Vou Reunir Todos Cá em Casa

Reúno todos em minha casa

Helena Primavera pousou o tablet e pegou o telemóvel:
Avó, como está? Sente-se bem? E o avô, está tudo bem com ele? Ah, se está a fritar batatas, então está tudo certo. Já terminei o trabalho por hoje, vou buscar o Danilo ao treino, passamos pelo supermercado e daqui a pouco estamos aí.

Depois, Helena ligou para outro número:
Tiago, olá, estou a caminho de casa. Vocês, tu e a Mariana, já vêm? Ótimo. O avô está a fazer batatas fritas, vamos jantar juntos.

Levantou-se, arrumou tudo na mala. Despediu-se dos colegas:
Até amanhã, bom resto de dia para todos!
Adeus, Helena, boa tarde! desejou-lhe alguém.

Debaixo da secretária trocou rapidamente os sapatos, pôs o casaco e, quase sem pensar, olhou pela janela já escura. Era um fim de tarde outonal ameno. As luzes acendiam-se, pessoas apressavam-se rumo ao aconchego de casa depois de um longo dia. Helena cruzou o olhar com o seu reflexo no vidro e sorriu nunca teria acreditado que, algum dia, viveria uma vida comum e feliz. Que teria uma família, que correria para casa à tarde como tantos outros, esperando sempre encontrar quem a esperasse. Há pouco tempo atrás estava certa de que esse destino não era para si.

A sua família não era exatamente convencional, mas era feliz, e todos se amavam.

A mãe de Helena abandonou-a assim que nasceu, deixou-a no hospital e fugiu sem documentos, com o nome desconhecido do pai. No pequeno papel do lar de infância escreveram mãe desconhecida, pai ausente. Foi chamada Primavera porque nasceu na primavera, quanto ao nome, ninguém sabe porquê. Helena sempre fez amizade com rapazes o seu melhor amigo, Tiago, era um ano mais velho, também Primavera pelo mesmo motivo. Helena era aplicada nos estudos, sempre obediente, trabalhadora e pronta a ajudar sonhando que talvez algum dia fosse escolhida por uma família. Só conhecia a vida em família através dos filmes. Talvez, por ser alta e desengonçada, nunca alguém a escolhesse. Ou porque tinha pouco jeito. Quando adotaram Tiago, chorou toda a noite não de inveja, mas por perder o único amigo. Se quiseres, não vais, sugeriu Tiago, ansioso, por detrás dos óculos. Tiago, és parvo? Isso não se recusa. Vai, cada um tem a sua história. Prometo que te vou encontrar, ouviste?, insistiu ele. Helena riu, mas não levou a sério.

Terminou a escola, entrou no curso de construção civil no Instituto Politécnico, viveu numa residência de estudantes. Mal acabou o curso, deram-lhe um pequeno T1 como órfã, embora fosse nos arredores de Lisboa, não fez caso. Arranjou emprego na área num gabinete de projetos. A verdadeira vida adulta começara. Tinha muitas colegas, mas sentia que ainda não era tempo para fundar uma família. Mas sonhava: queria uma casa grande, um marido bom e dedicado, dois ou três filhos correndo e rindo pela casa, a chamarem mamã, papá! palavras calorosas e quase desconhecidas. Abrir a porta e ouvir mamã, papá! tal como numa história mágica.

Um dia, ao chegar ao prédio, a porta abriu-se de rompante, um rapaz passou por ela a correr com uma mala. Helena entrou e viu uma velhota caída nas escadas:
A minha reforma… a mala… empurrou-me! Onde estão os óculos? Não vejo nada! Helena correu atrás do rapaz, mas ele desaparecera já. Ajudou a senhora a levantar-se, por sorte não se magoou muito. A velha, a chorar, balbuciava:
Como é que há gente capaz de tal coisa, filha? Porque fez ele isto? Acompanhou a senhora até casa, onde o marido jazia doente, acamado. Helena começou a fazer-lhes visitas, levava compras o dinheiro da reforma tinha desaparecido. Fizeram queixa, mas o rapaz parecia ter-se evaporado. A mala com os documentos foi encontrada dias depois, junto ao prédio menos mal.

Com o tempo Helena tornou-se visitante habitual da avó Teresa. Chamavam-lhe neta e convidavam-na sempre para ficar. Filhos não tinham.

Certo dia, no autocarro, um rapaz abordou-a:
Desculpe, conheço o seu rosto. Não nos encontramos já algures?
Helena riu, Não me parece.
O rapaz era simpático. Durante o caminho apresentou-se: era Henrique, vivia com a mãe, trabalhava já. Parecia que se conheciam de sempre. Henrique passou a ir buscá-la ao trabalho, acompanhava-a até casa. Uma vez, convidou-o para entrar, deu-lhe chá e sandes. E, sem saber bem porquê, contou-lhe como crescera num lar de infância. Henrique ouviu-a com estranha hesitação, como se quisesse falar e não conseguisse. Talvez a pena dominasse o olhar. Helena gostava dele, mas sentia algo estranho. E, da vez seguinte, aconteceu o inesperado. Depois de entrarem, enquanto ela aquecia água, Henrique aproximou-se, apertou-lhe as mãos. Henrique, não devíamos apressar as coisas pediu ela. Mas ele continuou a agarrá-la e, depois Helena gritou, e ele revoltou-se de súbito:
Pensaste que não te reconhecia? Ajudei-os, disseram-me que eras rapariga de lar, até o retrato-robô vi! Só escapei por sorte. Agora não piques, ouve-me bem: ninguém vai acreditar em ti, a ninguém fazes falta! E se falares, vais ver vai ser pior!

Helena não foi à polícia. Temia a vergonha. Um mês depois, foi levada às pressas do escritório para o hospital. Gravidez ectópica, hemorragias, talvez nunca pudesse ter filhos.

A avó Teresa não a largava dava-lhe caldos, animava-a, cuidava com ervas e mimo. Helena saiu do hospital sem esperança na vida, sem saber o rumo. Calada, certo dia caminhou até ao convento das redondezas. Era outono, o céu alto e azul, os sinos ressoavam sobre as cúpulas douradas, nos jardins as flores já tinham passado.
Primavera, Helena? ouviu alguém chamar. Um dos trabalhadores do convento vinha ao seu encontro, sorridente:
Helena, tinha saudades! Queria mesmo procurar-te!
Tiago? És tu?
Finalmente reconheceu o rapaz. Abraçou-o e chorou. Ele limpou-lhe as lágrimas:
Vem, vamos jantar juntos, hoje há papas, bolinhos e chá. Depois conversamos.
Helena contou tudo a Tiago, e ele o mesmo como fora adotado, espancado pelo padrasto, até fugir, aleijar-se e vaguear. No convento acalmara a alma.

Helena voltou a casa de coração mais leve, sentindo que encontrara novo sentido para a vida. Ficou uns dias no convento com Tiago e juntos decidiram o futuro. A avó Teresa e o avô António, há muito, ofereciam-lhe passar a casa para o nome dela. Mas Helena e Tiago tiveram ideia melhor.

Os velhotes reagiram com júbilo ao convite de viver todos juntos. Nunca imaginaram que, no final da vida, alguém quisesse partilhar o lar com eles.

Agora, Helena e Tiago Primavera são casados há mais de cinco anos. Mudaram-se para uma casa espaçosa nos arredores. Há espaço e alegria para todos. A avó Teresa e o avô António sentem-se em casa, são os mais velhos, os mais respeitados, com uma família a seu lado.

Dois anos atrás, Helena realizou o maior sonho: adotaram dois irmãos, Danilo e Mariana, precisamente do mesmo lar onde ambos cresceram.

Tiago, lembras-te como sonhávamos que alguém nos levasse para uma casa? dizia Helena com voz alegre Agora vê bem os olhos deles e prometamos ser os pais que sempre quisemos ter.

Agora ouve-se:
Mamã, onde está o papá? Vó, vem cá ver o que fizemos com o avô!

Do passado mau, Helena não quer lembrar. Avó Teresa contou um dia, em surdina, que o rapaz lhe fora apanhado por novas malandrices. Desta vez, preso e talvez por muito tempo.

Que cada um receba o que merece nesta vida e na Eterna.

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