“Vivemos juntos durante 30 anos. Sei até como ele respira a dormir e qual é o seu pequeno-almoço preferido. E mesmo assim, ele trocou tudo isso pelas ’emoções da universidade’ e foi embora com uma mulher que só é perfeita no Instagram. Nessa noite, não chorei – enchi o congelador de gelo e fiz uma lista. Uma lista de como o trazer de volta, para que ele me implore para ficar. O primeiro ponto: encontrar-me com a sua nova paixão.”

Vivemos juntos durante trinta anos. Sei como ele respira quando dorme, o que gosta de tomar ao pequeno-almoço. Mesmo assim, trocou isto por sentimentos de faculdade e saiu de casa para ficar com uma mulher com fotos todas retocadas. Nessa noite, não chorei. Fui até à cozinha, enchi o congelador de cubos de gelo e fiz uma lista. Uma lista de passos para tê-lo de volta, para que fosse ele a implorar que eu o deixasse ficar. O primeiro item conhecer a nova paixão.

Dizem que o primeiro amor é como varicela: se apanhas em miúdo, as marcas ficam para sempre, mas a doença já não volta. Mentiram, pelos vistos. Ou então era outra praga qualquer.

A minha história começou com uma racha no mundo que construí em trinta anos, como uma casa sólida de madeira. Mas a fenda apareceu no telhado, na tal antena que capta sinais alheios.

Cresci com a minha irmã sob o lema da nossa mãe: A coisa mais valiosa que vocês têm não é o apartamento, nem o carro. É a reputação. E depois, a dignidade. A mãe era mulher de outros tempos, dura de princípios. Talvez por isso casei com o Fernando sem nunca ter tido outro namorado. Ele foi o meu primeiro homem. E único. Já eu não fui a primeira dele. Nunca me incomodou até agora.

Nessa manhã de domingo, o ar era morno e lento. Na janela do nosso velho apartamento em Campo de Ourique, as flores das giestas começavam a despontar. O Fernando bebia chá de menta, sem olhar para lado nenhum. Depois pousou a chávena, estalou os dedos nervoso e largou a frase, como quem racha um tronco com um machado:

Rita acho que vou mudar-me.

Continuei, em modo automático, a barrar manteiga na torrada. A manteiga vinha do frigorífico, estava dura, esfarelava.

Em trabalho? perguntei, sabendo bem pela cara dele que não era isso.

Encontrei a Ana. Lembras-te? Aquela que esteve comigo na faculdade. O primeiro amor. E, pronto nunca passou, Rita. Só ficou à espera. Não quero enganar-te. Isso seria uma cobardia.

Enquanto ele falava, vi pela janela um miúdo dos vizinhos a chutar uma bola contra o portão: pum-pum-pum, no compasso das palavras dele. Os filhos criaram asas, a casa ficou grande, os netos hão de vir em breve Ele continuava sobre honestidade e como não escolhemos sentimentos. A minha garganta ficou seca, como se tivesse engolido pó. Apontei com o dedo para o jarro de água.

Queres água? Ele saltou logo e encheu o copo. Rita! Não me pregues um susto.

Eu? minha voz saiu rouca, como uma gralha. Estou ótima. A felicidade vai e volta, mas peixe limpa-se sempre fresco.

Bebi a água, sentindo-a cair num buraco gelado dentro de mim. Depois levantei-me- fui à casa de banho. Com o clic da porta fiquei isolada de tudo dele, das palavras, do mundo. Abri a torneira no máximo, para que não ouvisse como respiro. Mas ele ouvia tudo. Sempre ouviu.

Rita! Abre! Bateu à porta. Abro isto à força!

Fernando, deixa-me. Só quero lavar a cara!

Estava só a brincar! Anda daí! aquilo soava mesmo a desculpa, como se desejasse que aquilo passasse por piada.

Fitei-me ao espelho. Do outro lado estava uma mulher igual a uma boneca antiga largada na lama. Cabelo opaco, olheiras fundas, nariz inchado. Um espanto. Mexi a cabeça para um lado e para o outro. Meu Deus, como é que ele viveu comigo tanto tempo? O fogo da paixão, que agora encontrou de novo. Como se guardasse sentimentos numa gaveta escondida.

Lavei a cara com água gelada, penteei-me, estiquei os lábios, e saí dali com pose de rainha destronada, mas fingindo ir dar um passeio.

Ele aguardava no corredor, pálido, as mãos a tremer. Patético. Mas não me aliviou. Só me sufocou mais. Precisei de ar, de rua, daquela casa que ainda cheirava ao perfume dele.

Fernando, vou à praça. E não venhas atrás.

Rita, o coração? E se te sentes mal?

O coração? sorri de lado. Está em modo stand-by até ao fim dos dias. Fica.

Ele ainda quis insistir, mas vesti o casaco e saí.

O Jardim da Estrela estava cheio de sol. Mães novas passeavam bebés em carrinhos modernos, um avô lia o Jornal de Notícias, uma senhora lutava com a trela da sua caniche. A vida segue. Sentei-me num banco, a observar os rostos das mulheres. Qual seria a Ana? Aquela de chapéu? A de cabelos brancos encaracolados? Onde a teria encontrado? No Facebook? Numa fila no supermercado? A ideia de o ver procurar por ela, a marcar cafés, a escrever mensagens queimava cá dentro. Percebi que precisava de saber. Vê-la, compará-la, perceber em que me ganhava.

Voltei a casa uns quarenta minutos depois. O Fernando estava na cozinha, sentado, a olhar para o chá frio.

Ainda aqui? perguntei, distante.

Onde querias que estivesse? levantou os olhos. Rita, podemos falar?

Já falámos. Disseste o que tinhas a dizer, eu ouvi. Não tenho perguntas.

Rita, não faças isso.

O quê? Sentei-me à frente dele. Só quero perceber a mecânica. Ela procurou-te ou foste tu a ela?

Suspiro fundo, percebeu que não ia fugir:

Mandou mensagem. Há uns meses. Disse que encontrou o meu perfil sem querer.

Sem querer? Só no digital é que tudo é por acaso, sobretudo quando andam à procura dos ex. E depois, cafés?

Encontrámo-nos duas vezes. Falámos.

Sobre primeiro amor, claro. Sobre sonhos passados. Fernando, pareces um miúdo. Cruzei os braços. Então e o nome dela? Não me deixes em suspense.

Ele hesitou, ajeitou-se na cadeira.

Rita, para quê?

Quero saber o nome da mulher por quem o marido troca os chinelos por uma mala de viagem. Ou tem algum segredo? Talvez não tenha nome e só um vulgo?

Ana Costa lá disse ele.

Ana. Forcei um sorriso, apesar da tempestade cá dentro. Nome bonito. Popular. Não é como eu Rita, monótona, antiga, confiável.

Rita

Chega. Levantei-me. Fico feliz por ti. A sério. Vou também procurar alguém para aquecer o inverno. Um personal trainer, talvez. Ou o Tiago da escola. Dizem que se divorciou.

Rita não digas isso. Tu não és assim!

E como sou eu? já me afastava para o quarto: Dispenso café. Dói-me a cabeça. Vou deitar-me.

Atirei-me à cama, fitei o teto e percebi que estava a mentir. Não era a cabeça; era a alma que doía. Uma dor aguda, como agulha em brasa. Ao ouvir os passos dele na cozinha, peguei no portátil. As redes sociais têm hoje todos os segredos.

Entrei no perfil do Fernando. Muitos amigos, mas nenhuma Ana Costa. Espertinho! Apagou? Ou nunca adicionou? Fui aos seguidores, comentários antigos, likes. Nada.

Depois, o olhar fixou-se numa mulher com foto à beira mar. Areia dourada, mar azul, chapéu de palha, copo de vinho. Nome: Carla. Cidade: Cascais. Casada com estrangeiro. Era amiga do meu marido. Entrei no perfil, vi algumas fotos antigas, do tempo da faculdade: alguém marcou uma rapariga bonita de trança, Aninhas Costa, a nossa estrela. Era ela. Fui pelo link, página privada. Mas, no VK, encontrei-a aberta.

Fitei o ecrã. Na foto: morena marcante, maquilhagem perfeita, olhos expressivos, casaco de pelo. No status: Vivo o agora. Seguia grupos de psicologia, astrologia e culinária. Receitas para quem ama. O último post: O destino junta as pessoas para que dêem uma segunda oportunidade uma à outra. E um coração.

Fui invadida por uma cólera tremenda. Ali estava ela caçadora à séria; lançou as redes e o meu ingénuo Fernando caiu. Primeiro amor, sentimentos renascidos. Conversa. Uma mulher já madura, com Photoshop e sede de emoção.

Ia fechar a página quando vi um rosto conhecido entre os amigos dela: homem grisalho, sobretudo caro, ao lado de um carro topo de gama. Olhei melhor: Tiago Amaral! Colega de liceu que me carregava os livros e oferecia chocolates na biblioteca. Há vinte anos que não o via. Ouvi dizer que foi para o Porto, montou empresa de construção, enriqueceu, divorciou-se.

Bateu-me mais forte o coração. Ele saberia tudo da Ana Costa. Tinham estado em turmas paralelas.

Fui procurá-lo no Facebook. Escrevi-lhe, tentando ser leve: Tiago, olá! Reconheces? Sou a Rita da escola. Surpresa? Preciso de um favor. Um café, pode ser?

Respondeu ao fim de uma hora. Aceitou, combinámos no restaurante O Solar ali no Saldanha.

Menti no trabalho dizendo que ia ao dentista. Mudei-me toda em casa: tirei do guarda-roupa um vestido azul-escuro, com decote, que comprei no aniversário da sogra e nunca usei. Enrolei o cabelo, maquilhagem de noite em pleno dia. Perfume. Saltos altos. O espelho devolvia-me outra mulher. Não a que chorou de manhã. Uma pronta para a batalha.

Cheguei ao restaurante vinte minutos antes. Fiquei junto à janela, pedi um copo de vinho do Dão. As mãos tremiam.

O Tiago chegou à hora certa. Sorriso confiante, casaco impecável, cabelo cortado à moda. Viu-me, abriu um sorriso genuíno, um misto de surpresa e nostalgia.

Rita? beijou-me a mão, como nos filmes antigos. Que surpresa boa! Esperava a miúda da escola, aparece-me uma mulher de parar o trânsito. Estás linda.

Tiago, não exageres. Obrigada por vires, sei que tens uma vida cheia.

Para ti, tenho sempre tempo. Sentou-se, piscou ao empregado. Vinho? Óptimo. Traga o melhor tinto da casa. E Rita, tens fome?

Nem sei. Tenho um nó na garganta admiti.

Chegou o vinho. Ergueram-se os copos.

Às reencontros.

Sim.

O vinho aqueceu o peito e soltei o fôlego.

Tiago, vou direta ao assunto. Não consigo fazer de contas. Estou numa má fase.

Ele manteve-se atento, sério.

Força.

O Fernando está a afastar-se. Vai voltar para a primeira namorada. Ana Costa. Vi que são amigos.

Tiago franziu o sobrolho, recostou-se.

Costa? A Aninhas? riu-se, com ironia. No teu Facebook está como Carla, mas sei quem é. Deve usar nomes diferentes para cada público.

Tirou um maço de cigarros, depois lembrou-se que ali não podia fumar.

Rita, a verdade? O teu Fernando anda a querer ser Don Juan, mas não é peixe para aquele aquário. Aproximou-se. Conheço a Ana de vista. Cruzei-me em festas. Tem bom ar quando está calada. Mas viver com ela…

Então? insisti.

É desastrada, não tem mão para nada. Cozinha? Só congelados. Dois filhos de pais diferentes nenhum com ela, porque não os larga. E ressona, Rita. Uma vez dormi na casa de uns amigos em Sintra e ouvi aquele ressonar a tremer janelas O Fernando não está habituado ao teu silêncio e aos teus cozinhados?

Senti-me descontrair. Schadenfreude? Esperança? Alívio?

Tiago tu nem imaginas como isto me foi útil. Mas preciso

Ia continuar, mas a voz gelou-me o sangue.

Então é aqui que estavas! Farto-me de ligar!

Virei-me. O Fernando estava atrás de nós no restaurante, pálido e tenso. E ao lado dele, a mulher das fotos, Ana Costa: em pessoa era menos photoshop: queixo largo, batom berrante, ar desconfiado.

Tiaguinho! guinchou ela, largando o braço do Fernando e atirando-se ao meu amigo. Olha que surpresa!

Olá, Ana respondeu ele, educado.

O Fernando agarrou-me pelo braço e puxou-me do lugar.

O que é isto? sussurrou furioso. Estás com ele há quanto tempo?

Fernando, larga-me disse, fria, soltando-me. Foste tu que me deixaste de manhã. Estou livre.

Livre? ele olhou para Tiago, depois para mim Ah, tão rápido arranjaste alguém!

Não é da tua conta.

A Ana, entretida a trocar olhares com o Tiago, tentou meter-se na conversa:

Fernando, não ligues. O Tiago é dos nossos. Conhecemo-nos há para aí uns vinte anos. Dá-me o teu número, Tiaguinho.

O Tiago trocou um olhar rápido comigo: Vês?

Ana, estava ocupado. A Rita é amiga antiga, estamos a conversar.

Sobre o quê? exaltou-se o Fernando. A Rita não trabalha, fala sobre quê?

O meu sangue ferveu. E o Tiago arriscou: deu-me o braço e disse, alto e bom som:

Fernando, basta de grosserias. Quem perde a Rita por… olhou para a Ana, isto, é problema seu. Nós, se calhar, vamos querer conversar mais vezes, não é Rita?

Percebi imediatamente a jogada, alinhei.

Claro, Tiago.

Aquilo foi um murro no estômago para o Fernando. Ficou lívido.

Vocês ficou sem palavras.

Vamos, Fernando puxou-o a Ana, já incomodada. Não estragues a noite.

Sim, Fernando, não armes confusão disse o Tiago, conciliador. A liberdade serve para os dois lados.

O Fernando olhou de mim para ele, depois para a Ana. Parecia que só agora percebia que, ao libertar-se, dera-me licença de viver. E isso já o estava a incomodar.

Depois falamos rosnou, indo embora sem olhar para a Ana, que foi atrás dele.

Sentei-me, a tremer.

Obrigada, Tiago. Actuaste de mestre.

Não há de quê. Mas olha, Rita, não foi só teatro.

Olhei-o de frente. Havia ternura e um restinho de saudade.

Quando te vi hoje, soube que fui tolo em miúdo. Devia ter lutado mais por ti.

Tiago

Adiante. Vai comer, senão morres à fome.

Jantámos. Ele falou de negócios, da filha. Eu pensava no Fernando, a caminho de casa com aquela Ana que ressona e come lasanhas de pacote. E percebi que tinha despertado ciúmes no meu marido. E ciúmes, dizem, só existem quando ainda há amor.

Cheguei tarde a casa. Luz acesa no corredor. O Fernando estava ali, de camisola, olhos vermelhos.

Voltaste?

Como vês. Então, não era hoje que ias dormir em casa da felicidade renovada?

Rita aproximou-se de mim. Perdoa-me.

Já pediste desculpa hoje de manhã. Disseste que tinhas feito uma piada.

Não foi piada. Fui um idiota. Fui ter com ela. Estivemos uma hora. Ela ligou a televisão, pôs croquetes no micro-ondas e começou a queixar-se dos ex-maridos, dos filhos, das dores das costas E, de repente, olhei para ela e só vi uma mulher cansada, distante. Não há ali amor, Rita. Apenas mágoa e vontade de ser cuidada. E lembrei-me de ti de como bebeste a água de manhã, das tuas mãos a tremer, da tua força ao saíres da casa de banho. E percebi que ia perder-te.

Não perdeste, Fernando. Atiraste-me fora. Há diferença.

Seguiu-me para a sala.

Rita, e o Tiago? Interessa-te?

É amigo antigo suspirei. O único que me chamou notável hoje. Tu não disseste isso em dez anos.

Ele ajoelhou-se, agarrou-me as mãos.

Rita, fui um burro. Quero reparar o mal.

Não sei, Fernando. Estive doente hoje. Pareceu-me que morri. E, agora, tu és outro ou serei eu outra?

Espero quanto for preciso. Só não me peças que vá embora. E os olhos, cheios de lágrimas. Em trinta anos, só o vi chorar uma vez quando morreu o pai dele.

Fiquei calada. Palavras do Tiago e presença dele misturavam-se na minha mente. E ali, no chão, as mãos do Fernando, e o cheiro o cheiro de casa.

Pronto, levanta-te. Acabou o drama. Amanhã falamos. Vai dormir. No sofá.

E tu?

Eu fico um bocado.

Ficou tudo em silêncio. Olhei lá fora, chovia a valer. Chuva de primavera, a lavar a rua e talvez a alma.

Passou uma semana. Vivíamos como colegas de quarto, cordiais, cautelosos. O Fernando tentava agradar-me: lavava loiça, aspirava, fazia as compras. Eu observava. A Ana ligou-lhe algumas vezes escutei respostas frias e enxutas; bloqueou-a depois.

O Tiago também ligou, só para conversar, convidou-me ao cinema. Recusei. Não por falta de vontade por medo deste novo mundo, onde podia sair com outro homem. Ontem disse: Rita, não és freira. Tens direito à felicidade. Coisas bonitas também são para ti.

Hoje é sábado. O Fernando ronda, busca conversa.

Rita, vamos ao jardim? A glicínia está linda.

Não me apetece.

Rita Senta-se ao meu lado. Sei que te magoei. Mas quero que saibas: fiz a escolha certa. Escolho-te a ti, todos os dias. E vou continuar a escolher.

Olho-o bem. Envelheceu nestes dias, olhar de medo, mas com amor do que nunca vi antes.

E se daqui a um ano te lembrares de outras primeiras paixões?

Não me vou lembrar. Já percebi qual é o meu amor final. Só agora, quase perdi.

Campainha. Assustamo-nos. Ele vai abrir. Ouço uma voz esganiçada a Ana!

Ela entra, tempestade ambulante, sem casaco, encharcada.

Fernando! Não respondes! Já percebi! grita. Por causa dela? aponta para mim. Por causa desta velha?

Ana, vai-te embora diz o Fernando, firme. Ninguém te chamou.

Não me chamaste?! Prometeste-me tudo! Disseste que o tempo não passa! tenta chorar, mas encena mal. Enquanto ela anda com o Tiago Amaral!

Como sabes onde eu durmo? O Fernando empalidece.

O Tiago contou! Encontrámo-nos! dispara, mordendo a língua porque se traiu.

Silêncio.

Tiveste com o Tiago? repete o Fernando, incrédulo.

E depois?! Só conversámos. Ele ligou-me. Disse que queria falar de negócios.

Que negócios tens tu com ele, Ana? rio-me.

Enraivecida, encolhe os olhos:

Não é da tua conta! Rouba o teu marido, nojenta!

Roubo? levanto-me. Então por que vinhas cá fazer escândalos? Fernando, faz favor.

Mas ele não se mexe. Olha de Ana para mim, e percebe tudo.

Tiveste mesmo com o Tiago E ele parecia estar interessado em ti.

Sim, preocupou-se. E os laços antigos também não morreu. Fito o Fernando. Ora vê, a maré dos ventos mudou, não foi?

Rita, perdoa-me. Por tudo. Por ela, pelas dores, por ser cego.

Aproximo-me da janela. A chuva parou. O sol saiu entre nuvens, brilhando no asfalto molhado.

Sabes, Fernando, ela disse uma verdade. Encontrei-me com o Tiago. No restaurante. Ele ligou-me, quis ver um filme comigo. Não fui. Não pq esperasse por ti. Mas porque percebi algo simples.

O quê? ele espera, ansioso.

Viro-me:

Trinta anos é saber como respiras de noite, qual o pé que puxas quando tens frio, o que nunca dizes apesar da tristeza. Cresci contigo como árvore raízes na terra. Uma árvore, se transplantada, pode não pegar. O Tiago é estufa luxuosa. Tu és jardim velho. Mas és o meu.

Engole em seco. Toca-me na mão.

Vou cuidar desse jardim. Arranco as ervas daninhas todas.

Outras vão aparecer suspiro. É a vida.

Rita hesita. No restaurante, aquele abraço do Tiago Fiquei louco de ciúmes.

Sentiste ciúmes?

Queria matar quem te tocasse. Menos a mim, burro.

Fico a olhar. Depois, encosto a cabeça ao peito dele. O coração bate, forte e descompassado.

Fernando.

Sim?

Acho que também não sei viver sem ti.

Agarra-me, forte, quase a partir ossos.

Obrigado.

Por?

Por me dares mais uma hipótese.

Ficamos à janela. O sol invade a casa. Cá fora, passarinhos chilreiam, o cheiro da terra molhada enche o ar. Algures por Lisboa, a Ana Costa já procura outra vítima. O Tiago deve estar no seu carro topo de gama, a pensar que nem tudo se compra ou vende.

E nós ali, duas pessoas maduras, quase desencontradas, mas reencontradas. Porque há coisas mais fortes que o primeiro amor. Há o último. O que não enferruja. O que simplesmente existe. Silencioso, seguro, real.

Levanto a cabeça:

Vamos tomar um chá? Com menta.

Com menta? sorri. Comprei bolo. O de cereja que tu gostas.

Como sabias que eu ia voltar?

Sabia. Beija-me na testa. Sempre soube.

Seguimos para a cozinha. Lá fora, é primavera. Lá em casa, é vida. Dificuldades, brigas, alegrias e lágrimas. Mas juntos. E essa talvez seja a felicidade que conta. Aquela que não se encontra no Instagram nem à mesa dos outros. A que sempre viveu na casa. Só esquecemos disso, às vezes. Mas o amor, como a memória, é à prova de ferrugem. Só espera pela sua hora.

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“Vivemos juntos durante 30 anos. Sei até como ele respira a dormir e qual é o seu pequeno-almoço preferido. E mesmo assim, ele trocou tudo isso pelas ’emoções da universidade’ e foi embora com uma mulher que só é perfeita no Instagram. Nessa noite, não chorei – enchi o congelador de gelo e fiz uma lista. Uma lista de como o trazer de volta, para que ele me implore para ficar. O primeiro ponto: encontrar-me com a sua nova paixão.”