O Veneno da Inveja

Veneno da Inveja

Duarte, estou com medo Leonor apertou nervosamente o guardanapo entre os dedos, a voz traindo um leve tremor. Ela olhou para o namorado, e no olhar dela havia um susto tão verdadeiro, tão puro. Foram mais mensagens

Com as mãos a tremer, tirou o telemóvel da mala, destravou o ecrã e estendeu-o ao Duarte. Ele apanhou o telefone, leu com atenção: Obrigada pelo serão maravilhoso, Já tenho saudades, Quando nos vemos de novo?, Estou à tua espera no sítio do costume depois do trabalho A testa dele franziu-se na hora.

Quando chegaram estas mensagens? perguntou, sério, devolvendo o telemóvel.

A última veio há cinco minutos, bem quando fizemos o pedido Leonor engoliu em seco, sentiu o peito apertar. Já é a terceira vez só chegam quando estamos juntos. Parece que alguém anda a vigiar-nos, a saber onde estamos a cada momento.

Duarte recostou-se, passou a mão pela barba, observando-a com aquele olhar atento de quem já está a juntar peças. Era o típico olhar do advogado que ele era: calmo, analítico, sempre a tentar estar um passo à frente.

Mostra tudo. Quero ver as datas, as horas, mandou, naquele tom seguro e racional que ela tanto admirava.

Leonor abriu a conversa, subiu até ao início das mensagens estranhas. Duarte fixou os olhos no ecrã, a apanhar cada palavra, cada horário. A expressão era séria; só os olhos revelavam uma tensão felina, como de quem pressente o inimigo, mas ainda o estuda. Algumas mensagens picavam ainda mais: Não deixo de pensar em ti, Quando vais falar comigo?, Sabes onde me encontrar se mudares de ideias. Era sufocante como uma sombra invisível esticando os dedos pela vida deles, quase a querer cortar o pouco de felicidade que tinham começado a construir.

Isto é muito estranho, disse Duarte, a voz mais dura. Alguém está a fazer de propósito para dar a entender que tens um caso secreto. E só envia quando estamos juntos Calculado demais.

O corpo de Leonor desceu, o peso invisível a calhar nos ombros. Tinha 25 anos, designer numa agência pequena de Lisboa, sonhava já há alguns anos com alguém com quem partilhar uma vida a sério, não por status ou conforto, mas por calor, entendimento e apoio mútuo. O Duarte era dez anos mais velho, advogado, daqueles que resolvem tudo com serenidade e olho clínico. Fazia-a sentir-se enraizada, protegida coisa rara, coisa preciosa.

Juntos há seis meses, Leonor aprendia, dia após dia, o valor de cada gesto dele: o humor na dose certa, o ouvido atento, o respeito pelo tempo dela, a ausência de pressas ou pressões. Ele não tinha receio de admitir que a via como futura mulher algo que a assustava, mas também a tentava. Cada vez mais, sentia vontade de dar esse passo para algo maior, em conjunto.

Não faço ideia de quem poderia ser capaz disto, murmurou ela, a voz baixa e magoada. Não tenho admiradores secretos, nunca dei motivos E as frases: o nosso lugar, nossa última conversa parece que querem montar a história toda de um namoro antigo. Como se estivessem a brincar connosco, a manipularnos nos bastidores

Deixa-me investigar, atirou Duarte, convicto. Tenho amigos na PSP, consigo saber a quem pertencem estes números. Entrego-me a isto, alguma coisa me diz que não foi por acaso. É tudo demasiado afinado.

Nos dias seguintes, Duarte ficou mergulhado nas investigações. Leonor tentava abafar a ansiedade: mergulhou no trabalho, saiu para almoços e cafes com as amigas, procurou qualquer distração, qualquer gargalhada, qualquer rotina que mascarasse o medo. Mesmo assim, o receio pairava um friozinho teimoso no peito, que sussurrava tragédia. Sempre que pegava no telemóvel, o coração dava três cambalhotas, até descobrir que, afinal, não havia nada batoteiro na caixa de entrada. Mas a paz durava pouco o medo logo voltava.

No quinto dia, o telefone tocou ao fim da tarde. Era Duarte.

Leonor, já descobri quem era, a voz dele ia direta, sem calor. As mensagens vinham de números comprados em nome falso, mas acabámos por identificar quem as adquiriu. Foi a Susana.

Leonor ficou gelada. O telefone quase caiu. Susana amiga de faculdade, tinham partilhado muitos anos, confissões, festas e cafés longos. Susana tinha 28, era mãe solteira, três anos mais velha, dois filhos pequenos. Nos últimos meses, apesar de continuarem amigas, vinha notando uma tensão invisível. Susana queixava-se sempre da solidão, de como era impossível encontrar um homem que não fugisse por causa dos filhos, de como a vida dela se reduzia a desenrascar contas e esgotar-se de cansaço.

Susana? murmurou Leonor, dor e descrença na voz. Mas porquê? Como é que ela foi capaz?

Tu sabes a resposta, disse Duarte com alguma amargura. Inveja. És livre, jovem, apaixonada, tens alguém ao teu lado. Ela sente-se posta de lado. E, pelo que se viu, queria meter sugestões de que tu me andavas a trair, para eu desconfiar de ti.

Duas semanas antes, eles três tinham ido juntos a uma festa em casa de amigos. Música calma, cheiro a queijo e vinho, conversas em todos os cantos. Leonor, num vestido verde água, parecia ainda mais bonita do que o normal; o corte realçava a cintura, a cor fazia os olhos castanhos brilharem. Duarte não a largava, aparecia sempre ao lado com um copo ou uma piada, incluía-a em todas as conversas.

Parecem saídos de uma revista, lançou Susana, forçando um sorriso, a cruzar os braços numa camisola bege. Tudo no sítio: o look, o namorado

Obrigada, agradeceu Leonor, sincera. Nem pensei que este vestido me ia ficar assim tão bem!

Pois, gostava de poder vestir essas coisas, mas quando se tem filhos tudo o que se compra é para eles Susana olhou para o chão, deslizou as mãos pelo tecido banal da camisola. Para ti é fácil, eu não tenho tempo nem dinheiro para isso.

Oh Susana, não é só roupa Tu ficas bem com tudo! O teu charme ninguém te tira, disse Leonor, tocando-lhe no cotovelo.

É o que se diz, ela riu-se nervosa. Vida fácil para uns, contas e correria para outros. Escolho entre um vestido novo e as botas do Gonçalo ou entre ir ao cabeleireiro e pagar a ginástica da Matilde

Ficou calada e com o olhar no chão um bom bocado, fugindo dos olhares. Duarte desviou o assunto para um novo restaurante, sugeriu saídas em grupo. Leonor anuiu, mas viu Susana afastar-se e encostar-se à janela, a olhar de longe para ela e Duarte a dançarem. Era inveja, mas misturada com tristeza a vontade de ter, simplesmente, leveza e a certeza de que alguém estaria ao lado.

Uns dias depois, num café de mesas pequenas e janelas embaciadas pela chuva, Leonor contava animada a Susana sobre um passeio de fim-de-semana com Duarte: caminhadas na serra, folhas outonais pelo chão, grelhados na mata, noite à beira da lareira a ver estrelas.

Parece um conto de fadas, retorquiu Susana, remexendo nervosa o açúcar do café.

Foi mesmo giro! E ainda queremos voltar no inverno, ir até à Serra da Estrela para a neve. O Duarte prometeu ensinar-me a esquiar parece que ele é craque! Queres vir com os miúdos? Iamos todos!

Esquiar? Deve ser bom. Eu trabalho toda a semana, depois levo o Gonçalo ao infantário, a Matilde à natação, faço jantar, arranjo trabalhos de casa Para mim é só afazeres, a ti sobra te tempo para a felicidade.

Não disse por maldade. Soou apenas cansada. Outra amiga, a Sofia, interveio:

Vá lá, Susana, a Leonor não está a esfregar nada na cara, está só a partilhar. Não faz mal ter alegrias!

Não é isso É só Para mim, um fim-desemana destes é um luxo impossível. Preciso planear, pedir a alguém que fique com eles, rever orçamentos E depois alguma coisa corre mal.

O silêncio ficou tenso. Leonor pousou a mão sobre a de Susana:

Sei que custa, mas quero ajudar. Vamos um dia ao parque todas, fazemos piquenique com os miúdos. Damos um passeio, rimos um pouco

Susana hesitou, os olhos brilharam rápido, mas logo recuperou a distância.

Não vale a pena. Eles vão cansar-se, fazer birras. Melhor aproveitares a tua liberdade enquanto a tens.

Leonor, na altura, achou que era só cansaço pós-laboral. Mas, ao lembrar aqueles episódios, entendeu que a mágoa de Susana vinha de longe e era mais funda do que parecia mais dor encrostada do que recalque. Lembrou as vezes que Susana desviava o olhar se ela falava de Duarte, os sorrisos falsos, os silêncios.

E agora, o que fazemos? Leonor perguntou, mais resoluta do que assustada.

Vamos lá agora, falar cara a cara, esclarecer tudo, respondeu Duarte, seguro.

Foram até casa de Susana. Quando ela abriu a porta e viu os dois, empalideceu. Ficou à entrada, mãos fechadas, a tentar ganhar coragem.

O que aconteceu? balbuciou, o tom entre o medo e um certo cansaço.

Não finjas nada, ripostou Duarte. Sabemos que foste tu a enviar as mensagens. Temos provas.

Susana encostou-se à parede, quebrada, lágrimas e raiva misturadas.

Sim, fui eu! Está bem, fui eu! gritou, voz quase a quebrar. E o que fazias tu, Leonor? Tinhas tudo do bom e do melhor! E eu fico aqui, sozinha com dois filhos, sempre a correr, sempre a contar os tostões! És sempre a sortuda! Linda, livre, sem chatices! Eu sou só um peso morto!

As lágrimas começaram a cair. No olhar dela havia raiva acumulada, mas também cansaço, solidão.

Nem imaginas o que é sentir que não se é ninguém de especial Cada vez que falavas dos teus encontros, da vida boa, eu ardia de inveja. Só queria que sentisses o mesmo queria que o teu conto de fadas rachasse! Para perceberes o que é não controlar nada!

Leonor sentiu o peito arder, como se todos os anos de amizade desabassem num segundo. À frente dela, já não estava a amiga dos cafés a dividir centimos, mas uma mulher magoada, sem forças.

Então tentaste destruir a minha vida porque tinhas inveja? Só porque não estavas feliz? Quiseste que o Duarte pensasse que eu andava com outro? Leonor chorou, a magoa transformada em tristeza.

O que querias que fizesse? Tu sempre tinhas tudo, eu nada. Até os homens que me aparecem vão-se embora por causa dos miúdos, das contas Queria que sentisses só um bocadinho do que eu sinto todos os dias.

Duarte pôs-se ao lado de Leonor, como um escudo.

Chega. Foi baixo. Tens de assumir o que fizeste.

Nos olhos de Susana brilhou um meio arrependimento, logo escondido pelo orgulho ferido.

O que é que vais fazer? Ix para a polícia? Acha que alguém se importa com uns sms disparatados? atirou, irónica.

Não precisamos de polícia, respondeu Duarte, calmo. Só precisamos que deixes a Leonor em paz e que isto nunca mais volte a acontecer.

Susana olhou para Leonor com uma tristeza quase infantil, como se percebesse de repente o que tinha feito. Depois puxou de novo a máscara dura.

Como se não soubesses que eu te invejava! Ainda te lembras do meu aniversário? Toda a gente a elogiar-te porque tinhas arranjado emprego novo, e eu a servir o bolo sozinha. Achas justo?

Veio de novo à memória de Leonor esse jantar: risos por causa dela, danças a meio da sala. Só agora percebia o silêncio da Susana nesse dia, o distanciamento e o olhar perdido na janela.

Susana, eu nunca quis te ofuscar Eu estava só feliz. Sempre te vi como igual, como amiga, não como rival, Leonor explicou com dor autêntica.

Para mim sempre foste o destaque, eu o resto insistiu Susana. Dois filhos, dívidas, recordações de um casamento falhado Claro que te invejei! E sim, quis que sentisses um bocadinho do que é estar sempre a perder. Era só isso.

Duarte deixou Susana acabar e respondeu baixinho, mas com firmeza:

A inveja é um problema teu. A tua escolha foi magoar, em vez de lutar por ser melhor. E isso é triste.

Susana já chorava abertamente. Deixou-se cair no sofá, lágrimas pelas faces.

Desculpem Não queria ir tão longe. Não aguentava mais Anos nisto: solidão, rotina, cansaço. Perdi-me completamente.

Leonor só sentiu pena. Tudo o que vinha sendo raiva e choque transformou-se em compaixão. Viu Susana não como rival, mas como uma mulher derrotada pelas circunstâncias. Lembrou-se de conversas recentes no café, Susana de olhar vazio:

Tu vives numa realidade tão diferente, Leonor. Tudo corre-te bem. Eu todos os dias acordo e é tudo igual Não aguento este ciclo!

E ela, ingénua, sempre achava que era só uma fase passageira. Só agora percebia que Susana pedia ajuda, mas não sabia como o dizer. Sentiu uma pontada de culpa.

Susana, não fazia ideia que passavas por tudo isto. Devias ter dito, pedia-te ajuda. Mas o que fizeste magoou-me muito, não vou conseguir esquecer já assim, disse, sincera.

Eu sei Não posso pedir-te desculpa e esperar que fique tudo igual. Só quero que saibas: estava perdida, não te queria ferir tanto. Achei que se te fosse pior, eu ia sentir-me melhor uma estupidez.

Duarte deu a mão a Leonor. Perguntou-lhe:

Achas que consegues aceitar este pedido de desculpa?

Leonor hesitou, olhando para Susana, abatida e esgotada. Era impossível não se comover.

Consigo perceber que isso não foi maldade pura, foi desespero mas não posso ser tua amiga até aprenderes a ser feliz pelas conquistas dos outros. Preciso de alguém que celebre comigo, não de alguém que sofra com a minha felicidade.

Susana assentiu, mais uma lágrima a cair.

Obrigada por pelo menos me ouvires. E desculpa nunca ter conseguido pedir-te ajuda.

Ela e Duarte saíram de casa. Já era noite em Lisboa, as luzes amarelas dos candeeiros refletiam-se na calçada lavada pela chuva. O ar cheirava a outono e a terra molhada. Leonor respirou fundo, sentiu finalmente o peito aliviar.

Sinto-me esgotada confessou ao Duarte, encostando-se nele. Está tudo esclarecido, mas perdi algo muito importante.

É normal, ele apertou-a nos braços. Traição custa. Mas agora sabes quem tens ao teu lado. E tens-me. Não estás sozinha.

Leonor sorriu, com lágrimas ainda frescas, mas com o coração a aquecer um pouco. É isso, juntos.

E lá foram, sob as luzes de Lisboa, a pisar folhas e a deixar para trás mais um pedaço de dor. Porque viver é mesmo assim: aceitar, aprender e caminhar. Com quem está realmente connosco.

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