Valéria lavava a loiça na cozinha quando Ivan entrou, após desligar a luz: — Ainda está claro lá f…

Adelaide lavava a loiça na cozinha quando Carlos entrou. Antes de entrar, apagou a luz.

Ainda está claro lá fora. Não vale a pena gastar eletricidade, reclamou ele, com ar carrancudo.

Ia pôr a máquina de lavar roupa a funcionar, disse Adelaide.

Pões à noite, respondeu Carlos, seco. Quando a eletricidade é mais barata. E não abras a água assim com tanta força, gastas um disparate, Adelaide. Mesmo um disparate. Assim não pode ser. Não percebes que estás a deitar o nosso dinheiro literalmente pelo cano abaixo?

Carlos reduziu o caudal de água. Adelaide olhou tristemente para o marido, desligou a torneira, secou as mãos e sentou-se à mesa.

Carlos, alguma vez já olhaste para ti como se fosses outra pessoa? perguntou ela.

Todos os dias, só faço isso, respondeu ele, irritado.

E o que vês? insistiu Adelaide.

Como pessoa, queres tu dizer? perguntou Carlos.

Como marido e pai.

Marido como qualquer outro, respondeu Carlos. Pai igual. Nada de especial, nem pior nem melhor. Normal. Como todos. Porque perguntas isso?

Achas mesmo que todos os maridos e pais são como tu? continuou Adelaide.

O que é que pretendes afinal? ripostou Carlos. Tens vontade de discutir?

Adelaide percebia que não havia volta a dar. Desta vez, valia a pena continuar até que ele percebesse que viver com ele, afinal, é um tormento.

Sabes porque é que ainda não me deixaste? perguntou Adelaide.

E porque é que havia de te deixar? respondeu ele, mostrando um sorriso azedo.

Pelo menos porque não gostas de mim, disse Adelaide. E dos nossos filhos também não gostas.

Carlos ia replicar, mas Adelaide continuou:

Nem vale a pena tentares negar. Tu não gostas de ninguém. E nem vamos perder tempo nessa discussão. O que quero mesmo dizer-te é outra coisa. Quero explicar-te, afinal, porque é que ainda não te foste embora.

E então? perguntou Carlos, já a perder a paciência.

Por puro forretismo, respondeu Adelaide. Por mesquinhez. Porque tu, Carlos, és tão sovina, que a simples ideia de te separares de mim te parece uma enorme perda financeira. Quantos anos é que já vivemos juntos? Quinze? E o que é que fizemos nestes anos todos? Que objetivos alcançámos? Tirando casar e termos dois filhos, o que fizemos nós nestes quinze anos?

Ainda temos a vida toda pela frente, respondeu Carlos.

Não, Carlos, não temos a vida toda, disse Adelaide. O que nos resta, é isso que temos. E nessas férias, nesses anos, nunca fomos ao Algarve, nunca fomos à praia, sequer. Não digo viajar pelo estrangeiro, mas nem dentro do nosso país viajámos. As férias passámos sempre cá na cidade. Nunca fizemos sequer uma saída para ir apanhar cogumelos no campo. Porquê? Porque sai caro.

Porque estamos a poupar para o nosso futuro, disse Carlos.

Estamos? admirou-se Adelaide. Talvez TU estejas a poupar…

Faço-o por vocês, ripostou Carlos.

Por nós? perguntou Adelaide, séria. Por mim e pelos teus filhos? Há quinze anos que juntas todos os meses o teu ordenado e o meu para o nosso futuro?

Para quem havia de ser? respondeu Carlos. Graças a mim, já viste quanto é que temos no banco?

Temos? Adelaide riu. Tu deves ter, eu não. Mas enfim Olha, faz uma coisa: dá-me algum dinheiro, preciso de roupa nova para mim e para os miúdos. Há quinze anos que só uso o que tinha quando casei contigo, e o que a mulher do teu irmão me vai dando. Os nossos filhos, também só usam as roupas velhas dos primos. E, acima de tudo, quero alugar uma casa para nós. Estou farta de viver na casa da tua mãe.

A mãe deu-nos dois quartos, devias era estar grata, disse Carlos. Quanto à roupa, para quê gastar dinheiro em coisas dessas? Os filhos do meu irmão mais velho já não precisam delas, os nossos aproveitam tudo.

E eu? perguntou Adelaide. Aproveito o quê? A roupa usada da tua cunhada?

Para quê arranjar-te? És mãe de dois, já tens trinta e cinco anos! O teu tempo para vaidades já passou.

E devo pensar em quê? perguntou Adelaide.

No sentido da vida, disse Carlos. Há coisas mais importantes, ideias mais elevadas do que roupas e outras futilidades.

Explica-te lá melhor, pediu Adelaide.

Falo do desenvolvimento espiritual, do que realmente importa. Devias elevar a tua mente acima dessas questões materiais.

Está explicado, disse Adelaide. Por isso é que tens todo o dinheiro só em teu nome e não me dás nada. Para nos ajudar a crescer espiritualmente, a mim e às crianças. Acertei?

Não se pode confiar nada a vocês, gritou Carlos. Se fosse por vocês, já estava tudo gasto. E depois, vivíamos de quê se acontecesse alguma coisa inesperada? Pensaste nisso?

E agora vivemos de quê? perguntou Adelaide. Sinceramente, Carlos, tu não percebes que já vivemos como se o tal acontecimento tivesse mesmo acontecido?

Carlos estava calado, lançando-lhe olhares furiosos.

Tu poupas até no sabonete, no papel higiénico, até nas toalhitas, continuou Adelaide. Andas a trazer sabonete e creme de mãos do trabalho, aquilo que vos dão na fábrica.

Grão a grão enche a galinha o papo justificou Carlos, seco. Tudo começa nas pequenas coisas. É ridículo gastar dinheiro em sabonetes caros, cremes, toalhitas ou papel higiénico.

Diz lá um prazo, ao menos, pediu Adelaide. Quanto tempo mais temos de aguentar? Dez anos? Quinze? Vinte? Quanto mais queres poupar até finalmente pudermos viver com alguma dignidade? Com bom papel higiénico. Tenho trinta e cinco anos, Carlos, já devia ter chegado a altura, não?

Carlos ficou calado.

Vou tentar adivinhar, continuou Adelaide. Quarenta anos? Achas que já podemos começar a viver quando eu tiver quarenta?

Carlos nem pestanejou.

Pois. Fui tola. Quem começa a viver aos quarenta? Idade de criança, ainda nem vale a pena. Que disparate o meu. E aos cinquenta? Começo aí?

Silêncio.

Também é cedo. Faz sentido: pode acontecer qualquer coisa, vamos para a rua de mão estendida, tudo por causa do papel higiénico bom. Tens razão, aos cinquenta ainda não. E aos sessenta? Talvez aí já possamos começar. Deviam ser muitos euros juntos na conta nessa altura. E, quem sabe, aí posso comprar roupa nova para mim e para os miúdos?

Carlos continuava calado.

Olha, Carlos, agora Adelaide parecia preocupada. E se não chegarmos aos sessenta? Pode muito bem acontecer. Comemos mal, só comemos porcaria barata e, por isso mesmo, comemos demais. Sabes porquê? Porque a comida barata dá para comer imensa. E é um perigo para a saúde. Mas isso até é o de menos, Carlos. Andamos sempre mal-dispostos. Já reparaste? E ninguém dura muito tempo assim.

Se sairmos da casa da minha mãe e começarmos a comer melhor, não conseguimos poupar, disse Carlos.

Pois não, concordou Adelaide. E é precisamente por isso que eu me vou embora, Carlos. Estou farta de poupar. Não quero mais viver assim. Tu gostas desta vida, eu não.

Como é que vais viver? perguntou Carlos, assustado.

Hei de desenrascar-me, respondeu Adelaide. Não vai ser pior do que agora. Vou alugar um apartamento para mim e para as crianças. O meu ordenado é tanto como o teu. Dá para pagar renda, roupa e comida. E, acima de tudo, nunca mais volto a ouvir as tuas palestras sobre a conta da luz, do gás e da água. Vou usar a máquina de lavar roupa de dia, não à noite. E se me esquecer de apagar uma luz, não faz mal. Vou comprar papel higiénico do melhor. E as minhas refeições vão ter sempre guardanapos de papel. E vou comprar o que quiser nos supermercados, sem estar à espera de promoções.

Mas assim nunca vais conseguir poupar nada! balbuciou Carlos.

Consigo, sim, sorriu Adelaide. Vou pôr de lado a pensão de alimentos dos teus filhos. Ou então não. Tens razão, provavelmente não vou poupar. Não porque não possa, mas porque não quero. Vou gastar tudo. Até ao último cêntimo. Vou viver do ordenado ao ordenado. E aos fins de semana vou deixar os miúdos contigo e com a tua mãe. Imagina tu a poupança para mim! E nesses fins de semana vou ao teatro, aos restaurantes, exposições. No verão, vou à praia. Ainda não sei para onde, mas logo que me livre de ti decido.

Carlos sentiu-se tonto. Apavorado, mas não pela família só por si próprio. Calculava mentalmente quanto lhe sobraria após pagar a pensão dos filhos e as despesas de fim de semana. Mas o que o afligia mais eram os gastos que Adelaide teria com as férias à beira-mar. Para ele, era dinheiro deitado fora ou pior, era o SEU dinheiro deitado fora.

Não te disse o mais importante, continuou Adelaide. O dinheiro da conta onde guardas tudo esses anos, vamos dividir.

Dividir como? perguntou Carlos.

Metade para cada um, respondeu Adelaide. E eu também vou gastar essa parte, todo o montante que se juntou nestes quinze anos. Não vou guardar para a vida. Vou viver já.

Carlos mexia os lábios, tentava dizer qualquer coisa, mas não lhe saía palavra. O susto imobilizava-o não conseguia sequer pensar.

Sabes qual é o meu maior sonho, Carlos? disse Adelaide, por fim. Quando chegar o meu dia de partir, gostava de olhar para a minha conta e não ver lá um único cêntimo. Só assim vou sentir que gastei tudo em mim nesta vida.

Dois meses depois, Carlos e Adelaide divorciaram-se.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Valéria lavava a loiça na cozinha quando Ivan entrou, após desligar a luz: — Ainda está claro lá f…