últimas novidades aqui no bairro! Lembras-te da Graça? Sim, sim, aquela nossa vizinha, a que está sempre com um sorriso no rosto, mesmo quando as coisas podiam correr melhor Pois olha, ela vai casar-se! Mas acredita, as línguas afiadas cá da rua não podiam deixar passar em branco.
Por amor de Deus, aquilo é homem que se apresente? Só pode ser engano! A Graça não vê bem com quem quer casar? Baixinho, magrinho, feio como as noites sem luar! diziam elas, aninhadas no banco à porta do prédio, ajeitando as mantas dos seus bebés e olhando com desdém o futuro genro da D. Graça. Mas olha que tu também exageras! Que não é um gigante, está bem, mas feio feio A Graça também não é propriamente uma mis Portugal! E a outra: Isso é verdade Mas consegues imaginar os filhos deles? Medo! As mulheres descascavam nelas com aquele jeito português, entre o pão e umas conversas sobre como é estranha a vida.
E a Graça? Nada disso lhe afetava o dia. Com ele, o Diogo, chegaram com o carro carregado de compras para a mãe dela. Diz lá, Diogo, não te dói as mãos? tentou Graça, como sempre prestável, mas ele, com aquele jeito muito à portuguesa: Deixa, Graçinha! Tu é que segura a porta. As coisas pesadas são para os homens!
As vizinhas trocaram olhares cúmplices. Pois, até parecem uns amores antes de casar. Depois vais ver! Já ninguém é tão cuidadoso assim! Mas a Graça não podia ligar menos. Tinha saudades da mãe, com quem já não estava há duas semanas primeiro por uma viagem de trabalho, depois porque andava com o Diogo a acabar o restauro do novo apartamento antes do casamento. A mãe dela ficava sempre naquele tom sério e doce: Guarda-te, filha! A comida não falta, o telefone funciona. Descansa que a boda chega num instante.
Mas a Graça não aguentava, precisava do colo da mãe nunca estivera tanto tempo longe dela e ainda lhe custava gerir a ansiedade.
Olha, a D. Graça foi uma surpresa para toda a família. A mãe dela, a D. Margarida, já tinha 35 anos e era daquelas vendedoras de mercearia que toda a gente conhece do bairro. Não era bonita, nem alinhava muito em festas, e os pais já tinham desistido de que ela arranjasse alguém. É uma solteirona, coitadinha, diziam. Crianças? Nem pensar!
Pois enganaram-se. Foi de férias ao Algarve e voltou com o Manuel: um homem bonito como tudo, alto, olhos azuis, daqueles que parecem tirados de um filme. Ao lado dele, a Margarida parecia um ratinho ao pé de um leão, achavam todos. Que desproporção! murmuravam. Mas o Manuel mostrou ser um homem de valor: trabalhador, inteligente, um braço para conseguir dinheiro e outro para proteger a família, e a felicidade da Margarida era prioridade.
A Margarida floresceu. Mudou de corte de cabelo, vestiu-se melhor, e não queria saber de quem vinha beber chá só para lhe pedir favores ou garantir que um pedaço de bacalhau especial não fugia. Com o tempo, deixou de se preocupar com as línguas. Sempre teve receio das fofocas essas desgraçadas são piores que a trovoada! Tinha medo que dissessem ao marido que ela não era boa para ele, que arranjasse outra, que começassem a inventar. Por isso tornou-se muralha dentro de casa, só abrindo para os mais chegados. Queria proteger a sua felicidade.
Mas a verdade é que não precisava temer. O Manuel só tinha olhos para ela. Ele entendia como ninguém o provérbio Quem vê caras não vê corações, porque aprendera da pior forma. Ficou órfão de pai e mãe antes dos três anos, num acidente na estrada nas festas de São João. Criado por uma avó que perdeu o filho e não conseguiu superar a dor, Manuel habituou-se cedo à solidão. A avó afogava as mágoas na aguardente, e ele, ainda miúdo, aprendia a tratar de si, a passar camisas e a estudar, para que não reparassem na sua vida.
Era um miúdo bonito desses que toda a gente repara mas isso só lhe trouxe invejas e problemas. A atenção dos adultos incomodava, e nenhum dava carinho. Só a senhora Amélia, da padaria, é que reparou que aquele miúdo pálido vinha sozinho, todos os dias, comprar pão, e lhe dava sempre um pão de Deus extra, dizendo: Come logo na escola! e fazia-lhe festas no cabelo. Isso ficava-lhe no peito o dia inteiro, dava-lhe forças para aguentar.
No início, o Manuel recusava, mas percebeu que magoava a tia Amélia, e então aceitou, agradecendo sempre. Depois da escola ajudava na padaria. E aí olha que coisa bonita encontrou finalmente o que parecia uma família, com os filhos da tia Amélia e o calor da cozinha com o cheiro a pão acabado de cozer.
Quando a avó morreu, a senhora Amélia não hesitou: Agora ficas connosco! Sempre foste como um filho. Oficializou a adoção e o Manuel calçou-se de esperança. Desapareceu a zanga, ficou só vontade de recomeçar.
Acabou o curso técnico, arranjou emprego, renovou a casinha da avó, mas sorte no amor não tinha. Atrás dele andavam muitas raparigas, mas na hora da verdade, afastavam-se. Teve uma paixão, mas ela não demorou a cortar pela raiz: Manel, tu és demasiado bonito. Vais-me deixar sozinha. Com tanta escolha, és rapaz para não parar em sítio nenhum! Doeu-lhe, e foi à senhora Amélia, que sempre soube reconfortar: Ó filho, não era tua. A tua anda por aí, espera por ti. Não percas a fé, sem fé não há caminho!
E foi aí que, já adulto, aceitou, pelo incentivo dela, ir pela primeira vez ao mar. Vais amar! O mar em Portugal não se vê sente-se!
E foi à beira-mar, em Peniche, que conheceu a Margarida ela quieta, transparente, ninguém dava por ela. Mas o Manuel ficou imediatamente preso, admirado por como a rapariga parecia a própria mãe adotiva. Conhecendo melhor, percebeu: é esta! Encontrou luz e carinho inacabáveis nela.
Casaram-se e, anos depois, nasceu a Graça: uma menina adorada por ambos, às vezes até tinham medo de a mimar demais. Não a mimaremos demasiado, Manuel? perguntava Margarida. Temos é de lhe dar amor; ela será sempre a nossa menina de ouro, respondia ele.
A senhora Amélia, avó de coração, dizia sempre: Saiu à mãe, tão meiga e boa! Cuida das tuas mulheres, meu filho. A felicidade é isso mesmo! Manuel, claro, mantinha laços fortes com a família da padaria. E quando começaram a surgir os tais problemas de saúde, primeiro falou com os irmãos adotivos antes de preocupar a esposa e a mãe.
Arranjaram logo médico; veio a doença difícil, e ele lutou dez anos como um valente, surpreendendo tudo e todos. Conheço poucos tão fortes! diziam os médicos, mas o segredo era simples: queria voltar sempre para casa, onde a Graça e a Margarida o esperavam. A Graça, ainda criança, corria todos os dias ao hospital, Tens de te alimentar, pai! A mãe chorou ao fazer sopa, mas prometi-lhe que vais melhorar!
Contra todas as probabilidades, ia sempre regressando. Mas, um dia, adormeceu nos braços da Margarida e não acordou mais. Margarida ficou, noites inteiras em claro, a agradecer-lhe a sorte dela ao lado dele. A Graça, ainda pequenina, quando entrou pela manhã e percebeu tudo, soluçava: Mãe, o pai está mal E a mãe, naquele abraço apertado, segredou: Já não sofre, filha. Já está em paz
A família nunca as largou os irmãos passaram a visitar mais, a senhora Amélia mudou-se para perto delas, e aos bocadinhos, sem nunca esquecer, curaram-se todos juntos.
Cresceu a Graça e foi ficando cada vez mais insegura à frente do espelho. Sabia que não era bonita, e custava-lhe aceitar. Tentava de tudo até comer cenouras para ver se crescia um bocadinho! Na escola era sempre alvo de gozo, só a mãe lhe enxugava as lágrimas: Havemos de ver, minha menina, quem será feliz só espera e vais ver!
Graça acaba o secundário, vai para a universidade em Coimbra, torna-se ótima estudante, exemplar em tudo, mas o sucesso amoroso nunca vem. Os rapazes só queriam os apontamentos dela e olhavam sempre para outras mais vistosas.
A certa altura, a Margarida entrou em modo de mãe preocupada: O que vamos fazer, filha? Trabalho já tens, mas o coração
A avó Amélia sempre com ideias: Vai ao mar! Olha que uma vez deu sorte! Juntamos a malta toda e lá vamos nós até os primos, cunhadas e a criançada! A Margarida riu-se: Ainda se assusta, coitada! Mas olha, vamos todos!
Só que a vida tem destas. Lá foram até ao mar, mas a Graça não quis andar a passear sozinha, preferiu ficar no círculo da família. Eu aqui estou bem, dizia, contrariada, mesmo debaixo das cantorias e risos dos primos.
Mas o destino já a espreitava. Mal voltou a Lisboa do verão, estacionou o carro, apanhou uma carga de água no caminho para casa, e mesmo a correr, não escapou: uma carrinha passou veloz e banhou-a de cima a baixo com água lamacenta. Que maravilha suspirou, mas depois riu tanto de si mesma que, quando o condutor parou para pedir desculpa, ficou encantado com aquela gargalhada limpa.
E pronto, Ana, foi assim é verdade! O Diogo, que era o rapaz da carrinha, tornou-se o seu par. O destino riu-se, riscou mais um feito! na lista e seguiu caminho.
E nisto passaram anos e as vizinhas nunca mudaram! Já viste o casaco de peles dela? A mim o meu nem me compra sequer um casaquinho, olha ela que luxo! Ó mulher, mas até combina com ela, vê lá e o marido, até feio que dói, mas vê-se que a adora! Os filhos, então, parecem anjinhos! Pois, querida, questão de génese o pai da Graça era um pedaço de homem! Sim, mas a Graça é tão boazinha, tão igual à mãe, uma santa. Nunca responde torto. Devia odiar o mundo por não ter belleza nenhuma. E a outra: Devia, mas não odeia! Se calhar é por isto que é feliz devias experimentar invejar menos!
A Graça não queria saber de nada disso. Tinha os filhos, a mãe, a avó Amélia já ali ao pé, os tios sempre a ajudar A casa cheia, as tardes longas cheias de bolos, conversas boas e cantorias à volta da mesa, daqueles serões que só quem é de família portuguesa entende.
E assim segue a vida cheia de altos, baixos, risos e, acima de tudo, amor. E sabes que mais, Aninhas? Quem tem isto tem tudo.







