Calor Escaldante. Catarina

Calor. Catarina

Casaram-se Miguel e Mariana apenas dois anos depois de se conhecerem.

Avançavam para a sua felicidade com tímida cautela, quase de mansinho, medindo cada passo, cada palavra. Não era de estranhar. Depois de terem visto na vida que sentimentos podem ser ilusórios e que o amor, muitas vezes, não chega logo nem fica para sempre, tentavam perceber se aquele sentimento encontrado depois de dores e perdas valia mesmo a entrega.

Dona Amélia também se calava. Não queria assustar aquela felicidade do filho, que mudara tanto. Os ombros reergueram-se, os olhos brilhavam, e quando ia ao encontro de Mariana, Miguel parecia sempre pronto a pedir-lhe a mão na conservatória do registo civil.

Ao contrário de outros casos, Miguel apresentou Mariana à mãe quase de imediato. E Dona Amélia, no princípio, observava Mariana com alguma inquietação, mas não encontrava nela nada que lhe lembrasse Inês, o antigo amor de Miguel. Até recusou mudar-se logo para casa do noivo.

Não, Miguel, não é preciso. A Dona Rosa não entenderia. E eu estimo muito a opinião dela, fez tanto por mim E anda doente, precisa de ajuda. Deixa tudo como está, para quê apressar?

Miguel, com relutância, acedeu. Mas o namoro deles não esfriou com isso. Ao contrário, aquele namoro longo foi um pretexto para se conhecerem melhor.

Mariana acabou por mudar-se para a casa de Dona Amélia pouco antes do casamento, e mesmo assim, por força das circunstâncias.

A Dona Rosa, a velha senhora que a recebera em casa, partiu.

Já há tempos que se queixava do coração. Mariana acompanhava-a de consulta em consulta, aliviou-lhe as tarefas, ajudava no que podia, mas só conseguiu adiar o inevitável. Um dia, ao chegar a casa, Mariana encontrou Dona Rosa sentada na sua pergola, carta do neto nas mãos. Chamou-a uma, duas vezes, e só ao chegar perto percebeu que a idosa já não respirava.

Veio o INEM nada a fazer.

Ligou a Miguel e aos filhos da Dona Rosa, depois chorou muito, sentada na pérgola, a recordar como tinham vivido, os passeios ao rio, as compotas feitas a quatro mãos na cozinha de verão minúscula, as noites de cantigas. Como Dona Rosa a acolhera de braços abertos, sem perguntas nem bisbilhotices, numa fase em que Mariana nada tinha e precisava tanto de alguém.

Obrigada sussurrava Mariana, sempre a agradecer a quem primeiro lhe estendeu a mão e abriu o coração quando mais precisou.

Os filhos de Dona Rosa chegaram no dia seguinte, com famílias. O mais velho, depois de resolvidas as inevitáveis tarefas, chamou Mariana de lado.

A mãe queria que deixássemos parte da casa para ti. Para que vivesses aqui, tomando conta. Nenhum de nós pretende mudar-se. Deixou testamento. Eu e o meu irmão não nos opomos. Se não fosses tu, a mãe teria terminado aqui sozinha. Estamos muito agradecidos por tudo.

Não, não consigo, nem quero abanou a cabeça Mariana. Esta é a vossa casa. Se precisarem que a vigie, faço-o, mas só vocês devem ficar com a herança. A vossa mãe amou-vos muito.

Eu sei isso…

E assim ficou decidido. Mariana achou inquilinos para a casa e mantinha contacto com os filhos de Dona Rosa, quando vinham passar férias ao norte.

E foi uma das noras de Dona Rosa a acudir Mariana quando, seis meses depois do casamento, a jovem foi parar ao hospital.

Gravidez ectópica. Têm mesmo de cuidar da saúde, minha senhora! avisou-lhe o médico, balbuciando os riscos com um dedo. Ainda bem que a sua mãe estava consigo! Podia ter corrido muito mal!

Não é mãe, é sogra. Mas sim, é como se fosse.

Já tiveram outros problemas?

Sim…

Se querem ter filhos, convém investigar bem e tratar as causas. Ou temo que só a fertilização in vitro possa ajudar.

Percebi…

Mariana não chorou. As lágrimas ficaram para outro momento. Agora, era mais importante decidir o próximo passo. Queria ter filhos com Miguel. Por instantes, o desejo quase se tornou obsessão.

Mas foi Dona Amélia quem veio travar esse ímpeto.

Mariana, falamos um bocadinho? perguntou numa tarde, sabendo que Miguel estava fora, em trabalho em Braga.

Miguel e Mariana já viviam sozinhos. Compraram logo após casar um pequeno apartamento. Nessa altura, Miguel já tinha dinheiro para tal. Os negócios corriam tão bem que Dona Amélia pensava em investir numa guesthouse.

Os pais de Mariana, entretanto reconciliados com a filha, quiseram ajudar, mas Miguel recusou.

Deixa, Mariana, prefiro sermos só nós. Gosto dos teus pais, mas quero ser eu a garantir o nosso lar.

Mariana explicou ao pai, que apertou a mão ao genro.

És um orgulho para a tua mãe, rapaz!

E Dona Amélia aceitou a escolha. Como também aceitou que não tardassem a pensar em ter filhos.

Só que, ao ver o filho tenso e a nora perdida entre clínicas, Dona Amélia receou pela felicidade do jovem casal e decidiu intervir.

Mariana, desculpa se digo algo fora do tom… Eu preocupo-me… Conta-me o que te preocupa. Vejo que estás mal.

Nada dá certo, mãe Não consigo engravidar. E se nunca conseguir? O que faço? Deixo o Miguel. Não posso condená-lo a viver ao lado de alguém que não lhe dá alegria nem sentido.

Não penses assim! Nem sabes o que já mudaste na vida do Miguel. Vê lá, ele voltou a viver! Ter filhos é uma dádiva, mas não é a única. O meu Miguel também veio tarde; pedimos, esperamos e nada. Cheguei a pensar que o teu sogro só estava comigo pelo herdeiro. Ele não me perdoou as dúvidas e quase nos separamos… Vivemos afastados um ano, cada um sem saber da vida do outro. Percebemos a estupidez. O amor de um casal é muito mais do que filhos. O Miguel é igual ao pai. Entendes?

Acho que sim

Então não destruam o que têm. Vocês deram sentido à vida um do outro. O amor resiste a tudo, desde que lhe deem espaço para crescer. Filhos vêm se vierem.

E como conseguiu ser mãe?

Nem eu sei! riu a Dona Amélia entre lágrimas. Quase até o primeiro pontapé ignorava que estava grávida! Pensava que tinha algum problema de saúde. Já tínhamos aceitado a vida sem filhos E apareceu esta surpresa!

Deus queira que eu também tenha uma dessas surpresas… suspirou Mariana.

E porque não ligas à nora da Dona Rosa? É médica competente, pode-te aconselhar!

Mariana bateu na testa, a rir:

Como pude esquecer?

E uma semana depois, rumou a Lisboa para fazer exames. Lá foi bem recebida.

Um ano depois, nasceram gémeos.

A felicidade instalou-se sem pressa em casa de Mariana e Miguel, e pareciam todos convencidos que nela não havia bilhete de regresso.

Meses depois, Mariana e Miguel adotaram uma menina, com plena certeza de não poderem mais ter filhos. A decisão amadureceu devagar, mas a ocasião chegou abrupta. Uma antiga colega de escola de Miguel, mãe recente, soube de uma doença grave. E foi o amigo Afonso que trouxe a notícia à família.

Pobre Matilde… Estamos todos a ajudar com doações para tentarmos que ela vá a Madrid fazer tratamento. Quase todos contribuíram.

Percebi. Agora envio…

A quantia que Miguel transferiu era generosa, e poucos dias depois Matilde seguia para Madrid, acompanhada por Dona Amélia, já que a jovem mãe só tinha uma avó idosa e precisava de ajuda com o bebé.

Infelizmente, os tratamentos apenas suavizaram os últimos tempos de Matilde e permitiram-lhe tomar decisões sobre o futuro da filha.

Pediu a Dona Amélia que ficasse com ela, e foi assim que Mariana e Miguel aceitaram sem hesitar.

E assim uma filha chegou à família.

O apartamento era já pequeno. Os meninos cresciam e era altura de procurar casa maior.

E a Dona Amélia voltou a intervir.

Miguel, temos o dinheiro posto de parte para a residencial. Comprem um sítio maior.

Mas, mãe, e o teu sonho?

O meu sonho está aqui! disse, beijando a neta que ria no colo, e apontando para os gémeos. Agora quero ver crescer estes pestinhas. Ajudar-vos. A Mariana dá conta do recado, mas sei que vais precisar de apoio. Procurem casa, mas que cada um tenha quarto!

E encontraram-na. Um apartamento amplo, luminoso, onde as crianças corriam aos gritos de eco, e Mariana ria vendo os filhos ensinar a irmã a gritar olááá.

Ficamos com ela! decretou Miguel, olhos nos filhos e na esposa.

Só havia um espinho Catarina, a síndica, convencida de que famílias grandes não podiam ser felizes nem deixadas sem vigilância, fosse dos vizinhos, fosse das autoridades. Nunca se sabe!

Nunca vi resmungava Catarina na reunião de condomínio aquela família parece de revista. As crianças andam descalças na entrada! Vi ontem mesmo! E a filha mais pequena dorme sempre quando Mariana sai com ela à rua. Estranho!

Não exageres, Catarina Com o calor, andar descalço é saudável! Qualquer médico diz isso. E visitas não são nenhum crime. Não fazem barulho, não há confusão. Não há razão para alarmes as outras vizinhas sorriam, vendo os filhos de Mariana radiantes a falar de futebol.

Enquanto andam distraídas, as desgraças acontecem! Por fora tudo bonito… por dentro nunca se sabe! Ninguém é assim tão perfeito! E eu vou descobrir a verdade! A vida não permite que tudo seja tão bom. Não pode ser!

As outras franziram o sobrolho, mas Catarina não desistia. A sua infância traumatizada ensinara-lhe a ver sempre nuvens à procura de um raio.

Catarina era filha de funcionários públicos disciplinados. Tanto os irmãos mais velhos como a pequena Catarina foram criados num rigor quase militar. Castigos duros nas noites geladas, joelhos no chão. Por fora, família modelo. As mangas compridas escondiam os vergões. As tranças apertadas de Catarina eram, na verdade, útil para a mãe puxar quando castigava a filha.

Nenhum dos irmãos revelou nunca aquela verdade escondida atrás das paredes da casa respeitável. Quando puderam, todos saíram, rompendo laços para esquecer tanta dor aquela que a mãe infligiu, o pai consentiu e os vizinhos ignoraram.

Catarina não mantinha contactos com os irmãos. Tentavam os três apagar a infância. E nem testemunhos de noites em claro com lágrimas os aproximava.

Nunca conseguiu formar família. A única vez que quase começou uma relação, desfê-la ao ver o namorado levantar o chinelo contra a própria cadelinha, com problemas renais, por ter feito uma poça no tapete.

Nem lhe toques! gritou Catarina, agarrando a cadela e fugindo com tudo o que era seu.

Voltou para o apartamento herdado da avó uma senhora tão teimosa e azeda como a mãe. Catarina sofreu muito a cuidar da idosa até ao fim. Quando morreu, sentiu até alívio.

Laços nunca teve. Desconfiava das gentes, lembrando que ninguém se preocupou quando ela e os irmãos mostravam os sinais de maus tratos. E agora, tentava medir tudo à sua volta pelo menos as famílias grandes, como Mariana e Miguel, eram o seu ponto de obsessão. Ali no prédio, não havia outra como aquela.

Uma tarde, Mariana sentada no banco do jardim, viu a hora e assustou-se. Era tempo de voltar a casa. A filha ia acordar e os meninos tinham compromissos. Em breve, começava o ano letivo; até lá, levava-os às aulas e ao clube de futebol.

Catarina já esperava à porta.

Mais uma vez os teus filhos descalços?! Não tens dinheiro para uns sapatos decentes?

Mariana sorriu. As chuteiras que os filhos calçavam custavam mais caro que os sapatos do próprio Miguel, mas este fizera questão: não se poupa nos sapatos para crianças que tanto jogam.

Achas graça? Isto é sério! São crianças! Tens de cuidar, alimentar, vestir, proteger! Olha para eles!

Catarina corou de fúria com a calma de Mariana, sem um lamento ou resposta.

Mamã, dá água à tia Catarina!

Os gémeos tiraram uma garrafa da mochila da mãe. Mas, de repente, Catarina sentiu-se mal. Tudo ficou escuro, zumbidos de mosquitos e o corpo cedeu no patamar, não fosse Mariana ampará-la.

A ambulância veio depressa, Catarina foi para o hospital. Quando acordou, Mariana aguardava à cabeceira. Deixara os filhos com Dona Amélia, vinda de urgência.

O que… o que se passa? tentou perguntar Catarina, a fala enrodilhada, o medo nos olhos.

Sossegue, dona Catarina! alisou-lhe Mariana a almofada. Foi um AVC. Os médicos tratam tudo, foi o calor Descanse, vai recuperar. Não chore. Não a deixo sozinha.

E cumpriu. Mariana passou a visitar Catarina no hospital e depois em casa. Sabia todos sabiam que Catarina era absolutamente só no mundo, sem ninguém.

Porquê? perguntou Catarina, ainda com dificuldade em falar, ciente de que a pergunta era maior do que parecia.

Porque sim. Assim é o certo. Não é bom estar só. Eu sei disso.

Como?

Já conheci a solidão. Má companhia Mas não tema, nunca mais a deixo. Agora sou eu a tomar conta de si!

Mariana fingiu não ver as lágrimas. Importante era outra coisa. Desde que Catarina adoecera, nunca mais lhe notara aquele olhar duro. Agora, era só uma mulher envelhecida e só, do tempo da mãe de Mariana. E Mariana tinha pena dela. Aquela mulher podia ter tido família, filhos, netos mas restava-lhe apenas a autoridade sobre um canteiro florido com as rosas mais bonitas que Mariana já vira. E se conseguia criar rosas assim, tinha ali uma alma boa, tinha de ter.

Dois anos depois.

Ai Mariana, como aguentas estes diabretes? Tua filha é um anjo mas os rapazes fogo e gelo juntos! dizia Catarina, sentada no parque a olhar para a miúda que tanto adorava.

Tia Catarina, só são dois. O Afonso tem quatro! Quando estão juntos, só apetece fugir de casa! A mulher já reza para o quinto não ser rapaz.

Já sabem?

Não. Esconde-se! ria Mariana. O Afonso diz que venha quem vier, está pronto.

Meu Deus, que calor! suspirou Catarina, mão a tapar os olhos, fitando Mariana. Diz-me, és feliz?

Mariana pensou.

Que é a felicidade? Ter a família perto? Saíam-se bem nesse ponto. Ter saúde? Graças a Deus. Ver os filhos crescerem felizes? Parecia que sim. Então sim, era profundamente, indubitavelmente feliz.

Sou.

Mariana sorriu, e Catarina admirou-se mais uma vez da força dessa alegria.

Até o calor do verão, que parecia nunca acabar em Lisboa, se tornou repentinamente mais brando, como se uma aragem fresca tivesse entrado pela porta aberta.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Calor Escaldante. Catarina