«Surpresa» do ex-namorado
Rui, espera! gritava Mariana à janela aberta.
Mas o rapaz já não a ouvia.
Já estava dentro do carro e tinha posto o motor a trabalhar. Então Mariana agarrou no telemóvel e correu para a porta.
Enquanto descia, quase a voar, os degraus do quarto andar até ao rés do chão, ia tentando ligar-lhe várias vezes. Mas Rui não atendia.
Naquele instante, na cabeça da Mariana só ecoava um pensamento: Só espero conseguir chegar a tempo!
Pelos vistos, as suas preces foram ouvidas. Quando, como um furacão, saiu para a rua, Rui ainda aquecia o carro.
Ao vê-la sem casaco, ficou surpreendido e baixou o vidro.
O que se passa? Pareces que viste um fantasma!
Tu tens tens ali
Mariana estava tão ofegante que quase não conseguia falar. Em vez disso, ajoelhou-se e foi direta para debaixo do carro.
Nem quis saber das calças ensopadas pelo chão molhado e sujo.
Quando finalmente saiu debaixo do carro, tinha nos braços um gato magro, de pelo encardido. Rui olhava para ela com uma cara de espanto.
Mariana, mas o que é que tu estás a fazer? Saileste a fazer este espetáculo todo para quê? Estou atrasado para o trabalho!
Estava um gato debaixo do carro, vi-o da janela. Fiquei cheia de medo que arrancasses e
Um gato? Estás a brincar comigo? ironizou Rui. Tudo isto por causa dum gato? Francamente
E então, achas que os gatos não querem viver? Mariana olhou séria para o namorado.
Ora Se esse gato quisesse mesmo viver, tinha fugido assim que ouviu o motor. E se ficou debaixo do carro, problema dele. Enfim
Não fujas à questão, Rui. Olha bem para ele: nem força para miar tem. Achas mesmo que conseguia fugir?
Pronto, pronto, Mariana Salvaste o bicho, está bem. Quando chegares a casa, tira um bombom da taça da mesa e põe um post no Instagram. Eu vou mesmo ter que ir trabalhar. Vemo-nos logo.
Mariana ficou a olhar, muda, para o carro a afastar-se, com o gato nos braços.
E não percebia como é que o namorado podia ser tão insensível. Afinal, nunca tinha reparado nisso antes.
Depois olhou para o gato.
Estava mesmo fraco, nem conseguia abrir os olhos, mas, mesmo assim, olhou para ela e pareceu-lhe ver ali gratidão? Sim, era mesmo gratidão.
Com o gato ao colo, voltou a casa para se vestir, pegou na carteira e chamou um táxi.
Para onde vai? perguntou o taxista com um sorriso quando Mariana entrou e se sentou atrás.
Já disse ao telefone, é para uma clínica veterinária. O mais depressa possível, por favor.
Ah, pois! A clínica, já me tinha esquecido. O que se passou com o bichano? lançou, olhando pelo retrovisor.
Precisa de ajuda. Está muito mal.
Nem mais, não faço mais perguntas. E quanto à clínica conheço uma que é ótima, está bem para si?
Se puder ser a melhor, agradeço.
Perfeito. Então levo-a àquela onde realmente sabem tratar deles. São especialistas em milagres.
Quinze minutos depois, Mariana esperava na sala da clínica, desesperada para ser atendida, rodeada de pessoas com animais, todos à espera da sua vez.
E o seu que tem? perguntou uma senhora idosa, sentada com um cãozinho ao colo.
Não sei ao certo, respondeu Mariana. Encontrei-o debaixo de um carro e deve ter passado a noite toda ao frio.
Oh, menina! Ao frio? Então passe à frente, o meu Tobias vem só para o check-up, o seu precisa é de cuidados urgentemente.
Mesmo? Que querida! Muito obrigada!
Finalmente, Mariana entrou na consulta e ficou nervosamente a ver o veterinário examinar o gato.
Após o exame, veio a espera dos resultados. Parecia uma eternidade.
Rui ligou-lhe várias vezes, mas Mariana não quis nem saber: cancelou as chamadas, precisava de se concentrar só ali.
Minha senhora disse o veterinário, pousando os exames encontrou este gato na rua, verdade?
Sim, estava debaixo do carro toda a noite, presumo eu.
Ele tem sinais de hipotermia. Mas o principal são as complicações: precisa de um tratamento longo e caro. Tem condições para assumir esta responsabilidade? Se não tiver, talvez lhe possamos encontrar outro dono.
Mariana já imaginava que o tratamento não ia ser fácil mas longo e dispendioso? Não estava minimamente preparada para isso.
Ficou algum tempo a olhar nos olhos do gato.
E não viu nele nenhum pedido ou cobrança só serenidade, uma espécie de Se não conseguires, vou perceber.
Estou preparada! afirmou Mariana. Vou cuidar dele o tempo que for preciso. Toda a vida, se necessário.
Óptimo, anuiu o veterinário, sorrindo. Então deixe-o na clínica cerca de duas semanas para estabilizar. Depois dou-lhe um plano de tratamento e tudo o que vai precisar para que ele viva melhor.
Muito obrigada! quase chorou Mariana.
O agradecimento é todo seu, respondeu o médico seriamente. Hoje em dia é raro encontrar pessoas assim.
Mariana acariciou o gato e prometeu-lhe que voltava por ele.
E o gato, reunindo todas as forças, conseguiu ainda miar um adeus.
Mariana só regressou a casa ao fim da tarde, exausta. Tudo o que queria era tomar banho e dormir, mas os planos não se concretizaram: Rui já estava à sua espera, carrancudo.
Mariana! Onde é que andaste? Liguei-te imensas vezes! O que foi isso hoje?
Desculpa, tive um dia horrível, respondeu ela cansada, enquanto pendurava o casaco e arrumava os sapatos que Rui, como sempre, largara à entrada.
Dia horrível? Mas não tinhas folga? Que raios fizeste para ficares assim esgotada?
Passei o dia com o gato na clínica veterinária.
Qual gato?! Não percebo nada disto.
O mesmo que salvei debaixo do teu carro esta manhã, respondeu Mariana. Estou mesmo exausta, podemos falar amanhã?
Espera aí! Passaste o dia inteiro atrás dum gato da rua? Ouvi bem?
Isso agora não interessa! O bicho precisava de ajuda, senão morria ali.
E eu? Cheguei a casa e não havia jantar, nem tu!
Rui, tu não és uma criança, suspirou Mariana. Tens comida congelada no frigorífico. Se tens assim tanta fome, podes sempre cozinhar.
Pronto, queres que eu coma rissóis e lasanhas do supermercado? Mas eu estive a trabalhar o dia todo! Ainda hei-de cozinhar, onde já se viu?
Apesar do cansaço, Mariana lá foi fazer-lhe o jantar, como ele gostava.
Sim, não merecia, mas preferiu evitar mais discussão. E claro, ele nem obrigado lhe disse.
Duas semanas depois, finalmente, levou Miró assim batizou o bichano para casa.
Já tinha tudo preparado, mas não disse nada a Rui para evitar problemas.
No fundo queria acreditar que ele aceitaria a decisão dela, afinal, o apartamento era dela e Rui nem sequer era ainda seu marido nem mostrava vontade nisso.
Mas Rui não aceitou nada bem. Quando viu o gato, fez logo um escândalo.
Trouxeste esse gato da rua para casa?! Mariana, estás maluca? Andas a bater com a cabeça?
Acalma-te, Rui. Salvei-o, agora sou responsável por ele.
E quanto é que já gastaste nisso tudo? E quanto ainda vais gastar?!
Que interessa? O dinheiro é meu. Faço o que quero e, até agora, nem compras de supermercado costumas pagar, e bem que gostas de comer.
Já te disse, o carro precisa de arranjos, tenho despesas. Mas agora tentas-me virar a conversa? Estamos a falar daquele
Chama-se Miró.
Já lhe puseste nome? Mariana, tu precisas de ir ao médico! Não estás bem da cabeça.
Aquela noite dormiram em quartos separados. Ainda bem que era um T2.
Mariana passou a noite a pensar na relação deles.
Há menos de um ano que viviam juntos, mas cada vez havia menos carinho. Rui tornou-se demasiado exigente, já nem se dava ao trabalho de a respeitar. Isto não era saudável. Mas decidiu dar-lhe mais uma oportunidade. Todos merecem, cabia a Rui aproveitá-la.
Infelizmente, não aproveitou. Continuou nas discussões por causa do gato e nunca aceitou a escolha dela. Mariana ouviu, ponderou e chegou a uma decisão.
Rui, já não te amo. Nem tu a mim. Vamos deixar de nos chatear, está bem?
O que queres dizer com isso?
Amanhã pegas nas tuas coisas e sais de minha casa. Quero paz, cansei de confusões.
Então tu levas um gato qualquer para casa sem me consultares e ainda tens lata de dizer que eu que faço escândalos?
Se não consegues aceitar que o Miró fica cá, o melhor é seguires a tua vida. Procura alguém sem gato. Ou, melhor ainda, compra um apartamento e fazes lá o que quiseres.
Mariana até estava de folga no dia seguinte não havia melhor momento para o fim.
Rui tentou demovê-la, mas pouco durou a vontade. Só de ouvir falar do gato, ficava fora de si. Mariana sentiu que decidiu bem: não havia felicidade ali.
Rui começou a arrumar as coisas já perto da hora de almoço. Ela apressou-o, mas ele ia adiando talvez ainda esperasse algo.
Mariana tomava o chá na cozinha quando recebeu chamada da chefe:
Mariana, querida, sei que pediste folga, mas precisamos mesmo de ti. Não conseguimos dar conta do trabalho!
Dona Teresa, neste momento não dá muito jeito mesmo, Mariana olhou para Rui a meter as coisas na mala, furioso.
Ainda faltava o computador e a caixa com ferramentas no terraço.
Mariana, é só uma hora, peço-te mesmo. Sabes que só te ligo em último caso.
Mariana suspirou, acabou o chá e foi-se vestir.
Disse a Rui para deixar a chave no correio ao sair. Ele assentiu e lançou-lhe um olhar de ódio.
No escritório, foi rápido. Quarenta minutos depois, já chamava um táxi.
Olá, como vai o seu gato? perguntou o condutor, sorrindo. Era o mesmo que a levara à clínica.
Obrigada, está bem. Pode levar-me para casa depressa? Preciso mesmo.
Com todo o gosto, e arrancou, bem-disposto.
Quando chegou ao prédio, Mariana foi direta à caixa do correio: nada de chaves. Nem carro de Rui à vista.
Deve estar a acabar de arrumar as coisas pensou.
Mas ao subir ao quarto andar, percebeu tudo: a porta estava trancada à chave. Abriu-a com o dela, entrou e nada das malas, nem do computador, tudo vazio as ferramentas também tinham desaparecido.
Pedi-lhe só para deixar as chaves. Enfim vou ter de mudar a fechadura murmurou.
Foi ao quarto e ficou paralisada.
Miró não estava em cima da cama. Nem a transportadora, que costumava estar no canto.
Mariana chamou-o, correu a casa toda nada. Era claro: Rui levara Miró consigo. Mas porquê?
Rui! Estás louco? Para quê levaste o Miró?! gritou ao telefone.
Para quê, para quê Uma surpresa tua, Mariana! Quando vieres de joelhos pedir-me desculpa, penso se to devolvo!
Mas tu és doido? O Miró precisa de comida especial, cuidados próprios!
Ainda tentou argumentar, mas Rui já tinha desligado.
E agora? Onde é que o procuro? chorava Mariana, encolhida no chão. Onde foi ele com o gato?
Antes de viver com ela, Rui arrendava um T1 mas nunca lhe contou de onde era ao certo. Dizia ser de outra terra, prometera um dia que a levaria à sua terra, mas nunca se cumpriu.
Mariana não dormiu nada aquela noite e no dia seguinte foi ter com Rui ao trabalho.
Mas nem sinal dele. Tirou uns dias, não sei de mais, disse-lhe o chefe. Se souber de algo, aviso.
Mariana contou-lhe por alto o que sucedia. Depois saiu, tirou o telemóvel para tentar ligar de novo a Rui telefone desligado.
Precisa de boleia?
O inesperado assustou-a. Olhou em volta e percebeu que era o taxista das últimas aventuras.
Olá, Mariana tentou sorrir, sem sucesso. Pode levar-me para casa, por favor?
Ia sem rumo, sentindo-se perdida e impotente.
Entre, disse o taxista.
A caminho de casa tocou o telemóvel dela. Um número desconhecido.
Estou? Quem fala?
É a Mariana? ouviu do outro lado uma rapariga.
Sim. Quem é?
Ontem à noite o Rui, o seu ex-namorado, veio cá a casa. É amigo do meu marido ou melhor, trabalha com ele e pediu para ficar uns dias aqui.
E o gato? Ele estava com o gato?!
Sim, por isso é que ligo. O Rui esteve a beber e dizia que com esse gato a ia obrigar a voltar para ele. Mas o bichinho está tão miserável Não come nada, está triste, mia de saudades suas.
Por favor, não lhe dê comida do seu prato! Ele tem dieta especial, não pode comer certas coisas.
Tentei dar-lhe, mas não tocou. Olhe, ligo-lhe por isto: o meu marido está no emprego e o Rui saiu, não sei para onde, provavelmente para um bar. Quer vir já buscar o gato? Não tenho paciência para gente deste género, e o animal não tem culpa. Ele não merece isto.
Claro! Diga-me a morada, por favor!
Mariana explicou rapidamente ao taxista a situação; ele assentiu e nem pestanejou.
A viagem pareceu-lhe um rally, tal a urgência, mas o taxista estava calmo, decidido a ajudar e a encontrar o melhor caminho.
À porta do prédio, tudo aconteceu em instantes: Mariana subiu as escadas a correr, tocou à porta, foi-lhe entregue a transportadora com Miró, agradeceu de coração e saiu de novo.
Mal viu desaparecer no espelho da rua o prédio onde o Rui mantivera o Miró em cativeiro, Mariana sentiu-se finalmente em paz.
Só chorava de gratidão à senhora na clínica, ao taxista, à rapariga do telefonema. Enquanto houver pessoas assim, o bem vencerá sempre.
Quer que fique um pouco consigo? perguntou o taxista. Caso o seu ex apareça a arranjar confusão?
Quero, muito! agradeceu.
Nesse dia, Mariana chamou um serralheiro para mudar as fechaduras. O taxista, que afinal se chamava Vítor, ficou com Miró ao colo e o gato, feliz, até ronronava.
Mariana estava MUITO agradecida a Vítor, por tudo. Por estar ao lado dela naquele momento difícil. Assim terminou esta história.
Escusado será dizer que, com o tempo, a amizade entre Vítor e Mariana foi crescendo e transformou-se em amor.
Sobre o Rui Ele levou o merecido.
Do apartamento onde ficou deram-lhe ordem de saída nesse mesmo dia, depois de gritar com a dona de casa; ainda saiu de lá com um olho negro, cortesia do amigo.
No trabalho, nem chegara a aquecer lugar: pediram-lhe que se demitisse.
Mas porquê? perguntava Rui, indignado.
Porque sim respondeu secamente o patrão. Escreve a carta de demissão e não voltes a olhar para mim.
A Rui só restava regressar à terra dele.
Enfim, teve a paga que merecia.
Porque não se age assim, nem para com pessoas, nem para com animais. E se não há amor por eles, pelo menos haja respeito.
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