— Você disse hoje que se casou comigo porque eu sou «conveniente»! — E daí? — ele encolheu os ombros. — Isso é ruim?

Hoje disseste que casastete comigo porque eu sou conveniente!
E daí? ele encolheu os ombros. Será que isso é mau?

Ainda andas naquele velho roupão? Tiago lançouse ao olhar, como quem afina a armadura antes da batalha, enquanto fechava a punho da camisa.

Lurdes ficou imóvel, a chávena de café a subir em vapor fino, a espuma a subir como uma névoa que lhe queimava os dedos, mas não a afastava.

Ele é conveniente.

Conveniente, então, resmungou ele, ajustando a gravata perante o espelho. Tal como tudo em ti.

Lurdes baixou o olhar. O vapor do café desapareceu, a superfície escureceu, refletindo o teto como um pequeno espelho partido.

Tiago, tu

O quê? já tirava as chaves, o metal tilintando contra o anel da aliança.

Nada.

A porta fechouse com tanta força que a estante de porcelanas tremeu.

Conheceramse no escritório. Ela contadora quieta, recatada, que prendia o cabelo num rabo de cavalo descuidado; ele gerente confiante, cuja gargalhada ecoava pelos corredores. Tiago cortejavaa com rosas ainda pingando de orvalho, jantares à luz de velas, onde pedia um bife ao ponto para ela, sem nunca perguntar o que gostava.

Não és daquelas que se queixam por detalhes, não? perguntou ele ao terceiro encontro, ajeitando a toalha no colo dela.

Não, sorriu Lurdes, como se não ouvisse os sinos de alerta.

Por isso está bem. A minha ex vivia a fazer escândalos

Ela não deu importância. Depois vieram o casamento, os filhos, a casa. Tudo como num conto de fadas português.

Só às vezes, quando provava um vestido de ombros à mostra, ele dizia:

Devias de usar algo mais simples. Não é o teu estilo.

Ou, quando pintava os lábios perante o espelho, lançavase ao vento:

Para quê? No fim, ficamos em casa.

Numa outra ocasião, ao cheirar o novo perfume floral que Lurdes acabara de comprar, ele fez uma careta:

Cheira a loja barata. Vais ficar à altura da tia Lurdes da contabilidade?

E ela deixou de o usar.

No aniversário, presenteoua com um aspirador.

O velho já chia, explicou ele, vendoa abrir a caixa. É porque estás sempre a suspirar ao limpar.

Ela agradeceu, depois ficou a olhar a janela até os filhos chamarem a cortar o bolo.

Mas ficou em silêncio. No fundo, ele era um bom marido. Não batia, não bebia, trazia o dinheiro.

Será que isso não bastava?

Nunca me amaste?

A mesma noite, a mesma conversa. Tiago desviou o olhar, como se verificasse se a janela estava trancada.

Porquê és a esposa perfeita.

Não é resposta.

Ele suspirou, como se lhe fosse explicar a tabuada.

Lurdes, que fizeste da tua cabeça? Está tudo bem entre nós.

Bem?! a voz dela tremeu, não de lágrimas, mas de uma raiva que finalmente se libertava. Hoje disseste que casastenos porque eu sou conveniente!

E então? ele ergueu os ombros. Há mal nisso?

Ela fitouo como se o visse pela primeira vez: o bronzeado no pescoço, fruto de ténis com colegas, não dela; a ruga entre as sobrancelhas, não de preocupação, mas de irritação por ter de se justificar.

E a Benedita?

O rosto de Tiago esticouse como quem puxa uma corda invisível.

O que tem a ver ela?

Amavasa.

Sim, admitiu ele abruptamente, e naquela única palavra havia mais sentimento que em todos os anos juntos. Amavate, mas com ela não dava para fazer uma família decente.

Lurdes sentiu algo dentro de si a estalar, como um salto de salto que se quebra: podia ir, mas já não como antes.

Então sou a substituta dócil e obediente.

Não dramatizes, ele abanoua com a mão como quem afasta um mosquito. Temos filhos. Uma casa. Que mais precisas?

Ela hesitou.

Talvez ele tivesse razão? Talvez o amor fosse luxo e a família fosse prioridade? Lurdes permanecia junto à janela, observando as primeiras gotas de chuva a espalharse no vidro. No reflexo apareciam as marcas dos seus dedos ela tinha passado muito tempo ali, como à espera de uma resposta que o mundo lá fora lhe desse.

E Tiago Tiago vivia como se nada tivesse mudado.

Uma semana depois, ao perceber que ainda a suportava, ele deixou de fingir.

Outra vez macarrão? espetou, espetando o garfo na travessa como se desmanchasse provas da sua incapacidade. Pelo menos põe molho.

Dizias que não gostas de picante, replicou ela, a voz estranha, como se outra pessoa a falasse por ela.

E daí? empurrou o prato como se fosse um prato sujo. Benedita sempre cozinhava

Lurdes saltou da cadeira. O assento rangiu no chão, deixando um risco mais uma marca naquela casa, mais uma fissura invisível.

Queres à Benedita? Vai!

Largate, riuse ele, o riso a ecoar mais alto que um grito. Para onde iria? Sabes que comigo é fácil.

Nesse instante, Lurdes percebeu finalmente. Ele nem tentava segurála. Não porque estivesse certo do seu amor, mas porque tinha a certeza da sua submissão.

Começou a notar isso em tudo. No modo como já não a corrigia quando vestia errado, apenas passava ao lado, sem olhar. No modo como deixava de prender o olhar, como se ela fosse parte da decoração um sofá que existe, mas onde ninguém se senta. Nos seus dias tranquilos que duravam semanas sem brigas, sem exigências, simplesmente nada.

E o mais assustador era que esse nada era mais alto que qualquer grito.

Ela estava na cozinha, apertando a beirada da mesa, e de repente compreendeu: ele nem se irritava. Apenas esperava que ela se conformasse. Como se conformasse com o aspirador em vez de um presente. Como se se conformasse ao deixar de usar perfume. Como se se conformasse ao fato de não ser aquela que geme por pequenas coisas.

Então algo dentro dela virou.

Não dor, não raiva libertação.

Se não te amam mas ainda te irritam, ainda existes. Se nem isso sentem então já não existes mais.

Um mês depois, Lurdes pediu o divórcio.

Tiago ficou incrédulo. Entrou na cozinha, onde Lurdes embalava as roupas das crianças em caixas, e ficou parado na porta, como se diante dele estivesse não a esposa, mas uma mulher desconhecida.

Falas a sério? perguntou ele, a voz pela primeira vez trémula.

Lurdes não ergueu a cabeça, continuando a dobrar minúsculos casacos.

Sim.

Por quê, por alguma tolice? avançou um passo, e ela sentiu os ombros endurecerem.

Não é tolice, murmurou ela. Eu não sou um móvel.

Ele riuse nervosamente, abruptamente.

Ah, drama de novo! Sempre exageras.

Lurdes finalmente fitouo. O rosto dele era dolorosamente familiar, mas agora viao de outra forma: lábios comprimidos, olhos ligeiramente semicerrados não chorava por perdêla, mas porque o seu mundo conveniente rachava.

Não exagero, disse ela. Estou cansada de ser conveniente.

Tiago calouse, então agarrou as chaves da mesa.

E daí! Achas que vai ser difícil para mim? lançou ao olhar as caixas. Nem sabes cozinhar direito.

Ela estremeceu um velho e conhecido punhal. Palavras que antes a faziam duvidar de si agora soavam vazias.

Talvez, concordou ela. Mas há quem pense diferente.

O rosto dele contorceuse.

Ah, então já tens alguém, não? sorriuo com malícia. Claro, quem não tem. Olhate, para quem és útil?

Lurdes sentiu o peito apertarse, uma dor velha e conhecida. Quase abriu a boca para dizer: Tens razão, perdoame, como fazia centenas de vezes.

Mas então percebeu: já não queria isso.

Eu preciso de mim, afirmou firme.

Tiago ficou imóvel. Não esperava tal resposta.

Ficaste louca, sussurrou ele. E os filhos? Pensas neles?

Ela fechou os olhos por um instante. Os filhos Sim, pensava neles a cada segundo.

Eles verão o que significa respeitarse, respondeu.

Basta! ele gesticulou. És egoísta. Temos casa, conforto E vais largar tudo por bobagens?

Lurdes olhouo e, de repente, viu que ele realmente não compreendia. Para ele eram bobagens.

Para ti, sim, disse. Para mim, não.

Ele virouse, batendo nervoso as chaves nas mãos.

Tudo bem. Vai arrependerte.

No dia em que recolhia as últimas coisas, Tiago perguntou:

E achas que vais encontrar alguém melhor?

Ela parou à porta, sentindo a brisa leve da rua acariciar a cara.

Melhor? repôs ela. Não sei. Mas alguém que me veja, não um vazio.

Ele não respondeu.

E ela saiu para a rua, onde o cheiro de chuva e liberdade se misturava.

Passaramse dois anos.

Lurdes casouse com um homem que, todas as manhãs, beijavaa no ombro, mesmo quando ela resmungava que ainda era cedo. Ele sussurrava: És linda, quando a via de roupão, cabelo desgrenhado e olheiras de cansaço. Um dia, ao ver o mesmo aspirador em promoção, riuse e comprou-lhe um ramo de peônias porque lhe lembravam a cor dos seus lábios.

Voltou a usar perfume. Pintar os lábios. Escolher vestidos de ombro à mostra. E sempre que sentia o olhar admirado do marido, o peito aqueciase, como se algo congelado há muito tempo se derretesse.

E Tiago

Num café, cruzouse com ele por acaso. Sentado num canto, bebia café e olhava para o telemóvel. Sobre a mesa, uma foto dos filhos, um pouco esfarrapada nas bordas, como se as mãos da menina frequentemente a folheadessem.

Lurdes quis passar, mas ele ergueu a cabeça. Os olhos encontraramse.

E ela viu nada.

Nem raiva. Nem nostalgia. Nem irritação. Apenas um vazio, tão amplo e profundo como a janela de um apartamento onde já levaram todos os móveis.

Ele assentiu. Ela sorriu. Cada um seguiu o seu caminho.

Mais tarde, em casa, abraçada ao novo marido, Lurdes lembrouse de temer ficar sozinha. Agora sabia que o medo não era da solidão.

O medo era ser só, quando alguém ainda está ao teu lado.

E Tiago

Tiago nunca se casou.

Benedita, quando ele lhe telefonou meio ano após o divórcio, riu e disse que já tinha outra vida.

Os filhos visitavamo nos fins de semana, mas nos olhos deles liase uma cortesia crescente.

À noite, ele tomava um copo de whisky e assistia à televisão, onde as pessoas se moviam em silêncio.

Porque os convenientes vão embora. Os amados ficam.

Mas, para ser amado, primeiro é preciso aprender a amar a si próprio.

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— Você disse hoje que se casou comigo porque eu sou «conveniente»! — E daí? — ele encolheu os ombros. — Isso é ruim?