Vítor ajeitou-se à secretária com o portátil e uma chávena de café: precisava acabar uns trabalhos. …

Vasco ajeitou-se confortavelmente à secretária, com o portátil à frente e uma chávena de café bem português na mão. Tinha uns assuntos para finalizar, daqueles que nunca acabam, mas fingimos que sim. De repente, o telefone começa a vibrar, e o número não lhe dizia nada.

Estou? respondeu Vasco, ainda sem largar o café.

Senhor Vasco Duarte? Ligam-lhe da maternidade. Conhece a D. Matilde Loureiro? perguntou uma voz já gasta pelo tempo, coisa de quem já mandou uns quantos tenha calma, é só uma vacina.

Não Não faço ideia de quem seja a Matilde Loureiro. Mas o que se passa? Vasco já com sobrancelha franzida.

Pois, a verdade é que a D. Matilde faleceu ontem, logo após o parto. Contactámos a mãe dela, que nos indicou o seu nome como pai da criança. A linha ficou em silêncio, à espera da reação.

Da criança?! Mas que pai? O quê? Eu não estou a perceber nada! Vasco começou a sentir um arrepio estranho.

A Matilde teve uma menina, ontem mesmo. E, segundo consta, é o pai da menina. Se, claro, for o Vasco Duarte e Silva. Tem de vir cá à Maternidade Amadora-Sintra amanhã. Temos de resolver esta situação. O homem falava espaçada e calmamente. O tipo de calma das burocracias portuguesas.

Resolver o quê? O cérebro de Vasco já fritava.

Venha cá amanhã, procure por mim, Dr. Nicolau Pereira. Conversamos melhor pessoalmente.

O telefone ficou mudo, só restando o bip infinito. Vasco ficou a olhar para o vácuo, tentando digerir a informação.

Matilde… Que Matilde? resmungava, a andar de um lado para o outro, como se pudesse encontrar respostas coladas no lustre. Isto tem de se fazer por exclusão de partes. Quanto tempo dura uma gravidez? Nove meses, certo? Vamos lá ver… Agora é maio, então nove meses atrás foi… agosto… O que é que eu fiz em agosto?

Vasco olhou para o café, fez uma careta e pousou a chávena como quem abandona um velho vício. Bem, nem que fosse um medronho, mas pronto…

Agosto Férias no Algarve! Duas semanas em Albufeira! Pronto, está encontrado o momento! Matilde

Já mal se recordava do rosto dela. Era loira, dos olhos muito vivos, disso lembrava-se. Quantas Matildes não conhecera ele por esse Portugal fora? Casar? Ele? Aos quarenta e dois, nem pensar! Filhos então, era coisa para os outros, Vasco gostava era da liberdade e da rotina com as suas manias bem portuguesas.

Mas se ela morreu…, martelava uma voz lá dentro.

Como é que isso foi possível? Tão nova, talvez vinte anos… murmurou olhando para o teto, talvez esperando uma resposta caída das paredes húmidas.

Deu-lhe uma vontade súbita de fumar, mas já tinha largado esse mal, salvo seja. Sentiu um nó no peito, daqueles difíceis de desatar, fosse lá o que fosse.

Bem, se calhar a mãe dela que fique com a menina. Eu nem sei se é mesmo minha, não é? tentava convencer-se, com a convicção de um miúdo a fugir dos legumes.

Vasco achava que já estava tudo resolvido. Iria, no dia seguinte, ao hospital, falava com o médico, assinava uns papéis e pronto. Vida normal. Aquelas vidas que fingimos que são controláveis.

Mesmo assim, estranhamente, demorou horas a adormecer. A cabeça era um carrossel de ideias e o peito parecia um tambor batido. Por muito que tentasse, não tirava aquela sensação.

O corpo morto não podia ser da Matilde. Vasco engolia em seco, e o nó só crescia, subindo ao ponto de fazer arder os olhos. Lembrou-se do riso dela. Das corridas pela areia da praia, dos olhares cúmplices. Tantas Matildes, mas aquela era diferente. Aquela agora já não existia. Só um corpo gelado numa câmara mortuária…

No hospital, Vasco saiu disparado para o corredor, quase derrubando o Dr. Nicolau.

Acendeu um cigarro que pediu a um desconhecido, engoliu a fumaça como se fosse a última e entrou de rompante no gabinete do diretor.

Não quer ver a sua filha? perguntou o médico.

Primeiro queria falar com a mãe da Matilde. Ela está? Vasco ficou à espera.

Está ali fora, passou por ela agora mesmo no corredor. O médico respondeu, como se pedisse para não fazer muito barulho, que os vizinhos são sensíveis.

Vasco foi, e viu ao fundo uma senhora magra, de lenço preto bem atado, com o olhar perdido. Em três passos lá estava ele.

Boa tarde conseguiu balbuciar Vasco.

A mãe da Matilde ergueu os olhos. Vasco sentiu que quase se afogava naquela dor líquida que ela carregava.

Chamo-me Vera. Vera Duarte, disse baixinho. Sou a mãe da Mati desculpe, da Matilde.

Vasco. Vasco Duarte e Silva, quis detalhar, à portuguesa.

Eu sei. A Matilde falava muito de si Agora, infelizmente, já não vai falar de nada. E Vera começou a chorar baixinho.

Vasco congelou. Não fazia ideia do que havia de fazer com tanta tristeza. Fazer o quê, afinal?

Vera limpou as lágrimas e, de uma só vez, largou:

Por favor, não recuse a menina Não posso deixar que a minha netinha vá para uma instituição. Compreende?

Mas que instituição, Vera? Você é a avó, claro que lhe dão a menina! Tentava ser razoável, embora por dentro pensasse Que avó, deve ter a minha idade.

Não dão Tenho um problema de coração, uma invalidez Se a reconhecer como filha, juro que trato dela sozinha, não precisamos de si para nada, só assine, por favor. Suplicava, quase de joelhos.

Venha daí, vamos esclarecer isto ao doutor disse Vasco, levando-a até ao gabinete.

Dr. Nicolau ergueu os olhos:

O que é preciso para reconhecer a paternidade? perguntou Vasco, engolindo em seco.

Teste de ADN, respondeu o médico, com o ar maroto de quem já viu isto antes. E já decidiram o nome?

Nome…? Vasco estava outra vez perdido.

O nome da menina, claro! O diretor sorriu.

Não quer espreitar a sua filha? repetiu o médico.

Vasco inspirou fundo, deitou um olho a Vera, e respondeu baixinho:

Não é preciso. Não quero

As burocracias foram despachadas mais rápido que se pedia um café curto num balcão. O teste confirmou tudo: era mesmo filha dele. Vasco rejeitava até pensar na palavra filha. Era a criança. Só isso.

Vou ajudar. Vou passando uns euros coisa e tal, compro o carrinho, umas fraldas, aquelas tralhas todas, auto-prometia-se Vasco antes da alta da bebé.

Quando viu a enfermeira com um embrulhinho cor-de-rosa, com rendas e laçarotes que nem na quermesse da terra, Vasco sentiu a garganta seca.

Vera pegou no embrulho, abriu um cantinho da renda e perguntou:

Quer ver a menina?

Ele nem teve tempo de responder. De repente, o Dr. Nicolau remexe-se, pede à Vera que entre ao gabinete um instante.

E lá ficou Vasco com o embrulho nos braços. Imóvel, mudo. E o pacotinho quente, a cheirar a leite, começou a resmungar, deu um som estranho, parecia um gatinho, e desatou a berrar. Vasco espreitou, assustado, e lá estava ele, em versão miniatura! O nariz, o queixo O seu próprio retrato vivo!

Sentiu as pernas a ceder, sentou-se, embalou um pouco a bebé. Ela calou-se e abriu os olhos, fixando-o como se o conhecesse desde sempre, e até, quem sabe, sorriu.

Vera regressou, com um sorriso cansado.

Dê cá, já trato dela estendeu os braços.

Não! saiu disparado da boca de Vasco. Ela acabou de me sorrir! E pela primeira vez, um sorriso genuíno, quente, abriu-se-lhe no rosto. Vamos para casa, Vera, disse, suave mas firme. Vamos juntos. Estamos juntos nisto.

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