Não Me Arrependo de Nada

– E quero a casa completamente arrumada quando voltar! Dona Olívia Martins saiu disparada para a escada e bateu a porta com tanta força que até os vidros do prédio estremeceram.

A Inês, que naquele momento descia as escadas, também estremecia. E parou ali, imóvel, a rezar para que a vizinha não a visse. Puro engano, claro. Reparou nela imediatamente.

– Ah, Inêsinha Bom dia!

A senhora pousou apressadamente no chão uma caixa de cartão que antes guardava uma panela elétrica e começou a fechar à pressa os botões do casaco. Notava-se que estava com pressa para ir para algum lado.

– Bom dia, Dona Olívia, respondeu Inês, forçando um sorriso. Outra vez sarilhos com as crianças?

– Sarilhos é pouco! Provocam-me um nervoso miudinho disse rapidinho, ainda a lutar com o último botão.

Neste instante, a caixa no chão mexeu-se.

Inês assustou-se que até se levantou mais do degrau, mesmo não estando nada perto daquilo.

Não que Inês fosse medricas mas não estava à espera que houvesse alguém, ou algo, dentro daquela caixa…

“Deve ser imaginação minha, mas será que ali está mesmo uma panela elétrica danada? Capaz de deitar legumes crus e tudo? Tinha piada.”

– Ora vê lá isto disse a vizinha, pegando na caixa para mostrar o seu interior.

Inês desceu ao patamar, aproximou-se e espreitou lá para dentro.

Claro, sabia perfeitamente que não havia nenhuma “panela elétrica viva” enfiada ali dentro e que não havia motivo para susto. Mas mesmo assim, o que viu apanhou-a completamente desprevenida… e de forma bem agradável.

Do fundo da caixa, dois grandes olhos olhavam-na, curiosos. Pertenciam a uma cria de gato minúscula.

– Ai, que coisa mais amorosa! escapou a Inês.

– Olhe bem para o que se entusiasma resmungou Dona Olívia enquanto fechava a caixa.

– E esse gatinho, de onde veio?

As minhas filhas trouxeram-no um dia destes Estou arrependida, confesso. Só me traz preocupações, nunca vi! Eu também me deixei ir naqueles olhos lindos e naquela carinha querida mas já se sabe como é: “nem tudo o que luz é ouro”. Por fora, um querido. Por dentro? Um mau feitio que só visto, igual ao do meu ex-marido.

– Com um bocadinho de sorte, Dona Olívia, ele acalma quando crescer mais um pouco. Já o vai levar ao veterinário para as vacinas?

– Que veterinário qual quê, Inês? Já não aguento mais o seu mau comportamento. Decidi levá-lo para a casa da aldeia. Fica lá.

Inês olhou para Dona Olívia, meio incrédula, ainda a ver se era uma piada.

Mas não era. A rispidez da vizinha e o olhar zangado não deixavam dúvidas. E não era dia de mentiras estávamos a meio de novembro.

– Mas leva-lo para a aldeia, agora no final do outono?

– E querias que esperasse pela primavera? Qual é a diferença? Se fosse inverno, era igual! É que isto não é um gato: é uma trapalhada pegada.

De tão irritada, Dona Olívia quase já não tinha ar para falar.

Quando recuperou o fôlego, continuou:

– Devias ver o que aquele bicho faz! Tomei mais calmantes ultimamente do que quando fiquei sozinha a criar as miúdas. Por isso, já decidi vai para a aldeia e não há mais conversa!

– Mas ouça…

– Pronto, podia deixá-lo cá no quintal, de onde veio Só que tenho medo que as miúdas o voltem a trazer para casa e a esconder no armário. E ele também sabe voltar. Já chega desses filmes!

A vizinha tirou o telemóvel do bolso, viu as horas e abanou a cabeça:

– Olha, Inês, já estou a perder o autocarro por tua causa.

Segurou melhor a caixa, virou-se e começou a descer as escadas, sempre agarrada ao corrimão.

A Inês ficou a olhar, confusa, sem perceber como é que alguém era capaz de largar um gatito sozinho numa casa da aldeia ainda por cima no fim do outono. O bichinho não aguentava um dia!

– Dona Olívia, espere! gritou Inês.

– O que foi agora? Estou atrasada!

– Não leve o gatinho para a aldeia. Olhe, deixe-me ficar com ele nem que seja só enquanto lhe arranjo um dono de jeito. Faça isso, por favor.

Dona Olívia parou e

…virou-se devagar.

– Um dono de jeito? Estás a querer dizer que eu não sou? semicerrando os olhos de forma ameaçadora. Com estas mãos criei duas filhas, olha que não são poucas!

– Não estou a insinuar nada. Só acho que o pequeno não aguenta sozinho na aldeia.

– Se tiver vontade de viver, aguenta. Se não, é porque não estava escrito. Não vamos agora dramatizar.

– Oh, não diga isso

– Que culpa tenho eu se o bichano não sabe portar-se em casa? Nem sequer percebe o que é viver entre quatro paredes.

– Ele ainda é um bebê! Vai aprender protestou Inês. E nem se conteve: Olhe que nunca mandou as suas filhas para a aldeia quando se passava com elas

– Uma coisa é uma coisa! As minhas meninas são as minhas meninas. Esse aí é outra conversa. Mas pronto, se o queres, toma lá!

Pousou a caixa junto aos degraus.

– Ao menos assim poupo nos bilhetes do autocarro. Quero ver quanto tempo dura esse entusiasmo todo soltou uma risada venenosa.

E desapareceu para dentro de casa, batendo a porta de novo com estrondo. Inês ainda ouviu, lá de cima, o berro habitual a exigir telemóveis e limpeza geral.

O resto já não ouviu. Pegou na caixa, espreitou para garantir que o gatinho ainda estava lá, e subiu para o seu apartamento.

E foi assim, sem contar, que Inês acabou a tomar conta de uma caixa de cartão e

de um filhote de gato enroscado lá dentro.

Nem lhe passava pela cabeça que ia ter um “inquilino felpudo” lá por casa. Menos ainda naquele dia; só ia ao supermercado buscar café, que se tinha acabado, e foi ali dar um encontrão ao destino.

Na verdade, Inês até era indiferente a animais aquela paixão avassaladora dos donos de cães e gatos nunca lhe bateu.

Mas deixar a Dona Olívia levar o bichinho para a aldeia? Não conseguia. Porque “indiferença não é falta de coração”. Há limites!

E também, para quê tanto drama, se é tão fácil encontrar alguém que fique feliz por receber um gatinho assim?

Aquele era tão fofo que calculava que mal fosse parar à internet, choviam interessados.

“É só tirar umas boas fotos, publicar online, e num instante tenho fila à porta.”

*****

Inês nem hesitou mal chegou a casa tirou logo umas fotos ao bichano e publicou nos fóruns Doa-se Gatinho e Procura-se Dono.

Foi então ao supermercado comprar café e… comida para gatos. Tinha de alimentar o hóspede, já agora!

Juntou também um caixote de areia e areia própria. Gastou algum dinheiro, claro, mas não havia alternativa.

Isto depois dou ao novo dono, pensava enquanto sorria. Uma boa ação nunca se lamenta, dizia para si.

Dona Olívia dizia que o gatinho se chamava Biscoito, mas ele nem mexia a orelha quando o chamavam assim. Inês tratou logo de inventar outro.

Após várias hipóteses, ficou-se pelo 132.º nome:

– Vais ser o Tico, está bem para ti? perguntou à bolinha de pelo.

– Miau! respondeu ele, e correu para a entrada, decidido a pôr fim à paz dos chinelos de peluche.

Os chinelos até eram fofinhos, mas está claro que nenhuma pelúcia ganhava em fofura ao Tico.

Inês não conseguiu segurar o riso ao ver o saltitar do pequeno felpudo, e foi arrumar as compras. Só depois se sentou ao computador para tratar dos trabalhos pendentes.

Inês era fotógrafa freelancer fazia sessões e gostava imenso do trabalho. Além disso, até nem se queixava do rendimento.

Precisava agora de editar umas fotos antigas, por isso ligou o computador, abriu o Photoshop e pôs-se à tarefa.

Mas paz não durou muito.

O Tico, cansado de lutar com os chinelos, começou a correr de um lado ao outro da casa, escorregando nas curvas.

Ó pequeno! Inês virou-se na cadeira, apontou-lhe o dedo em jeito de aviso.

Ele parou no meio da sala, olhou para ela como quem diz: Tens alguma coisa a dizer ou posso continuar a brincar?

Pronto, entendo que te aborreças, mas lembra-te: estás aqui só de passagem

– Miau!

– Vá, nem respondas! És só convidado, por isso porta-te bem e não me atrapalhes a trabalhar.

Foi pior a emenda que o soneto.

O Tico olhou para ela com tal ar de vítima, olhos de quem pede desculpa por existir, que Inês ficou cheia de remorsos. Daqueles grandes, que nos fazem querer desaparecer.

Como é que se ralha assim a um ser tão pequenino?!

– Pronto, brinca. Mas faz pouco barulho! cedeu, derrotada.

O Tico ronronou, contente, e lançou-se à casa, indo de toque em toque nos móveis.

Vê o objetivo, não vê obstáculos… Foi para o Tico que inventaram isso, pensou ela.

Para não ouvir tanto ruído, Inês pôs os phones e música no PC. Mas bastaram cinco minutos e… Tico apareceu, voou para debaixo da secretária, puxou o cabo de energia do computador com a pata e, de repente, desapareceu do local do crime. Agora provem que foi ele!

– Ai que azar só conseguiu resmungar a Inês, a olhar o ecrã negro.

Nos trinta minutos seguintes, não só Tico andou em correria pela casa Inês também, a ver se lhe deitava a mão.

Nada feito.

Duros então foram o mindinho do pé e o joelho, que embateu à vontade nos móveis.

Assim que conseguiu ligar o PC outra vez, Inês, com o olho esquerdo já a tremer de nervos, foi espreitar as mensagens nos fóruns onde publicara as fotos de Tico.

Uma data de likes e comentários mas rapidamente percebeu que… ninguém queria adotar o Tico. Só escreviam mensagens do tipo Que fofura!, Que sorte tens!, Que maravilha de gatinho!

Ninguém telefonava, ninguém aparecia. Nem sombra de fila à porta.

Ainda assim, Inês acrescentou em todos os posts que estava disponível para entregar o gatinho onde fosse preciso outra cidade, outro lugar, até ao fim do mundo se fosse preciso.

Se calhar, as pessoas desistiram porque é longe, mas assim já não têm desculpa! animou-se.

Entretanto, Tico fartou-se da festa, trepou o sofá (à quinta tentativa) e deitou-se de barriga para o ar. Inês lá se sentou ao lado, deu-lhe festas enquanto ele adormecia e ela também acabou por adormecer.

Dormiram os dois, até ao anoitecer. Trabalhar foi o que não aconteceu, claro.

*****

Passada uma semana, Inês percebeu que arranjar uma família para o Tico era missão mais difícil do que parecia. Likes a rodos, comentários nunca faltavam… mas nada de adoções, nem chamadas ou mensagens privadas.

Volvidos mais três dias, Inês já ponderava:

E se ninguém quiser o Tico? Fica cá em casa?

– Pois, só o que me faltava disse em voz alta, mas arrependeu-se logo.

Tico dormitava ao lado do teclado, de braços enroscados na ratoeira (razão pela qual Inês há 40 minutos não conseguia trabalhar), mas com o barulho da voz dela, abriu um olho e atirou-lhe um Miaaaau! de protesto silencioso.

Hora do descanso e falas alto? Tenha paciência!

Inês suspirou, agarrou no telefone e foi ver os comentários nos seus posts.

Mais do mesmo. Só elogios e espantos com a sorte dela. Mas ninguém queria levar o Tico.

Subitamente, lembrou-se da vez em que foi ao psicólogo tentar descobrir o que lhe faltava, mesmo no meio de uma vida em que tinha tudo. Trabalho que adorava, dinheiro não lhe faltava, apartamento próprio (obrigada, pais!), tudo certinho.

Mas ultimamente sentia que qualquer coisa escapava…

E curiosamente, não era solidão nem falta de homem ela própria tinha feito uma pausa nos relacionamentos, que até lhe sabia bem.

Então, o que estava a faltar?

O psicólogo sugeriu que falasse consigo própria, que a resposta estava lá bem no fundo no fundo do fundo! Resultado? Um copo de água e um comprimido para a dor de cabeça.

E nada se resolveu.

Desiludida, foi desabafar com as amigas.

– Sinceramente, o teu drama é excesso de conforto comentou a Leonor, meio ciumenta por Inês ter vida tão fácil.

– Não digas disparates, Leonor. Trabalho o mesmo que tu, às vezes ainda mais. Onde é que está o luxo nisto?

– Olha, se calhar falta-te mesmo isso. Gordura para seres feliz! És tão magrinha, deve ter sido por não comeres bolos quando eras pequena riu a Mariana, a acabar o doce dela.

As amigas não resolveram nada. Por isso Inês concluiu: “Vou deixar de pensar nisto. E agora, com Tico na cabeça, voltou outra vez ao mesmo.

Só me faltava este drama. Mas olha, se calhar é isso mesmo: para ser feliz só me faltava o Tico! Vamos ver

*****

Desde o dia em que Tico entrou lá em casa, passou-se um mês. Ou melhor, voou. Inês nem deu conta.

Ninguém perguntou pelo gato. Inês não percebia como, com mais de mil duzentos e tal gostos nas fotos, ninguém o queria.

Agora, trinta dias depois, já percebia porquê.

Tanta coisa tinha acontecido que se ela contasse tudo, era preciso uma versão só dela do Guerra e Paz.

Resumindo, Tico revelou-se um gatinho bem esperto.

Percebia-a que era uma maravilha sabia logo quando ela lhe pedia para largar o sofá (pela décima vez).

Tico também procurou novas profissões, começando por decorador de interiores. Inês acabou por trocar as cortinas quatro vezes, até perceber que o melhor era não ter nenhumas.

Depois foi chefe de cozinha. Provou tudo o que havia na mesa (devolveu tudo: pickles, cogumelos em escabeche, batata cozida nada o convenceu). E concluir que prefere o saquinho de ração no armário.

No fim, Tico escolheu ser o fornecedor oficial de alegria à Inês.

Claro que a ideia de felicidade era diferente para os dois. Para Inês, era dormir sossegada e acabar as edições.

Mas com o Tico em casa, o sossego acabou. Lá em cima, deve haver quem ache que ela estava a levar uma vida demasiado calma.

Logo que Inês assentava no sofá, Tico surgia a olhar-lhe nos olhos: “Vamos brincar?”

E depois, era cada invenção! Nem palavras havia para certas traquinices.

Agora, Inês quase entendia Dona Olívia. Não justifica abandonar um filhote, mas compreendia o cansaço.

Ainda assim, havia o lado bom: já não especulava sobre o que lhe faltava na vida. Esse problema desapareceu.

E até a arrumação domesticou: deixou de perder tempo, arranjava tudo a toda a pressa enquanto o Tico dormia.

Alegria mesmo teve-a às toneladas. Só pelos primeiros dias, em que Tico finalmente aprendeu a usar a liteira sozinho já valeram. Antes, tinha de levá-lo ao colo de noite.

Agora já não, graças a Deus! Só quem nunca passou por isso não sabe o que é alegria por poder dormir duas horas seguidas.

Claro que Tico arranjou novas manias. Um dos brinquedos de eleição passou a ser o candeeiro de noite. Acendia, apagava, acendia de novo até Dona Inês desistir e tirar o candeeiro dali.

A vida era assim. Como toda a gente, aprende-se a adaptar.

E Inês percebeu, ao fim do mês, o mais importante: não era o Tico que morava com ela era ela que agora visitava o Tico.

Ele era o verdadeiro dono da casa, acolhia-a à porta ao fim do dia. E a verdade? Parou de procurar boas mãos para ele porque percebeu que as boas mãos eram mesmo as dela!

Afinal, ela estava disposta a tudo, fosse levantar-se a meio da noite para o futebol ou as escondidas, fosse perder espaço na cama para ele se estender ao comprido.

Sim, estava, e não se arrependia Nada. Porque gosta dele. Porque é impossível não gostar. E Tico gosta dela

Agora já não a acorda cedo de manhã, só se deita ao lado dela, à espera, pacientemente, que ela acorde.

Só espera. Olha-a em silêncio, embora às vezes Inês quase jure ler nos olhos dele: Dormes tanto, dona! Estou aqui à tua espera

E sabes uma coisa? Acho que foi assim que a Inês descobriu o que lhe faltava um bocadinho de barulho, de mimo e aquela pequena felicidade felpuda a miar-lhe em casa.

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