A Família do Meu Marido Apareceu de Surpresa na Minha Casa de Campo para “Descansar” – Em Vez de Rec…

Então, estás à espera de quê? Anda lá, abre o portão, que temos visita! a voz da sogra, aguda e mandona, abafa até o barulho da roçadora do vizinho. Viemos com coisas boas, e alegria, e vocês aí trancados que nem num abrigo!

Leonor para no meio do canteiro de morangos e passa o dorso da luva pelo suor da testa. As luvas, já completamente sujas de terra vinha, deixam-lhe uma pequena marca escura na pele, mas a última coisa que lhe preocupa é a aparência. Endireita-se, sente a lombar a protestar e olha para o portão de ferro alto.

Este encontro não estava, nem de longe, nos seus planos.

Leonor troca olhares com o marido. Rui está junto ao barracão, martelo na mão e cara de quem partilhava exatamente a mesma surpresa. Ele limita-se a encolher os ombros, calado, como quem diz Eu não convidei ninguém.

Ó Ruízinho! ouve-se de novo, já com um tom magoado. A mãe veio, a tua mana veio, e vocês nem dizem olá!

Leonor suspira fundo, tira as luvas e atira-as para o balde. Lá se vão os fins de semana perfeitos que tinha sonhado, de meter as mãos à terra no seu refúgio de seiscentos metros quadrados. Faz sinal ao marido: já não vale a pena, é só abrir.

Assim que o portão se abre, entra um SUV prateado a brilhar e salta dali a família toda, como se estivessem a conquistar território. À frente, como sempre, vem D. Augusta volumosa, barulhenta, de vestido estampado colorido e chapéu de abas largas. Atrás, Sónia, a cunhada, de calções brancos e top, mostrando unhas recém-arranjadas. Por último, Pedro, o marido de Sónia, com ar de tédio e a espreguiçar-se ao sol.

Do porta-bagagens aparecem sacos de carvão, grades de Super Bock e carne temperada em caixas plásticas.

Cruz credo, que calor! suspira D. Augusta, abanicando-se com o chapéu. Leonor, filha, estás com um ar todo sujo! Viemos fazer-te uma surpresa. Liguei ao Rui, não atendeu, pensei: olha, vamos lá, ver se se anima o ambiente, fazer uns grelhados e dar uns mergulhos. Não é aqui perto o rio?

Leonor contempla aquela cena de festa. Sente o sangue a ferver. Aquela quinta veio-lhe da avó, o seu cantinho, espaço sagrado, onde cada centímetro conhece como a palma da mão. Ao casar com o Rui, o terreno estava ao abandono e, nos últimos três anos, foi ela que ali investiu cada cêntimo e cada gota de energia. O Rui ajudava, mas sem grande entusiasmo mais por obrigação. Já a família dele só aparecia quando tudo estava bonito, para se servirem das frutas e descansarem na rede.

Olá, D. Augusta Leonor esforça-se por manter a voz lisa. Que bela surpresa, realmente. Nós, na verdade, estávamos a trabalhar.

Trabalho nunca foge! ri-se Pedro, tirando a caixa de cerveja. Fins de semana servem é para descansar. Anda Rui, vai buscar o grelhador, que hoje é dia de relaxar!

Sónia já inspecciona o quintal.

Leonor, e os espreguiçadeiras? Quero apanhar sol. E olha, já tens framboesas prontas? Posso provar?

Ainda estão verdes responde Leonor, seca. As espreguiçadeiras estão no barracão. Estão com pó.

Então o Rui limpa e põe cá fora! decide a sogra, já a subir à varanda. Leonor, lava essa cara, compõe-te. Não se faz, a dona da casa parecer empregada. Prepara aí a mesa, que viemos cheios de fome. Faz aí uma saladinha com esses teus pepinos e salsa. A carne é com os homens.

D. Augusta instala-se na cadeira de verga que Leonor comprou para ler ao pôr-do-sol e examina a propriedade.

A relva junto ao muro está uma selva comenta. Depois o Rui que corte.

Leonor olha para o marido. Rui troca o peso de um pé para o outro e nem tenta encará-la. Ele sabe bem que tinham o fim de semana todo planeado: abrir espaço para as novas plantinhas, pintar o muro, arrumar a estufa velha. Até tinham encomendado, para aquela tarde, um carregamento de estrume. Agora exigiam-lhe que deixasse tudo para se pôr à mesa a servir os ilustres convidados, que tratavam a sua terra como se fosse estância turística.

De repente, Leonor sente-se estranhamente calma, como se algo lhe clicasse por dentro.

Rui chama, fria. Ele estremece. Vem cá, por favor.

Vão até ao fundo, junto ao poço.

Sabias que vinha aí esta multidão? sussurra Leonor.

Juro que não! diz Rui em voz baixa, assustado a olhar para a mãe. Perguntou-me onde estávamos, disse-lhe que estávamos cá, mas nunca falou em aparecer. Mas agora também não os vamos pôr fora, pois não? São família Aguenta mais um bocadinho, relaxa, fazemos um grelhado

Aguenta? Leonor solta um sorriso irónico. Rui, o fim de semana passado não viemos porque a tua mãe pediu boleia para o shopping. O anterior foi o aniversário da Sónia. Agora era crucial trabalhar. Se não faço hoje o que planeei, perco a sementeira, e o muro apodrece até ao outono.

Oh Leonor

Chega de oh Leonor. Esta quinta é minha. E aqui mando eu. Eles querem almoçar? Querem descansar? Óptimo. Trabalho ao ar livre faz bem.

Dirige-se decidida ao barracão. O estrondo das ferramentas cala todo o barulho no alpendre. Daqui a um minuto, Leonor volta com três enxadas, um ancinho, uma foice e uma lata de tinta.

Meus caros convidados a voz de Leonor firme, quase cortante já que vieram sem convite, vamos aliar o útil ao agradável. Hoje há mutirão.

Mutirão? Sónia recua horrorizada da enxada. Estás a gozar, não? Viemos para relaxar!

E eu não sou vossa animadora nem cozinheira Leonor riposta. Vim para trabalhar. Quem quiser ficar, trabalha. Quem não trabalha, não come. Já o diz o povo.

D. Augusta, de boca aberta a meio de uma dentada na maçã, nem acredita.

Leonor! Que falta de vergonha! Somos visitas! Viemos ver o filho! Rui, diz alguma coisa. A tua mulher ficou maluca, quer que a própria sogra pegue numa enxada!

Rui chega-se à varanda, ao lado da mulher, sem dizer palavra.

D. Augusta, Leonor toma a dianteira vamos evitar dramas. O terreno está no meu nome, herdei da minha avó muito antes de me casar. Vocês sabem bem disso. Eu sou a dona, o Rui ajuda porque somos um casal. E vocês limitam-se a vir quando está tudo bonito, só para se servirem. Querem grelhados? Aqui está o serviço.

Começa a distribuir as ferramentas, indiferente às queixas.

Pedro estende-lhe uma enxada, o homem ainda com a cerveja na mão. Ficas encarregado do talhão junto ao muro. A terra aí é pesada, precisa braços de homem. Quando estiver tudo cavado, pensa-se no grelhador.

Pedro engasga-se.

Mas Leonor! Estou de férias, tenho problemas nas costas

Isso melhora a cavar. Esta enxada até é ergonómica. Sónia! a cunhada encolhe-se na cadeira. Tens o ancinho. Juntas toda a erva cortada atrás da casa e levas para a compostagem. E ainda arrancas as ervas das cenouras. Sempre disseste que querias bronzear as costas, aí tens a solução.

Nem pensar! grita Sónia. Fiz manicure ontem, dei quarenta euros! Mãe, faz alguma coisa!

D. Augusta ergue-se e faz frente a Leonor.

Basta! Rui, tira isto daqui já! Vamos preparar o almoço. E tu aponta Leonor se não nos queres cá, diz de caras. Agora, por velhos a trabalhar na tua horta, é um ultraje! Somos pessoas de idade!

D. Augusta, na semana passada gabou-se que aguentou três horas de zumba rebate Leonor. Acho que resiste a pintar o gradeamento do canteiro. A tinta nem cheira, o pincel é novo. Força.

Vamos embora! berra Augusta. Pedro, pega nas coisas! Nunca mais meto cá os pés! Rui, olha bem para quem escolheste para casar! Uma autêntica megera! Expulsa a família!

Leonor cruza os braços e mantém-se firme.

Ninguém expulsa ninguém. Proponho uma troca justa. Se ajudarem, hão de ter o almoço. Se não, não estorvem. Eu não nasci para passar o dia na cozinha enquanto vocês dormitam. Tenho horários.

Rui! lança Augusta, quase a chorar. Diz alguma coisa! És homem ou lenço de papel?

Rui olha para o rosto encarnado da mãe, o beicinho da irmã, o cunhado a tentar esconder o engradado de cerveja, e depois para Leonor. Exausta, transpirada, mas firme. Lembra-se das noites que ela passa a desenhar os canteiros, da felicidade com cada ramo novo, das conversas sobre a estufa nova.

Mãe diz Rui, tranquilamente. A Leonor tem razão.

O quê?! gritam todos.

Ela tem razão ganha voz Rui. É a quinta dela. Viemos para trabalhar. Prometi-lhe ajuda. Vocês caíram de paraquedas. Se querem descanso, vão ao parque de campismo, é ali a cinco quilómetros. Lá têm bungalows, espreguiçadeiras e serviço de mesa. Aqui, há trabalho.

Fica um silêncio só interrompido pela abelha na peónia. Augusta fica sem palavras. Sente o golpe do filho pior que de um enxadão.

Bem sussurra, por fim. Obrigadinho, filho. Deste valor à tua mãe. Vamos Pedro, arruma tudo! Não temos de respirar o mesmo ar destes forretas.

A azáfama da partida é tanta que até a poeira do caminho fica a pairar. Pedro, com pena, mete a cerveja de volta. Sónia bate com a porta do carro, Augusta antes de fechar lança a Leonor um olhar de maldição.

Um dia hão de ver! Quando precisarem de mim, morram à sede!

O carro arranca, deixando um rasto de pó no portão.

Leonor e Rui ficam imóveis no meio do quintal. O silêncio tem agora sabor de vitória. Leonor sente finalmente os ombros a relaxar e as pernas, de repente, bambas, senta-se nas escadas da varanda.

Rui senta-se ao lado, pega-lhe na mão quente e húmida.

Estás bem? pergunta.

Agora sim Leonor suspira. Achei que hoje dava as últimas, ou me faziam uma macumba.

Pragas devem ter rogado, sim ri Rui. Ela amua, mas depois passa-lhe. A Sónia é mais teimosa.

Isso aguento eu Leonor encosta-se a ele. Obrigada por me apoiares. Achei que ias ficar calado, como sempre.

Calado por mais quanto tempo? Rui encolhe os ombros. Eles nem perguntam como estamos. Só querem servir-se. Tu aqui a ralares-te. É uma pouca vergonha. Esta é a tua casa. Conheces cada pinto.

Leonor sorri.

Nossa casa, Rui. Se estiveres disposto a trabalhar tanto nela como a comer grelhados.

Estou acena solenemente. O Pedro largou a enxada a meio. Vou acabar o canteiro. Disseste que era importante.

Rui vai buscar a enxada, decidido. Leonor vê-o afastar-se, orgulhosa. Pela primeira vez em muito tempo sente que são uma equipa, não simples coabitantes.

Ergue-se, sacode as calças. Há muita coisa para fazer enquanto o sol não se põe, mas nada lhe parece demasiado.

Uma hora depois, Rui, suado, terminava a terra mais difícil. Leonor aproxima-se com uma jarra de limonada fresca.

Pausa ordena ela.

Sentam-se na mesma varanda, onde ainda há pouco houve tanta confusão.

Sabes Rui reflecte com um gole eles nunca perceberam.

O quê?

Que o problema não era o trabalho. Se tivessem perguntado Em que posso ajudar?, tínhamos quase os tratado como reis daqui a umas horas. Mas não. Vieram, e pronto.

É uma questão de respeito, Rui. Não se entra em casa alheia de sapatos sujos. E não se acha que o esforço dos outros é garantido.

O telemóvel do Rui vibra.

Mensagem da minha mãe torce o nariz. Diz: Estamos no parque, quartos caros e comida péssima. Não têm vergonha nenhuma!

Leonor desata a rir.

Ao menos estão a descansar, sem ancinhos e enxadas.

E sem os nossos grelhados completa Rui. Olha, ainda temos carne para assar?

Levaram tudo. Mas ficou batata nova, umas ervinhas e uma boa posta de carapau. E paz.

A noite desce suave sobre a aldeia. Ouve-se o grilar dos grilos e, ao longe, um cão lá do outro lado do muro. Leonor e Rui terminam de pintar o muro ao lusco-fusco. Sujos de tinta e exaustos, jantam na cozinha batatinhas com azeite e pão fresco. Nada lhes saberia tão bem.

Dizes que aprendemos alguma coisa? pergunta de repente Leonor, mergulhando o pão no azeite perfumado.

Nós e eles. Aprendemos a dizer não. Até custa, mas sabe bem.

Assusta. confessa Rui. Mas o resultado compensa. Olha, que tal para a semana não recebermos ninguém? Só eu e tu. E nada de enxadas. Só descansar.

Combinado anui Leonor. Mas a estufa sai do sítio nem que seja à unha.

De repente, o barulho de um carro assusta-os. Leonor fica tensa, o garfo a meio caminho. Terão regressado? Rui espreita pela janela.

Nada, é só o vizinho Joaquim, lá para o fundo.

Leonor ri muito. Ali acabou o sobressalto. Esse dia provou-lhe que o marido é de confiança, e que a quinta, afinal, resiste até à mais teimosa das invasões familiares.

Mas a história não termina aqui. Na semana seguinte, quarta-feira à noite, já na casa da cidade, tocam à campainha. Leonor abre. Do lado de fora está D. Augusta, sem chapéu, sem Sónia, só um saco na mão. Tem uma timidez estranha no olhar.

Posso entrar? pergunta, hesitante.

Leonor, surpreendida, afasta-se.

Entre, D. Augusta.

A sogra senta-se na cozinha, pousa o saco.

Trouxe empadas de couve, fiz eu.

Rui aparece à porta do quarto, surpreendido.

Olá, mãe. Aconteceu alguma coisa?

Aconteceu. Que me bateu a vergonha suspira Augusta. Andei toda a semana sem conseguir dormir. A minha vizinha Zélia contou-me como a nora dela a pôs na rua por se meter de mais. E pensei: Sou igual. Apareci, mandei, critiquei. E vocês ali, a trabalhar. A tua avó, Leonor, ficaria orgulhosa de ti, a quinta está um mimo.

Fica a mexer no saco.

Bem, perdoem a velha cabeça dura. O meu Ruízinho sempre me ouviu, agora cresceu. E a mulher tem fibra, ainda bem. Nos tempos que correm, é preciso.

Leonor olha para Rui. Não esperava um pedido de desculpa. Discussão, sim; mas não desculpas.

Não se preocupe, D. Augusta diz Leonor, pondo o bule a ferver. Quem vive de mágoas não é feliz. Só lhe peço compreensão: também temos vida, e planos próprios.

Já percebi apressa-se Augusta. Nunca mais apareço sem avisar. E não dou mais palpites Quer dizer, só se pedirem. Já a Sónia, está de trombas. Diz que até podia ter estragado as unhas, vê lá. Mas os jovens aprendem.

Essa noite, beberam chá e comeram empadas, numa conversa a tropeçar, mas amistosa. Os limites impostos por Leonor naquele sábado não quebraram a família até a fortaleceram. Respeito conquistado com enxadas vale mais do que sorrisos fingidos.

Na quinta, as enxadas ficaram bem à vista. Para toda a gente lembrar: o trabalho faz crescer, e os folgados aprendem mais ao calo do que ao sermão. E daí em diante, até a família passou a telefonar antes e logo a perguntar: Precisas de alguma mãozinha?

A vitória ficou para Leonor. E à sombra do marmeleiro, já ninguém se atrevia a pôr os pés sujos.

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