Inocente, mas culpada
Pega na tua filha e vão-se embora. Entre nós os dois, acabou tudo!
Mas, Rui
Já disse tudo! E não quero voltar a ver-te!
A porta bateu com estrondo, e Mariana vacilou. O chão pareceu fugir-lhe dos pés, um zumbido cresceu-lhe nos ouvidos e, como se ouvisse a voz da mãe num eco distante, ouviu: Nem penses nisso!
Foi o que a trouxe de volta. Mariana avançou devagar, sentou-se à mesa e cravou as unhas nas palmas das mãos. A dor ajudou-a a afastar a névoa que ameaçava consumir-lhe o espírito.
Não posso! Não posso deixar-me levar! Também não posso cair no desespero… Mas tanto que apetecia…
Nem penses nisso! Tens a Matilde! E não, ainda não era altura de pensar nisso! Agora era preciso juntar os pedaços e perceber o que tinha acontecido.
O que terá afastado Rui assim tão de repente? Porque é que ele a pôs fora de casa? Ainda ontem estava tudo tão bem…
Ou talvez não?
A cabeça, finalmente, começou a funcionar, e Mariana virou as mãos para cima, apoiando-as na mesa.
Então, como dizia a mãe? Não sabes o que fazer analisa! Vai por pontos e conta pelos dedos. Ou, melhor ainda, pega num lápis e escreve!
Mas os lápis estavam longe, noutro quarto. E ali, descansava a Matilde
A filha tinha o sono leve e Mariana não queria acordá-la. Se o fizesse, Matilde começaria a chorar e não conseguiria pensar com clareza.
Tinha de se desenrascar.
Olhou para as suas mãos, cerrou os punhos. As unhas, há muito sem manicure, a pele áspera, e as sardas que apareciam sempre que Mariana passava demasiado tempo ao sol, a tratar da horta. Quem diria que se deixaria apaixonar assim pelos trabalhos da casa e esqueceria o que a mãe tanto a ensinou?
Mariana, és uma mulher!
Não! Sou uma menina!
Por enquanto O tempo passa depressa, um dia és mulher, como eu. E olha, uma mulher nunca se pode descuidar! Nunca! Manicure, pedicure, cabelo arranjado! Mãos cuidadas! Isso diz mais de ti do que roupa cara. Não se podem usar joias num pescoço sujo! Compreendes?
Sim, mãe! dizia Mariana, com oito anos, a pintar os lábios com o baton da mãe.
Isso é um bocadinho cedo, minha rica! ria-se a mãe, tirando-lhe o baton. Ainda não tens idade para essas coisas. E és linda assim, não te preocupes Cada coisa a seu tempo!
Mas mãeee
Já disse!
A última vez que ouvi isto da minha mãe foi há muitos anos. Mas quando ela falava assim, percebia-se logo que não valia a pena discutir. Sempre foi mulher de palavra.
Sempre
Mariana, tenho de ir. Vais ficar com a avó por uns tempos. Tem de ser.
Mãe é por muito tempo? Mariana, que acabara de fazer dez anos, amassava o vestido nas mãos, a morder o lábio, a conter as lágrimas.
Meio ano. Ofereceram-me um trabalho ótimo. Mas é lá em cima, no Norte! E não posso levar-te comigo. Vais ficar melhor aqui, com a avó. Ela toma conta de ti, eu telefono e escrevo.
Mãe, não vás…
A Mariana chorava e a mãe acabava por se exasperar, incapaz de a acalmar.
Chega! Não tenho saída. Se não aceitar este emprego, nunca vamos ter a nossa própria casa. Quero que tenhas o teu quarto! Quero poder levar-te ao Algarve no verão! Se o teu pai cá estivesse, não tinha de fazer isto Mas agora, sou eu por nós as duas!
Mas há a tia Isabel
A Isabel tem a vida dela e também precisa de ajuda!
Então, fica comigo! gritou Mariana, e pela primeira vez viu o olhar materno endurecer.
Mariana! a voz da mãe era tão fria que a menina estremeceu. Não se pode pensar só em nós! Isso é errado. Se não pensares nos outros, ninguém pensará em ti quando precisares. Eu estou a pensar em ti, primeiro que tudo! Prometo que é só desta vez! Aguenta, filha Tem de ser.
Não lhe restou mais do que acenar que sim, com o coração apertado.
Escrevia cartas à mãe e, ao fim de semana, agarrava-se ao telefone, ansiando pela voz dela. Morria de saudades, recusava até o gelado favorito. O tempo parecia estar parado. Quando a avó finalmente anunciou que iam ao aeroporto buscar a mãe, Mariana chorava tanto que tiveram de ir de táxi.
A mãe cumpriu. Nunca mais a deixou tanto tempo. Houve uns trabalhos fora, mas já não era ausência igual.
Mudaram-se do pequeno T1 do pai para um apartamento maior. Mariana ganhou o seu quarto mas passava lá pouco tempo. Trazia os livros e cadernos para a cozinha e esperava a mãe chegar do trabalho, e passavam o resto do dia juntas. Muitas vezes em silêncio, se a mãe tinha trabalhos extra.
Gostavam assim, uma da outra.
As aflições da adolescência passaram-lhes ao lado. Raramente discutiam, tal era o tacto da mãe. Mariana, já adulta, admirava aquele amor todo numa mulher tão frágil, sem qualquer apoio. A avó já tinha partido, e as duas ficaram sozinhas.
A mãe deixou de falar com a irmã.
Nunca perguntou muito, mas uma vez arriscou a questão.
Perdoa-se quase tudo. Menos traição.
Mas a tia Isabel, o que fez ela?
Traiu a nossa mãe. A tua avó chamou-a, queria despedir-se. Mas ela não veio
Porquê?
Tinha medo que lhe pedisse para ficar. E era obrigação dela também estar presente. Não aguentava ver a mãe tão doente, tão dependente Não conseguiu.
E tu, conseguiste?!
Também não conseguia a mãe olhava em frente, os lábios tremiam, e Mariana quis abraçá-la. Mas não tive escolha, Mariana! Nenhuma! Era a minha mãe, era o que eu tinha a fazer. Que partisse em paz, junto dos nossos rostos familiares. Mesmo que já não nos conhecesse…
Foi por isso que não me deixavas ficar mais de uns minutos com a avó?
Sim. Para não a recordares assim.
Sabes, não me lembro de a avó estar acamada, do que dizia. Só me lembro de me ensinar a fazer compota, tirar a espuma cor-de-rosa, comer com a colherzinha pequena assim é mais doce
Também fazíamos isso em pequenas, eu e a Isabel
Não entendo. Cresceram juntas, a avó protegeu-vos por igual E ficaram tão diferentes!
Às vezes é assim. A Isabel era muito doentinha, a mãe protegeu-a demais. Talvez por isso tenha ficado diferente, não sei
Resultou?
O quê?
Proteger?
Não. Viste o que foi a vida dela. Dois casamentos, três filhos, tudo sempre aos tombos Não julgo a minha mãe, mas isso ajudou-me a perceber o que não fazer contigo.
Não se deve proteger os filhos de tudo?
Deve-se, mas com cabeça! Que mãe não quer ajudar o filho? Mas o que ganhas a pôr uma criança dentro de uma redoma? É preciso que caia, se levante, aprenda. Quase ninguém aprende com os erros dos outros. E sabes o que aprendi? Talvez, se a minha mãe não tivesse feito tudo por Isabel, quem sabe se ela não teria enfrentado a vida de outra maneira? Uma coisa te garanto: apoio-te sempre, ajudo-te sempre. Mas não peças que resolva tudo por ti. Dá o primeiro passo, pensa. Se não conseguires, chama-me. Eu fico sempre aqui Percebeste?
Sim, mãe
Agora, Mariana estava ali, a contar pelos dedos, a tentar perceber onde tudo descambou.
No dia anterior tinham celebrado o aniversário de Rui. Não era data redonda, decidiram fazer só com a família. O verão convidava, e a casa grande, onde acabavam de se instalar, dava para todos.
Vieram a mãe de Mariana, a sogra, a irmã de Rui com o marido e os filhos.
Matilde, feliz por ter companhia, corria pelo jardim, cheia de perguntas:
Quando chegam os primos? E vamos à piscina? E
As perguntas eram tantas que Mariana deixou de responder. Não valia a pena. Matilde interrogava-se e respondia, enquanto arrumava o quarto. Não se recebe visitas com a casa desarrumada!
Rui foi ao mercado, a cozinha fervia. A mãe ajudava Mariana e indagava sobre como se sentia.
Porque estás tão aflita, mãe? Não está tudo bem? desabafou Mariana.
Está tudo bem, filha Só queria saber de quanto tempo.
Mariana percebeu que o segredo que mal aceitava dentro de si já não era segredo nenhum. Sentiu-se aliviada, abraçou a mãe, rindo.
É muito cedo Só três semanas. Nem contei ao Rui ainda. Como soubeste?
Estás luminosa igualzinha quando esperavas a Matilde.
Mãe, estou assustada
Assustada com quê, parva? Está tudo tão bem convosco!
Não sei… Sinto um aperto. O Rui anda calado, estranho Não percebo.
Já perguntaste?
Não me diz nada!
Então não perguntaste bem!
Ó mãe!
Olha, não devia ter-te deixado aprender isso sozinha! Não deixes afastar quem amas! Nem um milímetro! Se te afastas, pode encontrar quem o oiça e nunca se sabe o que disso pode nascer
Mariana contou mais um dedo: ali estava o início. Tudo partiu daquela conversa. As dúvidas dela eram tão vagas que nem reparou até a mãe a alertar.
Mas não chegou a tempo. Primeiro o almoço, depois a limpeza pós-festa, nem teve tempo de puxar pelo marido e perceber o que se passava.
E então, ele disse aquilo que ela não compreendeu:
Leva a tua filha!
Que frase era aquela?!
Mariana cerrou os punhos. Agora faria tudo certo, como a mãe lhe ensinou. Primeiro, tinha de falar com ele! Chega de segredos!
Rui estava a tirar o carro da garagem, pronto para sair, quando Mariana correu para o jardim e gritou com tal força que até os pardais saltaram dos muros.
Espera!
Saltou o degrau e correu até ao portão.
Rui olhava para ela, surpreendido, parado junto ao carro.
Sai daí a voz dele era rouca, mas Mariana ouviu o que queria ouvir.
Ele não queria ir. Nem queria perder a família. Não se enganara.
Sai do carro! Temos de falar, antes que a Matilde acorde! Que parvoíce é esta? Onde vais?! Como assim?! Sou tua mulher ou uma estranha?!
A voz de Mariana subia, Rui sentia tudo apertar-se por dentro.
Iria ela berrar assim, se não se importasse mesmo com ele, como disse a irmã? Porque o impedia de ir embora, se tudo o que queria era liberdade? Não queria que Matilde ficasse sem pai!
Saiu do carro, rosnou entre dentes:
Como se não soubesses o motivo disto tudo!
Se soubesse, não perguntava! O que se passa, Rui? Há semanas que andas estranho! E hoje, dizes-me isto! Por que lhe chamaste a tua filha? Para ti, quem é ela?!
Pois é isso que não sei! Diz-me tu! De quem é ela afinal? Porque anda o verdadeiro pai da Matilde a vê-la às escondidas?!
Que disparate! Mariana ficou boquiaberta. Estás doido?!
Com quem andas tu a encontrar-te na cidade quando levas a Matilde às actividades?
Mariana quase sufocou de indignação mas tentou controlar-se.
Então foi isso?! Quem te abriu os olhos? A tua mãe? Ou a tua irmã?
A minha mãe não!
Pronto, foi a Vera…
E se foi? O que viu, devia ter-me dito. Sou o irmão dela!
E eu sou tua mulher! Mariana sentiu a raiva a crescer, como uma onda gigante. Dás ouvidos a toda a gente menos a mim! Acreditas em todos menos em mim! É isso?!
Mentiste-me!
Eu?! Ouves-te? Quando é que te menti? Em quê?
Quem é o homem com quem vão passear no parque, tu e a Matilde?
Mariana respirou fundo.
Já te expliquei, Rui! Mas nem ouvias Lembras-te? Fui ver um jogo, tu querias ver a Liga qualquer coisa. Chegámos do ballet e eu disse que encontrei um colega antigo, o Miguel. Esteve anos fora, voltou porque a mãe está doente. Pediu contactos do médico, soube que a minha avó teve o mesmo e queria ajuda. Encontrámo-nos mais vezes, sim! Mas, se a tua irmã tivesse olhado com atenção, via que estávamos com a minha mãe! Achas-me tão sem vergonha que ia encontrar-me com um amante ali? Achas que a minha mãe perdoaria isso? Tenho a certeza de que gosta mais de ti do que de mim! Sempre te respeitou tanto! E tu
Mariana enxugou o nariz, virou a cabeça.
Não ia chorar. Não agora.
Espera, queres dizer que
Rui, já te disse tudo! cortou Mariana, mirando-o de frente. Rui recuou sem perceber. Acreditaste numa calúnia. Esqueceste o que nos une! Atiraste o meu amor e o nome da nossa filha para a lama! Percebes o que fizeste?! Não quero saber porque a Vera inventou tal coisa. Ela entrou na minha casa, trouxe discórdia e ainda se riu o tempo todo, sem dar pistas Mas isso não me preocupa. O que me importa é o que tu fizeste! Queres teste de ADN? Vamos a isso! Faço o que quiseres, para ficares sem dúvidas de que a tua filha, que te olha com os teus olhos, é mesmo tua!
Mariana ouviu passos no andar de cima e suspirou.
Ela acordou.
Entrou em casa e deixou no jardim o marido, ainda atordoado.
Momentos depois, ouviu o carro a afastar-se.
A filha correu para ela, contente, e Mariana sentiu de novo aquela náusea profunda.
Como foi possível? O que fez ela de mal? E agora? Ligar à mãe? Ou esperar, pensar um pouco?
Nunca me fales das tuas discussões com o Rui! Só se tiveres mesmo a certeza que acabou, e que já nada vos une! Aí sim, podes ligar-me que vou ter contigo a correr! Mas antes disso cala-te! Vocês fazem as pazes e eu nunca perdoo essas coisas ao teu marido. Se te faz sofrer, é como se me magoasse a mim.
Mariana pegou no telemóvel, hesitou e deixou-o de lado. Era cedo O Rui precisava de saber que ia ser pai de novo. Depois logo decidiria.
Decidida, acalmou um pouco. Tanto que, quando o carro travou à porta, já estava mais serena.
Estava a dar o lanche à filha quando a porta se abriu com estrondo e Rui entrou, arrastando atrás de si a irmã.
Anda! Mariana, onde estás?!
Aqui Mariana olhou para a filha e percebeu.
Não era bom Matilde presenciar uma discussão dos pais.
Filha, já comeste? Vai para o meu quarto, vê os teus desenhos animados! Consegues?
Sim! Matilde largou os legumes de que não gostava e foi a correr. Olá, papá! Bom dia, tia Vera! A mãe deixou-me ver bonecos!
A voz dela acalmou um pouco os adultos. Rui largou a irmã e Mariana apressou-se a desanuviar.
Vai, Matilde! Já vou ter contigo!
Não venhas já, mãe! Matilde piscou à tia, subindo as escadas para o quarto dos pais.
A conversa foi dura. Vera chorava, Rui irritava-se, Mariana não sabia bem como reagir às acusações.
Pensei que o estavas a enganar! Percebes? Ouço cada coisa das minhas amigas Já não acredito em ninguém!
Achaste que era como elas? E tu, és fiel ao teu marido? Os teus filhos, são mesmo dele?
Vera engasgou-se, perplexa.
Estás a delirar?!
E tu?! Percebeste bem o que pudeste provocar com a tua tontice? Nem falo do Rui. Porque não há-de ele acreditar na irmã? Mas valeste-te dessa confiança. Porquê?
Não sei respondia Vera, chorando sem se conter. Senti que o estava a proteger.
De quê? De mim? Resultou?
Mariana olhou para o marido.
Pronto, dúvidas esclarecidas? Alguma pergunta mais?
Mariana
Não, Rui! Agora sou eu que preciso de tempo! Vera, não quero ver-te cá em casa. Não preciso explicar porquê?
Mariana, desculpa
Depois penso nisso. Por agora, saiam por favor! Mariana levantou-se, abriu a porta e fez um gesto ao Rui. Tu também. Disseste tudo. Vai
Com o Rui, ela faria as pazes. Não de imediato tudo ao seu ritmo. E ninguém, além de Vera, saberia o que se passara. Porque às vezes, não se deve trazer a roupa suja para fora de casa. Agradecia esta lição à mãe.
Um dia, a mãe pegaria no novo neto ao colo, suspiraria às comparações coma sogra sobre semelhanças com o pai e sorriria, de lado, para a filha.
Cresceste tanto, minha Mariana! Tornaste-te uma mulher e mãe de verdade
Achas mesmo?
Alguma vez te menti?
Mãe, o que é ser sábia? Chamaste-me isso, mas não sinto
Ser sábia, filha, é guardar aquilo que a vida nos dá. Filhos, família, casa, amigos Juntar tudo isso, unir e cuidar, dar calor Não é nada fácil! E temos sempre de pensar no que vale a pena guardar e o que se deve esquecer para proteger o que temos. Acho que aprendeste bem esta lição
Achas?
Acho mesmo! Ah, e já agora, o Miguel ligou. Vai casar daqui a um mês. Ficaram convidados, tu e o Rui.
Mãe
Nada de protestos! Fico com as crianças! Mas só te peço uma coisa
O quê, mãezinha?
Arranja-me essas mãos, por favor!
Está prometido!
Mariana abraçaria a mãe, faria um aceno ao Rui e à cunhada, que andaria a pairar na sala, e piscaria o olho à Matilde.
Anda daí! Vais ajudar-me a deitar o mano.
Posso? Matilde brilhava, roçando a mãozinha no punho do bebé.
Tens de ajudar, filha! Tens mesmoMatilde foi buscar o boneco preferido do irmão e, com a solenidade de quem carrega um tesouro, aninhou-se ao lado da mãe. Mariana respirou fundo, sentindo o calor dos filhos em cada centímetro de pele, e deixou-se embalar por instantes nessa paz tão tênue, mas tão real.
Ouviu passos no corredor; Rui hesitava à porta, carregando uma rosa vermelha e expressão arrependida. Mariana olhou nos olhos dele: não havia ali perdão imediato, mas uma ponte discreta, uma promessa de reconstrução. Aceitou a flor sem palavra, deixando que os dedos se cruzassem, ligeiros, numa trégua silenciosa.
Lá fora, o sol caía lentamente sobre o jardim. As flores, abertas depois do temporal, brilhavam ainda mais. Matilde emocionada, deitou o rosto sobre o ombro da mãe e sussurrou, tão baixinho que só ela ouviu:
Mamã, agora já não vamos embora, pois não?
Mariana sorriu, sentindo que ali, naquele exato instante, era finalmente dona da sua própria história. E respondeu, firme, cheia de tudo o que aprendeu:
Não, filha. Agora é aqui que ficamos juntos, como deve ser.
E enquanto os risos do pai e da filha se misturavam pelo corredor, Mariana soube: nem inocente, nem culpada apenas humana. E, pela primeira vez em muito tempo, era suficiente.







