A Fissura da Confiança
Dona Graça, está em casa? Sou eu, Deolinda do terceiro! Fiz uns pastéis de bacalhau, acabei por trazer a mais, e queria partilhar… Não abre?
Fiquei parado à janela, a chávena de chá frio nas mãos. Lá fora, Lisboa escondia-se atrás de um novembro cinzento: as folhas amarelas dançavam pelo vento entre os blocos de prédios, enquanto alguns vizinhos se apressavam, enterrados nos casacos. Já estava habituado a esta solidão. Ao tique-taque do relógio da parede, ao zumbido do frigorífico, ao ranger do soalho. E, principalmente, ao silêncio de não ouvir ninguém à porta.
Dona Graça! Eu bem vejo a luz acesa! Não se esconda, que eu sou gente de bem!
A voz de Deolinda atravessava a porta, forte, com aquela animação muito nossa, à qual não se diz que não. Coloquei a chávena no parapeito e caminhei devagar até ao corredor. Espreitei pelo óculo. Lá estava ela, no patamar, com uma bolsa de plástico, sorriso de orelha a orelha, cabelo ruivo pintado apanhado num rabo-de-cavalo trapalhão, batom encarnado, casaco grosso, daqueles de cor berrante.
Ora essa, parece que mora numa fortaleza, dona Graça! insistiu ela. Abra lá, que cá fora está de cortar.
Tirei a corrente e destranquei. Deolinda entrou pela casa como se o vento de março viesse com ela trouxe consigo cheiros de fritos misturados com frio e perfume barato.
Fiz hoje cedo, apeteceu-me. Pensei: vou ali levar uns pastéis a senhora do segundo, está sempre tão calada enfiou-me a bolsa nas mãos. São de bacalhau e carne, ainda estão quentes. Sozinha, deve nem ter vontade de cozinhar. Olhe que está magrinha!
Obrigada, Deolinda. Não se incomodasse…
Que é isso? Eu gosto é de ajudar o próximo. Prove, sim. E faça um chá dos mais fortes, que está com ar pálido.
Deolinda foi direita à cozinha, como se fosse dela. Pôs água no bule, tirou duas chávenas do armário. Fiquei parado, sem saber se fechava a porta ou me sentava. Já não sabia lidar com a presença dos outros, como se fosse coisa agressiva ou fora de lugar.
Sente-se aqui comigo disse, já a pôr açúcar no chá. Conversa faz falta. Quando o meu Alberto partiu, a minha tia Carminda nem sabia como existia sem companhia. Ia-lhe dando a volta a cabeça.
Sentei-me. Os pastéis cheiravam mesmo bem. Já não me dava ao trabalho de cozinhar só para mim aquecia qualquer coisa ou comprava feito no Pingo Doce.
Olhe que não pense que eu sou metediça Deolinda despejou o chá, quatro colheres de açúcar para ela. Eu é que não consigo ver os outros sofrer e ficar quieta. O meu marido diz sempre: “Deolinda, cuidas de toda a gente menos de ti!” riu com aquele seu modo espalhafatoso.
Conversava sem parar, gesticulava muito, contava histórias de bairro e da vida. Ouvi e percebi como era raro alguém estar assim à mesa comigo. O meu filho Rui telefonava todos os domingos, mas eram chamadas de minuto está tudo bem, mãe? Comi, mãe. Precisa de dinheiro? Não, obrigado. Beijinhos, depois falo. E pronto, o silêncio voltava.
Sabe, sempre quis convidá-la Deolinda encostou-se para a frente, olhar quase familiar. Às vezes juntamo-nos no café “Cantinho do Bairro”, ali ao fundo, sabe? Somos umas quatro, falamos da vida e dos preços dos mercados. Devia ir connosco. Faz bem conhecer gente.
Não sei, Deolinda… Já não sou dessas andanças…
Ora essa! Eu passo por si, não escapa. Não pode trancar-se aqui, que faz mal à saúde, palavra de honra.
Assenti, porque não sabia como recusar. Deolinda bebeu o chá, elogiou a loiça: que bonito bule! E este serviço? Isto é Vista Alegre, não é?
O Joaquim ofereceu. No trigésimo aniversário de casamento.
Tantas memórias… Guarde com carinho. Pronto, deixo-a descansar, que ainda tenho muitas tarefas. Coma os pastéis! Amanhã venho buscá-la para o lanche, às três, sim?
Quando saiu, ficou o cheiro a fritos e batom numa das chávenas. Outra vez o silêncio, mas desta vez menos pesado.
***
E assim começou. Deolinda aparecia diariamente ora de manhã, ora ao final da tarde, sempre com um motivo. Faltou o sal, precisava de opinião, vinha só trocar dois dedos de conversa. Puxava-me para fora de casa, levava-me ao café “Cantinho”, onde outras três mulheres barulhentas e despachadas partilhavam cusquices e o preço dos legumes.
Ao princípio, sentia-me deslocada. Eram mais terra-a-terra, diziam piadas que me deixavam envergonhada, usavam expressões que eu nunca usaria. Mas Deolinda, sempre do meu lado, apresentava-me: “Esta é a Graça, professora reformada! Uma pessoa de valores.” E eu sentia um pequeno orgulho.
Fui-me habituando. Aprendi a saborear a companhia. Não era o que fora noutras eras, de ir ao teatro São Luiz com o Joaquim, de almoços de amigos, mas agora restava-me isto: chá de máquina em copo de plástico, conversas quase vazias, mas melhor do que a solidão.
Dona Graça, ainda tem aquele broche que trouxe da última vez? perguntou-me Deolinda, uma tarde de chá e bolacha Maria. Tão bonito, parecia de âmbar, não era?
Era sim, foi da minha mãe.
Posso ver? Adoro peças com história, enchem-me a alma! Pode ser? Só mostrar à minha filha Lurdes, que anda para se formar e queria algo antigo na cerimónia! Devolvo logo, prometo!
Fiquei relutante. Era mesmo especial para mim. Mas ela insistiu tanto, que lhe entreguei, a medo.
Cuide bem…
Oh, parece que é uma obra de arte! Fique descansada, não sai da vista.
Uma semana depois ainda nada. Deolinda diz que a filha ficou encantada, que logo devolve. Depois diz que perdeu mas que encontra. Eu já não dormia, remoía o erro de lhe ter confiado a joia. Quando tentei insistir, ofendeu-se.
Acha que mentia? Eu, que a tirei do fundo do poço da solidão? Se é assim, não voltamos a falar, pronto!
Não, não, perdoe… Só estava preocupada.
Eu compreendo. Mas a Lurdes anda à procura. Não se apoquente, sim?
E eu tentava não me preocupar. Deolinda voltava, trazia os seus bolinhos, propunha passeios. Mas agora pedia mais coisas.
Dona Graça, não tem uns euritos até ao final do mês? O meu filho ficou doente, falta para os medicamentos. Prometo que devolvo logo, mesmo.
E eu dava. Porque ela era minha amiga, minha companhia. Cinco euros, dez euros, às vezes vinte. Nunca voltavam, e se falava nisso, ela magoava-se tanto que eu me sentia culpado.
Amizade verdadeira não tem dívidas, dona Graça! Eu abria mão de tudo por si, e a senhora a pensar em trocos?
***
O Rui ligou-me numa terça à noite. Eu estava já de robe, a ver qualquer coisa na televisão.
Olá mãe. Como está?
Bem, filho. E tu?
A correr, como sempre. Olhe, não quer vir no fim-de-semana? A Teresa pede aquele seu arroz de pato, as miúdas têm saudades.
Não sei, Rui… Tenho tido ocupações.
Ocupações? Mãe, a senhora está em casa…
Tenho uma amiga agora, Rui. Vamo-nos encontrando, passeamos, conversamos no café. Não pense que estou abandonada.
Uma amiga? o tom dele mudou. Que amiga?
Deolinda, a vizinha do terceiro. Uma santa, sempre pronta a ajudar.
Mãe, tem a certeza que pode confiar nela?
Claro! Conheço-a bem, já convivemos há dois meses. Salvou-me da solidão, Rui!
Houve um silêncio.
Está bem, mãe. Fico mais descansado. Só… tenha cuidado consigo e com as coisas lá de casa. Nem toda a gente é igual.
Rui! Que disparate! A Deolinda é como uma irmã para mim.
Está bem, mãe… beijinhos.
Desligou. Fiquei a olhar para o telemóvel. Ao menos nem quando faço amigos estão satisfeitos. Parece que querem ter-me sempre à mão, isolada Egoísmo, pensei.
No dia seguinte, Deolinda chegou entusiasmada.
Olhe, idea maravilhosa! tirou o casaco e foi directa à cozinha. Sabe a minha prima trabalha num balneário em Caldas da Rainha. Arranja-nos uma promoção para um retiro de duas semanas, águas termais, massagens. Só trinta euros por pessoa! Oportunidade destas não aparece…
Parece caro… arrisquei.
Nada disso! Apanhe lá nos seus aforros, que o Joaquim não lhe deixou para os ratos. É saúde! Eu já tenho metade, junte o seu e vamos. Amanhã passo consigo no banco, para ser mais fácil.
Fui com ela ao banco do Cais do Sodré. Levantei trinta euros (por engano, quis dizer trinta, mas eram trezentos, tanto faz, era dinheiro), entreguei-lhe a nota.
Trato já da reserva, trago o papel amanhã. Fique descansada.
Depois nunca trouxe papel nenhum. Primeiro que a prima estava ocupada, depois que o sistema estava lento, mil desculpas.
Agora começava tudo a soar-me mal. Mas quando ela, já a caminho de sair, pediu o serviço de chá emprestado para o jantar de noivado da filha, travei.
Deolinda, o serviço foi do meu Joaquim…
Lá está, outra vez! Fiz tanto por si, e não me empresta uma chávena? Somos amigas ou não?
Cedi. Levou-o. E eu fiquei a tremer.
***
A Teresa, minha nora, ligou três semanas depois.
Mãe Graça? Sou a Teresa. O Rui viu que mexeu no dinheiro da conta. Está tudo bem?
Está, está, filha. Para quê tanta preocupação?
Só queremos ter a certeza. O Rui disse que tem uma vizinha que anda sempre aí… Olhe, mãe, cuidado, sim?
Pronto, está tudo dito. Não me atazanem mais. Se querem saber de mim, apareçam mais vezes!
Desliguei, furiosa. Sabia que era injusto. Eles têm trabalho, duas miúdas, a vida em cima. Mas ninguém entende que estou melhor assim! Pouco depois Deolinda propôs irmos comprar faqueiro para a filha, à loja “Mundo Português”, a dividir: metade eu adianto, ela depois paga. Quis pôr em meu nome, a prestações. Assinei sem pensar.
Encontrámo-nos com a Teresa, por acaso, à saída da loja. A Teresa falou firme, pediu-me para confiar nela. Disse que a Deolinda já enganara idosos pela zona. Que era tudo esquema.
Fiquei furioso. Mandei-a embora. Na volta para casa, Deolinda notou logo.
A sua nora anda a fazer-lhe a cabeça, não é?
Não acredito em nada.
Isso mesmo. Entre amigas nada separa.
Mas todas as dúvidas voltaram. Passei noites sem dormir. A Deolinda sumia, aparecia cada vez menos, mas volta e meia pedia mais dinheiro. O serviço nunca aparecia. Prometia devolver tudo, sempre com desculpa.
Já mal dormia, tive de pedir aumento na medicação para a tensão. Até que um dia, o Rui e a Teresa apareceram. Trazendo compras, querendo cuidar de mim. Gritei, expulsei-os. Não queria sentir-me fraco.
Nem Deolinda voltou em três dias. Depois apareceu, pediu mais dinheiro. Pediu desculpa pelo serviço, que estava partido mas compra outro. Foi aí que vi o jogo. Vi nos olhos dela o cálculo, a frieza por trás do sorriso.
Não há mais nada, Deolinda. Acabou.
Ela ainda fez escândalo, insultou-me, mas fechei-lhe a porta. Pela primeira vez senti-me forte.
No domingo seguinte, apareceu com a caixa do serviço. Só cacos lá dentro.
***
Peguei no telefone e liguei ao Rui.
Filho, podes vir cá?
Não foi preciso dizer mais. Vieram com compras, prepararam comida. Sentámo-nos juntos, falei-lhes envergonhado e magoado do erro que fora. A Teresa agarrou-me a mão: Vai ficar tudo bem. O Rui mudou a fechadura. Disseram: Se quiser, venha morar connosco.
No fim ficaram até tarde. Quando partiram, agarrei as peças da chávena partida. Tentei colá-las. Ficou cheia de fissuras, só para recordar, não para usar. Mas era alguma coisa.
Aprendi, com isto, que não é vergonha querer companhia, mas é preciso saber em quem confiamos. A solidão dói, mas confiar ou dar tudo ao primeiro que aparece pode deixar-nos ainda mais partidos do que uma chávena de porcelana. E é preciso saber perdoar a nós próprios, e aceitar o colo de quem está sempre do nosso lado, mesmo que nos custe admitir.







