Viemos fazer-vos uma visita. Só por dois dias, prometemos!

16 de agosto

Bom, cá estou eu a registar mais um episódio singular da minha vida na costa. Parecia um dia como tantos outros, até que recebi aquele telefonema que começou de forma tão peculiar:

Mariana, vamos aí fazer-vos uma visita! Só por dois dias, já comprámos os bilhetes! disse uma voz feminina no telefone, com uma confiança e intimidade desarmantes. De início, fiquei pasmado, a virar o nome na cabeça, sem fazer ideia de quem seria este familiar… se é que realmente o era.

Olhava para a moldura do telefone com desconfiança e alguma irritação, a tentar perceber quem me podia estar a ligar e, acima de tudo, porque raio sabiam o meu nome.

Quem fala? Visita, como assim?

Do outro lado, a voz riu-se baixinho:

Mariana, então? Sou eu, a tua tia Graça!

Por muito que puxasse pela memória, tia Graça não me dizia nada. Ainda assim, perguntei:

E em que vos posso ajudar?

Olha, vamos mesmo só fazer-vos uma visitinha! Tu agora vives perto do mar, não é? Só ficamos uns dias, o meu filho Duarte anda a precisar de ar puro por causa da asma…

A breve explicação convenceu-me, ou pelo menos deixei-me convencer. Aparentemente o tal Duarte, filho da misteriosa tia Graça, precisava da brisa marítima recomendação médica, segundo ela. Prometeu não incomodar, ajudar em tudo e nem parecia exigir nada de mais. Lá acabei por aceitar, mas a minha intuição já avisava que não ia correr bem.

Obrigada, Mariana! Então sexta chegamos aí!

Desligou rapidamente. O meu filho, Tomás, de 12 anos, estava a ver televisão e comentou, habituado já às surpresas:

Outra visita, mãe?

Sim, uma tal de tia Graça…

Devias ligar à avó a perguntar quem é essa gente! O Tomás nunca gostou destas visitas relâmpago, em especial porque costumam prometer muito e cumprir pouco.

A verdade é que depois de me mudar para Setúbal (o divórcio obrigou à partilha da casa, e eu quis recomeçar junto ao mar), uma lista de alegados parentes começou a emergir dos cantos mais recônditos da família. No início, até achei graça e entusiasmo. Mas depressa percebi aquilo a que vinham: serviços de hotel, refeições prontas e zero colaboração, muitas vezes ainda armados em donos da casa.

Tive de impor regras: casa não era pensão. Quem não ajudava, nem voltava a entrar. Felizmente, alguns dos que vieram eram pessoas decentes que até ajudavam em tudo, e a esses dava gosto receber. Mas eram raros.

Tomei então o conselho do Tomás e liguei à minha mãe, que vive em Lisboa mas costuma aparecer umas vezes ao ano para passar uns dias connosco.

Olá, Mariana! Está tudo bem?

Conversámos sobre o dia-a-dia, e depois mencionei a visita da tia Graça e do filho.

Nem me lembro de tal pessoa disse a minha mãe, hesitante. Talvez do lado do teu pai? Vou perguntar, mas não me parece.

A chamada não me esclareceu nada, só restava esperar.

Na sexta-feira chegada, estavam lá eles: tia Graça, uma senhora volumosa de olhos pequenos e matreiros, e Duarte que de menino frágil nada tinha! Um rapaz de quinze anos, enorme, olhar de poucos amigos. Descobri mais tarde que o tal tratamento era só desculpa para umas férias à borla.

As primeiras palavras da tia Graça foram:

Mariana, porque não nos foste buscar à estação?

O meu filho Tomás murmurou, sem se conter:

A mãe não é taxista.

Graça ignorou, mas lançou-lhe um olhar de desagrado.

Mariana, onde pomos as malas? Quais são os nossos quartos?

Só há um quarto disponível, não posso dar mais espaço disse-lhe, seca.

Ah, pensávamos que tinhas uma casa grande à beira-mar! comentou ela, quase ofendida.

Não sei quem disse tal, mas se não estiverem satisfeitos têm cá hotéis mesmo à mão respondi, irritado. Não quero começar mal as coisas.

Ela, de imediato, amaciou:

Mariana, querida, não fiques assim. Foi do cansaço da viagem! Vá, mostra-nos a casa.

Foi a primeira a entrar porta dentro, Duarte atrás com as malas, e o Tomás olhou-me de lado:

Mãe, vais ver que te arrependes.

São só dois dias tentei convencer-me e a ele.

Naquela noite, lá se fecharam cedo no quarto, já depois de resmungarem porque não tinham quartos separados. As outras divisões estavam em obras, e eles não quiseram dormir na sala. Respirei fundo e ignorei.

Às seis da manhã seguinte, acordei sobressaltado com um alvoroço na casa. Vi as horas, e enfureci sou notívago, odeio ser acordado cedo! O Tomás sempre cuidou de não fazer barulho, era independente. Mas desta vez…

O que se passa aqui?! perguntei, arrastando-me para a sala.

Nada de especial, Mariana. Só não encontro o fato de banho! a tia Graça, com os pertences todos espalhados pela sala.

Não podia procurar no quarto, em silêncio?

O quarto é pequeno! E tentei não fazer muito barulho…

Do quintal vinha mais ruído ainda: Duarte a bater num balde de zinco. Quando lhe pedi para parar, a tia Graça resmungou mas lá ordenou ao filho que fosse esperar junto do banco debaixo da figueira.

Já não ia conseguir dormir, por isso fui direito ao café.

Onde vais? atirou a Graça.

Beber café.

Traz-me uma chávena bem grande com leite, e três açúcares.

Parei em seco.

Dona Graça, não sei se sabe, mas aqui é self-service. Já que acordou a casa toda, não exagere nos pedidos.

Ela encolheu os ombros, fingindo-se ofendida, e disse:

Pronto, está bem. Graça Maria, por sinal. Só pedi café!

O meu humor estava pela hora da morte. O Tomás entrou, viu-me de cara fechada e comentou:

Eu bem avisei… ainda vai a tempo de os pôr na rua.

Falta um dia só tentei parecer otimista.

Mas nem sequer o Tomás escapou ao incómodo: a barulheira tinha-o acordado também.

Pouco depois, aparece a tia Graça com ar maldisposto:

Não fizeste o café?

A mãe não tem de fazer! Faça você! o Tomás não se calava.

Mariana, nunca ensinaste respeito ao teu filho?

Mais respeito, já agora! respondi, irritado.

Graça meteu água, fez o café e tentou sorrir, mudando de conversa:

Mariana, mostras-nos o caminho para a praia?

Só seguir a vereda, depois vêem o Atlântico. Depois do almoço é que eu irei.

Notando que eu já não a tratava por senhora, insistiu:

Não vinhas connosco?

O Tomás fez-me sinal de que não queria lá ir com eles.

Vão vocês, já que têm tanta pressa.

E o almoço?

Eu cozinho para mim e para o Tomás. Se quiserem comer, há cafés aqui por perto.

Não podes cozinhar para nós? Não suporto comida de fora… ela, com ar de cordeiro.

Posso sim, se me derem dinheiro para as compras.

Ela revirou os olhos:

Mais vale ir ao café, sempre se come melhor!

O Tomás abafou um riso, mas ficou por ali.

Os dias com eles foram uma sucessão de pequenos choques, cada um tentando impor-se ao outro. Quando se cumpriram os dois dias, fui lembrar à tia Graça que tinham de ir embora. Ela, muito calma, diz-me:

Mariana, só agora é que chegámos, não vás meter-nos na rua! Estivemos a contar ficar cá a semana toda. São só umas férias, que mal tem?

Pensei nas noites mal-dormidas, no desgaste, e recusei. O Duarte era só um adolescente, mas mesmo aí sem modos fazia-lhe rasteiras ao Tomás ou atirava lixo para o quintal. Até os vizinhos começaram a reclamar.

Sinto muito, mas combinámos dois dias e amanhã chegam cá amigos meus. Têm de sair. E se tentam estragar algo ou levar alguma coisa, chamo a polícia.

Ela queria protestar, mas mantive-me firme. De manhã cedo, arrumaram e saíram, a resmungar até à rua.

E assim aprendi, não pela primeira vez, mas espero que pela última, que hospitalidade não deve ser confundida com abuso. Ainda que carreguem o título de família. Mais vale uma casa pequenina mas em paz, do que uma grande cheia de aproveitadores.

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