Vera fritava almôndegas quando o marido entrou na cozinha. – Vera, precisamos conversar, – declarou resoluto Ivo. – Fala, – respondeu a mulher. – Senta aí, vou escutar bem? – a voz de Ivo transbordava impaciência. – Nunca deixo de vigiar as almôndegas, – respondeu a esposa. – O que queres dizer? – eu…, – Ivo se enrolou, quase sem palavras. – Conheci outra mulher… Estou a deixar‑te! – Eu te parabenizo. E fico muito feliz por ti! – disse calmamente Vera. – A‑parente? Parabenizo? Feliz por mim? – o homem ficou surpreso ao olhar para a esposa. Mas Ivo nem imaginava o que Vera tramava naquele instante.

Benedita fritava bifanas quando o marido entrou na cozinha.
António, precisamos conversar anunciou ele com um ar decidido.
Fala respondeu Benedita, virando a carne na frigideira.
Sentas-te? Assim consigo ouvir-te melhor a impaciência na voz de António era evidente.
Eu nunca deixo de vigiar as bifanas disse ela, sem largar o garfo.
O que queres dizer? começou António, mas tropeçou nas palavras. Eu… conheci outra mulher… Vou embora!
Parabéns a ti! E fico muito feliz por ti! respondeu Benedita, tão calma quanto quem espera o próximo pastel de nata.
Mas parabéns? Está a dizer que está feliz por mim? António franziu a testa, surpreso.
Claro, parabéns! respondeu Benedita, com um sorriso irónico.
Mas o homem ficou boquiaberto. Mal sabia ele que Benedita já tinha algo preparado na cabeça.

Olha, sinceramente a amiga de Benedita ficou em silêncio por um instante, como se temesse dizer algo demais. Ainda não entendo como te atrevestes a isto. É um passo além de tudo, Benedita!
Além de quê? Do bem ou do mal?
Sabes, é como olhar para o oceano.
Não importa como olhes, sorriu Benedita. O que importa é o resultado. E o meu está ótimo: consegui o que queria!
Ainda assim murmurou a vizinha. As consequências negativas vão aparecer
Não grites, querida! exclamou Benedita. Quando surgirem decidimos. Agora é a minha hora de alegria e de vitória! Então, não estragas a festa!
A vizinha rebaixou os ombros, fingindo estar mais interessada na paisagem da janela.

***

Tudo começou naquela noite, quando António chegou do trabalho e, a esconder o embaraço, disse:
Temos de conversar
Benedita apertou os dentes por dentro. Já esperava há muito tempo que António se decidisse. E, finalmente, o assunto começou.
Fala lançou ela, virando as bifanas que preparava para o jantar.
Senta-te, escuta-me bem a voz de António trazia urgência. Ou prefiro conversar à porta?
Senta-te, meu amor respondeu Benedita tranquilamente agora o Tiago vai lembrar de mim e tudo vai ficar bem. Então, chega logo. O que queres dizer?
Eu António engasgou, mal conseguindo encontrar as palavras eu conheci outra mulher
E? Benedita, sem olhar para ele, continuou a mexer a carne. E depois?
Desliga essa frigideira! gritou António, irritado. Ouviste o que eu digo?! Eu amo outra mulher!
Ouvi Benedita finalmente virou-se para ele. Parabéns a ti.
O quê?! António ficou sem chão. Esperava qualquer coisa, menos aquela indiferença e os cumprimentos.
Abaixa o tom, por favor, vais assustar as crianças disse Benedita, ainda serena, como se nada a tivesse surpreendido.
Sabias? soprou António.
Não, não sabia balançou a cabeça Benedita. Mas suspeitava.
Suspeitavas?
Claro. E não estarias a adivinhar se eu chegasse atrasada ao trabalho, se ficasse horas ao telemóvel, se mudasse para outro quarto só por uma desculpa sem sentido? E então António, todo o mundo sente se é amado ou não
Então por que calaste quando percebeste? perguntou António, acalmando-se um pouco.
Sabes, foi tu que me propuseste a ideia, e destruir a família também seria culpa tua.
Por que fizeste isso?
Como? Se quiseres só passear, divertires-te, continuarias a esconder as tuas aventuras. Já que começaste a falar, é porque tomaste uma decisão. Por isso, fala o que quiseres

António olhava para a esposa e não a reconhecia. Tanta calma, dignidade. Pensava que o que viria seriam lágrimas femininas simples.

Então, tenho uma proposta
Interessante Benedita sentou-se num tabuleiro e fitou António com atenção.
Já calculei a nossa hipoteca mal dá para pagar, ainda mais com os alimentos
E o divórcio, vamos discutir? ouviu-se um toque metálico na voz de Benedita, que António não percebeu.
O que discutir? respondeu ele, despreocupado. Claro que não me perdoarás.
Pois é Benedita sorriu. Sabes que me conheces como a cabeça de alface
Então António não percebeu a jogada. Seria melhor se mudasses para o teu apartamento de um quarto e eu ficasse aqui.
E os filhos?
Os filhos? Vão contigo, obviamente respondeu o homem.
Então, vou viver com dois filhos num apartamento de 18 metros quadrados, e tu, com a tua nova namorada, ficarás no nosso apartamento de três quartos?
Exatamente. Não consegues pagar a hipoteca. É óbvio. Eu sempre a paguei, lembro.
Entendo disse Benedita, levantandose. Preciso de pensar.
Ela foi para a varanda.
Então, vamos lá provocou António, sorrindo. Ela vai pensar. Ah, essas mulheres! O que elas vão fazer?

Enquanto Benedita estava na varanda, António serviuse duas bifanas e um puré quente da panela elétrica, sem acabar a refeição.

Concordo anunciou Benedita, a pisar na cozinha. Mas com uma condição.
Que condição? perguntou António, com um sorriso complacente.
Vais ficar neste apartamento com a tua paixão e com o nosso filho. Eu e a filha mudaremos.
O quê?! O rosto de António esticouse de surpresa, os olhos subiram ao céu. Queres dividir os filhos?!
Sim. E que há de errado? respondeu Benedita tranquilamente. Os filhos são nossos, a responsabilidade é a mesma. O filho que tanto desejaste ficará contigo, a filha comigo. Acho que é justo.
Estás a perder a cabeça? Não se divide crianças, são pessoas, não móveis!
Claro que não, Benedita era firme. Vou carregálos comigo até ao fim da vida, tu vais descansar. Não pode ser assim.
Eu pagarei os alimentos! E ajudarei, se puder
Certo. Vais pagarme, eu a ti. Criámos os filhos juntos, vamos criálos juntos. Se não queres o filho, fica com a filha. Ela é mais velha, será mais fácil. Vês, estou disposta a fazer-te feliz.
Não eu sabia que eras estranha, mas a este ponto! exclamou António. Queres usar os filhos como arma?
Não inventes, António. Não mereces que eu me vingue contigo. Quero só justiça. Tu ficarás com o apartamento de três quartos, a hipoteca e o filho. Eu, com o de um quarto e a filha. Trocase de alimentos. Só assim nos separamos de boa. Caso contrário, luto. Não cedo um centavo. Pensa nisto.

António saiu, pediu conselhos à amiga, à mãe e à irmã. Todos o confortavam, dizendo que Benedita estava a blefar. Que nenhuma mãe normal entregaria um filho por metros quadrados. Que ele poderia aceitar sem medo. Em três dias, Benedita levaria a criança.

Quanto à nova namorada de António, Sofia, estava nas nuvens. Um apartamento de três quartos no centro! Um presente que nem sonhava! E ainda ganhar um rapaz de quatro anos, que Sofia nem se lembrava de existir.

Alguns dias depois, António confirmou a Benedita: aceitaria a condição.
Perfeito respondeu ela, insistindo que António apresentasse o pedido de divórcio no dia seguinte.
Por quê eu? protestou ele.
Porque és o marido. E porque te será mais fácil pagar tudo.

O argumento pareceu lógico, e António entrou com o divórcio.

***

Três meses depois, conforme o acordo, António mudouse para a casa de Sofia. Benedita preparava a mudança e respondia pacientemente às críticas dos familiares e amigos. António espalhava a notícia de que Benedita queria dividir os filhos e lhe dar o filho.

Como podes?
Que mãe é essa?
Não tens vergonha!
Como podes dividir crianças? Não tens alma!

Essas eram as palavras mais brandas que Benedita ouvia. Às vezes respondia, às vezes calava a boca, às vezes simplesmente saía para não ter que responder. Até a filha de doze anos, Filomena, lançou-lhe um tiro:

Eu pensei que nos amavas

Benedita, ignorando tudo, esperava calmamente o divórcio. Finalmente chegou o dia.

Querem deixar o filho ao pai? perguntou a juíza, surpresa.
Sim respondeu Benedita serenamente. A responsabilidade é a mesma para ambos. O pai nem se opõe. Não é, António?
António acenou.

A questão ficou resolvida, como Benedita tinha proposto. António suspirou aliviado mas nada tinha acabado.

***

Benedita organizou tudo para a sua saída: fez as malas, recolheu os pertences dela e da filha, guardou o essencial e escreveu um manual para António:
O que o Tiago gosta, o que não gosta, a creche a que vai, o nome da educadora, os alimentos que não tolera, os desenhos que adora, onde fica a clínica

Ao folhear o papel, António bufou:
Mas por que isto? Vamos conseguir por nós mesmos! É verdade, Tiago? pegou o menino nos braços e lançouo ao alto.
Tiago sorriu de orelha a orelha.

Basta, acabou a festa interrompeu Benedita, se precisarem, telefonem.

Quando saíram, António ligou para Sofia:
Tudo pronto! Vem!

Na mesma noite, Sofia postou nas redes: Novo início! com foto deles ao lado do berço do filho adormecido.

***

O que se seguiu foi um pesadelo para António e uma paciência exemplar para Benedita.

A realidade estava longe das ilusões. Tiago, no dia seguinte, recusouse a comer o que Sofia preparava, pediu a mãe e não queria ficar com ela. Filomena também não queria estar ali. As manhãs na creche deixavam António à beira de um colapso: o menino fazia birra, recusavase a vestirse, chorava ao ser entregue à educadora. António chegava sempre atrasado ao trabalho. Depois, Tiago adoeceu. António não sabia como cuidar dele. A creche exigia estar presente à noite, o que o obrigava a sair antes do trabalho. O chefe começou a fazer-lhe a vista grossa.

Sofia partiu numa viagem de negócios e depois desapareceu, enviando uma mensagem: Não estou pronta a colocar a minha vida aos pés do teu filho.

A mãe de António recusouse a ajudar, alegando problemas de saúde. Benedita apareceu apenas duas horas por semana; quando saía, Tiago fazia birra. O dinheiro para a hipoteca bastava, mas António não esperava gastar tanto com o filho. Esqueceuse de descansar. Irritação e cansaço dominaramo. Um dia, quase sem vontade de estar ao lado do filho, ligou para a exesposa:

Benedita, precisamos conversar. É urgente.

Ela chegou.

O que se passa? perguntou, com um pingo de simpatia ao notar o aspecto abatido de António.
Por favor, levao embora. Não consigo mais. sussurrou António.
O que se tem?
Estou cansado, Benedita. Sofia abandonoume.
Entendo Benedita tentou esconder um sorriso. Mas
Não há mas. insistiu António. Mudamse para cá, vivam todos juntos, e eu parto.
E depois exiges algo de mim?
Nada. Vamos colocar o apartamento em teu nome.
Nem acredito que és tão mercenária.
Os professores eram bons, retrucou Benedita.

António manteve a palavra. Transferiu o apartamento para o nome de Benedita, que passou a pagar a hipoteca. Os alimentos foram divididos entre os dois filhos. Nos fins de semana, quase sempre, ele visitava a exesposa, levando um ramo de flores como agradecimento por ter colaborado.

Agora, todos os amigos e parentes compadecemse com António, chamando Benedita de coração de pedra. Ela, porém, desfruta da sua vitória, sem arrependimentos e sem dar crédito a quaisquer consequências negativas.

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Vera fritava almôndegas quando o marido entrou na cozinha. – Vera, precisamos conversar, – declarou resoluto Ivo. – Fala, – respondeu a mulher. – Senta aí, vou escutar bem? – a voz de Ivo transbordava impaciência. – Nunca deixo de vigiar as almôndegas, – respondeu a esposa. – O que queres dizer? – eu…, – Ivo se enrolou, quase sem palavras. – Conheci outra mulher… Estou a deixar‑te! – Eu te parabenizo. E fico muito feliz por ti! – disse calmamente Vera. – A‑parente? Parabenizo? Feliz por mim? – o homem ficou surpreso ao olhar para a esposa. Mas Ivo nem imaginava o que Vera tramava naquele instante.