Ser feliz é mesmo obrigatório

Ser feliz é um dever

O meu pai partiu de casa para ficar com outra mulher quando a Joaninha tinha apenas quatro anos. Foi logo depois do Ano Novo, olhou para mim à porta, disse apenas desculpa e fechou a porta de entrada atrás dele.

A minha mãe levou aquilo com uma estranha serenidade, quase como se fosse um desenlace anunciado. Na nossa família, nenhuma mulher teve um casamento duradouro. Mas, passadas duas semanas, durante a noite, ela bebeu todo o Diazepam e Ben-u-ron que havia em casa e adormeceu para sempre, em silêncio.

De manhã, Joana tentou acordar a mãe com insistência e a altos berros. Depois, comeu qualquer coisa que encontrou no frigorífico e voltou a chamar por ela. Cansada, adormeceu agarrada à mãe.

Os dias de janeiro em Lisboa passam rápido e já anoitecia quando a menina acordou. Foi o frio que a despertou. Puxou o edredão com força, juntou-se ainda mais ao corpo da mãe, mas o frio aumentou. Foi aí que Joaninha percebeu que aquele frio insuportável vinha da própria mãe. Lágrimas escaldantes correram-lhe pela cara.

Ouviu-se a porta de entrada abrir-se no corredor. Joana correu para lá como um furacão. Era a tia Lurdes, a irmã mais nova da mãe.

Joaninha, ainda bem que estás em casa. E a tua mãe? Passei o dia a ligar-lhe, porque é que não atende? Fico logo preocupada!

Agarrei-me ao casaco de peles da tia, puxando com força. Olhei para ela com uns olhos grandes e molhados de choro, a tentar explicar-lhe com gestos o que tinha acontecido, mas nenhum som saía da minha boca. A boca abria e fechava, o rosto contorcia-se em dor, lágrimas e ranho escorriam-me pela cara, mas voz não havia.

Lurdes nunca chegou a ter filhos. O marido acabou por sair de casa ao fim de cinco anos, talvez por isso. Mas sempre me amou com devoção, quase como uma segunda mãe. Quando aconteceu a tragédia, a tia tratou de toda a papelada para me adotar legalmente. Não me faltou atenção, nem carinho, mas nenhum tratamento ou terapia, ao fim de três anos, conseguiu devolver-me a voz.

Naquele inverno, vieram geadas tardias e neve em janeiro, coisa rara em Lisboa. Eu e as minhas amigas passámos o dia a descer de trenó nos relvados da Alameda, fizemos uma família inteira de bonecos de neve e atirámo-nos para o chão a desenhar anjos.

Pronto, vamos para casa. Já tens a roupa toda gelada, e as luvas viraram pedras de gelo. Bora lá. Temos que passar no Pingo Doce comprar leite e massa apressou-se a tia Lurdes.

As pessoas iam e vinham do supermercado, a porta automática abria e fechava, e um gato ruivo estava sentado calmamente ao lado direito da entrada. Estava ali, ar compenetrado, olhos semicerrados, como se não quisesse nada com ninguém, mas mexia as patas da frente de frio. Aproximei-me dele, sentei-me de cócoras junto ao gato e fiz sinal à tia para ir que esperava por ela à porta.

Está bem, eu vou rápida, mas tu nem saias daí!

Passei a mão devagar pelo dorso do gato, que se esticou todo, arqueou as costas de prazer e começou a ronronar. Envolvi-lhe o pescoço, encostei a minha bochecha à cabeça dele, e, de repente, as lágrimas correram-me pela cara abaixo. O gato começou a lamber as minhas lágrimas, espirrava mas continuava a lamber.

Credo, não faças isso! Ele é da rua, está sujo! reclamou a tia, puxando-me pelo braço em direção ao carro.

Tentei resistir, mas a tia Lurdes meteu-me no banco de trás e sentou-se à frente, pronta para arrancar.

O gato aproximou-se do carro, miava olhando-me com aqueles olhos cor de cobre.

Não posso deixá-lo. Agora ele é meu, se o abandonar, ele morre sussurrei, pressionando a cara contra o vidro, manchando-o de lágrimas.

Foste tu a falar agora? Repete lá! Repete! a tia Lurdes chorava quase tanto quanto eu.

Não podemos largá-lo. Ele vai morrer sem mim! gritei-lhe no rosto, finalmente em voz clara, como não fazia há anos.

A tia saiu disparada do carro, agarrou o gato num impulso e sentou-se comigo no banco de trás. O gato fincou as unhas no seu casaco, mas assim que me viu, saltou para o meu colo, deitou-se ali e adormeceu.

Queres mesmo ficar com ele? Pronto, podias ter dito logo, há muito que queria arranjar-te um amigo destes sorriu-me, finalmente aliviada.

Nesse dia, aprendi que a felicidade pode mesmo começar num pequeno gesto de coragem e amor. E que, por maior que seja o frio dentro de nós, um abraço sincero pode sempre devolver-nos o calor.

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