Vera fritava almôndegas quando o marido entrou na cozinha. – Vera, precisamos conversar, – declarou resoluto Iago. – Fala, – respondeu a esposa. – Senta-te, escuta-me bem? – a impaciência soou na voz de Iago. – Eu nunca… preciso ficar de olho nas almôndegas, – respondeu a mulher. – O que queres dizer? – Eu… – Iago gaguejou, quase sem palavras. – Conheci outra mulher… Vou embora de ti! – Parabéns, estou muito feliz por ti! – disse tranquilamente Vera. – Como assim, parabéns? Como assim, feliz por mim? – o homem ficou surpreso. Mas Iago nem imaginava o que Vera planejava naquele instante.

Inês preparava almôndegas quando o marido entrou na cozinha.
João, precisamos conversar disse ele, firme.
Fala respondeu Inês, sem parar o que estava a fazer.
Sentas-te, ouvi-me bem? a voz de João traía impaciência.
Tenho de estar atenta às almôndegas respondeu a esposa. O que queres dizer?

Eu João tropeçou nas palavras, a voz a vacilar. Conheci outra mulher Vou embora!

Parabéns, então. E fico muito feliz por ti! respondeu Inês, calma.
Como assim? Parabéns? Feliz por mim? João ficou surpreso.
Mas João não imaginava o que Inês estava a planear naquele instante.

Sinceramente a amiga de Inês ficou em silêncio, como se temesse dizer algo demasiado. Ainda não percebo: como tiveste a coragem? Isto ultrapassa todos os limites, Inês!

Que limites? Bons ou maus?

Não sei é como olhar para o futuro.

Seja como for, sorriu Inês. O que importa é o resultado. E o meu é excelente: consegui o que queria!

Ainda assim advergiu a vizinha, vão surgir consequências negativas

Não te queixes! exclamou Inês. Quando surgirem, resolvemos. Agora é tempo de alegria e vitória! Não estragues o meu dia!

A vizinha encolheu os ombros, fingindo interesse pela vista da janela.

***

Tudo começou naquela noite, quando João chegou do trabalho, disfarçando o constrangimento:

Temos de conversar

Inês apertou o peito, sentindo o coração a bater forte. Esperava há muito tempo que João se decidesse. E ali começou tudo.

Fala disse ela, virando as almôndegas.

Podes sentarte e ouvir? a impaciência de João ficou evidente. Ou prefiro falar de costas?

Sentarte nunca, meu amor respondeu Inês serenamente. Agora o Tiago vai lembrarse de mim e começa: mãe, isso, mãe, aquilo. Não vamos perder tempo. O que queres dizer?

Eu João engasgouse, quase sem conseguir pronunciar, encontrei outra mulher

E? Inês não se virou da frigideira. E depois?

Desliga essa panela! gritou João, irritado. Ouviste o que digo? Eu amo outra!

Ouço Inês finalmente se virou. Parabéns a ti.

O quê? João ficou boquiaberto. Esperava tudo, menos aquela indiferença.

Abaixa a voz, por favor, que as crianças podem assustarse disse Inês, ainda calma, como se nada a surpreendesse.

Sabias? exclamou João.

Não, não sabia balançou a cabeça Inês. Mas suspeitava.

Suspeitava?

Claro. E não adivinharias se eu chegasse atrasada ao trabalho, se falasse ao telemóvel o tempo todo, se mudasse para outro quarto por pretexto? Qualquer pessoa sente se o ama ou não

Então por que calaste quando percebeste? perguntou João, ainda mais tranquilo.

Sabes Inês piscou. Foste tu que me fizeste a proposta, e destruir a família também seria a tua escolha.

Por que fizeste isso?

Porque? Se querias só passear, ocultarias as tuas aventuras. Começaste esta conversa, logo tomaste uma decisão. Então fala o que tens a dizer

João olhava para a esposa e não a reconhecia. Tanta serenidade, tanta autoconfiança. Pensou que o que lhe aguardava seriam lágrimas femininas.

Resumindo, tenho uma proposta

Isso é Inês sentouse num banco e fitou João.

Temos uma hipoteca Não vais conseguir pagar nem com os alimentos das crianças

E não vamos discutir o divórcio? a voz de Inês soou metálica, que João não reparou.

Do que há para discutir? respondeu ele despreocupado. Está claro que não me perdoarás.

É Inês sorriu. Afinal, conhecesme como alguém que já foi muito usado

Então João, sem perceber a ironia, seria melhor se te mudasses para o teu apartamento T1 e eu ficasse aqui.

E os filhos?

Que filhos? O Tiago vai contigo, obviamente replicou ele.

Então eu e duas crianças ficaremos a viver num espaço de dezoito metros quadrados, e tu, com o teu novo amor, na nossa casa de três quartos?

Exacto. Não consegues pagar a hipoteca. É óbvio. Eu já a pago sozinho explicou João, confiante, como se Inês não percebesse nada.

Entendo disse Inês, levantandose. Preciso de pensar.

Foi para a varanda.

Pois vá lá zombou João, enquanto ele se preparava para a própria refeição.

Enquanto Inês estava na varanda, João serviuse duas almôndegas, puré quente da panela elétrica e devorou tudo.

Concordo anunciou Inês, a entrar na cozinha. Mas sob uma condição.

Qual condição? sorriu João, complacente.

Tu ficas nesta casa com o teu romance e com o nosso filho. Eu e a filha mudamosnos.

O quê?! O rosto de João alargouse, os olhos subiram. Queres dividir os filhos?

Sim. Não há problema. As responsabilidades são iguais. O filho que tanto desejaste fica contigo, a filha fica comigo. Acho que é justo.

Estás louca? Como se pode dividir crianças? Não são móveis!

Claro que são Inês mantevese firme. Eu devo cuidar deles até ao fim, e tu não. Não vai ser assim.

Eu pagarei os alimentos! E ajudarei, se puder

Perfeitamente. Tu pagasme, eu pagote. Criámos as crianças juntos, vamos criálas juntos. Se não queres o filho, fica com a filha. Ela é mais velha, será mais fácil. Vês? Estou disposta a ceder.

Não sabia que eras tão estranha! exclamou João. Queres usar os filhos como arma?

Não inventes, João. Não és digno de me enfrentar. Quero apenas justiça. Tu ficas com o T3, a hipoteca e o filho. Eu fico com o T1 e a filha. Trocase alímens. Só assim nos separamos de forma amigável. Caso contrário, luto. Não cedo um centavo. Pensa noutro lado.

João saiu. Consultou a amiga Marta, a mãe, a irmã. Todos lhe diziam, em uníssono, que Inês só fazia bluff. Que nenhuma mãe normal entregaria um filho por poucos metros quadrados. Assim, João achava que poderia aceitar. Em três dias, Inês teria o filho.

Quanto à nova amante de João, chamada Ana, estava em êxtase. Um apartamento T3 no centro! O presente que nunca sonhara! O facto de ainda receber o garoto de quatro anos, Ana nem se lembrava.

Em poucos dias, João aceitou as condições de Inês.

Perfeito respondeu Inês, insistindo que João apresentasse o pedido de divórcio já no dia seguinte.

Porquê eu? tentou resistir ele.

Porque és o marido. E porque assim te será mais fácil pagar tudo.

O argumento fez sentido a João, que entrou com o processo.

***

Três meses depois, conforme o acordo, João mudouse para a casa de Ana. Inês preparava a mudança e respondia, com firmeza, a todos os ataques de familiares e amigos.

João espalhava a história por toda a parte: Inês tinha dividido os filhos e lhe entregue o filho.

Como ousas?
Que mãe és!
Não tens vergonha!

Era o pior que Inês já ouvira. Às vezes respondia, às vezes calavase, às vezes simplesmente saía para não ter de responder. Até a filha de doze anos, Catarina, lançou um puxão:

Eu pensei que nos amavas

Inês, sem dar atenção a ninguém, esperava pacientemente o divórcio.

Quando chegou a sentença, o juiz ficou surpresa:

Querem que o filho fique com o pai?

Sim respondeu Inês serenamente. A responsabilidade é a mesma para ambos. O pai não se opõe. Não é, João?

João acenou.

A decisão foi tomada, exatamente como Inês propunha. João suspirou aliviado
Mas nada tinha acabado.

Inês organizou tudo para a sua partida. Embalou as suas coisas e as da filha, guardou o essencial e escreveu uma lista de instruções para João:

O que o Tiago gosta, o que não gosta, a creche onde vai, o nome da professora, os alimentos que não tolera, os desenhos que vê, a localização da clínica, etc.

Ao folhear a lista, João gritou:

Mas ainda assim? Como é que isto nos vai ajudar? Vamos conseguir dar conta sozinhos, Tiago?

Tiago riu, feliz, nos braços do pai.

Vá, vamos interrompeu Inês, se precisarem, chamemme.

Assim que eles saíram, João telefonou a Ana:

Tudo pronto! Vem!

Na mesma noite, Ana postou nas redes: Novo começo! com uma foto deles ao lado do berço do filho adormecido.

***

Depois veio o pesadelo de João e a longa espera de Inês.

A realidade era muito diferente das ilusões. Na manhã seguinte, Tiago recusou a comida que Ana preparou e pediu à mãe que o chamasse. Não queria ficar com ela. As manhãs na creche deixavam João à beira da crise; o menino fazia birra para se vestir, chorava no caminho e resistia quando a professora o levava para o grupo. João chegava atrasado ao trabalho. Depois, Tiago adoeceu. João não sabia o que fazer. Cuidar do filho era mais difícil do que imaginara.

A creche exigia que ele o recolhesse à noite, obrigandoo a sair mais cedo do trabalho; o patrão começou a reparar. Ana desapareceu de repente, enviando uma mensagem: Não estou disposta a colocar a minha vida aos pés do teu filho. A mãe de João recusouse a ajudar, alegando problemas de saúde. Inês vinha só duas horas por semana. Quando saía, Tiago fazia mais birras. Ainda havia dinheiro para a hipoteca, mas João não esperava gastar tanto com o filho. Esqueceuse de descansar. O stress e o cansaço invadiramlhe a cabeça, e ele se viu a detestar estar ao lado do menino.

Depois de três meses, João ligou para a exesposa:

Inês, preciso falar. É urgente.

Inês apareceu.

O que aconteceu? perguntou ela, com um leve tom de compaixão.

Por favor, levao embora murmurou João, quase a chorar. Não aguento mais. Ana abandonoume.

Entendo respondeu Inês, tentando esconder um sorriso. Só

Não há só.

O quê?

Mudemse para cá, vivam todos juntos, e eu vou embora.

Depois vais cobrarme?

Não, Inês. Vamos transferir o apartamento para o teu nome.

Será que consigo lidar com um menino de quatro anos? riu Inês. Tu dizia­me que eu não fiz nada.

Desculpa. Não pensei Então, aceitas?

Desde que tudo fique legalizado.

João fitou Inês por longos momentos.

Não sabia que eras tão mercenária.

Os professores eram bonitos retrucou Inês.

***

João cumpriu a palavra. Transferiu o imóvel para Inês, continuou a pagar a hipoteca, os alimentos foram divididos por ambos os filhos. Nos finsdesemana, em raras ocasiões, visitavaos, sempre levando um buquê como agradecimento por ter aceitado viver no T1 e só pagar a água e luz.

Agora, parentes e amigas compadecemse de João, rotulando Inês como fria, sem coração, que não poupou o filho pequeno. Ela, entretanto, desfruta da vitória, sem arrependimentos, e não acredita nas consequências negativas.

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Vera fritava almôndegas quando o marido entrou na cozinha. – Vera, precisamos conversar, – declarou resoluto Iago. – Fala, – respondeu a esposa. – Senta-te, escuta-me bem? – a impaciência soou na voz de Iago. – Eu nunca… preciso ficar de olho nas almôndegas, – respondeu a mulher. – O que queres dizer? – Eu… – Iago gaguejou, quase sem palavras. – Conheci outra mulher… Vou embora de ti! – Parabéns, estou muito feliz por ti! – disse tranquilamente Vera. – Como assim, parabéns? Como assim, feliz por mim? – o homem ficou surpreso. Mas Iago nem imaginava o que Vera planejava naquele instante.