Onde Nasce a Felicidade

Onde Nasce a Felicidade

Mãe, olha só o que consegui fazer! Esforcei-me tanto! E a professora disse que estava excelente!

Beatriz entrou disparada na cozinha, tanta era a empolgação, que a porta bateu de leve na parede. Nas mãos, ela trazia um quadronão apenas segurava, mas levava à frente do corpo com um cuidado cerimonioso, como se transportasse uma relíquia. O rosto dela resplandecia: as bochechas coradas de emoção, os olhos tão vivos e brilhantes, que parecia que todo o mundo mágico da sua pintura ali se refletia.

Catarina estava sentada à mesa, junto à janela, mexendo o chá lentamente. O som da porta abrindo interrompeu-lhe os pensamentos. Ela ergueu o olhar e imediatamente sorriua felicidade da filha era tão contagiante. Beatriz parou a dois passos, estendeu o quadro para a mãe, esperando, ansiosa, pela apreciação cuidadosa.

Ao observar, Catarina também ficou admirada. O quadro exibiu um cenário imaginário: torres altíssimas de castelos fantásticos surgiam entre névoas, e no céu, quase escondidos, silhuetas de dragões voavam. Os tons suaves de azul e cinzento mesclavam-se, e pequenos toques dourados traziam uma luminosidade quente. Tudo encaixava numa harmonia perfeita; a leveza do desenho era de criança, mas revelava um cuidado atento e um acabamento surpreendente.

Está maravilhoso, minha filha. Foste incrível murmurou Catarina, tocando levemente a superfície do quadroa tinta ainda não estava totalmente seca e a ponta dos dedos mal o sentiu. O pai vai adorar, vais ver.

Beatriz ficou quieta um instante, absorvendo o elogio. Era uma validação importantetanta dedicação, tanto tempo escolhendo cada detalhe, cada cor. Assentiu, apertou o quadro ao peito e caminhou para a sala de estar. Catarina ergueu-se e seguiu atrás, hesitante à porta.

Na sala, junto à secretária, estava Ricardo. O brilho do portátil iluminava-lhe o rosto, os dedos ágeis no teclado. Nem deu conta, de imediato, da presença da filha e da mulher.

Pai, olha o que terminei! a voz de Beatriz tremia com ansiedade. Parou a poucos passos do pai, ergueu de novo o quadro. Passei meses nisto! Escolhi as cores para combinar com a sala… Queria que tudo ficasse harmonioso…

Ricardo desviou-se do ecrã, olhou brevemente o quadro e franziram-se-lhe logo os sobrolhos. Ouviu-se uma frieza no tom que nunca usava:

O que é isso? Acreditas mesmo que essa coisa vai combinar com a decoração?

As palavras do pai gelaram Beatriz. Apertou tanto o quadro que os dedos ficaram brancos. No olhar, por um momento, surgiu confusãonão esperava tal receção! Mas, respirando fundo, forçou-se a manter o tom calmo:

Mas eu tentei… Segui a paleta da sala, a moldura é da mesma madeira dos móveis… Achei que ias gostar…

Ricardo empurrou a cadeira para trás, o ruído seco das pernas no chão ecoou desconfortável. Aproximou-se do quadro, inclinou-se, examinou cada detalheficou a olhar como quem procura falhas num projeto calculista, não beleza artística. Os dragões, os castelos entre névoas, o jogo preciso das cores…

Harmonioso? repetiu, irritado. Isso é uma piroseira. Estragaste a sala. Esses dragões… nem parecem reais. Não tem estilo nem profundidadeparece de um livro barato.

O peito de Beatriz apertou-se. Inspirou fundo, a tentar controlar-se. Queria explicar-se, mas a dor das palavras fez-lhe fugir o controlo da voz:

É fantasia! É como eu vejo! É o meu estilo! Queria transmitir o ambiente daquele mundo! A professora vai enviar isto para um concurso! E ela disse que posso ganhar!

Ricardo encolheu os braços, o rosto carregado de desdém. Tornou a olhar para o quadro, procurando mais motivos de críticaficou parado nesse silêncio pesado, que para Beatriz pareceu uma eternidade.

Subitamente, estendeu o braço e empurrou o quadro. A tela desequilibrou-se e, com um baque, caiu no chão e ficou de lado.

Lixo. Nem merece estar nesta casa afirmou, seco. Irritava-o ser interrompido no seu trabalho por tal falta de gosto.

Beatriz deixou fugir um grito e correu para apanhar o quadro. Ajoelhou, apanhou a tela cuidadosamente, passou os dedos pela pintura­a tremer, mas esforçou-se por não mostrar a dor que lhe enchia o peito. Se parecia difícil respirar, ela cerrou os dentes e continuou a examinar, como se daí dependesse o futuro de tudo.

Ricardo, entretanto, virou-se para Catarina, o olhar exigente e acusador:

És tu que a incentivas. A culpa é tua! Se não a elogiasses tanto, ela saberia o que é bom gosto. E se a professora acha isto uma obra-prima, está na hora de mudar de professora! ironizou, voltando ao computador e encerrando o assunto com o corpo rígido.

Catarina, sem dizer palavra, aproximou-se da filha. Amparou o quadro, ajudando-a a levantá-lo. As mãos de ambas tremiam um pouco, mas o tom de Catarina saiu firme, sem raiva e sem mágoa:

Vamos embora. Bastajá chega deste fanatismo da decoração, desta casa-museu. Mas o mais grave é magoares a tua filha! Vais matando-lhe o dom. Acabou para mim. Vive no teu reino. Sozinho.

Saíram lentamente. Catarina à frente, Beatriz atrás, agarrada ao quadro, como ao seu maior tesouro. Cruzaram a sala deixando para trás o ar tenso, o olhar congelado de Ricardo, que não se dignou a mexer ou dizer mais nada.

O quê? ainda perguntou ele, sem acreditar. Estás a brincar?

Não respondeu Catarina, decidida. Já nem olhou para trás, pois essa decisão estava tomada muito antes de ser anunciada. Levamos o quadro, levamos as nossas coisas, e saímos. Não voltamos. Nem hoje, nem amanhã. Nunca.

Ricardo soltou uma risada seca, como quem não admite dúvida à sua razão:

Onde vão? Para aquela casa que herdaste da tua avó? Está velha, a cair aos bocados! Ficaste maluca? Vais arrepender-te e implorar para voltares! Depois logo vejo se vos perdoo!

Mas Catarina ignorou-o. Puxou Beatriz pela mão, quente mas trémula, e levou-a para o quarto.

Fizeram as malas sem pressa nem hesitação. Livros, roupa, fotografias, até pantufas. O que fosse delas e não da casa. Embrulharam o quadro em papelão e papel para não riscar. Ricardo passou para a sala, sentou-se, imóvel, impotente perante aquele abandono calmoquem sempre conheceu discussões, lágrimas e apelos, não entendia este adeus irreversível.

Ao final da tarde, estavam já noutra casana tal de que Ricardo tanto escarnecia. Era nos arredores de Lisboa, num velho bairro onde as ruas se perdiam entre tílias, e os blocos de três andares se encostavam uns aos outros, agarrados pelas caleiras e varandas. O apartamento ficava no terceiro piso, era pequeno, com os tetos baixos. As paredes exalavam cheiro a tinta antiga e madeira. O papel estava amarelecido, o parquet rangia, as janelas perdiam ar, e o pó acumulava-se nos cantos. O ar era denso, sabia a tempos antigos e a livros.

Catarina, ao ver aquilo, lamentou apenas ter ignorado tanto tempo a herança da avó. Mas não fazia maliriam arrumar tudo! Não uma decoração de catálogo, mas algo caseiro, no qual fosse um prazer viver.

Beatriz estava ao lado da mãe, uma caixa de tintas sobre os braços. Os olhos não brilhavam de lágrimas, mas de esperança. Aproximou-se de uma das paredes, erguendo o pincel, e olhou hesitante para Catarina:

Posso? perguntou baixinho, quase como quem pede um milagre. A mão já se adiantava, insegura.

Claro sorriu Catarina. Pinta! Onde quiseres! Nas paredes, no teto. É a nossa casa. Faz o que quiseres, mas espera: temos primeiro de rebocar as paredes, senão estraga-se o teu trabalho.

Sem hesitar, Catarina telefonou à colega da escola, cujo marido fazia renovações rápidas e bem feitas. Em poucas horas ele lá estava, a avaliar as obras, e na manhã seguinte já havia homens a tratar das paredes.

Durante as obras mãe e filha ficaram num T1 alugado. Não era o ideal, mas não iam ficar a respirar pó e tinta. E ainda havia de trocar as janelas, o que dava mais confusão. Ao menos Catarina não tinha gasto a herança da avó, que pensava um dia guardar para os estudos de Beatriz… Agora, aquele dinheiro salvava o momento…

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O tempo passou e a renovação chegou ao fim. As paredes ficaram em tons suaves, mas em cada divisão havia uma parede pura, branca. O espaço de criação.

Beatriz soltou um gritinho alegre, apanhou um pincel e começou logo a cobrir de cor a parede que escolhera. Os gestos eram impulsivos mas certeiroshá muito imaginava aquele mural, e agora desenhava, cheia de entusiasmo. À base branca, foram-se juntando brumas, torres, dragões, cintilações douradas nos picos das montanhas, mundos novos a nascer.

Catarina sentou-se na cadeira velha, observando sem interferir. Era um contentamento silencioso ver Beatriz mergulhada na arte: o rosto iluminado, os olhos têmpera ao entusiasmo, os gestos tornando-se corajosos e soltos. O aparente caos era pura vida, expressão, alegria.

O telemóvel vibrava discretamentemensagem de Ricardo. O sorriso de Catarina caiu mal leu: Quando acalmarem, podem voltar. Mas deixa o quadro onde pertence: no lixo.

Catarina desligou o telefone. Voltou a olhar para a filhaBeatriz ria, cheia de felicidade, e até a tinta salpicava ao redor. Catarina, nesse instante, percebeu com uma clareza inédita: não voltaria. Não porque deixara de amar Ricardo. Ainda o amava. Mas a alegria da filha era mais importante do que qualquer apego quase vazio. Afinal, Ricardo tinha-se tornado apenas um estranho entornado no seu trabalho, distante da mulher, dormindo até em quarto separado…

*********************

Beatriz depressa transformou o quarto numa oficina colorida. Dragões voadores, castelos secretos, o teto virado céu estrelado, a porta protegida por um castelo com bandeira ao vento. Ela trabalhava com tal entusiasmo, que se esquecia das horasora acrescentava detalhes, ora recuava para avaliar, ora atirava-se à parede de novo com um pincel.

Catarina olhava a filha com uma alegria contida. Notava como o olhar da menina mudara: antes receoso, agora entusiasmado, livre, sem medo de errar, sem esperar aprovação, sem querer antecipar o que agradaria ao pai. Criava com alma, sem reservas.

Numa noite, com Beatriz já adormecida, Catarina entrou no quarto e ficou ali, à meia-luz. As paredes ganhavam vida no escuro, os dragões pareciam mover-se, os castelos emanavam luz.

Passou a mão nas ondulações secas de tinta, sentiu-se tocar o coração de Beatriz, o seu universo secreto. Aquilo, sim, era arte verdadeiranão o asseio gelado dos interiores decorados, mas a sinceridade de um sonho em traços coloridos, cada linha um sentimento, cada cor uma emoção.

O telefone voltou a acusar mensagem de Ricardo: Vais mesmo viver nesse pardieiro? Pensa no futuro da Beatriz. Ela precisa de uma casa normal, não de uma sucata artística.

Catarina ficou longos minutos de olhar parado no ecrã, como se quisesse ver para além das palavrasalguma emoção, alguma razão para ele ainda magoar. Escreveu, então, lentamente: Ela precisa de um lar onde a arte dela não seja tratada como lixo. Onde eu não tenha medo de escolher uma esponja da cor errada. E estamos a fazer ótimas melhorias, não te preocupes. Não voltou atrás, enviou sem hesitar.

No dia seguinte, Catarina decidiu dar mesmo vida à casa. Com a filha, movimentaram móveis para abrir o espaço à luz: o sofá junto da janela, as estantes à parede. Catarina retirou almofadas coloridas do fundo dum armário, e Beatriz, de imediato, empilhou-as no sofá em combinações extravagantes e felizes.

Ao fim-de-semana foram à Feira da Ladra, entre bancas de objetos antigos e artesanais, misturando o cheiro de couro, madeira e pão quente vindo de uma roulotte ali ao lado. Beatriz correu logo até onde estavam caixas antigasencontrou uma com gravados minuciosos.

Mãe, parece coisa de conto de fadas! Posso levar?

Claro que sim consentiu Catarina.

Num outro canto, Catarina apaixonou-se por uma cadeira de baloiço, já com pintura estalada e o assento descaído. Mas parecia um trono de rainhaimaginou logo a ler ali ao sol.

Vai ser o nosso trono. Só precisa de uns retoques disse, acariciando as laterais trabalhadas. Vai ser perfeito.

Deixaram o contacto ao vendedor para entrega em casa e regressaram. No caminho, Beatriz parou numa montra de material artístico. Os olhos brilharam diante dos tubos de tinta metálica, pincéis, telas de todos os tamanhos.

Mãe, posso ter tintas a óleo, destas metálicas? Parecem dar luz às cores!

Catarina sorriu, sentindo o cuidado com que a filha controlava o entusiasmo, receosa de pedir demais.

Claro. Vamos comprar uma tela bem grande, para desenhares o que quiseres.

Nem deu para Beatriz responderpulou para o abraço da mãe com uma força meiga, não querendo largá-la, como se quisesse guardar o momento para sempre. Catarina sentiu dentro de si uma serenidade quente, uma felicidade funda e rara.

Recordou-se de como, na antiga casa, vivia à beira de um ataque de nervos: medo de pôr uma chávena na toalha errada, de escolher cortinas com cor imprópria ou comprar uma toalha fora do padrãotudo para não estragar o harmonia. Agora, naquela casa vívida e imperfeita, reinava apenas vida, cor, risoso verdadeiro lar.

À noite, quando a rua adormecia, Catarina ouviu rumores do quarto da filha. Ao princípio achou ser apenas o som de folhas, mas percebia-se um murmúrio. Aproximou-se e espreitou a porta entreaberta.

A luz cálida do candeeiro iluminava Beatriz debruçada na secretária, a organizar meticulosamente as novas tintas e pincéis. Dava-lhes ordem, limpava cada um, arrumava com esmero. Atenção total na preparação, quase um ritual. De vez em quando, experimentava os reflexos da luz; satisfeita, puxou de um bloco.

Ainda não dormes? perguntou Catarina, baixo, para não interromper.

Beatriz virou-se, sem um vestígio de sono, cheia de antecipação.

Não consigo. Quero começar uma nova pintura já. Imagina: um castelo tão alto que toca as nuvens. À volta, a floresta mágica brilha no escuro. E, no céu, dragões voadores. Vêm trazer-nos uma mensagem importante.

Catarina sorriu. Encostou-se à ombreira, observando. O rosto de Beatriz iluminado pelo abajur era de feiticeira prestes a fazer magia.

Vai ser mesmo mágico… murmurou Catarina. Onde vais pintar? Na tela?

Na parede da sala respondeu Beatriz, sem hesitar. Olhou à volta, vendo já a obra feita. Quero que este desenho seja nosso. Assim nunca nos esqueceremos de como tudo começou.

Catarina acenou, silenciosa. A emoção subiu-lhe ao peito, os olhos encheram-se de lágrimas docesnão de tristeza, mas de alívio libertador. Percebeu, ao fim, que casa não é paredes nem móveis nem acabamento perfeito. É o lugar onde podes pintar um dragão na parede, sonhar em voz alta, e saber que vão compreender. Onde cada pincelada representa uma história, um pedaço de ti.

Na manhã seguinte, Catarina acordou ao cheiro do café quente. Levantou-se e, pela cozinha, encontrou Beatriz já de pé: duas canecas sobre a mesa e uma travessa com torradas. A filha sorria de satisfação e expectativa.

Mãe, vê o que desenhei! exclamou, mostrando-lhe um esboço grande.

O desenho era de um castelo monumental, torres de formas variadas: uma altíssima a tocar o céu, outra de arcos rebuscados, outra meio escondida pelos ramos. À volta, um jardim com árvores luminosas. E sobre todos, dragões solenes e amistosos.

Vai ser o nosso castelo de família explicou Beatriz, cheia de orgulho. Com torres, passagens secretas e um jardim de flores que brilham. Quero pintar na parede, para estar sempre connosco. Podemos começar hoje?

Catarina inspeccionou cada traçohavia ali fantasia e ternura imensas. Sentiu o coração leve, sorrindo largo.

Que plano espetacular. Começamos por onde, filha? Pela torre mais alta? Ou pelo jardim, para já dar ambiente?

Beatriz hesitou só um instante:

Pela torre. Assim todos sabem: aqui é a nossa casa.

Catarina olhou para a filha, os olhos cheios de alegria e força, e o papel do castelo brilhando de promessas. Nesse momento teve a certeza: não voltariam. Não voltariam à casa onde cada passo era vigiado, onde criativa era sinónimo de lixo, onde sonhar era loucura. Ali, entre tintas, esboços e sonhos por acabar, elas finalmente encontraram o que tanto procuravamum verdadeiro lar.

O único lugar onde se pode ser verdadeiramente quem se é.

Onde nascem os contos e a felicidade.

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