A Fenda da Confiança

A Fenda da Confiança

Dona Beatriz, está em casa? Sou eu, Maricota do terceiro! Trouxe pra senhora uns pastéis que sobraram, ainda quentinhos, e tenho um assunto pra dividir… Não me abre a porta?

Dona Beatriz ficou parada junto à janela, segurando uma chávena de chá já frio. Lá fora, o pátio, cinzento de novembro, abanava folhas amarelas entre prédios de três andares, o vento cortava, e uns poucos vizinhos passavam apressados, embrulhados em casacos grossos. Estava habituada ao silêncio; ao tique-taque do relógio de parede, ao zumbido do frigorífico, ao soalho a ranger-lhe sob os pés. E também a ninguém bater-lhe à porta.

Dona Beatriz, vejo a luz acesa! Não se esconda, Senhora, sou amiga!

A voz à porta soava alta, decidida, com um humor risonho que não aceitava recusa. Dona Beatriz pousou a chávena no parapeito e foi, devagar, até ao hall de entrada, espreitando pelo óculo. Maricota ali estava, de saco na mão, o rosto largo numa gargalhada, cabelo pintado num ruivo atrevido, apanhado num rabo de cavalo desalinhado, com batom cor de vinho e um casaco acolchoado, laranja, demasiado exuberante.

Ora, minha senhora, não esteja aí trancada num castelo insistiou Maricota. Abra-me, senão apanho uma gripe!

Dona Beatriz retirou a corrente e abriu. Maricota entrou como um vendaval primaveril, trazendo aromas de perfume barato, frio e coisa frita.

Olhe, fiz de manhã, pensei, bem podia oferecer à vizinha meteu o saco nas mãos de Beatriz. Há com couve, com carne, ainda estão quentes. Aposto que não anda a comer nada de jeito sozinha aqui. Magra, magra está!

Muito obrigada, Maricota, não precisava…

Ora essa, Dona Beatriz! Não custa partilhar. Sou pessoa de fazer bem aos outros. Coma, por favor, e faça um chá mais forte, que está muito pálida!

Maricota entrou na cozinha sem pedir licença, punha água a ferver, tirava chávenas do armário. Dona Beatriz quedava-se à porta, sem saber como reagir. Tantos meses sozinha que a presença de alguém parecia-lhe irreal, até hostil.

Sente-se, sente-se, já conversamos com um cházinho! ordenou Maricota. Sei bem como é, ficou viúva, filhos longe, a vida parece um névoa. A minha tia Adélia ficou igual depois do Tio Manuel, quase enlouqueceu de solidão.

Dona Beatriz sentou-se. Os pastéis cheiravam realmente bem. Não cozinhava há muito, não havia vontade de preparar só para si. Costumava comprar comida pronta, aquecia-a sem fome.

Minha vizinha, não pense que me meto por mal Maricota deitava chá, quatro colheres de açúcar para si. É que eu não suporto ver sofrimento alheio. O meu marido diz sempre: Maria, salvas o mundo, esqueces de ti! Mas eu sou assim.

Falava depressa, a rir, gesticulando. Dona Beatriz ouvia, sentindo que algo dentro dela se descongelava. Há quanto tempo não tinha uma conversa destas, serena, à mesa? A filha ligava uma vez por semana, tudo breve Está bem, mãe? Está sim, filha. Falta-lhe dinheiro? Não. Depois liga, um beijo. E outra vez silêncio, uma semana.

Sabe, Dona Beatriz, queria-lhe fazer um convite há tempos Maricota inclinou-se, olhos calorosos, de família. O grupo das senhoras encontra-se às vezes na Padaria Flor, decerto conhece? É pequenina, no largo. Sentamo-nos, conversamos, trocamos novidades. Venha connosco um dia, sim? Ajuda a distrair.

Não sei, Maricota… Não gosto muito…

Oh, tem de ir! Vou buscá-la em casa! Não pode fechar-se assim, faz-lhe mal! Solidão adoece, acredite.

Dona Beatriz anuiu, sem jeito para recusar. Maricota terminou o chá, levantou-se de rompante, observando a cozinha.

Que casa bonita! E este serviço de café? foi ao aparador, admirou a porcelana branca, filete de ouro, atrás do vidro. Herança?

O Jorge ofereceu-me, trinta anos de casados.

Lindo! Guarde-o bem. Pronto, vou à vida. Coma os pastéis, e amanhã, às três, conto consigo!

Saiu como entrara, numa lufada. Dona Beatriz ficou a olhar o saco, as chávenas, a marca do batom na borda de uma. O silêncio voltara, mas parecia menos pesado, menos vazio.

***

Assim começou. Maricota aparecia todos os dias, umas vezes de manhã, outras à noite, sempre com um novo pretexto acabou-se o sal, queria pedir um conselho, ou simplesmente conversar. Levava Dona Beatriz ao supermercado, aos encontros na Flor da Padaria, com mais três senhoras, barulhentas, riam-se de modo franco e diziam graças que por vezes deixavam Dona Beatriz sem jeito. Maricota dava-lhe o braço, anunciando: Esta é a Beatriz, minha amiga, professora, e dizia-o com orgulho sincero.

Com o tempo, Dona Beatriz foi-se habituando, até apreciava esperar por Maricota, ajeitar-se para as saídas, sentia-se reviver. Não era o grupo de amizades cultas dos tempos do Jorge, das noites da Gulbenkian, das tertúlias de sala iluminada, mas esse mundo partira também, com ele. Restavam aquelos cházitos em copos de plástico, conversas por nada. Mas era diferente do silêncio.

Dona Beatriz, por acaso tem aquele broche que trouxe outro dia? Perguntou-lhe Maricota, numa tarde, bebendo chá e roendo bolachas Maria. Coisinha mais linda! De âmbar, não é?

Sim, era da minha mãe.

Mostra-me? Adoro antiguidades, têm alma…

Dona Beatriz trouxe a caixinha de veludo, tirou o broche. Maricota admirou-o, ergueu à luz.

Que maravilha! Posso mostrar à minha Mariana? Tem o baile de finalistas daqui a mês, sonha com um adereço original. Mostro-lhe e devolvo, prometo!

Dona Beatriz hesitou. O broche era memória viva de sua mãe. Mas a alegria de Maricota tornou impossível recusar.

Pronto… Mas com cuidado.

Trato como ouro! Mil vezes obrigada!

Passou uma semana, o broche não voltava. Dona Beatriz perguntava, Maricota desconversava: A Mariana ainda não decidiu, adorou, falta pouco, devolvo já. Depois, Mariana terá perdido, mas há-de aparecer.

A preocupação passou a insónia. Dona Beatriz culpava-se pela confiança. Numa tentativa de explicação, Maricota ofendeu-se.

Pensa que eu mentia? Fingiu indignação. Quem lhe faz companhia, a vizinha que cuida de si? Pois, se me desconfia, não venho mais!

Não foi isso, Maricota… o broche…

Está bem, é precioso. Vamos encontrar!

E Beatriz tentava não remoer. A partir daí, Maricota voltou aos mimos, mas de lá para cá, pedia mais.

Sabe, Dona Beatriz, tem como me adiantar uns cinquenta euros até à reforma? O Nuno ficou doente, preciso dos medicamentos, falta pouco para receber.

Dona Beatriz ajudava. A amizade valia mais que dinheiro, dizia-se. Depois vinham cem euros, duzentos. Quando pedia de volta, Maricota sentia-se ferida:

Achei que éramos amigas, Dona Beatriz. Entre quem é assim não há dívidas. Por si fazia tudo, e a senhora a contar tostões…

***

A filha ligou numa quarta à noite. Dona Beatriz preparava-se para dormir, sentada de robe velho, deixava o televisor ligado com um programa das casas de campo, só pelo som.

Mãe, olá. Como está?

Estou bem, filha. E contigo?

Atarefada… Olhe, venha passar uns dias connosco este fim-de-semana? As meninas perguntam pela avó, o arroz doce já me pedem.

Não sei, Isabel… agora tenho com quem estar.

Com quem?…

Uma vizinha, Maricota, do terceiro. Boa gente, vem cá todos os dias.

Mas confia nela, mãe?

Claro, filha! Tem sido um anjo, tirou-me da solidão.

Isabel hesitou, suspirou.

Bem, se está feliz. Só cuide da senhora… e das suas coisas. Desconfie.

Que dizes tu? Maricota é minha amiga, como família!

Não julgo, mãe. Tchau, um beijo.

Beatriz desligou, uma mágoa ardendo-lhe dentro. Nem a filha queria o seu bem. Parece que para eles era mais fácil tê-la sozinha, sem incomodar.

No dia seguinte, Maricota veio com novas ideias.

Beatriz, nasceu-me uma oportunidade! sentou-se, tirou o lenço da cabeça. A tal amiga minha trabalha num termas no Gerês. Há descontos para Abril, dois mil euros por pessoa, baratíssimo! Se começarmos a juntar, vamos juntas, faz bem ao reumático da senhora!

Beatriz nem sabia se aceitava, mas tinha poupanças, o Jorge deixara para dias maus. Dois mil euros para algo de saúde, para sair de casa.

Talvez…

Amanhã vou consigo ao banco, ajudo a levantar, não se atrapalha com essas máquinas. Tratar já!

No dia seguinte, foram à Caixa Geral, Maricota muito alegre, a prometer. Beatriz levantou os dois mil euros, entregou-os.

Dou à minha amiga, trago o recibo.

A papelada nunca apareceu. Era a amiga de férias, depois estavam a tratar, depois mais promessas. Beatriz não reclamou. Maricota seguia a trazer pastéis, a pedir pequenas ajudas.

Beatriz, empresta-me o serviço de chá, sim? A Mariana casa daqui a pouco, quero fazer um mesa digna.

Parecia-lhe demais, mas cedeu, magoada. O serviço dos trinta anos, relíquia da vida.

Maricota saiu, sem olhar para trás.

***

Isabel ligou três semanas volvidas, aflita.

Mãe, anda alguém a mexer nas suas finanças? O pai deixou-me como procuradora no banco… Vi o levantamento dos dois mil euros.

Que interessa, filha? Gasto o meu como quero!

Com a vizinha? Temos receio, mãe…

Não implique! Maricota é quem se lembra de mim, vocês só telefonam. Adeus.

Desligou, chorando de raiva. Doía não ser compreendida, julgada incapaz.

Maricota vinha menos vezes, sempre atarefada, a prometer resolver tudo. As noites, Beatriz já não dormia, o peito apertado entre a dúvida e a vergonha. Sabia, nos seus fundos, que se enganara. Não ligou a ninguém, orgulhosa.

Num sábado, a filha apareceu, com genro e netas, passaram a tarde, tentaram cozinhar juntas, trazer alegrias de volta. Falaram tudo, puseram o passado em pratos limpos:

Mãe, a vizinha já fez isto a outras, a polícia já conhece. Por favor, não peça mais nada.

Beatriz escutou, o medo a vencer o orgulho.

Têm razão. Fui ingénua. Perdoem.

O genro mudou a fechadura. A neta ajudou a arrumar a loiça. Isabel deitou-se a seu lado, abraçou-a. O coração de Beatriz aqueceu um pouco.

No dia seguinte, Maricota voltou, caixa dos copos às mãos, cara amarrada.

Toma, fica lá com a tua loiça. Só me deste trabalho e chatices! Agora vê lá se te desenrascas sozinha, ingrata.

Entrou, atirou a caixa ao chão. Quase tudo partido. Beatriz só chorou baixinho, o neto a ampará-la.

Levantar-se demorou. Mas aos poucos aceitou a ajuda da família jantares juntos, fins-de-semana no campo, telefonemas diários, chávenas de barro, conversas sinceras. O serviço de porcelana ficou no lixo, mas ninguém a deixou sozinha.

Com o tempo, Beatriz aprendeu a perdoar a si própria. Renovou laços com aqueles que importavam, compreendeu que a solidão trai facilmente o coração humano e que, mesmo com cicatrizes, há sempre lugar para consertar o que a vida partiu.

As fendas do broche, do serviço, do orgulho tudo continuava visível. Mas como bem disse a neta, pode-se colar, avó, fica mais bonito, porque agora tem história.

E ao lembrar esta história de há anos, ainda sinto na boca o gosto forte do chá, dos pastéis de couve, dos silêncios tropeçados, dos risos e, acima de tudo, da esperança persistente, como uma chávena colada nunca perfeita, mas inteira.

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