Querido diário,
Nunca ninguém me chamou assim: Doçura. O nome colou em mim desde o primeiro momento mal entrou nos meus dias, largou-se na cadeira vermelha, tão gasta e encardida como a que estava debaixo de mim. Olhou a sala de ponta a ponta, demorando-se. E logo pousou os olhos em mim.
O que foi, doçura, já te perdeste de tédio? suspirou o homem, num tom leve e zombeteiro. Tentou cruzar as pernas, mas o espaço entre as filas daquele auditorio não deixou: a sola apertada do sapato empurrou a cadeira da frente, o tornozelo vergou de lado, Manel fez uma careta. Dei por mim a fingir que estava muito atenta à azáfama no palco pessoal da organização a ligar microfones, empilhando papéis, mesas em fila, nada de extraordinário para quem conhece bem congressos deste género. E aquele clima abafado…
Sempre tive horror a salas apinhadas de gente, todos sentados ombro a ombro, sem escapatória possível. Senti aquela ansiedade a trepar-me por dentro.
Pois está visto. Nem vale a pena, não vamos ouvir nada de novo, doçura. resmungou Manel, esfregando o queixo. Já li todos estes resumos. Trabalho da casa, não é? Não vem aí ouro nenhum…
Virei-me para ele, com o olhar mais sério do mundo.
Tanto faz que ele viesse de fato e gravata, sapatos engraxados havia qualquer coisa de desalinhado nele, como uma figura recortada e colada na roupa errada. Era traquina, fanfarrão, sempre à margem e aquele cabelo espetado, com duas rosetas em caracol, tão macio e delicado.
Manuel, apresentou-se logo, mão enorme estendida sem sequer esperar resposta minha. Queres vir almoçar comigo? Tão pequenina, tão magrita, tenho cá uma vontade de te alimentar! Vá, está decidido!
A sala já escurecia, entravam chefes, subchefes e outros notáveis, rodava-se a salva de palmas. Mas Manel só puxava por mim com força, tropeçando ora num pé, ora noutro, metendo a gravata para dentro do casaco, sem grande cerimónia, enquanto as tias e tios ilustres nem notavam (ou fingiam).
Largue-me, ouviu?! Preciso de ficar, de tomar notas, mandaram-me! protestava eu, mas era impossível escapar àquela mão que apertava, levando-me a passo rápido.
Saltámos para o foyer naquele momento em que alguém batia no micro a pedir silêncio. Esquece os apontamentos, doçura. Mando-te tudo por email. Lê com calma. Agora, precisas é de comer. E de água. Estás pálida. Deixa cá ver o pulso Pois! Está visto, vai ser ar livre, comida, nada de conferências!
Tinha o coração aos saltos. Senti-me cuidada de um jeito estranho, inédito. Fui sempre eu a cuidar da mãe, do marido, da filha. Parecia o mais normal do mundo. Claro que às vezes apetecia-me ser levada ao colo, andar na despreocupação, beber vinho, rir como no cinema, sem peso nenhum. Mas nunca calhou.
Agora Manel oferecia-me isso.
Nem percebi como fui parar a uma esplanada acolhedora do outro lado da rua. Já estava o empregado a servir aquela cor sumo laranja intenso, como se tivessem espremido o próprio sol vibrante como as ruas de Lisboa numa manhã quente de Agosto.
Toma, bebe. E água, sim. E agora o que vamos pedir? Manel sorria.
Deve ter-me achado bonita, talvez. Sempre ouvi dizer que tinha graça, esguia, elegante. Podia chamar atenções, não fosse o ar cansado, aquela sombra de desânimo que me colava à pele. Já vou nos quarenta e muitos, família formada, amor escasso, tudo rotineiro como radiar mortalhas de rosas em Maio?
Mas Manel gostou mesmo assim de mim, doçura, exausta desta vida.
Não quero nada. Só preciso de respirar. Já estou melhor, já vou voltar ao auditório. balbuciei.
Olha que não vais nada, minha doçura. Primeiro comes um robalo assado, salada fresca e Precisamos de vinho branco, sim? Os olhos dele brilhavam, desalinhados e quentes, cheiro a colónia e cigarro, presença firme, intensa. Olho para o prato, as bochechas coram. E já me deixo ir.
Nunca ninguém tinha olhado assim para mim. E onde ele me tocava parecia que uma corrente quente me percorria.
Bebemos vinho, ele falou das obras que trabalhou em novo, das temporadas no Norte, do amigo Zé com quem começou um negócio de remodelações nada de sofisticado, montar equipas, construir moradias a quem queria vida digna e cómoda. Toda a gente quer viver quente e em conforto, não é? E nós sabíamos como dar isso
Come, doçura! Olha, logo vi: mal te vi, soube que tinhas de ser alimentada. Posso pedir mais qualquer coisa?
Abanei a cabeça. Senti-me literalmente a desfazer, derretida pelo vinho, pela comida boa, por alguém que se lembrava de alimentar uma mulher magra e cansada como eu.
A minha infância foi pouca coisa diferente. Sempre só com a minha mãe, que saía de casa cedo, trabalhava horas, deixava-me sozinha a ensaiar os jantares e a aquecer-lhe a ceia. No ano novo, chegava a casa perto das onze da noite, com olheiras e a cheirar a supermercado. Ajudava-a a mudar de roupa, preparar-se para os vizinhos e familiares já meio alegres e fartos de vinho verde. Mãe só queria vodka champanhe era para brincalhões, vodka era à homem. Mas o corpo cansado cedia logo à primeira dose, e era à filha que cabia espicaçá-la de cotovelo junto à mesa para não adormecer perante as visitas. E sobreviver assim não era coisa de meninas frágeis.
Casei cedo. O António era quase dez anos mais velho, sensato, até culto, mas frio, parco nas palavras parecia que só me selecionou para girar a engrenagem da sua vida, boa dona de casa, sem mais exigências.
Não que me fizesse falta. A paixão era coisa do princípio, depois arrefeceu. Bastava-me ter o meu espaço, longe da mãe estafada e dos quartos húmidos com vista para a lixeira. Agora tinha apartamento em Benfica, cozinha grande, casa de banho moderna, varanda, biblioteca, marido. Toda a gente me invejava! Privilegiada, sem sogra a meter-se.
Sempre fui Inês às vezes Inês Maria, mas mais Inês. Amigos, mãe, marido. Inês para o mundo.
Agora, de repente, era Doçura. E vinho branco, entradas, perguntas sobre os meus desejos. António jamais quis saber o que eu queria, limitava-se a comunicar decisões: Vamos arranjar o carro, Este ano é o Algarve. Gostava de janelas abertas, mesmo em Dezembro, e acabava com o argumento.
Já Manel, mal chegámos ao restaurante, pediu um cantinho quentinho e sem corrente de ar.
Era prestável. Fazia perguntas, ouvia-me. Sim, era casada. Sim, uma filha Mariana, prestes a ir para estágio em Bruxelas graças às explicações que eu tanto procurei, sempre atrás dos melhores professores.
Mariana não foi filha desejada. António queria, claro, sentia peso da idade. Mas chegou sem grandes expectativas Tem de ser, dizia a sogra. A gravidez demorou e foi pensada como tarefa. Quando finalmente consegui, António esquivou-se o mais possível. Vai ao médico? Dou-te boleia, nada mais.
Cuidou de Mariana, claro. Seguia de perto a saúde, tratava das vacinas, ficava acordado nas noites difíceis. Cheira às vezes ao suor dos homens que se entregaram ao dia inteiro de Lisboa, mas nunca me arrepiei junto dele. Fui-me resignando. No fundo, gostava daquele papel de mártir ninguém pode dizer o contrário: Inês sempre cansada, sempre a correr, mas admirada e, às vezes, até me defendiam do marido sovina.
E Manel? Manel mimava-me, chamava-me doçura, enchia o prato, trazia flores, mandava dinheiro discretamente para o cartão, oferecia prendas. Chegou a mandar mensagens à noite, obrigando-me a correr à casa de banho para poder lê-las longe do António. Acabava sempre deitada ao lado do marido, imóvel, transpirando culpa.
Ainda assim, ele tratava-me com o mínimo, pelo menos. Mas nunca me fez sentir mulher.
Um dia, Manel arrastou-me ao Chiado, queria ver-me de vestido novo. Tinha amigas na loja, escolheram tudo a rigor. Fiquei meia atordoada, sentada, enquanto sentia aquela fome estranha de ser admirada.
Nunca tinha sentido tal olhar faminto, grato, como se não existisse mais nada. Contei à minha melhor amiga, Paula, baixinho ao telefone, sem acreditar. Voltei a sentir-me mulher.
Paula questionou logo: E o António? Não merece? Ele faz tudo por vocês e tu queres bonecada?
Eu barafustava, dizia que que me sentia sufocada, precisava de respirar outro ar. O António não era mau, mas também não era presente. Paula acabava por encolher os ombros: Não sei, Inês. Às vezes invejo-te, mas não pelo Manel. Pelo António, sabes?
Tornei-me mais ausente em casa, preparava jantares apressados, ficava a olhar fixamente para chávenas e cubos de açúcar imaginários, enquanto Mariana se servia sozinha, cada vez mais desligada.
Manel era atencioso, sabia cuidar, fazia-me rir, dizia palavras doces. Recebia prendas dele às escondidas, entregues sempre à Paula. E o dinheiro que ia pingando… E as noites em que saltávamos para o bairro alto ou para um apartamento novo nas Amoreiras, onde o vinho era mais fresco e as vistas para Lisboa, de cortar a respiração.
Só que a minha casa começou a pesar-me, parecia tudo cinzento. Cheguei a inventar desculpas para chegar tarde, só para me sentar sozinha na cozinha com o café forte, a sonhar e a tremer de ansiedade.
… Inês! Onde andas? Comprei couves, combina-mos que era hoje para cortar, ouvia a voz do António, duvidosa, no telemóvel, olhava ao longe o Manel a nadar na piscina pública das Laranjeiras, exibindo músculos à vista de miúdas animadas.
Na Piscina das Laranjeiras nunca tinha ido, hoje Manel levou-me, ordenou que eu entrasse com ele, e andávamos a nadar, vendo o vapor subir ao céu frio de Lisboa. Pouca gente, uma paz. Subindo à prancha até se avistavam as luzes do Campo Grande ao longe. Mas eu só via o meu amante. Estava feliz, achei, finalmente feliz.
Couves…? tropecei nas palavras, envolvi-me na toalha. Deixa, hoje vou chegar tarde. Estou com a Paula na piscina, o médico mandou-me fazer exercício para as costas. Amanhã tratamos da couve. Desculpa, a Paula chama. Beijos!
Desliguei a correr, liguei à Paula para a pôr a par, não fosse o António ligar…
Do outro lado, Paula informava, tranquila: Olha que acabei de passar por tua casa, trouxe cominhos para a couve, comprei no mercado. O António já está a ferver a água. É só passar.
Senti vergonha, olhei para Manel, já pronto para saltar da prancha ao grito: Vamos, doçuras? Uma, duas, três!. As raparigas lançavam-se, todas magras e felizes. À minha maneira, voltei a sentir-me estranha, desajeitada na água, nada feminina. Doeu-me.
As novas doçuras de Manel corriam à volta, já acerca de mim ninguém reparava. E para ele pareceu não importar família, couve, assuntos. Deixou-me ir.
Em casa a luz vinha só da cozinha. António montou uma frigideira com ovos mexidos, encheu-me a caneca com chá.
Tens fome, depois da piscina? Queres uma fatia de fiambre?
Disse que não com a cabeça, nem lhe conseguia olhar nos olhos. Comi em silêncio, picando a comida, o medo a cavar fundo.
Inês… ao fim de muito silêncio. A Paula trouxe uns sacos. Queria arrumar, mas mandei-a embora. São teus? Não percebo.
Levantei a toalha da mesa, vi os sacos, encolhi os ombros.
Pois, era o que eu dizia. Coisas da Paula. Serve-me chá, sim? Ou melhor, tira aí um cálice de aguardente, apetece-me. Levantei-me rápido, tratei de tudo.
Doçura, ouvi a voz dele, saltei, olhei-o nos olhos. Estou a falar da doçura em cima da mesa, as migalhas. Limpa, que a Mariana está sempre a deixar pão espalhado. Vai buscar um pano, rematou ele, virando-se.
Bebemos o cálice em silêncio, cada qual perdido em si.
No fim da noite, António saiu. Deixou as chaves em cima do aparador, vestiu o casaco, e foi.
… Paula! Ele foi-se embora mesmo! Levou tudo, deixou as chaves! Paula, porque é que os homens fazem isto?! Abandonou-me a mim e à Mariana!
Senti raiva. Bati com o punho na mesa:
Fez como um homem, Inês. Outro teria partido para a violência, fez o oposto. Larga-te dessa conversa do coitadinha, sempre quiseste palminhas nas costas, mas nunca lhe deste uma palavra de carinho. Os homens, tu sabes… Basta um elogio. Tu nunca lho fizeste. Não posso estar do teu lado nisto, desculpa. Boa noite.
Deixei o telemóvel cair sobre a mesa, pus a cabeça nos braços e chorei baixinho…
Mariana passou nos exames, foi para a casa de amigos na Ericeira. Deixou-me um bilhete: Mãe, não me ligues.
… Manel apareceu uma semana depois, esperou-me à porta, saiu da penumbra.
Olá, doçura assobiou, encolhido no blusão de cabedal. Estiveste com saudades?
Tentei ligar-lhe vezes sem conta. Ele nunca atendeu. Agora ali estava, de repente.
Manel… a voz morta, O que fazes aqui?
Vim falar de assuntos pendentes, doçura. Agarrou-me o braço.
Que assuntos? Larga-me!
Apertou-me com força. Alimentei-te? Dei-te tudo? Agora preciso de ti, gatinha. Preciso de dinheiro. Tens a casa da tua mãe, conseguimos uns bons milhares de euros. Vamos vender, ambas. Anda, deixa-me entrar, vamos conversar.
Gritei assustada, tentei soltar-me, mas inutilmente. O coração quase me saltava da boca. O prédio estava vazio, ninguém no átrio.
Abre, doçura. Está frio, empurrou-me para dentro.
Mas quando já me resignava, Manel largou-me de repente, cambaleou estranho e caiu de lado com um gemido.
Era o António. Sem casaco, despenteado, de olhar feroz. Punhos a tremer. Sai daqui, ouviu, seu canalha?! Anda, sai! avançou, pronto a bater. Agarrei-o pelo braço para o deter mas António empurrou Manel, que lá foi rindo, Agora já sabes, António, chifres bonitos, levou um murro e calou-se.
Rua! Se te vejo outra vez com ela… António pegou numa touca do chão, limpou o nariz e virou-se. Anda, está frio. Vamos para casa.
…O que falaram esses dois, só a lua, que espiava da janela, e o vento hibernal, sabem. Ficaram sentados, chá intocado na mesa, relógio a bater. O resto da noite foi escura, ficaram ali, marido e mulher, a decidir continuar não se sabe porquê
Nunca mais ninguém me chamou Doçura. Ou se chamasse, eu tremia e desviava o olhar.
Manel desapareceu do mapa. O marido foi determinado demais para ele. Um dia ouvi Manel numa chamada dentro do autocarro, a conversar sobre a casa que herdara da mãe, confissões de solidão e cansaço, e percebi: tentou resolver a solidão e o negócio por ali, docemente. Se tivesse sido mais paciente, tinha conseguido o que queria eu estava a ceder. Mas antecipou-se, pressionou-me antes do tempo, o Zé devia exigir-lhe dinheiro. Não funcionou. Vai encontrar outras doçuras por aí, tristes e perdidas.
Entretanto, teve de sair da casa com lençóis de seda e vista para o Tejo. Mas vai dar a volta. Se o Zé não decidir o contrário…
E eu? Nunca mais fui Doçura para ninguém. Talvez nem queira.







