A Boneca Partida

A boneca partida

Mafaldinha, foi simplesmente maravilhoso! Leonor é um encanto! E aquela voz! Nunca ouvi nada tão belo! Sabes que vou ao São Carlos frequentemente Já sou quase uma especialista. Ela tinha mesmo de cantar lá! Não há dúvidas!

Obrigada, Bela, por gostares tanto do talento da minha filha! A Leonor trabalhou tanto para isto. Quantos sacrifícios, quanta dedicação, e finalmente, a Carmen!

Que maravilha! Agora que a Leonor conseguiu o que queria, não achas que está na hora de pensar no futuro? Claro que ela é uma cotovia, mas não pode saltar de ramo em ramo a vida toda! E o ninho? E os filhinhos?

Não sei, Bela. Acho que ainda não é o momento. Ainda é jovem, e este sucesso de hoje é só o início de uma longa carreira.

Mafalda! O Vasco já está há tanto tempo pronto para casar, não sei como ainda aguenta esperar! Ele ama a Leonor e não vive sem ela! E nós estamos a ser o entrave à felicidade deles! Bela Borges tirou um lenço de renda da mala e enxugou os olhos. Quem somos nós para impedir?

Eu preferi não responder de imediato. Bem sabia que a minha amiga não desistia facilmente, mas não me apetecia continuar aquela conversa. Já era a milésima vez que insistia.

A Bela, que eu conheço desde sempre, sempre foi muito persistente. Quando queria alguma coisa, conseguia. Nunca aceitava um não. E, verdade seja dita, nunca houve um desejo da Bela que ficasse por cumprir.

Até mesmo a nossa amizade começou assim, com um desejo da Bela. E ainda hoje me lembro bem daquela sensação de estranheza e injustiça que senti naquela altura.

O meu pai trouxe-me uma boneca lindíssima de Santarém, numa das suas viagens de trabalho. Cabelos dourados de linho, olhos azul-claros, vestido fora do comum. Batizei-a de Lisa e parecia-me a melhor boneca do mundo. Punha-a sempre à mesa comigo nos chás de brincar, obrigava toda a gente a normas de etiqueta que a mãe me ensinava.

A Bela viu a Lisa uma semana depois de ela cá ter chegado. E ficou imediatamente maravilhada por ela. Não conseguiu, como era hábito, que lha desse. Desta vez, não quis abdicar da minha Lisa. Então, ficou doente a sério, com febre e lágrimas sentidas. Sofria tanto, que eu própria levei-lhe a boneca. Se ela estava tão mal, não ia ter coragem de dizer que não.

Arrependi-me logo. Fiquei a ver, de lágrima ao canto do olho, como a Bela parou de chorar na hora, pegou na sua velha boneca Joana, sem cílios e de olhos emperrados, e atirou-a para o fundo do baú.

Agora ficas aí!

Porque é que aquilo me magoou tanto? Nem sabia explicar. Só sei que tive pena da Joana velha e pedi-a, como prenda, à Bela, que nem deu importância. Levei-a para casa.

Entreguei a boneca à minha mãe para a compor. Custava-me, mas aceitava que as minhas coisas iam ter o mesmo destino: quando a Bela se fartasse, Lisa acabaria de cabeça para baixo algures, esquecida.

Nunca imaginei pedir a Lisa de volta. Não parecia certo.

A Joana ficou no meu quarto anos a fio. Cresci, nasceu a Leonor, e lá estava ela, sentada na prateleira, de braços abertos e olhos enormes e azuis, mesmo sem pestanas.

Para mim, aquela boneca tinha passado a ser o lembrete de como algumas pessoas largam os laços antigos por vontade de experimentar o novo. Percebi cedo que há quem seja assim não só com brinquedos.

A Bela era a vizinha do lado, única amiga da minha idade naquele prédio em Lisboa, por isso decidi não estragar a relação por causa de comportamentos esquisitos. Quem sabe, as pessoas mudam. Até lá, vivíamos em harmonia.

Quando nos mudámos para aquela casa eu, a mãe e o pai foi depois de o meu avô Lourenço morrer. Quase não me lembrava dele, mas a família falava sempre do seu nome em voz baixa, com respeito. Só anos mais tarde soube o que ele fazia, nada próprio para se explicar a crianças.

Foi bem depois, quando o pai, um dos melhores cirurgiões de Lisboa, morreu subitamente, que fiquei sozinha com a mãe.

Agora somos só nós, Mafaldinha. Teremos de nos desenrascar… Não sei como…

Porquê?

Sempre fui protegida primeiro pelo pai, depois pelo avô. Ele decidia tudo: para onde íamos, o que comprávamos, como nos vestíamos. Decidia, e ponto final. Depois, era o teu pai.

Mas isso não é maneira de viver! Por que aceitaste tudo?

Minha querida, que remédio? E também qual o mal de um homem tomar conta da família? Eu entrei pobre naquela casa. De nobre só o nome, vinda de Vila Franca, mãe incógnita… Isso era vergonha naquela época. Até agradeço não ter ficado com ela…

Mãe…

O orfanato era o melhor que conhecia, graças às pessoas que lá trabalhavam. Não havia mimos, mas ensinaram-nos a lidar com a vida, prepararam-nos para tudo. E eu sei que gostavam de nós, mesmo sem mostrar. O verdadeiro amor, sabes, é aquele temor de que nos aconteça mal.

Tens medo por mim?

Tanto, filha. Sempre tive. O teu pai nunca percebeu. A ele ensinaram a ser forte, a tomar decisões e assumi-las. Também, numa família como a dele! O avô ficou orfão aos sete, o pai aos seis. Ambos criados pelas avós. Ambos andaram no Colégio Militar, mas o teu pai insistiu em ser médico. O avô não discutiu, aceitou.

E ele tornou-se médico…

E dos bons! Isso tu sabes!

Onde se conheceram?

Na rua. Eu com as amigas no Chiado, ele cruzou-se connosco e eu parti o salto do único par decente de sapatos. Chorava como uma tonta! Sapatos emprestados, noutro tamanho, partilhados na residência universitária. Comprados a meias, adaptados depois. Quando ficava sem uma só par, era uma tragédia. O teu pai não só levou ao sapateiro o salto, como me acompanhou depois.

Tinhas medo que ele te visse assim?

Naquele bairro, os rapazes não toleravam forasteiros. Arriscava-se a levar. Mas o teu pai sempre soube conquistar todos com gentileza.

E o avô, aceitou-te logo?

Não foi de imediato. Observava, não se opunha. Quando o teu pai me levou a casa pela primeira vez, limitou-se a dizer: É tua escolha. Nunca me mimou. Só mudou quando nasceste. O teu pai desaparecia dias inteiros no hospital, e eu, inexperiente, cansadíssima, sem apoio. No orfanato não nos ensinavam nada sobre bebés. Tudo aprendi na maternidade ou nos livros. No centro de saúde levava raspanetes, chorava sem forças. O avô não suportava empregados em casa: tudo cuidava sozinho. E eu, graças ao que aprendi, cuidava. Mas com bebés… Só me desenrasquei quando ele, numa noite, pegou em ti nos braços e disse: Vai dormir, miúda, eu fico. Dormi tantas horas, onde parei… E percebi ali que ele me aceitava.

Tratava-te pelo nome?

Sim. Só depois me chamou Olívia, de filha. Foi como receber o maior presente.

Mas o melhor era que amava-te, Leonor, sem limites. Eu sentia vergonha de não lhe ter dado um rapaz, mas ele adorava que fosses rapariga. Há aquela foto tua, os laços a compor foi o avô. Um homem tão sério, a brincar contigo… Deu-me um lar e ensinou-me o que era família.

Quando ele partiu, muita coisa mudava, ele não queria ficar cá para ver. Um homem de valores, não se encaixava no novo país, sentiu-o. Talvez por isso não lutou contra a doença.

Porque achas isso?

Nos últimos dias, pedia desculpa por nos deixar, por não te ver crescer… Fez tudo por nós. Insistiu para eu estudar, não ficar sem recursos. Agora, sou só eu por ti. Mas vamos vencer, Mafaldinha. Tenho trabalho, casas temos duas, a tua ficará para quando casares. Não quis alugar, tudo lá é dele, não queria gente de fora nas suas coisas. Enquanto puder, fico assim.

Eu agradecia à minha mãe essa decisão. Foi naquele apartamento do avô que passava tardes a arrumar a biblioteca, a cheirar o passado e imaginar as conversas que nunca tivemos.

A mãe, Olívia, refletiu e mudou de profissão, com ajuda de um amigo do sogro. Rapidamente entrou numa clínica de Lisboa. A reforma era suficiente, mas Olívia sabia que as filhas crescem e o futuro requer outro suporte.

A mãe morreu quando a Leonor tinha dez anos. Não me permiti ceder à tristeza. A Leonor só tinha a mim agora, não podia desmoronar, nem por um instante.

Com a Bela, mantive contacto todos estes anos. Não éramos íntimas, mas trocávamos notícias dos filhos, meio distantes. Ela casou e rumou para Sintra, onde o marido tinha um grande ateliê. O filho seguiu o pai, artista também. Era por isso que a Bela queria a Leonor por perto.

Os talentosos têm de se unir! Para quê procurar fora? Quem sabe que genética trará uma relação alheia? Importa-me netos saudáveis e geniais! Não concordas, Mafalda?

Eu encolhia os ombros. Nunca lhe contei o passado da minha família. A avó dizia sempre: Ouve dos outros, fala de ti o menos possível.

Quanto menos souberem de ti, melhor!

Aprendi bem. Não queria o Vasco para a Leonor. E nunca disse isto à Bela, para não criar atritos desnecessários.

Sabia que a Leonor não seria feliz com Vasco. Um rapaz habituado a ter tudo por mão do pai e da mãe, sem nunca lutar; e a Leonor, cujo conto favorito era sobre o sapo determinado que conseguiu tudo com esforço. Sabia bem o que era perder o pai cedo, perceber desde pequena que O pai teria orgulho em ti! era o melhor elogio.

E também sabia que teria sempre o apoio da mãe. Por isso, escolhia cuidada e pacientemente o seu caminho.

O que não esperava era apaixonar-se por Vasco, alguém que sempre vira apenas como amigo.

Como aconteceu? Nem ela sabia. De repente, queria passar mais tempo com ele.

Vasco era leve e bem-disposto, cheio de energia, e isso fazia-lhe falta. Agarrava-lhe a mão e, sorrindo, pedia que fossem juntos passar o fim de semana à Serra da Estrela. Ela não sabia esquiar, mas ele arranjava-lhe tudo skis, fatos novos e só dizia: Vais conseguir! E era exatamente disso que a Leonor precisava: aprovação e entusiasmo.

Gostou da primeira vez que foi à serra com amigos. Vasco, ainda que conversasse com todas, deixou claro que estava com ela.

O único problema foram os skis; Leonor percebeu logo que a coordenação não era o seu forte. Vasco não a entendeu, brincou, picou-a, irritou-se quando ela recusou.

Então vieste para quê?

Porque tu estás aqui respondeu, quase a chorar.

Pronto, está bem.

No fim da viagem, Vasco pediu-a em casamento, numa festa cheia de show off, brindes e champanhe. Aceitou, mas chorou sozinha a olhar para o anel caro. A Bela mexeu-se para tornar o casamento uma produção elegante, restando a nós escolher vestido e dar uma arrumação ao apartamento do avô.

As dúvidas começaram um ano depois do casamento. Leonor cantava, Vasco pintava, mas para a Bela isso não chegava.

Está na hora de terem filhos! Não esperem que envelheçamos e não possamos ajudar! Enquanto houver forças, tomamos conta dos netos, eles que criem arte! Mas não deixem a vida para depois.

Não sabia o que responder. Sabia que a Leonor queria filhos o problema era Vasco, que os recusava.

Mas não contes à minha mãe! Ela só fala em crianças E eu? Só de pensar nesses miúdos a despedaçarem o ateliê, para quê? Não fui criado para isto! Quero viver, não vou perder o meu tempo!

A Leonor ficou destroçada. Tentou falar com Vasco mas percebeu que não era um capricho passageiro.

Quero ser grande, Leonor! Quero ser pintor de renome! E tu? Vais fazer-me cair do pedestal antes de lá chegar? Deixa-me viver, não tentes mudar-me! Entendes como ninguém, o nosso mundo é a arte! A minha mãe foi inteligente quando te escolheu.

Quanto à inteligência da Bela, Leonor preferia calar- se. Reduziu ao mínimo os encontros com a sogra, pois sabia que dali não vinha nada de bom.

Leonor, não percebo! Em que pensas? O Vasco quer filhos e tu só pensas em árias? Não há nada de mulher em ti?

Ela ouvia, sem se defender. Nem faria sentido obrigar o marido a contar à mãe que queria um casamento sem filhos. Não lhe parecia digno.

Mafalda, convence a tua filha! Já chega de esperar!

Foi então que se deu o acontecimento que deitou fim ao casamento e arruinou de vez a relação das famílias.

Uma visita à serra tornou-se um desastre. Vasco estava estranho, impaciente. Ao ver que ela não queria esquiar, irritou-se de modo violento.

Para quê instrutor? Eu ensino-te! Porque tens tanto medo?! Não é a primeira vez!

Leonor cedeu para evitar discussão, e arrependeu-se de imediato.

Acordou num hospital. Ao lado, eu, cheia de olheiras, não sei como tinha entrado nos cuidados intensivos.

Mãe…

Shhh, Leonor! Não fales. Vai ficar tudo bem!

E o Vasco?

Virei o rosto para não dizer logo a verdade: ele voltou para Lisboa mal percebeu o acidente.

O que querem que faça? Não sou médico, tenho uma exposição. Não podia vir mais a calhar! disse ele, e Leonor só soube disso muito depois.

Com esforços e lágrimas, convencida de que a minha filha não podia acabar derrotada, levei-a para a clínica onde trabalhava.

Os médicos não eram optimistas, mas eu recusava desistir. Olhava as fotos do avô e sussurrava: Não vou ceder, nunca. Ela só me tem a mim!

Tentei falar com Vasco, mas logo desisti.

Por favor, ela amava-te! Que custa estares presente?

Amava, sim. Agora já não posso fazer nada. Vamos seguir cada um o seu caminho. Não sou mártir.

Mas isso faz-se?

Faz, Mafalda. E bem.

Optei por focar-me só na recuperação da Leonor. E, contra todas as expectativas, conseguiu. Lutou, superando dores atrozes, e, passo a passo, voltava a caminhar.

Muito bem, minha menina! Consegues tudo! O pai ia orgulhar-se tanto!

Mas nunca mais voltou a cantar. O trauma e as operações tiraram-lhe a voz para sempre. Nunca soubemos dizer exatamente quando. Talvez da agonia em que ficou horas a tentar chamar ajuda, esquecida na neve, até ser encontrada por um instrutor de pista.

E só no hospital percebeu que Vasco nem dera por falta dela.

Quando perguntei pela ausência dele, Leonor apertou-me as mãos e murmurou:

Já percebi, mãe. Não querem boneca partida Também fui uma Joana deixada de lado.

Não vais ser a Joana! Não permito! gritei, assustando até a enfermeira.

Dias passaram, e anos também. Um dia, no Jardim do Campo Grande, uma jovem elegante, coxeando levemente, deixou sair do carrinho um menino e disse com carinho:

Força, campeão! Explora tudo, mas devagar, para a mãe conseguir acompanhar-te. Dá-me a mão!

O menino, com ares traquinas, correu ao ver-me e eu apressei-me a abraçá-lo.

Meus amores! Que saudades!

Leonor sorri, pergunta das férias. Digo que correu tudo bem.

Nem imaginas quem encontrei: a Bela.

E…?

Sofre. Diz que o Vasco anda à deriva, ela envelhece sem netos.

E respondeste?

Nada contei da tua felicidade, nem da tua nova família, nem que o segundo neto já vem a caminho. Tenho pena dela.

Também eu Como são estranhas as pessoas, não é?

Cada uma à sua maneira, filha. Não vamos falar do passado. Mostra lá esse sorriso! Quantos dentes já tem o meu neto? Não terá demais?

Ó mãe! Está perfeito!

Leonor põe minha mão na sua barriga e, sorrindo, declara:

Queres saber uma novidade?

Boa?

Melhor impossível! Vais ser avó de gémeos!

Ai!

Não ficas feliz?

Fico atordoada! Mas a felicidade é tanta

Achas que pode haver felicidade a mais, mãe?

Não sei. Só sei que merecemos esta. Principalmente tu! Oh, mãe

Diz, filha…

Eu não sou a Joana…

Claro que não. Prometi-te, lembra-te.

Hoje, entendo mais do que nunca que há coisas e pessoas que nunca devemos deixar de lado, mesmo quando a vida nos parte às vezes. Aprendi que, com amor e perseverança, reconstruímos tudo o que importa.

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