Maricota, vamos chegar atrasadas!
Já vou, pai! saltei ao pé-coxinho, tentando enfiar a última meia.
As meias eram uma risota. Uma cor-de-rosa e a outra verde. A tia Catarina ofereceu-me. Também me deu estas sapatilhas igualmente desalinhadas. Diz que agora é moda.
Às palavras da minha tia eu dou crédito. Sempre foi uma mulher cheia de estilo. Costuma dizer que, se a natureza não te fez linda, compensas em charme, personalidade ou qualquer outra coisa.
Sobre isto, não concordo nem discordo totalmente da Catarina. Então o quê? Só porque não sou propriamente igual às moças giras das revistas? Muito magra, seca como vime, como a avó gostava de me chamar, de cabelo escuro e olhos cinzentos, a Catarina tinha um brilho tão único que eu só me ria quando passeávamos juntas na rua.
Achas que ninguém repara em ti? Olha ali, estão todos de pescoço torcido a olhar!
Quem? e ela, a girar sobre os pés, a fingir procurar.
Era de chorar a rir. Coitada da Catarina, sempre tão ingénua. Eu, ao pé dela, sentia-me quase adulta.
A sua inocência fascinava-me.
Disse-me que gostava de mim, Maricota! E agora?! Não sei o que faço!
E tu, gostas dele?
Ui! Muito! Mas tenho medo…
Medo de quê?
É demasiado bonito. Todas as raparigas lá do escritório estão doidas por ele. Não sei porque há de interessar-se por mim. Parece surreal!
Catarina, tu és especial! Bonita e esperta! Porque não irias agradar-lhe?
Era uma pergunta trágica. Por mais que tentasse abanar-lhe aquela insegurança, nunca o consegui. Dava comigo a perder a paciência e até a ir às lágrimas, mas não havia nada a fazer.
Filha, a vida inteira dela foi assim disse o meu pai, Manuel, abanando a cabeça, ao tentar consolar-me.
Mas porquê, pai? Quem lhe fez isso? Não me deste essa educação!
Eu não… Mas os professores eram outros.
A Catarina? Estás a falar da avó, não é? Nunca dizes à frente mas eu percebo… pensei bem alto.
O que queres que diga, filha? Que a minha mãe não soube criar a própria filha? Isso não resolve nada. Sabes bem a importância de respeitar os pais. Fui criado só pela minha mãe, sem pai. Depois veio o António, o padrasto. Sempre o vi com carinho e respeito. Ele foi mais pai que qualquer outro. Esperou sempre até eu me habituar e depois tornou-se tudo aquilo que não consegui compreender em miúdo. Fundamentalmente, não deixou a minha mãe meter-se na minha educação. Dizia: Os rapazes devem ser educados por homens.
E a Catarina, pai? Porque não interveio com ela?
Quis… mas era daquele princípio dele: com rapariga é diferente. Por isso, foi a mãe que a educou como achou melhor. Havia motivos, filha. Nunca julgues com aspereza. A tua avó tremia só de pensar que à Catarina podia suceder algo. Andava com ela pela mão até ao fim da escola. Lembro-me bem… Foi uma gravidez difícil, viveu meses internada, eu e o meu padrasto solidificámos a relação nessa altura. Até hoje não esqueço o que o António me ensinou. Era reservado, não era de palavras. Não o conheceste, e é pena.
Não tenho lembranças, pai… Só daquele cavalinho de madeira que ele fez para mim.
Isso! Enquanto esperávamos por ti, andou semanas a fazer o cavalinho. Até doente estava… Trabalhava, apressava-se, com medo de não acabar a tempo.
Onde está?
No sótão. Quando houver netos, volto a buscá-lo.
Oh, pai!
Rimo-nos os dois, ele a inventar desculpas, a respirar fundo de cada vez que a conversa ia para caminhos difíceis. Em nossa casa nada era fácil. Catarina, em pequena, dizia que a nossa casa era feita de papel.
Porquê de papel, Caty?
Estudante do décimo ano, magricela, com borbulhas e sempre ocupado, encontrava tempo para a irmã pequenina.
Porque parece esta flor de papel que fizeste! E rodava no dedo um cravo de origami feito por mim. Tão bonito! Mas se faço assim…
Pousou a flor na palma e bateu com a outra mão: esmagou a florzinha.
Para quê?! Olhei para ela, chocado.
Vês? Ficou vazia por dentro. Faz-me outra!
Vais esmagar também?
Não. Ora vê…
Com esforço, começou a encher a flor pelo buraco com plasticina de cores, enchendo todos os espaços.
Vês? Agora não a consigo esmagar. Pode ser de papel, mas está forte. A nossa casa, que é de papel, falta-lhe a plasticina por dentro.
Fiquei parvo com a profundidade da miúda.
Aprendi a fazer as flores com a Alina, colega do liceu, que era incapaz de estar quieta durante as aulas.
Tenho as mãos irrequietas, faço sempre qualquer coisa quando penso.
No fim da aula, surgia na carteira um origami um grou, um sapo ou um ramo de cravos de papel. Os professores nunca ralhavam: era excelente aluna. Desde que aprenda, não faz mal à papelada…
Eu guardava os trabalhos dela e levava a casa para a Catarina, que ficava maravilhada.
Como se faz?
Queres que peça à Alina para te mostrar?
Quero!
Lá pedia eu à mãe para ir com a Catarina ao parque. Trazer a Alina a casa era impensável, a minha mãe nunca aceitaria.
A minha mãe, Rosa Amélia, era uma mulher rígida. Às vezes até de mais. Eu gostava dela, desculpava-lhe tudo dizendo que era por preocupação.
Manuel! Tens de pensar no futuro! Ninguém te deve nada! Fui tua mãe, fiz o que me cabia. Agora és tu sozinho. Ainda tenho a Catarina. Não contes com o António, não é teu pai. Espero que entendas isto.
Nunca discuti, embora, cá dentro, soubesse que, se algo corresse mal, o António estaria lá sempre. Deixei de lhe chamar padrasto: era o meu verdadeiro pai, mesmo com poucas falas, mas cheio de actos.
Via bem que as conversas que ela tinha comigo só quando o António não estava, não seriam toleradas por ele.
Ela era mãe galinha, mas de garras sempre expostas. Quando a Catarina nasceu, deixou o trabalho só para a poder ir buscar à escola, aprendeu a conduzir para a poder levar aos treinos não queria que fosse sozinha. E eu, quando a Catarina cresceu, já tinha a minha vida.
E eram tantas coisas nessa vida… Alina… E depois a nossa filha, Mariana, o escândalo da avó Rosa, que não contava ser avó antes de eu fazer sequer vinte e cinco anos.
Manuel! Para quê tudo isso? Tão cedo, tão precipitado, diplomas à porta! O nervosismo dela era um espectáculo: braços cruzados, a tremer ligeiramente, de cada vez que falava connosco.
Mãe, já sou crescido. A Alina espera um filho meu.
Podiam ter-se protegido! Agora ainda vais a tempo…
Chega, mãe. Não digas nada que não consigas voltar atrás. Já ouvi o suficiente. Vou considerar que estás só em choque. Pensa no que te disse.
Saí da cozinha, despedi-me da Catarina e fui ao quarto do António.
Ele estava doente há meio ano. Silencioso, sofria sem queixar-se, só a mim desabafava às vezes.
Apertou-me a mão com mais força do que o habitual e pôs na minha palma a chave da casa dele.
O resto trato esta semana. Para a tua mãe e para a Catarina fica a casa na aldeia vão valorizar os terrenos, não ficam mal servidas. Tu, meu filho, faz a tua casa. O teu filho precisa de um lar seguro. Entendes?
Entendo, pai… obrigado.
Nunca chegou a ver a Mariana. Ela nasceu uma semana depois de ele partir. Foi um choque silencioso, cheio de dor calada.
Desde sempre me coube ser chefe de família. A Catarina aliviou um pouco. Ela sempre soube que eu guardava aquele cravo de papel na prateleira do escritório.
Para quê? punha o dedo nas pétalas, sentindo o peso da plasticina velha.
Para não me esquecer do que devo fazer.
O quê?
Preencher a vossa vida de algo sólido, não de vazio. À Alina e à Mariana… e a ti e à mãe também.
É difícil, mano. Ela nunca vai ouvir.
Ao menos tento.
Sim… tentar podes… suspirava Catarina e mudava de assunto.
Nunca quis que eu discutisse com a mãe.
Com a Rosa Amélia era complicado. Após a morte do António, fechou-se numa concha. A Catarina não percebia bem, mas eu sabia perfeitamente já tinha visto esse processo, quando era pequeno e o pai abandonou a minha mãe. Mesmo pequeno, lembro-me do estardalhaço dela, a atirar com o vaso de cristal favorito à parede, depois a apanhar os cacos a ralhar comigo. E dos intermináveis castigos, da carência, dos beijos obsessivos. Fui um verdadeiro blindado.
És mesmo de couro rijo, meu filho! Impenetrável! Eu a chorar e tu, nem uma lágrima. Não tens dó da tua mãe? E ela, acalmava-se ao ver que eu mordia o lábio inferior, para não chorar. Não me enganei em ti. Anda cá, a mãe adora-te!
Eu tentava manter a Catarina longe disso. Só se consegue se viver separado da mãe. A Alina era sensível demais, como os brinquedos de papel que fazia.
Filho, já te disse: ao menos a Mariana nasceu saudável! Pobrezinha da Alina, tão jovem e já doente do coração! Isso não era suposto acontecer Trabalhas muito, criança pequena O que valem as escolhas certas, não é?
Aperto os dentes e interrompo:
Mãe, chega. Vamos discutir.
O quê? Eu não quis dizer nada de mal! Sabes que sou frontal.
Demais Pegava na Mariana e saía porta fora, às vezes sem sequer perguntar à Catarina como ia.
Mas ela nunca se queixava. Era igual ao pai: calada, séria, reservada a nós, mãe e irmão.
Com a mãe, tudo era delicado. Amor e confiança andavam sobre gelo fino. Bastava um deslize e partia-se a crosta da segurança, caía-se no abismo da solidão.
A Alina partiu cinco anos depois da Mariana nascer. Uma manhã, não acordou. Eu ia para o trabalho, calado e cuidadoso para não a incomodar. Só percebi porque o bule a ferver me queimou a mão e assustou o gato. Espreitei o quarto… percebi de imediato. O mundo parou, restando apenas um pensamento: Mariana!
Com a peluche favorita da Mariana na mão, caí num pranto animal. Perdi a noção do tempo. Quando consegui levantar-me, fui à cozinha e liguei à mãe:
Mãe, deixa a Mariana contigo mais uns dias, pode ser? Eu ligo mais tarde…
Dois meses, sem saber nada do que fazia. Mariana, a intuir o sofrimento do pai, não largava a minha mão e quase não perguntava pela mãe. Quando reparei nela a sussurrar palavras pela fotografia da Alina no quarto, percebi que sabia tudo.
Não entrei; só a abracei mal saiu.
Quem te disse?
A avó. Disse que te devia poupar e não falar da mãe para não te magoar.
Segurei-a com força, pedi desculpa, expliquei que podia falar da mãe quando quisesse, nunca escondesse nada.
Vi como aquilo lhe doía. Senti raiva de mim, por não lhe facilitar o luto, raiva por não conseguir explicar certas coisas à minha mãe.
A raiva só aumentou depois da Catarina aparecer uma noite.
Naquele dia, pus Mariana na cama e fiquei na cozinha, às escuras, a acariciar o gato e a tentar perceber que fazer àquela vida. Dormia agora num colchão insuflável no quarto da pequena. Era preciso decidir mudar, sair daquela casa, qualquer coisa.
Não ouvira a campainha, só o silêncio absoluto me fez sentir o toc-toc suave.
Depois percebi: se a Catarina se tivesse ido embora naquela noite, se tivesse tomado um comprimido como o médico sugeriu… nem gostava de pensar.
Molhada até aos ossos pela chuva interminável, lançou-se nos meus braços.
Catarina! Que se passa?!
Dói vacilou; peguei nela ao colo, percebi que tinha acontecido algo de grave.
Veio a ambulância. Em pouco tempo, dormia no colchão ao meu lado, sem nada conseguir contar.
Só de manhã percebi: tinha nódoas negras nos braços.
Catarina, quem fez isto?
Não quero falar, mano Por favor.
Catarina, temos de falar. Só assim te ajudo. Foi a mãe? arrisquei.
Ela assentiu, lágrimas nos olhos, encolhendo-se contra mim.
Por favor, não me faças voltar lá agora… Tenho medo.
Enquanto a tentava acalmar, a minha cabeça fervia: ou criava um escândalo ou tentava manter a paz nunca mais nada voltaria ao mesmo depois disto. Finalmente, ela falou:
A mãe descobriu que andava a sair com o Tiago. Lembras-te dele? Aquele meio desgrenhado.
Aquele cabeludo? tentei desanuviar, empurrando-lhe um pão com queijo.
Sim, esse. Mas não temos nada. Só fomos ao cinema e passeámos no jardim. Ele nem tentou beijar-me. E a mãe, desatou a gritar Dizia horrores, fiquei sem saber o que pensar. Senti-me tão má filha… Mas nunca a desobedeci! Ela gritou que eu ia acabar como tu, com um filho sozinha… Desculpa, não devia ter dito isto
Chorou tanto, tão fundo, que me partiu. Era igual, nesse momento, à minha filha Mariana. Peguei nela, sentei-a ao colo:
Vais-me inundar o chão, chorona! Ninguém te volta a magoar, ouviste?
Olhou para mim e repeti devagar:
Ninguém. Nem a mãe. Prometi ao teu pai. Achas que ia romper a promessa?
Abanou a cabeça.
Exacto. Ele ensinou-me o que é ser homem e homem cumpre o que diz. Vais cuidar da Mariana? Ela acorda já. Dá-lhe o pequeno-almoço. Eu vou ter com a mãe.
Não vás! levantou-se agitada.
Vou. obriguei-a a sentar-se, entreguei-lhe o lanche e mandei-a lavar a cara.
A conversa com a mãe foi dura. Revoltada, chorona, implorou-me para levar a Catarina.
Mãe, ela fica comigo.
Interrompi as tentativas dela:
Fica já. Tu também precisas de tempo.
Mas as aulas as provas… Estamos quase a fechar época de exames…
Ouve-te, mãe! E se não tivesse vindo ter comigo?
Pensei que estivesse em casa…
Pensas tanto nos controlos que te esqueceste de que ela é uma pessoa! Não somos bonecos. Somos família! Quando foi a última vez que perguntaste como eu estava desde que a Alina morreu? Sim, ajudas muitas vezes com a Mariana e eu agradeço-te. Mas tratas-me como subordinado. Com a Catarina é igual. Sabias que ela quer ser veterinária? Não médica, mãe. Veterinária. Porque é isso que ela quer! E vai sê-lo. Vou ajudá-la, custe o que custar!
Não podes decidir por ela! Eu sou a mãe!
E isso permite-te partir-lhe o coração? Se continuas, acabas sozinha. Não é chantagem, é aviso. A Catarina fica comigo nunca ficará perdida. Pensa, mãe!
Deixei-a com um beijo na testa, desci as escadas e sentei-me a olhar cada degrau. Que ironia, correr para cima e para baixo a vida toda, sem saber quantos degraus havia ali…
O telefone tocou, levantei-me e, de cabeça erguida, contei os degraus até cá abaixo. Agora já sabia o que fazer.
A estratégia resultou. A minha mãe não resistiu ao silêncio por muito tempo. Dois dias depois, apareceu em casa a pedir desculpa à filha. Não foi fácil. Durante anos, a relação delas foi aos solavancos. Rosa Amélia esforçava-se, mas sabia que já não tinha crianças. Agora, na cabeça dela ecoava: Eles estão juntos, e eu?
Catarina licenciou-se e entrou para uma clínica de renome. Mariana ria-se ao ver o desespero do pai sempre que aparecia mais um paciente em casa.
Catarina! Isso é uma jiboia!
Não faz mal nenhum! Olha que bicho amoroso. Toca, se fazes favor! O dono vem buscá-lo para a semana. O Jorge fica triste sozinho.
Jorge? Até nome tem?
Nem outra coisa se esperava!
Mariana ria, ameaçava seguir as pisadas da tia.
Nem penses! eu, em falso protesto, agarrado à cabeça.
Trabalho, casa, encontros tímidos com a mãe. Catarina parecia viver em modo automático. Mariana pedia que eu a apresentasse às minhas amigas, mas nunca resultava.
E de repente a notícia!
Quero apresentar-vos o meu namorado. Mas nada de gozar, ok?
Catarina! Dá mais vontade de chorar de emoção! Mariana abraçava-a.
O sapatinho direito, que o paciente da tia andara a arrastar pela casa, apareceu debaixo da cama do meu quarto. Mariana calçou-a num instante e veio disparada.
Estou pronta!
A sério? olhei-lhe de lado, encolhendo os ombros. Já não vale a pena tanta pressa. A Catarina não nos perdoa o atraso!
Pai, relaxa! Ainda temos meia hora!
Vimos o casal a vir pela alameda do jardim.
Pai, é ele? É mesmo o desgrenhado?
Mariana cochichava alto; Catarina franzia o sobrolho e fazia-lhe sinal para se calar.
Tiago.
Manuel.
Aperto de mão, um sorriso, um aceno de cabeça.
Mariana.
O desgrenhado! Tiago riu, pousando um olhar terno na namorada. Caty, não fiques assim! Sorri! Quero ver-te sorrir para sempre. Uau, que sapatilhas giras! Também queria umas assim.
Mariana trocou olhares comigo e riu, só então reparando no brilho diferente nos olhos da tia. O aço dera lugar à prata. Era lindo. De tal maneira que bateu palmas, espantando o futuro tio.
Que foi? Nesta família somos todos um bocadinho malucos. Vais ver!
Agora já estou tranquilo, já vejo que me encaixo na vossa… como dizer?
Família, Tiago. Chama-lhe família! Mariana piscou o olho à tia e agarrou-se ao braço do pai.







