Vim fazer-te uma visita, tinha saudades tuas, mas os miúdos parecem-me como estranhos.

Os pais estão sempre preocupados com os filhos. Às vezes, vêm a sentir-se desiludidos com os filhos já adultos. Quem são as filhas adultas da nossa história de hoje.

A história da mãe.

Maria Eduarda criou três filhos. Todos cresceram e seguiram os seus próprios caminhos. O filho mais velho tem família e trabalha em França. Ele envia fotografias e postais pelo Natal e na Páscoa. A mãe guarda-os com carinho e gosta de os rever de vez em quando.

Temos tantas saudades tuas, filho. Não queres vir visitar-nos? Ao menos podíamos conhecer os nossos netos e a tua mulher, costuma ela escrever-lhe.

A filha do meio é casada com um militar. Mudam-se frequentemente. Criam juntos uma filha pequena. Às vezes, visitam a casa dos pais. O marido da Maria Eduarda tem estima pelo genro: reconhece que a filha encontrou um bom companheiro.

Já a filha mais nova não tem vida de família feliz. Beatriz, depois de casar e ter um filho, acabou por ser abandonada pelo marido. Seguiu o conselho da mãe de se mudar para Lisboa, em busca de outras oportunidades. Arranjou trabalho como costureira numa fábrica de confecções e levou o filho consigo.

Maria Eduarda decidiu ir visitar a filha mais nova.

Consegues passar-te sem mim durante uma semana? disse ela ao marido, Francisco. Quero ir ver como está a Beatriz e saber das novidades.

Francisco acompanhou-a até à estação, já que sabia que a mulher não teria facilidade com as malas pesadas, mas ela fazia gosto em agradar à filha. Maria Eduarda seguiu de comboio, numa viagem demorada de segunda classe. Ficou radiante ao reencontrar a filha, pois já há três anos que não se viam.

Mãe, por que não avisaste que vinhas? Estou no trabalho agora. Só consigo ir buscar-te à estação à noite.

Desculpa, queria surpreender-te! respondeu a mãe. Tens a certeza que consegues esperar? Sim, não te preocupes. Maria Eduarda acabou por esperar, mas depois decidiu ir ter com a neta sozinha.

À porta, encontrou o neto. Alto, parecido com o avô nos seus tempos de juventude.

Olá, meu querido! abraçou a avó. Já chega, avó! tentou escapar. Porque não chegaste mais cedo? Tive de limpar a casa e preparar tudo para a tua vinda. Saí mais cedo do trabalho para fazer sopa de legumes e uns bifes de porco.

Nessa altura, o telefone de Maria Eduarda tocou e ela disse ao marido, que estava aborrecido de saudades, que estava bem acompanhada, que a Beatriz lhe tinha ajudado a chegar e que estavam a jantar.

À mesa, enquanto servia a sopa, a Beatriz perguntou: Querias um ou dois bifes? Maria Eduarda estava tão cansada e com fome que comia três, mas respondeu simplesmente: Não te preocupes, põe na mesa, vemos depois.

No fim, apareceram cinco bifes na travessa. E assim foi o jantar de receção para a mãe. Maria Eduarda achou estranho e pensou que deviam estar a passar dificuldades, decidindo logo que iria ajudar. Durante o jantar, a filha perguntou-lhe logo quando é que planeava voltar para casa. Maria Eduarda sentiu-se magoada e respondeu que, se incomodava, podia ir-se embora logo no dia seguinte.

Passava os dias sozinha em casa da filha e à noite, cada um ficava fechado no quarto. Depois, o neto ia ter com amigos e a Beatriz saía para conviver também. A mãe ficava sempre sozinha.

Maria Eduarda começou a sentir-se deslocada e percebeu que ali não fazia falta. Quando se preparava para sair, ouviu o neto perguntar à mãe: Quando chega o tio? Íamos ao jogo de futebol juntos.

Assim que a avó for embora. respondeu Beatriz.

Triste, Maria Eduarda fez as malas de imediato e saiu sem despedidas. Francisco, que sentia saudades, foi buscá-la cheio de alegria. No fim de contas, apesar de todo o amor e cuidado com que criaram os filhos, percebeu que, agora, estes já não precisavam dos pais para quase nada.

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