Olá, Lurdes! Prepara-te para receber visita, disse a irmã enquanto empurrava a mala para dentro do hall com o pé.
Foi num sábado, já perto do meio-dia, quando Lurdes, descansando em casa e sem pensar em grandes preocupações, ouviu a campainha tocar.
Tocou duas vezes. Depois mais três. E finalmente, ininterruptamente.
António, sem desviar os olhos da televisão, comentou, num tom reflexivo:
Alguém está com muita pressa.
À porta estava Nina, a irmã mais nova. Duas malas enormes, uma bolsa atravessada ao ombro, e aquela expressão de quem tomou uma decisão importante e está imensamente satisfeita consigo própria.
Olá, Lurdes! Prepara-te para a visita, disse, empurrando habilmente a primeira mala com o pé para dentro. Aquilo foi de mestre. Como se passasse a vida a ensaiar.
Lurdes afastou-se instintivamente. Quarenta anos de relações de irmãs não são brincadeira. O corpo reage antes da cabeça.
Vais ficar quanto tempo? perguntou, olhando para a segunda mala.
Nina tirou o casaco e pendurou-o no cabide. No de Lurdes, claro. Depois olhou em volta com olhar de empreiteira a inspeccionar uma obra.
Venho para ficar, Lurdes. Estou a mudar-me. A casa é grande, três quartos, só vivem dois cá. Um quarto está mesmo a pedir para ser usado. E decidi aproveitar.
Lurdes olhou para a irmã durante uns segundos. Decidiu, ela.
António, na sala, aumentou subtilmente o volume da televisão.
Nina, estás a falar a sério?
Mais do que sério, Nina já ia pelo corredor, espreitando os quartos. Este é perfeito. Com luz e janela para as traseiras, que sossego.
Era o quarto de visitas. Aquele onde estava o velho sofá, a máquina de costura e três caixas com coisas que Lurdes há muito adiava organizar.
Nina, Lurdes foi atrás dela até à porta. Nós nem sequer conversámos sobre isto.
O que há para conversar? a irmã arqueou as sobrancelhas, surpreendida. Somos irmãs, Lurdes. Entre irmãs tudo é partilhado. A mãe sempre nos ensinou assim. A ti e a mim.
Lurdes pensou que a mãe era melhor não trazer à conversa naquele momento.
Do outro lado da parede, a televisão murmurava as previsões meteorológicas para a próxima semana. António parecia estudá-las ao pormenor.
Nina já abria a mala.
Ia instalando-se com método e naturalidade. Sentia-se dona da casa, como se simplesmente tivesse recuperado algo que sempre lhe pertenceu.
Primeiro, moveu a cama. Não gostava de ter a cabeceira na janela correntes de ar, Lurdes, depois fico com torcicolos. Depois arrastou a máquina de costura para o canto. Para que é que isto serve aqui? Costuras? Não? Então pronto. Lurdes observou a máquina acomodar-se no canto e ficou calada.
Ao final do primeiro dia, surgiram chinelos da Nina no corredor grandes, felpudos, com pompons, dos que se compram nas lojinhas super quentes dos mercados. Ao lado, os elegantes sapatos de Lurdes pareciam uma bibliotecária ao lado de um urso do circo.
Ao jantar, António comia em silêncio, com ar de quem procurava algo importantíssimo na sopa.
O caldo está ótimo, disse ele.
É só caldo, respondeu Nina, prática. António, vocês têm ventoinha? O quarto ficou abafado.
António ergueu os olhos para a Nina. Depois olhou para Lurdes.
Vamos procurar, respondeu.
Lurdes suspirou por dentro, tão fundo que sentiu um aperto nos calcanhares.
Ao terceiro dia, Nina dedicou-se ao frigorífico.
E o mais curioso foi que não se limitou a abri-lo. Fez uma autêntica análise científica.
Lurdes, tens aqui kefir fora de prazo.
Eu sei, ainda não tive tempo de deitar fora.
Para quê três pacotes de manteiga? Só ocupa espaço!
Nina, o frigorífico é meu.
E então? Não sou estranha nesta casa.
Este era o seu argumento preferido: não sou estranha. Lurdes ouvia-o umas cinco vezes por dia e ficava sempre tentada a responder, com honestidade: neste ponto, sim, és estranha. Mas nunca dizia.
Nina, agora, sentia-se mesmo em casa.
Já sabia quando António ia para o clube de carpintaria e quando voltava. Sabia a que horas Lurdes via as novelas, e justamente nesses momentos aparecia de chá na mão, pronta para conversar. Sobre a vida. Sobre os vizinhos que já não tinha. Sobre o tempo. Sobre os jovens de hoje que já não são o que eram. Política nesse tema era incansável.
Lurdes lá ouvia, assentia, de olho no ecrã, a pensar que afinal o drama da sua novela não era tão diferente do seu.
De manhã, Nina era sempre a primeira de pé.
Antes, Lurdes pensava que a irmã era noctívaga. Afinal era cotovia com programa e tudo. Às seis já fazia barulho na cozinha, a frigideira a chiar, voz animada de alvorada escutista:
António, queres ovos mexidos? Lurdes, com tomate ou sem? Achei queijo no frigorífico, já duro, mas ralei, não se deita fora!
António aparecia na cozinha, com cara de quem foi arrancado da cama e não sabe muito bem porque está ali. Sentava, comia ovos, agradecia educadamente.
E Lurdes ficava à porta, de robe, a olhar para aquela cena.
Dá pequeno-almoço ao meu marido. Na minha casa.
E foi talvez nessa manhã que algo dentro de Lurdes mudou suavemente.
Preparou café para si, sentou-se à janela, e ligou à filha.
Mariana, estás ocupada?
Não, mãe. Que se passa?
Vem cá. Preciso de conversar contigo.
Mariana chegou ao domingo, perto do almoço. Trouxe um bolo. Pousou-o, abraçou a mãe, e em voz baixa:
Conta lá.
Lurdes contou. Tudo. As malas. Os chinelos de pompons. A máquina de costura relegada ao canto. O queijo não se deita fora. Os ovos mexidos matinais.
Mariana escutava, sem interromper, só arqueava as sobrancelhas até quase tocarem a franja.
Mãe. E ela paga alguma coisa? Pela comida, contas?
Diz que vai pagar a comida.
Diz, ou paga?
Lurdes ficou calada.
Diz apenas.
Mariana olhou para o corredor, onde por trás da porta estava o quarto de hóspedes.
Nesse instante, Nina saiu do quarto. Viu Mariana e abriu um sorriso genuíno, largo, como quem não tem nada a esconder.
Mariana! Que bom ver-te! Lurdes, onde está o açúcar? Na taça não há mais.
Está no armário, confirmou Lurdes.
Posso usar?
Podes.
Nina usou. Pôs no café, mexeu, provou. Satisfeita, acenou para si própria.
Mariana olhava para ela com aquele olhar tranquilo de quem já tomou uma decisão antes do assunto começar.
Tia Nina, disse, quando é que vendeu o apartamento?
Pausa.
Curta, mas reveladora.
Como sabes? Nina pousou a chávena.
A tia Amália comentou sem querer. Ligou, mencionou, nem foi de propósito.
Nina olhou para Lurdes. Lurdes olhava pela janela.
E então? Vendi, pronto, disse Nina, com aquela entoação entre ofensa e defesa típica de quem se sente apanhado, mas ainda acha que tem razão. Tenho dinheiro. Por agora estou a ver opções. O mercado está mau para comprar. Fico por aqui um tempo, junto mais um pouco e logo decido.
Um tempo é quanto? indagou Mariana.
Um ano, talvez. Ou dois. Logo se vê.
Lurdes voltou-se da janela.
Nina, disse com voz calma. Vendeste o apartamento e vieste para minha casa para não gastar o dinheiro. É isso?
Oh Lurdes, não digas assim.
É isso?
Somos irmãs, respondeu Nina, lançando o seu último argumento. O mais seguro.
Mas desta vez Lurdes não vacilou.
A Mariana e a família dela vêm para este quarto. Convidei-os. Chegam no próximo sábado.
Nina ficou a olhar para Mariana. Mariana bebia o chá, fixa na chávena como quem sabe muito mais do que diz.
Quando foi que decidiste isso, começou Nina.
Decidi, atalhou Lurdes.
Na verdade, era mentira. Mariana tinha casa própria e não tencionava mudar-se. Mas Lurdes olhou para a irmã com uma serenidade que esta não estava à espera.
Nina ficou algum tempo calada. Depois levantou-se, compôs o roupão.
Percebi, disse apenas.
E recolheu-se ao quarto.
Nina demorou-se dois dias a arrumar tudo.
Sem pressas, com o mesmo método com que tinha entrado. Primeiro o barulho dos sacos, depois os cabides, depois voltaram a mover a mobília provavelmente a colocar a cama de volta. Lurdes não entrou. António também não.
Na quarta de manhã, Nina apareceu na cozinha com as malas.
Vou para casa da Tamara, disse. Já me anda a convidar há tempos.
Está bem, respondeu Lurdes.
Liga-me às vezes.
Ligo, sim.
Nina pegou na mala.
Lurdes, disse à porta, sem olhar para trás. Mudaste.
Lurdes pensou um segundo.
Mudei, sim. Acho que sim.
A porta fechou-se.
Lurdes ficou parada no corredor. Reparou que o casaco da Nina já não estava no cabide. Que os chinelos com pompons tinham desaparecido. A casa parecia maior, com mais espaço.
Entrou no quarto de hóspedes. Abriu a janela.
Depois voltou a puxar a máquina de costura para junto da janela ao seu antigo lugar.
Ao fim do dia, Mariana ligou:
Então, já foi?
Já.
E tu, estás bem?
Lurdes pensou por um instante.
Estou bem, respondeu. Estou mesmo muito bem.
Lá fora escurecia, António fazia barulho na cozinha, e aquele som era, de repente, o mais reconfortante, o mais familiar do mundo.
Na vida, aprendemos que saber dizer não é tão importante para quem ama como saber dizer sim. E que o equilíbrio é, afinal, espaço partilhado com respeito.







