Não espero que sintam pena de mim; muito pelo contrário, sintome genuinamente feliz com a vida que construí, mesmo sem ter filhos aos 70 anos.
Numa manhã de segunda, enquanto aguardava na sala de espera do dermatologista do Hospital de São João, fui obrigada a ficar ali um tempão como de costume. Foi então que conheci uma senhora cujo relato acabou por mudar a maneira como vejo o mundo.
Chamoume a atenção o seu visual impecável e elegante. Parecia ter uns 65 anos, mas ao conversar descobri que já ultrapassava os 70. O nome dela? Dona Teresa Silva, nascida em Almada, mas agora morando numa moradia espaçosa no campo de Sintra.
Ela contou que casou duas vezes, embora esteja solteira hoje. O primeiro casamento terminou em divórcio. Desde o início, tinha deixado claro ao marido que não queria filhos. Ele aceitou, mas quando Teresa completou 30 anos voltou a trazer o assunto, esperando que ela mudasse de ideia e se tornasse mãe.
A esperança nunca se concretizou e, após inúmeras discussões, decidiram separarse. Mais tarde, casouse com um homem chamado Joaquim Costa, que já tinha uma filha de um casamento anterior. A convivência foi tranquila, porque a questão dos filhos nunca mais voltou à mesa. Joaquim não se importava que Teresa não desejasse crianças, afinal já tinha a filha para lhe dar companhia.
Tristemente, o segundo marido faleceu e, desde então, Teresa vive sozinha numa casa grande, defendendo que a solidão não lhe causa nenhum incômodo.
Muitos supõem que os filhos serão o apoio na velhice e que estarão sempre por perto. Ela, porém, pensa diferente: os filhos crescem, seguem os próprios caminhos e constroem vidas alheias às dos pais.
Não quis ser mãe por essa razão. Não se arrepende da escolha, nem ontem, nem jamais. Desfruta de uma existência plena e cuida das suas próprias necessidades. E quanto a pedir um copo de água, qualquer pessoa pode fazer, desde que me pague a conta, brincou, com um sorriso maroto.
O que achas desta forma particular de interpretar a vida e a felicidade?
Em suma, o relato de Teresa ilustra uma visão de vida baseada na independência e na realização pessoal, pondo em causa as ideias convencionais sobre maternidade e envelhecimento acompanhado. A experiência dela mostra que a satisfação vital não depende dos laços familiares tradicionais, mas do sentido que cada um dá à sua própria existência.

