Verdadeira mulher
Leonor, onde te meteste?! Anda lá buscar os pepinos! Ainda vou ter de esperar muito?!
O Rogério já tinha perdido a paciência, tanto que até elevou o tom de voz, mas eu estava ocupada. Dedicava-me com afinco a pintar o olho esquerdo, muitas vezes parando o movimento da escova de máscara nova caríssima, diga-se de passagem para avaliar o resultado. O direito já estava feito entre rímel, lápis e sombras, que a minha amiga Martina disse servirem era para uma festa chique lá em Lisboa, o olho parecia o dobro do tamanho natural. Assustava um pouco, confesso. Mas parar, eu não ia.
Nem sequer olhava para os pepinos de molho na banheira.
E tudo porquê? Porque não há nem uma semana, o meu marido, o Rogério o mesmo que agora estava na cozinha a fechar frascos de pepinos para o inverno , decidiu, do nada, declarar-me a sua vontade:
Quero que te tornes uma mulher a sério!
E entregou-me o cartão, com as poupanças do ano todo dele.
Dizer que fiquei estupefacta é dizer pouco.
A minha primeira ideia foi levantar um escândalo. Ora se o Rogério conseguiu pôr algum dinheiro de parte às escondidas, então não só não entregava todo o ordenado, como, se calhar, andava a inventar histórias. E sobre o quê, exatamente? Tanta coisa a passar pela cabeça de uma mulher! Isso é que não se faz!
Mas, mal nasceu a primeira ideia, a segunda apareceu logo atrás. Nem abri a boca, já estava sentada no banco da cozinha, completamente esquecida do caldo verde ao lume, que já começava a secar.
Mas o que é que queres dizer com mulher a sério?!
Ai, foi de ficar de nervos! Até vontade tive de mandar ao chão aquele serviço novo, prenda da sogra que eu tanto desejava e nunca pensei ter. Caríssimo só em sonhos podia imaginar vê-lo em casa. Mas ela lá o ofereceu. E, quando chorei a ver as peças, riu-se:
Ó Leonorzinha! Que tolinha! Por ti fazia tudo! Só quero que sejam felizes!
Nunca percebi bem a razão do seu gesto, mas também nunca quis explicar. Abraçou-me, abraçou o filho, beijou os netos e foi embora. A sogra nunca gostou de ficar muito tempo fora de casa, alegando sempre que o campo exige atenção.
Nunca lhe contrariei. Levava os miúdos lá ao fim de semana, assegurava-me que estavam bem-comportados e, antes de cada visita, pensava numa maneira de agradar àquela que sempre me recebeu sem críticas.
E havia o que criticar em mim. Se até os parentes faziam esforços nesse sentido, o que esperar de uma quase estranha, que só tinha visto uma vez antes do casamento? O Rogério levou-me logo com o filho para conhecer a mãe. Eu tremia tanto antes de sair do carro: olhava para o menino a dormir e dizia:
Rogério, temos mesmo de ir? O quê que lhe vou dizer? E ela a mim? Ainda nos põe na rua, aposto!
Ó mulher, mas porquê essa ideia?!
Porque quando o meu Artur nasceu, a minha tia pôs-me fora de casa. Disse que já não pertencia à família por ter feito tamanha vergonha! E achas tu que a tua mãe me vai receber de braços abertos? Com filho ao colo? Rogério, tu és ingénuo!
Não te precipites! Pode ser que te surpreenda.
Eu, surpresa, só queria não ser. Mas voltar para trás também não era solução. Agarrei o Artur e lá fui atrás do Rogério.
Dona Amália, mãe dele, surpreendeu, sim. Cumprimentou-me com um olhar sério e, logo a seguir, estendeu-me os braços:
Posso? Deixa cá ver o pequenino. Coitadinho, vem tão cansado do caminho
E, sem bem saber porquê, entreguei-lhe o Artur. Nem protestou, abriu os olhinhos, murmurou qualquer coisa e aninhou-se ao colo da avó, que começou logo a cantar-lhe baixinho, para o adormecer outra vez.
O Artur começou logo a chamar-lhe avó mal aprendeu a palavra e ela nunca corrigiu, ganhou assim o meu coração de vez.
Eu fui mãe cedo, tinha acabado de fazer dezoito anos. Toda a aldeia sabia quem era o pai e comentava à boca cheia se o Daniel Loureiro ia casar comigo ou só brincar, como já fizera a tantas outras. Ele tinha má fama e eu não era tonta! Procurava ficar bem longe dele, nem olhar.
Mas o Daniel era rato velho, sabia o que dizer e como enredar. Onde não conseguia com jeitinho, fazia de outra forma. Muitas raparigas calaram-se, mas eu não.
Um dia, vinha eu da cidade de visitar uma tia, já tarde, e como só consegui boleia até à freguesia vizinha, tive de vir a pé pelos campos. O condutor recusou-se a levar-me mais longe.
Achas que vou andar com o carro só por tua causa? Olha, anda, que até te faz bem! Eu vou para casa!
Não me restou alternativa.
O carro do Daniel apanhou-me já perto da aldeia.
Leonor, tão tarde sozinha? Sobe, levo-te!
Não, Daniel. Obrigada! Vou a pé. tentei escapar, mas já era tarde
Voltei para casa de vestido rasgado e a chorar. Não entrei logo em casa, onde a minha mãe já dormia doente. Fui diretamente ao anexo lavar-me, tentando até de manhã tirar de mim o cheiro das mãos e beijos indesejados do Daniel. Chorei, zanguei-me comigo própria, tentava imaginar como esconder aquilo da minha mãe o médico tinha avisado: o coração dela não aguentava emoções.
Entendi perfeitamente. Era só ela quem eu tinha no mundo. A tia nem contava achava eu na altura
Nunca soube nada do que se tinha passado. Já estava eu de cinco meses, quando a perdi. Foi-se em silêncio, no sono, deixando-me sozinha eu e a barriga.
A tia, que veio ajudar, renegou-nos logo.
Tu é que te meteste nisso desenrasca-te! Não contes comigo! Por que não foste logo à polícia? Agora já podias estar casada e o assunto tapado! Mas olha, não me envolvas! Já me bastam os meus problemas!
Eu, a ver tudo desfocado das lágrimas, nem percebi de imediato o que me estava a dizer. Só dias depois, ao perceber que não havia ajuda para mim, fui eu própria à GNR.
Leonorzinha, por que não vieste logo? o guarda puxava os cabelos. Vou tratar do assunto! Ele vai pagar!
O Daniel foi preso.
Quando eu comecei a falar, descobriram que havia filhos dele por toda a parte. Sete contaram! A princípio as mães negaram tudo, mas aos poucos a verdade veio ao de cima.
A mãe dele, depois de sair a sentença, insultou-me em plena rua, atirando-me uma maldição para o meu filho que nascesse doente ou nem sequer nascesse.
Mas a aldeia não me deixou sozinha. Nessa noite pintaram de alcatrão os portões dos Loureiro e, poucos meses depois, obrigaram-nos a vender a casa e sair.
Eu, ao tempo certo, dei à luz um menino forte e saudável, sem qualquer traço do Daniel. Era todo da minha família: nariz e orelhas do meu pai, que mal conheci, olhos castanhos como cerejas da avó.
Os vizinhos ajudaram, trouxeram roupas e até berço emprestado. Eu tentava poupar o dinheiro que a minha mãe deixou, consciente de que ser mãe é só o princípio criar um filho sozinha é duro.
Mas, mal recuperei o fôlego com a ajuda dos vizinhos, apareceu a tal tia, com dois tios irmãos da minha mãe, que nunca antes vi. Nunca se deram, mas lá estavam.
Leonor, tens de sair daqui. hesitaram à entrada, mas disseram. Esta casa é nossa, dos pais. Fazemos as coisas certas, até agora era tua mãe cá, não havia problema.
E agora?
Agora mudou tudo. Precisamos do dinheiro. Vamos vender a casa.
E eu? Para onde vou?
Isso é contigo. Ficas com a parte da tua mãe. Não somos monstros, desenrasca-te com isso.
Fiquei a matutar. Com aquele dinheiro, não dava para comprar sequer uma ruína. Significava ir para a cidade mas lá, sem ninguém?! Aqui ao menos tinha vizinhos, na cidade nada.
A tia nem olhava para o Artur, virou-se sem disfarçar a desfeita, ainda murmurou que eu é que nunca devia ter sido mãe. Eu nem quis ouvir mais. O meu filho ninguém tirava de mim!
Foram-se embora, e eu, sozinha, chorei abraçada à memória da minha mãe.
Mas, enquanto me lamentava, as notícias correram pela aldeia graças à minha tia. Houve quem criticasse os familiares, outros a mim, sem perceber as minhas escolhas. Bastidores a julgar, mas não deixaram de agir. No dia seguinte, o guarda veio lá a casa:
Leonorzinha, ouvi dizer… Olha, ali ao lado, uma senhora viúva está a vender metade da casa. Boa pessoa, conheço bem. Casa espaçosa, calminha. No fim de semana levo-te lá, vês como é, conheces a senhora, logo decides.
Só posso agradecer! Por pouco não o abracei.
Artur, está bem?
Cresce rápido!
Ele fez uma careta ao miúdo e foi-se embora. Olhei para o retrato da minha mãe:
Não te preocupes, mãezinha. Vamos ficar bem!
Com a Dona Isilda encontrei logo simpatia:
Leonor, não tenhas medo. Só não suporto confusão. Se fores discreta, não temos problemas. E até posso ficar com o pequeno, se precisares de trabalhar. Agora, se for só para passeares, esquece, aviso já!
Há trabalho na aldeia? Bem precisava
Há, sim senhora! Uma amiga minha procura empregada para a mercearia. Vai abrir outra loja falo lá por ti?
Fala, sim!
Ótimo! Dois coelhos numa cajadada! Dia bom!
E foi na mercearia que conheci o Rogério. Veio ajudar a mãe e ela mandou-o comprar umas coisas.
Fiz-lhe o embrulho, e sem perceber comecei logo a contar-lhe a minha vida: o Artur, a Dona Isilda, o meu passado Nem sou de falar muito, mas com ele saiu tudo.
Rogério só ouvia, atento. No fim despediu-se, já sabendo que aqueles olhos de cereja e timbre de voz meiga iam-lhe inquietar a alma por muito tempo.
Não voltou logo, também. Como ia ele contar a uma mulher aquela vida complicada? Que a mulher lhe fugira de noite, deixando-lhe dois filhos o mais novo com três meses para criar sozinho porque a mãe dele cuidava do pai doente e não podia sair de casa. Que os meninos choravam às vezes por uma mãe que só conheciam de ouvir falar.
Não sabia como abrir o jogo à Leonor. Andava a rondar a loja, mas não entrava.
Foi então que eu própria, sem esquecer o Rogério, perguntei à Dona Isilda por ele. Assim, quando apareceu de novo, já eu sabia de tudo.
Quantos anos tem o teu mais velho? perguntei-lhe logo.
Vai fazer três.
E o pequeno?
Um aninho.
Como o Artur.
Leonor
Apresenta-me os teus filhos. Depois logo se vê.
E foi assim que nos entendemos.
Fizemos uma boda simples, só com a família. Depois do casamento, fomos todos juntos até ao Algarve eu parecia criança de tão contente. Nunca tinha ido a lado nenhum.
E como não havia de estar feliz? Tinha família: marido, filhos, paz
Lutei muito por essa felicidade. Primeiro, quando o mais velho ficou doente e fiquei quase dois meses com ele no hospital, deixando os mais pequenos aos cuidados da sogra.
Depois, quando apareceu a mãe dos rapazes a querer levá-los. Aí mostrei o que era ser mãe, com força toda. Não entreguei criança nenhuma! Fui à minha terra pedir conselho ao guarda, enfrentei toda a papelada que fosse preciso queria ser mãe deles de direito, não só de coração.
A mãe biológica nunca esperou por sentenças e sumiu novamente. Só descansei quando a minha sogra me abraçou depois do tribunal:
Agora sim, estou em paz com os meninos!
Os filhos cresciam, e eu continuava igual: reservada, um pouco tímida, a sorrir com razão e sem ela. Todos na aldeia sabiam eu era assim, mas só até alguém mexer com a minha família. Aí, soltava a leoa.
E, de repente, isto: que eu não era mulher!
Passei a noite acordada depois do cartão que o Rogério me deu. Ia ao espelho, analisava-me sob a luz do candeeiro, virava-me dum lado e doutro, sem perceber o que estava errado. Nem quis perguntar ao marido orgulhosa demais. Na manhã seguinte, despachei os filhos para a escola e fui direta ter com a Marta.
Marta, o que faço?!
Ela era como eu, meio distraída do mundo. Decidiu que o melhor seria consultar as revistas femininas, cheias de conselhos importantíssimos. Juntou tudo o que tinha em casa e meia hora depois já sabíamos: uma mulher de verdade tem de comer bem, vestir bem, maquilhar-se bem, fazer tudo como mandam as regras, senão é uma qualquer, rabo de saia. E ainda com sorte, se houver laço ao lado; eu, nem isso!
Não comprei laço nenhum, claro. Mas fui à cidade com ela e comprei cosméticos de qualidade, uma camisa de dormir nova, uns sapatos lindíssimos, que nem ousei tirar da caixa para não estragarem com os miúdos.
Mas o Rogério nem ligou.
Estava quase a terminar a sombra no olho, quando ele entrou de rompante na casa de banho e espetei a escova no olho! Nesse momento, decidi: não queria ser mulher nenhuma.
Leonor, o que foi?! gritou, assustado, ao ver-me aos saltos, com lágrimas a cair.
É tudo culpa tua! resmunguei, a esfregar o rosto e a borrar a maquilhagem com tanto esforço aplicada. Queres mulher? Mulher?! Então, o que sou eu?
Ele lá percebeu e puxou-me para perto, acalmando-me nas suas mãos.
Espera aí, doida. Deixa-me ajudar.
E, lavando-me o rosto com carinho, foi dizendo:
Eu sou um palerma, mas tu também! Sabes que nunca fui bom a falar. Em vez de perguntares, fizeste logo filmes e ficaste zangada!
Então porque deste dinheiro e disseste que eu não era mulher?
Porque, desde que estamos juntos, nunca gastaste nada só para ti. Sempre pelos filhos, por mim, até pela minha mãe! Para ti, nunca! Isso não está certo. Por isso, dei-te o dinheiro para gastares como quiseres, como fazem as senhoras dessas revistas, que compram tudo sem culpa.
Aí, comecei a rir. Ria-me tanto que quase parecia chorar. Os miúdos entraram em pânico, pensando que me tinham feito mal.
À noite, depois de os deitar, fui para a varanda. Levantei o rosto bem limpo ao céu e ri-me baixinho, recordando a confusão daquele dia.
Pronto, despachei o último frasco! veio o Rogério ter comigo, sentando-se a meu lado.
Guardaste tudo direitinho?
Claro! Os pepinos vão ficar do melhor!
Ainda bem. Vou precisar deles em breve! sorri, pousando a mão dele na barriga.
Mas Estás?! E não disseste nada?!
Como havia de dizer? Entre pepinos e exigências, mal sobra tempo para mim!
Ele não deixou que dissesse mais nada. Primeiro beijou-me, para lembrar o que uma mulher não deve esquecer, depois apertou-me junto ao peito, para eu saber o lugar certo junto ao coração, meia volta de lado, ali onde a alma respira.
