-Você não é mais minha filha.

**Diário 12 de março**

Hoje acordei com a sensação de que a vida já não me pertence mais. A voz da mãe ecoa na minha cabeça: Já não és a minha filha. Não sei quem é esse rapaz nem de onde vem. Tenho vergonha de ti. Vai viver na casa da avó e age como adulta, assumindo as tuas responsabilidades. Sinto o peso das palavras como se fossem pedras no coração.

Inês, ouviste? Trouxeram trabalhadores de outra cidade para nos ajudar com a obra. Que dizes, vamos ao clube ao fim da tarde? exclamou a Maria, acomodandose na cadeira do salão.

Maria, que é que eu faço? E o Vítor, com quem fico? Levoo comigo? respondi, rindo nervosamente.

E se pedirmos à tia Lúcia? perguntou Maria, cautelosa.

Eu balancei a cabeça, sem saber o que dizer. A tia Lúcia ainda não me perdoou por ter tido um filho fora do casamento. Ela sempre quis que eu me casasse com o André, mas eu fui à universidade, voltei grávida e ela ficou zangada durante um ano inteiro, só a conversar duas vezes por mês. Ela insiste que eu procure alguém, quem sabe encontre a felicidade.

Suspirei.

Tudo bem, então. Vou encontrar a Teresa. Amanhã conto tudo a ti. disse.

Depois de pôr o filho a dormir, saí para a varanda. O som da música de fado chegava ao meu lar. Envolta num xale, imaginei as pessoas a dançar e a rir. Maria, provavelmente, já vestia o seu vestido de tigre. Eu sorri, lembrando-me de ser como uma lagarta de tigre ao observar a noite. Senti um nó na garganta e fui para a cama.

De manhã, ainda escuro, Maria chegou correndo. E, como se o destino quisesse pregar uma peça, a mãe da Inês apareceu inesperadamente. Segurei os lábios, mas não consegui impedir Maria de falar.

Foi mau não me teres visto ontem. Havia uns rapazes, um chamavase Vítor, muito falador e com humor. Hoje tenho um encontro, já o sinto à minha frente disse ela, sem fôlego.

A mãe de Inês, com um olhar crítico, perguntou:

Ele está casado, não?

Maria deu de ombros.

Não sei, não abri o passaporte. Se estiver, ao menos tenho algo para recordar.

Ai, meninas, o que é que fazemos? O André é um bom partido. Eu já perdi a minha oportunidade, mas tu ainda podes fazer o André girar a cabeça exclamou a tia Lúcia, empolgada.

Tia Lúcia, que estás a dizer? Quem precisa dele? E a mãe dele? Por Deus, poupanos essa felicidade! gritou Maria.

Ela virouse para mim:

Havia um rapaz lá, impossível de desviar os olhos. As nossas amigas ficaram encantadas. Ele ficou um tempo com os amigos e saiu sozinho, sem convidar ninguém para dançar.

Então aconteceu algo inesperado. A tia Lúcia, pensativa, disse:

Inês, devia também ir ao clube. Eu ficarei com o Vítor. Talvez encontres alguém sério e confiável. O Vítor precisa de um pai. Não procures solteiros; eles percebem quando a mulher está sozinha. Entendida?

Eu, incrédula, balancei a cabeça e, sem conseguir conter a emoção, beijei a mãe. Depois murmurei:

Vai embora, irritada.

Vestida com o meu melhor vestido, caminhaa com as amigas, rindo como nos velhos tempos despreocupados.

Olhem, ele está aqui novamente sussurraram as meninas.

Olhei para ele e as minhas pernas tremeram. Afasteime rapidamente e sussurrei a Maria:

Acho que volto para casa. O Vítor deve estar a chorar sem mim.

Mas Inês, surpresa, respondeu:

Olha lá, que estás a fugir já na primeira dança? Nem sequer dançaste!

Determinado, declarei:

Vou embora. E o Vítor, talvez o teu Vítor venha. Não ficarás entediada sem mim e dirigime à porta.

Alguém segurou-me pelo braço:

Vamos dançar, moça?

Tentei afastarme.

Não danço.

Mas ele insistiu.

Concedeme apenas um giro, por favor.

Quando finalmente me virei, o coração disparou. Era ele, o mesmo rapaz que havia cruzado o meu caminho por acaso, mudando tudo. Ele não me reconheceu. Senti um calor no peito e sorri:

Tudo bem, só uma vez, porque estou atrasada.

Giroume no salão.

Imagino que o marido esteja a preocuparse? perguntei friamente.

Não, não sou casada.

Ele piscou, e algo familiar fez o meu peito acelerar.

Então tenho uma hipótese? zombou ele.

Afasteime ainda mais.

Nem sonhes e saí a correr do clube.

Caminhando para casa, as lágrimas caíram. Recordeime dele e percebi que me apaixonei na primeira vista, embora ele não me reconhecesse.

No comboio, cruzámosnos novamente. Eu voltava para casa, desanimada após falhar nos exames. Ele ia visitar os pais. Vendo a minha tristeza, tentou animarme.

Chamome Máximo. A mãe chamame Max, o sobrinho é o Mário. Escolhe o que preferires.

Sorri.

Mário parece mais interessante.

Ele estendeu a mão:

Já quase nos conhecemos. E tu, como te chamas, criatura encantadora?

Inês.

Máximo assentiu, sério:

Um nome digno de princesa.

Contelhe tudo: os exames reprovados, a mãe que nunca deixará de lembrarme disso. Ele aconselhoume a estudar novamente no inverno.

Vai persistir, Inês. disse ele.

Eu agradeci, corando.

Ninguém jamais te disse que és linda?

Ele sorriu e, inesperadamente, beijoume. O mundo girou. Depois, saiu rapidamente.

Vou encontrarte de novo.

Só mais tarde percebi que nem sequer perguntei o endereço.

O tempo passou; descobri que estava grávida. A mãe, com voz áspera, repetiu:

Já não és a minha filha. Quem é esse homem? De onde vem? Tenho vergonha de ti. Vai viver na casa da avó e age como adulta, assumindo as tuas responsabilidades.

Durante a gestação, trabalhei na biblioteca até ao período de licença. No hospital, Maria foi quem me recebeu; a mãe nem apareceu. Quando o Vítor fez cinco meses, o meu coração não aguentou mais e eu fui visitálo.

Não somos da mesma espécie concluiu ele, mas passou a visitarnos com mais frequência, trazendo brinquedos para o neto.

Por que tão cedo? perguntei à mãe.

Não havia nada interessante, e o Vítor? respondeu ela, sorrindo.

Está a dormir. Agora que vieste, fico feliz.

Fechei a porta, tentei dormir, mas só consegui descansar ao amanhecer. Alimentava o filho, que recusava a papinha.

Se não comeres, não crescerás como o teu pai, tão forte e bonito.

É isso que dizes de mim? ouvi a voz do corredor.

Onde estás? Máximo apareceu, sorrindo.

Disse que iria encontrarte, mas não sabia que teria um filho neste meiotempo. Esquecime de perguntar onde vivias. Parece que o destino nos juntou.

Ele fez uma careta ao Vítor, que riu.

De manhã, a mãe encontroume feliz ao lado de um homem desconhecido, a carregar o filho no ombro.

É ele? perguntou.

Sim respondi, radiante.

A mãe apertou a mão de Máximo:

Sou a Lúcia Duarte. Quero estar atenta ao marido e pai que serás.

Ele apertoua firmemente e assentiu.

Entendido.

Hoje, ao escrever estas linhas, sinto que o caos das palavras ainda ecoa dentro de mim, mas também há uma calma inesperada. O futuro ainda é incerto, mas, pela primeira vez, sinto que talvez eu tenha encontrado o meu caminho.

Inês.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

-Você não é mais minha filha.