Uma simpática senhora portuguesa tinha um fiel cãozinho.

Em tempos que já lá vão, havia uma idosa chamada Filipa. Depois de sofrer um enfarte, o filho, Manuel, ofereceu-lhe um cãozinho minúsculo: um presente caro e raro, trazido de uma família de criadores do Porto. Queria o filho afastar-lhe as tristezas, distrair-lhe o coração combalido. E, de facto, resultou.

Filipajá de idade avançadacomeçou a recuperar. Sempre que podia, saía pelo bairro da Lapa, ao lado do seu pequeno Quinzinho. Passeavam em passo lento, Quinzinho num fio de trela ou, nos dias de mais frio, escondido na bolsa de senhora, aconchegado e quente. Chamava-lhe assim porque era tão diminuto quanto uma moeda de dois cêntimos. Docinho, obediente, brincalhão como poucos.

Certa tarde, enquanto Filipa dava a volta ao jardim perto da sua casa, uma viatura preta parou ao lado do passeio. Um rapaz de cabelo curto e uma rapariga bonita mostraram grande interesse por Quinzinho, pedindo para o acariciarem. Filipa não quis recusar mas também sentiu algum desconforto. Aproximou-se da janela, mostrou o cachorrinho e, de repente, a rapariga agarrou-o. O rapaz acelerou, sumindo pela rua estreita entre gritos e lágrimas da pobre senhora. Filipa correu atrás mas tropeçou e ficou estatelada no chão. Perdeu os sentidos.

Os vizinhos chamaram logo o INEM. Filipa foi levada para o Hospital de Santo António, muito enfraquecida, os lábios macilentos. Manuel correu ao hospital, encontrou a mãe a sussurrar, quase inaudível, apenas dizendo: Quinzinho Lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado.

Os vizinhos sempre atentos lembraram-se da matrícula do carro. Suspeitaram logo de quem se tratava; eram pessoas conhecidas no bairro, com ar endinheirado, donos de uma mansão em Foz. Manuel pediu ajuda a alguns amigos da polícia. Em poucas horas descobriram a morada sabem como é nestes casos, há sempre quem conheça alguém.

Manuel foi à casa dos rapazes. Não interessa como conseguiu abrir a porta, mas entrou. Lá dentro estava Quinzinho, assustado e tão doente, já nem chorava. Desde aquele dia do rapto, nada comeu nem bebeu; só uivara e choramingava, até ficar sem voz.

Manuel trouxe Quinzinho para casa. Os ladrões já estavam fartos dele, queriam apenas exibir um animal raro, brincar umas horas, mas encontraram apenas uma criaturinha desamparada e desgostosa.

Filipa e Quinzinho recuperaram juntos lentamente, mas com esperança renovada. Desde então, passeiam com cautela. Filipa já não deixa ninguém aproximar-se muito. E Quinzinho enfia-se logo na bolsinha ao menor sinal de desconhecidos.

No final, tudo findou em bem. Mas deixai-me que vos diga: não se deve roubar a felicidade dos outros, não se deve apropriar à força do amor alheio. Nunca sabemos se é apenas aquilo que segura alguém à vida: uma companhia minúscula, um carinho, uma recordação, um jardim pequeno, uma vitória insignificante. Às vezes, é o microscópico que sustenta a alma de alguém. Não se roube para diversão a preciosidade diminuta do outro. Felicidade roubada nunca traz sorte.

Por vezes, por um triz, podemos matar um coração. Por uma coisinha de nada, que afinal para alguém era tudo. Porque até a alma é, dizem, leve como uma pena. Mas nela reside toda a nossa vida.

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Uma simpática senhora portuguesa tinha um fiel cãozinho.