Vencedora Sem Amor

A vencedora sem amor

Pronto, Miguel, já está disse Dona Amélia, pousando a chávena no pires com um toque seco, definitivo. O som soou-lhe alto, quase solene, como anúncio de um fim de acto numa peça antiga. Agora é seguir em frente.

Mãe, falas como se tivesses ganho um campeonato de damas, disse Miguel, olhando pela janela.

E não ganhei?

Lá fora o Março confundia-se com um velho pano de limpeza, húmido e acinzentado, tudo à volta parecia lavado por uma chuva sem força, entre poças e cascas de laranjas deixadas na calçada. Dona Amélia tentou encontrar o que lhe prendia o olhar, mas só viu telhados gastos e galhos nus de plátanos.

Miguel, estou a perguntar: parece-te que não?

Mãe, ela só foi embora. Com uma mala. O que há para celebrar?

O simples facto de se ter ido embora. Com uma única mala. Veio com as mãos vazias, saiu com as mãos vazias. Isso é justiça.

Miguel voltou-se. Dona Amélia ficou expectante esperava encontrar no seu olhar uma mágoa, alguma raiva, pelo menos cansaço. Mas estava ali algo diferente, um eco de outras emoções que preferiu não investigar.

A Inês investiu dinheiro naquele apartamento disse ele baixinho, afastando a cortina. Dinheiro dela.

O apartamento está no meu nome. Quando ta dei, foi a ti. Não a ela.

Eu sei como está no papel.

Então, de que falamos?

Ele levantou-se, pegou no casaco. Dona Amélia notou que Miguel não acabara o bolo de maçã, feito especialmente para a ocasião. A metade repousava intacta na travessa.

Vou sair disse ele.

Onde vais?

Por aí.

A porta fechou-se sem ruído um gesto discreto, como se sempre tivesse tido o dom de nunca bater, nunca partir, nunca fazer barulho nenhum. Dona Amélia olhou para o bolo, pegou no garfo e terminou o pedaço do filho. As maçãs estavam um pouco ácidas, mas era uma acidez certa, daquelas que sabem a casa.

Sentada na cozinha em que vivia há trinta e sete anos, Dona Amélia pensou que agora sim, tudo ia correr bem.

Estava a entrar nos seus sessenta e três. Era pequenina, compenetrada, cabelo grisalho sempre apanhado num coque apertado. A reforma era digna, especialmente para os padrões de Vila Real. Quarenta anos a fazer contas como contabilista ensinaram-lhe a ver mais longe. Por isso, quando há cinco anos Miguel trouxe Inês para casa, bastou um jantar para Dona Amélia ler nas entrelinhas: a rapariga estava de olho no apartamento.

Inês viera de uma vila perdida a três horas do Douro. Chegara para estudar, ficara a trabalhar, alugava um quarto numa residência de uma empresa de projetos. Simples, recatada, a trança até meio das costas e o hábito de nunca fixar muito o olhar enquanto falava. Dona Amélia era mestre em decifrar pessoas. Percebeu logo: Inês apontava ao que era dos outros.

Miguel falava de outra maneira. Falava que amava. Também não falava muito, mas tudo o que dizia passava pelo filtro de Dona Amélia e o resultado era sempre o mais sensato ou, melhor, aquele que coincidisse com o que Dona Amélia pensava ser melhor.

Viveram todos três anos naquele apartamento onde Dona Amélia, cautelosa por natureza, tinha feito a doação a Miguel no dia em que este fez vinte e oito. Um advogado recomendara: assim, se houver divórcio, isto não é conto partilhado, fica na família. Na altura, Dona Amélia não pensava em divórcio. Só queria acautelar.

Inês trocou as cortinas. Dona Amélia sentiu-se invadida. Inês pediu desculpa, mas mudou o serviço de chá. Não gostava do velho. Inês cozinhava dois jantares por semana e convidava Dona Amélia, que comia de expressão neutra e ia embora com um peso de desconforto difícil de nomear.

Depois, Inês fez obras na cozinha. Tudo com dinheiro dela, frisado vezes sem conta ao marido, mas nunca dito à sogra. Dona Amélia só soube quando viu as paredes novas, os armários brancos, e fez beicinho.

Dona Amélia, não gosta? Inês perguntava, sempre directa. Gosta-se?

Oh querida, está engraçado.

E “engraçado” soou exactamente como “péssimo”. Ambas perceberam. Inês nunca rebateu. Inês sabia calar-se, quando Dona Amélia ansiava por um drama, uma explosão para justificar algum julgamento correcto.

O divórcio chegou ao quarto ano. Muitas razões, todas insuficientes e cada uma verdadeira. Miguel afastava-se do dia a dia. Havia explicações, silêncios, perguntas, Inês tentava, Miguel assentia e afogava-se nas notícias. A mãe, que recebia telefonemas dele a cada dois dias, decretou: já chega. Disse-lho tal como era.

Miguel, não dá para viver assim. Nem tu, nem ela.

Pode ser que tudo volte ao normal.

Só voltará, mas para pior.

Depois o advogado, os papéis, conversa na cozinha, bolo de maçã e Março diluído na janela. Inês saiu com uma mala cinzenta, de rodas, e caminhou ao táxi sem olhar atrás. Dona Amélia olhou: ali ia uma derrotada. E sentiu-se leve, como depois de se curar de uma gripe longa.

Miguel Soares, filho único, tinha trinta e quatro. Engenheiro num empresa de construção, rendia bem, nunca se metia em conversas sobre dinheiro. Dona Amélia estava cheia daquele amor de mãe que não se distingue do ciúme nem de mais nenhuma coisa que não se sabe nomear. Criara-o sozinha, desde que o marido partira, quando o Miguel tinha só oito. Desde então eram só os dois, e ela achara sempre que era a ordem natural de tudo.

Aos dezanove viu que ele sabia estar só. Não daquele jeito bom, mas do jeito de quem não exige, não faz frente, não se irrita em voz alta: só sabe ceder, ou fugir pelo silêncio. Dona Amélia chamou a essa incapacidade boa educação e sossegou.

Depois do divórcio, Miguel ficou um mês sozinho. Ligou-lhe a dizer que conhecera Mariana.

Onde?

No jantar de empresa.

Que tal?

Boa pessoa. Queres conhecê-la?

Foram a uma pastelaria, não a casa. Detalhe. Mariana tinha vinte e sete, trabalhava em publicidade, vestia-se viva, decidida no trato com empregados, com a ementa e, parecia, com tudo na vida.

Dona Amélia cumprimentou ela, estendendo a mão por cima da mesa, com aquela confiança de quem convida sempre. Já ouvi muito sobre si.

Do Miguel?

Do Miguel.

Espero que tenha ouvido bem, disse Dona Amélia sorrindo com o sorriso certo.

Um pouco de tudo respondeu Mariana, abrindo o menu.

Dona Amélia sentiu um frio debaixo das costelas, mas atribuiu-o à porta aberta da pastelaria.

Mariana era bonita. Não do jeito sussurrado de Inês, mas aberta, frontal, como são as mulheres que sabem qual o seu lugar na sala. Cabelo preto, olhos escuros, os lábios sempre no traço, sabia calar-se mas no silêncio dela havia avaliação, não paciência.

Em quatro meses casaram-se. Dona Amélia soube numa quarta, por telefone, após o telejornal.

Casámos hoje, anunciou Miguel.

Hoje?

Sim. Mãe, não fiques triste. Não queríamos confusão.

Não estou. Parabéns.

Desligou. Ficou a olhar o vazio dez minutos. Depois regou as plantas, deitou-se cedo. De manhã esteve tudo igual.

Mariana foi morar para o apartamento daí a uma semana. Trouxe muita coisa, embora fosse uma mulher pequena, arrumada. Caixas que entupiam o corredor. Quando Dona Amélia lá foi, já as cortinas de Inês tinham sido arrancadas, substituídas por umas verdes, pesadas, deixando a sala com ares de biblioteca.

E as antigas, onde estão?

No lixo, Mariana veio da cozinha.

Eram quase novas

Não eram do meu gosto.

Fim da conversa. Dona Amélia ficou em silêncio. Pela primeira vez dos silêncios totais, sem pensar “um dia eu falo”.

No início vinha muitas vezes, Mariana não a expulsava, mas sabia criar aquele ambiente em que só se quer ir embora. Não vinha fazer sala, nem pôr o bule ao lume, nem fechar o portátil. Respostas secas às perguntas. E Dona Amélia sentiu-se hóspede incómoda, na casa que ela própria dera ao filho.

Sensação nova. E desagradável.

Miguel, na sua presença, ficava mais calado. Servia chá e bolachas, assentia nas histórias e olhava para Mariana com um cuidado que Dona Amélia notava mas não queria nomear. Medo era a palavra. Mas não a dizia.

Em Outubro, Mariana mudou as fechaduras. Assim, como quem remenda as calças. Miguel ligou:

Mãe, mudámos a fechadura. Se vieres, liga antes.

Porquê?

Mariana diz que é mais seguro.

Mais seguro de quê?

Interregno no telefone. Longo, onde Dona Amélia ouviu tudo.

Mãe, agora faz-se assim foi o que ele respondeu.

Tinha aquela chave há vinte anos primeiro dona, depois mãe, com casa sempre aberta. Ficava no porta-chaves, entre as do seu apartamento e a do correio. Tirou-a nessa noite e guardou-a. Nunca mais a usou.

O jantar de Ano Novo sempre era em casa dela. Há vinte anos. Fazia saladas, fritava peixe, punha o pinheiro no canto, como desde a avó. Era tradição, e ela insistia.

Em Novembro, Mariana anunciou, pelo Miguel:

Este ano, Ano Novo com os meus pais. Em Lisboa.

Em Lisboa?

Sim. Toda a família dela.

E eu?

Mãe, não dá para estar em dois sítios.

Dona Amélia passou a virada sozinha. Pôs mesa para um, abriu espumante às onze e meia, viu o discurso do Presidente na RTP, brindou e lavou a louça. Na cama cedo, que não havia mais nada para fazer.

Ligou ao filho de manhã, para dar os parabéns. Atendeu ao terceiro toque, voz feliz e sonolenta.

Feliz Ano Novo, mãe.

Feliz Ano Novo, Miguel. Tudo bem aí?

Óptimo. Foi animado. Ouve, ligo mais tarde, sim? A Mariana está a dormir.

Claro, claro.

“Claro”, disse ela num tom que era “nunca”. Já ele desligava.

Em Fevereiro, Mariana foi a casa dela. Primeira vez em anos. Não tocou antes, chegou à hora de almoço, elegante e de saltos altos. Dona Amélia abriu a porta sem saber muito o que dizer.

Entra. Chá?

Aceito.

Na cozinha, Mariana olhava ao redor como quem avalia uma casa alheia antes de a transformar por dentro. Chávenas em cima da mesa, limão cortado.

Dona Amélia, quero ser directa.

Diz.

Miguel liga-lhe todos os dias.

É meu filho.

Compreendo. Mas é todos os dias, durante uma hora. Isso interfere no nosso tempo, nos nossos planos. Acho que podia ser menos frequente.

Dona Amélia serviu água quente. As mãos não tremiam. Fazia questão disso.

Mariana articulou devagar , o Miguel é adulto. Decide a quem telefone.

Claro. Mas um adulto vive primeiro para a sua família.

Eu também sou família.

É a mãe. É diferente.

Olharam-se através do chá frio. Dona Amélia pensou: se fosse Inês, já teria desviado os olhos. Mariana não desviava.

Percebi o que disseste respondeu enfim.

Óptimo Mariana acabou o chá como se falassem do tempo.

Depois ficou muito tempo junto da janela, a ver a neve derreter para lama. Pensou em Inês. Na ausência daquele frio directo, como vento pela janela trincada.

As chamadas de Miguel foram-se afastando. Primeiro dia sim, dia não. Depois três dias. Dona Amélia não comentou. Também passou a ligar menos, por sentir sempre a pressa do outro lado, o apressado “Mãe, estamos de saída”, e o rumor da voz de Mariana, sóbria, o tom de uma locutora nas notícias.

Mariana trabalhava em publicidade, ganhava bem. Miguel mencionava isso com um timbre quase dependente. Comprava-lhes electrodomésticos, roupa, andava em viagens de negócios. A acção dela apertava à volta de Miguel, ocupando espaço até onde antes havia mãe.

Na Primavera voltou sem avisar. Miguel abriu, fez uma expressão que a travou antes de falar.

Mãe, sabes, é melhor avisares.

Estava a passar. Entrei.

A passar?

Vivo a dez minutos.

A Mariana está em trabalho, em casa. Precisa de silêncio.

Não vim pela Mariana. Vim por ti.

Ele deixou entrar. Ficaram na cozinha. Mariana nunca saiu do quarto. Meia hora depois, Amélia levantou-se e saiu. E, no patamar das escadas, percebeu que fora a última visita espontânea. Não pela ordem do filho. Só por não querer mais ver aquela cara na porta.

O Verão passou calmo. A horta na quinta, tomates e pepinos, levar os gémeos da vizinha à praia. Netos, não tinha. Mariana dizia que era cedo, que a carreira, que depois pensariam nisso. Não discutiu. Já sabia: não se discute com o inevitável.

Em Setembro, o que ela chamou de “acaso” mas acasos, numa Vila Real pequena, são apenas disfarces.

Saía do supermercado pela Avenida Carvalho Araújo, os sacos pesados, andar lento, olhos no chão. E viu Inês.

Inês estava à porta de um predio baixo, ao telemóvel. Agasalho azul-escuro, não lhe conhecia aquele casaco. O cabelo, curto, nivelado pelos ombros. Ria-se e não era aquela gargalhada abafada, tímida. Era solta de quem está realmente bem.

Dona Amélia parou, sem saber se passava ou se ficava. Ficou.

Inês viu-a. Despediu-se ao telefone e aproximou-se.

Dona Amélia.

Inês… surpreendeu-se a si por tratar na forma carinhosa. Nunca antes tinha dito “Inêsinha”.

Está com óptimo aspecto Inês sorriu, num tom de quem é cordial por código, não por verdade.

E tu também, replicou Amélia. Era verdade.

Mudara. Mais do confiar ombros, do olhar firme. Não havia desvio.

Trabalhas aqui?

Chefia. Abri negócio próprio há meio ano. Design de interiores.

Teu mesmo?

Sim.

E dinheiro?

Três anos trabalhando a dobrar. De dia na empresa, à noite por fora. Juntei. Comprei casa, o ano passado. Pequena, mas minha.

Os sacos ficaram pesados como chumbo.

Compraste casa?

T1, no S. Vicente. Chega-me.

Vives sozinha?

Sozinha. Gosto.

Ficaram em silêncio. Um carro buzinou. Crianças riam à esquina.

Inêsinha, começou Dona Amélia, sem plano, sem saber o que diria.

Dona Amélia, tenho reunião daqui a dez minutos.

Sim, claro.

Tudo de bom para si.

Igualmente.

Inês caminhou de volta para o prédio. Olhou breve para trás, numa expressão neutra nem raiva, nem dor. Serenidade. De quem já decidiu tudo há muito.

Em casa, Dona Amélia arrumou os sacos, lavou as mãos, fez sopa. Sentou à janela.

Comprou casa. T1 no S. Vicente. Negócio próprio. Dois anos, não foi de repente.

Dona Amélia pensou: ganhou. O apartamento ficou. O filho também. Inês saiu sem nada.

Mas o filho agora ligava uma vez por semana. Ou de dez em dez dias. O Ano Novo seria outra vez em Lisboa, com os pais de Mariana.

Inês tinha comprado casa no S. Vicente.

Foi deitar-se no sofá, fechou os olhos não dormiu. Só deitou-se a ouvir o anoitecer.

Em Outubro, Mariana propôs a Miguel mudarem para Lisboa. Vila Real era pequena. Ofereceram-lhe cargo novo. Crescimento. Imperdível.

Miguel ligou ao domingo.

Mãe, precisamos conversar.

Diz.

Provavelmente mudamos para Lisboa. Por causa dela.

Silêncio longo de Dona Amélia.

Quando?

Ainda não há data. Estamos a discutir. Quis que soubesses de antemão.

Obrigada por avisares.

Mãe, não digas assim.

Como “assim”?

Frio.

Miguel, não é frio. Estou a ouvir.

Outro silêncio.

Mãe, podíamos arrendar o apartamento. Ficas a tomar conta dos inquilinos, que vives perto.

“Tomar conta” queria dizer vigiar estranhos, na casa de onde a tinham afastado. Sem chave.

Vou pensar.

Ok. Mãe, não fiques triste. Lisboa é perto, três horas de comboio. Vimos cá sempre.

Claro.

E “claro” soou igual a “nunca”.

Novembro gelou cedo. Foi ao mercado, encontrou a Dona Graça do antigo emprego. Chá em copos de plástico no café do mercado, uma hora a falar de netos, quinta, do marido.

E tu, Amélia? E o Miguel? A nora já se adaptou?

Está feita à casa. Vão para Lisboa.

E levas contigo?

Não.

Dona Graça abanou a cabeça. Calada, mas falou tudo no olhar.

Não tens pena?

De quê?

Da Inês. Era tão sossegadinha.

Sossegada, era. Só queria casa alheia.

Achas?

Dona Amélia pousou o copo.

Vi-a na semana passada.

E?

Casa própria. Negócio em nome dela. Vai bem.

Olhar demorado da amiga. Sem crítica. Só ver.

Afinal não era pela casa murmurou Dona Graça.

Graça, não compliques.

Não digo nada.

Tu não sabes. Não a viste, não estiveste lá.

Talvez. Só vejo que andas só, em Novembro a comprar compotas. E o Miguel a caminho de Lisboa.

Fez todo o caminho a pé. Parecia-lhe que assim avançava.

Dezembro trouxe o frio e o pinheiro. Fez tudo sozinha. As decorações, a luz. Ficava bonito, todos os anos era bonito.

Na véspera do Natal, Miguel avisou: vinham dia 31. Só umas horas, depois Lisboa.

Chegaram às onze da manhã. Mariana num casaco novo, saco de prendas, chocolate e espumante. Pousou tudo e sentou-se a mexer no telefone, ocupada mas sem descortesia. Miguel deu-lhe um abraço. Chá tomado, Mariana respondia mensagens.

Mariana, queres bolo de maçã?

Não, obrigada. Não como bolos.

Miguel?

Claro, mãe.

Comeu dois pedaços. Dona Amélia olhava-o a comer e pensava: mais um dos últimos jantares assim, nesta cozinha. Porque Lisboa. Porque Mariana. Porque a vida escorre para onde não escolhemos.

Ao meio-dia e meia saíram.

Na porta Mariana parou e olhou para ela.

Dona Amélia. É uma grande dona de casa. O bolo está muito bom.

Obrigada.

Ela acenou, saiu. Miguel beijou-lhe a face.

Até logo, mãe.

Até logo, filho.

Arrumou a mesa, embalou o resto do bolo. Lavou a loiça. Ligou a televisão sem ver nada.

Fez a passagem de ano sozinha. Segunda vez. Abriu espumante à meia-noite, brindou com o ecrã. As luzes da árvore brilhavam, para ninguém.

Em Janeiro Miguel disse que mudavam em Março. Não iam arrendar a casa, ficava fechada. Talvez viessem de vez em quando. Dona Amélia acenou ao telefone, ele não via.

Fevereiro passou sem registar. Dias iguais: mercado, cozinha, televisão, Dona Graça. Cortou o cabelo, mas o coque ficou. Um dia foi à quinta da vizinha arrumar o sótão.

Início de Março, ainda com neve, ligou a Inês.

O número estava guardado. Tinha dessas memórias de números, coisa de contabilista.

Chamadas longas. Quase desligava.

Sim? A voz de Inês.

Inêsinha. Sou eu, Dona Amélia.

Silêncio. Não azedo. Só tempo.

Boa noite, Dona Amélia.

Queria perguntar coisa. Podíamos encontrar-nos?

Outro silêncio. Dona Amélia, de janela aberta, via o degelo de Março.

Para quê? Inês, simples. Sempre simples.

Queria conversar. Há coisas, digo após.

Longa pausa. Dona Amélia pensou que ia recusar. E teria razão.

Está bem. Sábado posso. No café da Avenida, pode ser?

Sei onde é.

Ao meio-dia.

Ao meio-dia. Obrigada, Inêsinha.

De nada.

No sábado chegou cedo. Mesa à janela. Pediu chá. Observava a rua. O degelo dava a ilusão de pressa ao tempo.

Inês apareceu exacta às doze. O mesmo casaco azul-escuro. O cabelo curto, leve. Cumprimentou, sentou-se com paz. Pendurou o casaco no espaldar.

Bom dia.

Olá, Inêsinha. Obrigada por vires.

Em que posso ajudar?

Dona Amélia pegou e largou a chávena duas vezes.

Queria dizer que estive errada. Em muitas coisas. Não em todas. Em muitas.

Inês olhou, estável.

Pensei mal de ti. Antes de qualquer acção. Foi injusto.

Silêncio.

Achei que só querias casa. Que não amavas o Miguel, mas usavas. Que era tudo cálculo.

E agora?

Não. A palavra mais difícil. Não. Naquele dia em Setembro, vi-te na Avenida. Ao telefone, a rir. Percebi: eras apenas alguém que queria um lar, uma família. Igual aos outros.

Inês desviou o olhar para a rua. Um pombo saltitava pela poça.

Dona Amélia baixou a voz Inês. É bom ouvi-la. Mas não sei o que fazer com isso.

Não te peço acção.

Então porquê?

Porque precisava de dizer. Para mim, talvez. Não para ti.

Inês, sem piedade nem vitória, com algo diferente, sem nome.

O Miguel?

Vão para Lisboa. A mulher, o emprego.

Entendi.

É diferente de ti. Não melhor ou pior. Diferente.

Melhor ou pior?

Não sei admitiu. Talvez a resposta mais honesta dos últimos anos.

Inês sorriu, discretamente.

Precisa de ajuda? De mim, agora?

Nada. Só queria dizer.

Tudo bem Inês levantou-se, pegou no casaco. Procurou a carteira.

Eu pago.

Não é preciso.

Deixa.

A hesitação de quem aceita, não de quem cede.

Está bem.

Com o casaco vestido, parou ao lado.

Dona Amélia. Já não dói. Há muito. Quero que saiba.

Fico contente.

Não por si. Por mim. Não guardo mágoa, não porque estivesse certa. Porque vivo melhor assim.

Amélia acenou. Sem palavras.

Fique bem.

Também tu, filha.

Inês saiu. Pela janela, Dona Amélia viu de relance a figura. Passo seguro no casaco azul. No cruzamento parou, olhou o telefone. Guardou. Seguiu, para longe.

Dona Amélia pagou, vestiu o casaco. Cheirava a Março, à água derretida das beiras dos passeios. Um perfume de possibilidades, como na infância.

Seguia pela Avenida e pensava no dia de há três anos quando viu Inês sair com a mala cinzenta. Olhara à janela, convencida da sua vitória.

Na altura achou que era nobreza de vencida, aquele passo firme. Pensava agora: talvez fosse já vitória de quem sabe para onde vai.

Chegou a casa, subiu ao terceiro andar. Abriu com a sua chave. Na habitual solidão, feita de silêncio caseiro.

Casaco pendurado, cozinha. Pôs água ao lume.

Lá fora Março derretia os restos de frio. No monte de neve à entrada brotava uma vassoura velha, esquecida no Outono. Dona Amélia olhou o cabo da vassoura e deixou os pensamentos sem palavras, livres.

A água ferveu. Chá servido, os dedos aquecidos pela cerâmica.

Pois, ali estava. Vitória. O apartamento permaneceu. O filho foi para Lisboa. Mariana mudou fechaduras e as tradições seguiam de malas feitas. A primeira nora saiu sem nada, agora risonha no T1 de S. Vicente, dona de negócio, feliz ao telefone.

Dona Amélia não era tola. Contabilista de quarenta anos, perita na linha final.

Linha final do balanço: sentada sozinha a uma chávena de chá.

Não por falta de contactos. Havia Dona Graça, a vizinha, o filho. O problema era o silêncio da casa. Essa tornou-se norma, esquecida já a última vez em que alguém entrou sem motivo.

Inês vinha sem motivo. Trazia bolinhos da padaria do largo, aquela onde punham muita couve nos recheios e que fechou. Nunca pedia, só trazia. “Dona Amélia, estes são dos que gosta”. Ela comia sempre a pensar no cálculo por trás.

Acabou o chá. Lavou a caneca com um pano de galos coloridos, comprado numa feira de Barcelos.

Pegou no telefone e ligou ao filho. Sem razão, só porque sim.

Mãe? Tudo bem?

Tudo, Miguel. E vocês?

Bem. Empacotamos isto tudo. E tu?

Estou bem. Quis só ouvir-te.

Ah. Ligo depois, sim? Estamos numa confusão.

Claro, claro. Força nisso.

Está mesmo tudo bem?

Está sim, filho.

Então pronto. Até logo.

Até logo.

Guardou o telefone. Lá fora, Março. Vassoura a espreitar do gelo. Silêncio.

Foi ao quarto, sentou-se no sofá. Tirou o álbum antigo das gavetas. Abriu à sorte.

Miguel, oito anos, à beira do rio, segurando um anzol, sério como miúdo que salva o mundo. Ao lado, ela, jovem, a rir. Lembrava-se de saber rir sem reservas. Depois desaprendera não saberia explicar o momento exacto disso.

Passou a página. Miguel, homem feito, ao lado de Inês. Ambos olham de lado. Inês segura-o pela mão. Dona Amélia lembrava-se: aquele gesto parecera-lhe possessivo, como se Inês temesse que ele fugisse.

Agora via diferente. Só duas pessoas de mãos dadas. Só isso.

Fechou o álbum.

Meia-luz no quarto, o sol atrás do prédio. Ficou sentada, sem acender luz, a ouvir o som do nada.

“Inês disse: já não dói. Não guardo ressentimento, não porque estivesse certa. Para viver melhor.”

A diferença era essa. Inês fazia para si. Dona Amélia fizera tudo para o filho. Resultado: filho em Lisboa, ela sentada nas sombras com um álbum perdido.

Nunca chorou por ser só. Não era dessas. Chorou a última vez quando o marido saiu. Três dias, depois pegou no Miguel e foi ao cinema. Mais nunca.

Levantou-se, luz acesa, cozinha, bolo de maçã, uma fatia. Lá fora o escuro, a luz alaranjada do candeeiro fazia parecer tudo quase aconchegado. Quase.

Comia e olhava a rua. Pensou se não deveria ligar à Dona Graça para, no sábado, irem ao café ou dar uma volta pelo jardim, se o tempo abrandasse. Ou só tomar chá juntas, porque sim.

Pensou: na Primavera devia ir à quinta, arranjar a terra. Pequena, só seis canteiros, mas tomateiros como aqueles só via em casa deles.

Depois, pensamento nenhum. Só o sabor do bolo e o candeeiro laranja.

O telefone imóvel, o filho não ligou mais. Deve ter esquecido. Mudanças, caixas… Dona Amélia olhou o aparelho sem pegar. Não por mágoa. Só não quis.

A gata da vizinha miou pelo cano. Silêncio de novo. Vidro a bater, vida a prosseguir.

Pensou ir ao mercado, comprar rebentos, morangos, ver se era cedo. Só para ocupar.

Arrumou o prato, lavou. Luz da cozinha apagada. Quarto.

Antes de dormir, um pouco de leitura. Tinha um policial a meio, marcador no centro. Leu vinte minutos. Fechou repetiu a mesma página três vezes sem perceber nada.

Livro na mesinha, luz fora. Ficou na escuridão.

Inês caminhava na troco, de casaco azul. Calma.

Três anos antes, também tinha caminhado assim, de mala cinzenta. Dona Amélia, na janela, pensara: nobreza de quem perde.

Agora, no escuro, pensava: talvez Inês já soubesse mais na altura. Talvez pensasse, não no que perdeu, mas no caminho à frente.

Dona Amélia não sabia olhar esses caminhos. Só sabia o para trás: o que guardara, o que defendia, o saldo.

Saldo: o apartamento existe, o filho também. A vida continua.

Só que agora, muito baixo.

Virou-se de lado, olhos fechados.

Fora, Março dissolvia-se em noite. Talvez no fim da semana o gelo se vá. Com Abril, sim. A Primavera chega sempre, gostemos ou não.

Amanhã talvez passe pela Avenida de novo, devagar. Só para olhar o prédio de Inês. Não para entrar, só para ver.

Ela sempre terminou as coisas. Nunca largou nada a meio. Isso nunca vira na altura. Talvez nem chamasse trabalho, na altura. Só agora.

Adormeceu tarde. Ficou a ouvir o silêncio da sua casa o silêncio de trinta e sete anos, cheio de luz e sombra.

A gata ao lado miou outra vez. Calou-se.

Dona Amélia esteve ali, sem pensar, ou sem querer pensar, a pensar na sementeira e no sábado e em Lisboa e no Miguel que talvez ligasse, a semana que vem, no comboio.

A próxima vez que visse Inês, se visse, diria outra coisa. Algo novo. Ou talvez não se voltassem a cruzar.

Pensava. E o pensamento ficava lento, calmo, como eléctrico à beira da última paragem. E disso, dessa lentidão, vinha uma espécie de serenidade. Não boa, nem má. Só isso: aceitar que já aconteceu, que não se muda. E há que seguir.

E isso era o que ela sabia. Ninguém lhe tirava esse saber de continuar.

De manhã, levantou-se às sete, como sempre. Chicara ao lume, olhou pela janela. Março a humedecer o mundo.

Noutra ponta da cidade, num T1 no S. Vicente, Inês talvez acordasse. Talvez mais cedo, talvez mais tarde. Pusesse água ao lume na sua cozinha. Olhasse pela sua janela.

Ambas, sem saber, a ver o mesmo Março a derreter. O mesmo céu a clarear.

Só de janelas diferentes.

Dona Amélia, enfim, adormeceu de verdade.

E lá fora, a noite de Março fazia-se silêncio.

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