Que vá sozinha. Pode ser que lá a roubem resmungou a sogra, com o sobrolho franzido.
Naquela noite abafada, em vésperas das tão esperadas férias, a ansiedade e os preparativos deveriam encher de leveza a casa de António e Leonor.
Mas no apartamento, o ar era carregado. No centro da sala, como uma estátua de inquietação, estava Conceição Matias, de comando da televisão apertado nas mãos.
Eu não permito! Vocês perderam o bom senso?! O tom de Conceição, habituado a impor respeito numa turma de escola onde dera aulas toda a vida, soava agora cortante como uma navalha.
O televisor exibia, imobilizado, a imagem de mais um telejornal alarmista: o pivot destacava com setas vermelhas os surtos de perigos no mapa de África.
Leonor, que arrumava calmamente a mala, suspirou em silêncio.
Já conhecia esta cena. António, com uma paciência exausta, arriscou-se a intervir:
Oh, mãe, chega. São só disparates! Vamos para um hotel a sério, organizadinho
Disparates?! Conceição quase atirou o comando à parede. António, vê se acordas para a vida! Ela vai arrastar-te para a desgraça! Em Cabo Verde… Aquilo está cheio de redes de tráfico humano! Mandam-te a ti, parvo, comprar água numa esquina obscura, e nunca mais te vemos! Ainda fazem de ti jantar para tubarão! E ela apontou para Leonor, teatral essa vai parar a um bordel! Olha que vi isso nas notícias!
Leonor parou de arrumar a mala, fitou a sogra surpreendida e fez uma pausa que nem António conseguiria manter.
Dona Conceição disse Leonor, num tom sereno mas firme acredita mesmo nessas coisas? Que qualquer cabo-verdiano é mafioso, transplantador de órgãos e proxeneta ao mesmo tempo?
Não gozes comigo! Não tens resposta para os factos! Se aparece na televisão, é porque é verdade! Eu vejo reportagens: gente que vai para lá atrás de aventuras baratas e só volta num caixote!
António passou a mão pela cara.
Mãe, isto são só histórias para entreter reformados como tu. É para vos manterem agarrados ao telejornal. Aquilo está cheio de turistas, não é nada assim
E milhares somem-se sem deixar rasto! insistiu Conceição. E tu, Leonor, já compraste os bilhetes? Não os devolves?
Já. E não devolvo respondeu Leonor, sem drama. Juntámos dinheiro durante dois anos. Eu li testemunhos, pesquisei, reservei tudo em agências fiáveis. Não vamos meter-nos em becos à noite. Só queremos conhecer, bronzear-nos, provar a cachupa.
Até vos envenenam com esses pratos murmurou a sogra. António, meu filho, imploro-te. Deixa-a ir sozinha, se quiser tanto. O risco é dela. Tu, pelo menos, ficas são e salvo. Uma mãe sente estas coisas.
O silêncio instalou-se, denso e pesado. E foi então que Leonor, talvez sem se dar conta, esvaziou anos de contenção:
Muito bem disse ela, fechando a mala tem razão Dona Conceição. O risco é nobre. Vou sozinha.
Leonor! Que estás a dizer? exclamou António, atónito.
Ouvimos a sua mãe. O coração dela pressente um desastre. Não me atrevo a pôr-te em risco de perderes órgãos ou acabares escravizado. Ficas em casa, a fazer-lhe companhia e ver televisão com ela. Eu trato do resto. Enfrento o inferno sozinha.
Conceição ficou entre o triunfo e a confusão. Tinha vencido, mas não esperava que a nora aceitasse o desafio sem hesitar.
Pois… assim é que é certo murmurou, já sem convicção.
António protestou e implorou, mas Leonor resistiu. Na noite antes do voo, deitaram-se costa com costa, em silêncio.
Não mudas de ideias? arriscou ele.
Não! respondeu ela, seca.
*****
O avião aterrou na Cidade da Praia, o calor húmido envolveu Leonor como um xaile.
Medo? Nem sombra. Só cansaço e uma curiosidade ardente. Os primeiros dias, Leonor passeou pelas ruas coloridas e cheias de música, maravilhou-se com o brilho das igrejas, provou a comida de rua saborosa.
Ninguém tentou sequer roubar-lhe a carteira, muito menos raptá-la. Os vendedores do mercado apenas sorriam, travavam um regateio divertido por cinquenta escudos.
Partilhou no grupo com António e (por insistência da sogra) Conceição uma foto: Leonor, sorridente com uma caipirinha à beira-mar azul. Legenda: Órgãos todos no sítio. Até agora, nem proposta de escravatura. Aguardem notícias.
António enviava-lhe corações. Conceição lia tudo, mas não dizia nada.
Depois foi ao Norte, ao Mindelo. E ali, numa pequena pensão familiar, dona Joana uma senhora cabo-verdiana de cabelos já brancos ensinou-a a cozinhar cachupa de peixe.
Joana, a falar num português marcado pelo crioulo, recordava Dona Conceição: preocupada, pena duplamente pela filha que emigrara para Londres.
Aquilo é frio, as pessoas nem um sorriso, e nem peixe fresco têm lamentava Joana, mexendo a panela. Dizem que lá há poluição, tudo bêbado! Vi na televisão!
Leonor olhou-lhe para o rosto inquieto e desatou a rir até lacrimejar.
Joana ficou admirada. Leonor então, por gestos, fotos e frases simples, explicou-lhe sobre Dona Conceição, o comando, os órgãos, o tráfico…
Joana abriu muito os olhos, depois também se riu, um riso claro como maré cheia.
Ai, mãezinhas suspirou. São iguais em todo o lado. O medo do desconhecido A televisão, cá também só inventa desgraças!
Nessa noite, sob o céu estrelado, Leonor ligou desta vez diretamente para Dona Conceição, em videochamada.
A sogra apareceu, desconfiada e cansada.
Ainda estás viva? foi logo perguntando.
Inteirinha, todos os órgãos no lugar, Dona Conceição. Veja.
A câmara mostrava a varanda, e ali surgiu Joana, de tabuleiro com chá doce e papaia. Riu-se, ao ver o rosto fechado da portuguesa.
Boa noite! exclamou Joana. A sua nora é um espetáculo! Já cozinha melhor que eu! Fique descansada, aqui não há escravatura! e deu um abraço à Leonor.
Dona Conceição ficou muda, olhando ora Joana, ora a nora bronzeada.
E e os órgãos? balbuciou, já sem a mesma certeza.
Tudo no sítio. E estou de novo com apetite. Aqui é lindo, há boa gente. Sabe, Joana preocupa-se com a filha emigrada, porque na televisão só lhe mostram o pior
Fez-se um silêncio comprido.
Passe-me à dona Joana pediu, de rompante, Conceição.
Leonor entregou o telemóvel. Durante dez minutos, aquelas duas mulheres, separadas pelo Atlântico, falaram cada uma no seu idioma. Não se entendiam nas palavras, mas riam-se e acenavam, como se estivessem em sintonia.
No fim, Conceição até ensaiou um sorriso, desajeitado, mas já sem máscara de terror.
Logo depois, António escreveu: A mãe acabou de desligar a televisão. Disse: Já chega de nervos!, e perguntou quando voltas.
Antes de responder, Leonor olhou para as estrelas de Mindelo. Tirou uma selfie com Joana, enviou ao grupo: Arranjei aliada. Amanhã vou experimentar mergulhar de apneia. Se não responder, é porque os rins vão atrás! Beijos!
O regresso foi sereno. António aguardava-a no aeroporto, e, mais atrás, com um ramo de cravos encarnados, estava Dona Conceição.
Não correu nem a abraçou, mas também não houve má cara. Tossiu, deu as flores:
Então? Inteira?
Como vê. Ainda do lado certo do balcão
Pois sim bufou a sogra, já menos amarga. Contas como foi E a tua Joana, está bem?
No caminho, Leonor relatou igrejas, sabores, gentilezas, episódios engraçados.
Conceição escutou, fez perguntas. A televisão na sala ficou muda.
No ecrã preto, via-se agora o reflexo de três: o marido a abraçar a mulher e a sogra, que começava, enfim, a tentar ver o mundo pelos olhos de quem voltou do inferno mas regressou melhor e feliz.
Mais à noite, ao lanche, Conceição, quase à socapa, disse:
Para o ano se calhar podia ir convosco. Mas só se não fosse para paragens esquisitas
António e Leonor trocaram um olhar divertido. Não esperavam este volte-face da sogra.
Mas dias depois ela chegou a casa ruborizada e exclamou da porta:
Não vou a lado nenhum! Foi uma sorte, Leonor! Olha que vi agora mesmo: resgataram imensa gente do cativeiro. Não quero ficar lá esquecida!
Como quiser encolheu os ombros Leonor.
E tu, António, não tens nada que saber: Portugal tem sítios lindíssimos para passear rematou a sogra, com ar de saber-tudo.
António abanou a cabeça, mas não argumentou. Sabia que discutir era em vão.







