Tinha eu uns cinco ou seis anos, ainda antes da escola, no início dos anos noventa, quando vieram morar na nossa aldeia, vindos da cidade, dois reformados – a dona Vera e o senhor Alexandre

Tinha eu uns cinco ou seis anos, ainda não ia à escola, era início dos anos noventa, quando chegaram à nossa aldeia dois reformados vindos da cidade a Dona Emília e o Senhor António. Compraram uma casa mesmo em frente da nossa baixinha, só com duas janelas, mas com um quintal enorme, que eles, já sem forças pela idade, recusaram-se a cultivar. Todos os dias passeavam ora iam ao pinhal, ora ao rio, e só de vez em quando iam à vila buscar mantimentos. Viviam de forma discreta e quase não dávamos por eles. Nunca foram de nos visitar, apenas vinham duas vezes por semana buscar leite a nossa casa. Nessa altura, tínhamos uma quinta grande, mas o dinheiro era escasso, e a Dona Emília, com um jeitinho, escapava-me sempre um pequeno presente um chocolate, um caderno ou até umas moedinhas de escudo. Não tinham filhos.

Cerca de três anos depois de se instalarem na aldeia, numa noite fria de fim de inverno, acabávamos nós de desligar a televisão e deitarmo-nos, quando alguém bateu suavemente à janela. Era a Dona Emília que, baixinho, nos disse que o Senhor António tinha falecido.

Ajudámos no que pudemos com o funeral. Custou muito à Dona Emília perder o marido; adoeceu, deixou de sair de casa sem ser necessário. Passámos a visitá-la quase todos os dias. Nesses serões, ela contava como viveram juntos cinquenta e dois anos, o tempo passado a trabalhar no difícil turno de uma fábrica, e como, ao reformarem-se, decidiram deixar o apartamento, em Lisboa, à sobrinha, para se mudarem para a aldeia, viver junto da natureza.

Veio a primavera. A Dona Emília, devagarinho, habituou-se a viver sozinha e começou a melhorar. Um dia, convidou-me a ir a casa e mostrou-me um pequeno cachorro cinzento que se arrastava numa caixa. Nunca fui grande fã de cães, mas bastou olhar para o pequeno para o meu coração se render. Apaixonei-me à primeira vista.

Ainda hoje, tantos anos depois, lembro-me de mim sentado no chão, a afagar o cachorro com um dedo, enquanto a Dona Emília me lançava olhares ternurentos, ora para mim, ora para ele, sorrindo, pela primeira vez desde a morte do marido, com aquele seu sorriso desdentado.

Eu e o António nunca tivemos nem gatos nem cães. Nem filhos, veja só. E olha, meu querido, custa muito estar assim sozinha. Este cinzentinho apanhei eu hoje junto ao mercado, lá na vila, ao pé dos caixotes do lixo. Quem lhe resistia, diz-me tu!

Eu, de olhos colados no cachorro, mal respirava.

E o que come ele? Deve estar cheio de fome… quase desatei a chorar.

Aqueci-lhe leite, mas da tigela ele não bebe, precisa de biberão, e não tenho nenhum. Amanhã hei de comprar, murmurou a Dona Emília, envergonhada.

Corri a casa e tirei o biberão da boca da minha irmã bebé, que dormia um sono descansado.

O cachorrinho devia ter uns dias apenas. Ajudei-o a mamar, espremendo o leite com cuidado para ver se pegava. Torcia para que sobrevivesse.

Durante mais de uma semana, eu e a Dona Emília não conseguíamos decidir-lhe o nome. Ela ria-se e queria chamar-lhe Fofinho, por ter as orelhas engraçadas, mas eu é que insisti em chamá-lo de Sossegado, porque era calmo, quase não piava, e todos à volta dele falávamos tão baixo como ratinhos. Ficou assim: Sossegado, Sossi, Sossegadinho.

Durante semanas, quase até ao verão, tratámos dele com todo o carinho aquecíamos leite, preparávamos-lhe comida. Quando as manhãs aqueceram, deixávamos sair o Sossegado da caixa para o quintal. Via-se que tinha nascido fraco, talvez por não ter mamado nem recebido lambidelas da mãe, mas lá foi crescendo. Quase sem dar por mim, fazia da casa da Dona Emília a minha segunda casa: ao sair da escola corria para ver como estava o Sossegado, estudava ali ao lado dele, ajudava depois a minha mãe na lida e regressava, para o resto do serão, à casa da Dona Emília, brincando com o cão como se fosse um gato, ela sentada no sofá a ver-nos, um sorriso feliz nos lábios.

No verão, o Sossegado cresceu, mas nunca ficou grande, devia ter trinta centímetros de altura. Acordava com ele, ia pescar ou a levar as vacas ao pasto, e se eu não podia, ficava a fazer companhia à Dona Emília. Desde a chegada do Sossegado, ela parecia outra, ganhou ânimo, melhorou de saúde, cuidava do cão como se fosse gente tinha uma alimentação especial, lavava-o, lia sobre cães, aprendeu truques para tratar das maleitas dele.

Passaram-se anos, cinco ao todo. O Sossegado dormia em casa da Dona Emília, mas vinha sempre ao romper do dia à minha porta, esperando-me para me acompanhar no caminho até à escola três quilómetros a pé. Voltava à tarde, pontual, para me trazer a casa, fosse inverno rigoroso ou lamaçal de primavera. Assim decorreram nove anos.

A escola da aldeia vizinha só ia até ao nono ano; para continuar a estudar, tinha de rumar à cidade, estudar no liceu e ficar no internato. A família decidiu: eu iria para Coimbra.

No dia da partida, sentei-me muito tempo na escada da Dona Emília, com o Sossegado ao colo, chorando a bom chorar.

Leva-o contigo, se não queres separar-te dele, dizia a Dona Emília, também em pranto.

Mas como?! O Sossegado é seu. Cuide-se, Dona Emília. A mãe vem cá todos os dias. Eu telefono sempre.

Quando o autocarro arrancou, fiquei na janela a chorar. O Sossegado, com a línguinha de fora, corria pelo largo, de olhos pregados em mim, sem perceber porque o deixava.

Os estudos no Instituto Agrário ocuparam-me por completo. O dia todo era nos livros de zootecnia, de economia agrícola. Não fiz grandes amizades; às vezes, lá ia à residência ao quarto de um amigo antigo. Pouco mais.

Perto das férias de Natal, a mãe telefonou-me: a Dona Emília estava muito doente, há uma semana acamada, e o Sossegado não lhe largava o lado da cama, levámos até a tigela dele para ali.

Regressei a casa uns dias antes do previsto. O Sossegado mantinha-se em cima de uma cadeira, colado à cama, olhos molhados, baixinho a choramingar. A Dona Emília, com a mão já frágil e enrugada, tentava acariciar-lhe a cabeça, afagar-lhe o focinho. Os dois estavam magros e tristes. Aquela imagem uma velhinha a morrer, e o seu cão, a única alegria ficou-me gravada para sempre.

Quando depois dos Reis tive de voltar à cidade, já se sabia que dificilmente voltaria a ver a Dona Emília viva. O Sossegado só me acompanhou até à porta. Não podia deixá-la nem por um segundo. Doeu-me a alma ver o esforço daquela criaturinha a cuidar da dona.

Em fevereiro, a Dona Emília faleceu.

Podem pensar que, com dezasseis anos, pouco me deviam doer as penas de uma velha e do seu cão. Só quem nunca perdeu ninguém pode falar assim. Um cão destes sobrevive-nos, mas também sofre o nosso desaparecimento, e sofre como gente.

Só pude ir a casa depois dos exames, em maio. Ninguém sabia do Sossegado, onde andava perdido. A mãe contava que, no funeral, ele correu em volta do túmulo da Dona Emília, até tentou saltar para dentro, mas foi afastado. Trouxeram-no para nossa casa, e o pai até construiu-lhe uma casota forrada, mas ele não quis ficar. Só durante dias quentes de maio andou pela casa da Dona Emília. Depois desapareceu, sem esperar por mim.

Passei meio verão a bater às portas pelas aldeias, mostrei a fotografia dele, perguntei por todo o lado. Nada. Imaginei que, ao ver a velha enterrada, pensou que ela voltaria, esperou-a em casa, depois correu a procurá-la pelo mundo. E por ali anda ainda era essa a minha crença.

Chegou agosto. Um dia, fomos todos ao cemitério de S. Martinho, a cinquenta quilómetros da aldeia. Nem me ocorreu procurar por lá o Sossegado.

Mal saímos do carro, eis que vejo, a toda a pressa, com as orelhas para trás e a língua de fora o meu Sossegado! Veio a correr, sem parar, direito a mim.

Caí de joelhos e comecei a chorar.

Sossegado, meu querido, andei o verão inteiro à tua procura, e estavas aqui…

Ele pôs-se em pé, lambia-me a cara e chorava comigo. Quando me levantei, saltou até à altura da minha cabeça, a abanar o rabo de contente.

Sossegado estava magro, sujo. Peguei em toda a merenda que tínhamos levado sandes, almôndegas, bolos e dei-lhe de comer. Ele devorava tudo, sem tirar os olhos de mim.

É seu este cão? perguntou uma mulher à saída da igreja.

É o Sossegado, respondeu logo a minha mãe, a enxugar as lágrimas.

Trabalho cá, na igreja. Reparei nele desde a primavera. Vive aí ao pé de um túmulo, escavou a terra toda, ao pé da cruz. Tive de tapar alguns buracos com a enxada, mas ele tornava a cavar.

Todos percebemos: era a campa da Dona Emília e do Senhor António.

Percorremos as campas da família, e o Sossegado nunca se afastou de mim, caminhava ao meu lado, de olhos postos em mim. O túmulo estava todo revirado pelas patinhas dele, especialmente do lado onde repousava a Dona Emília. O pai endireitou a cruz, a mãe pôs flores, e eu, de cócoras, com o Sossegado ao colo, via-o lamber-me a cara, com as orelhas levantadas, entre mim e a campa.

Não o obrigues já a vir conosco. Pode ser que queira ficar. Ele que decida, sugeriu o meu pai, sentando-se também.

Não queria deixá-lo aqui. Logo vem o outono, depois o frio… Ele já não é novo, tem quase dez anos, respondi, sem saber se resistiria caso ele quisesse mesmo aqui ficar, pois cinquenta quilómetros não o fariam desistir.

Quando nos despedimos da campa, o Sossegado hesitou: ora corria para o túmulo, ora para nós. Só quando entrámos no carro, ficou a olhar a sepultura; suspirou, e saltou para o meu colo.

Sossegado, meu velho amigo, nunca mais te largo sozinho, respondi, lágrimas nos olhos.

A lição que ficou: percebi nesta história que o amor e a fidelidade ultrapassam até os laços de sangue. Aprendi que um grande amigo pode ter quatro patas, e que, mesmo quando tudo parece perdido, a esperança e o amor fazem-nos sempre reencontrar.

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