Uma mulher de cinquenta e seis anos começou a envelhecer. E não há nada de surpreendente nisso, é algo perfeitamente normal. O tempo chegou.

Houve, há muitos anos, uma mulher portuguesa de cinquenta e seis anos que começou a perceber os sinais do tempo no seu rosto. Não havia nada de estranho nisso, é o curso natural da vida. A idade chega para todos. No entanto, ela assustava-se cada vez que se via ao espelho, pois o envelhecimento parecia querer apressar-se. Como se alguém todos os dias lhe tirasse um pouco de juventude e beleza, pintando-lhe os traços da idade com mãos apressadas.

Ainda há pouco tempo, ela sentia-se tão bonita! O senhor Domingos, um velhote simpático que, faça chuva ou faça sol, passava os dias sentado num banco do jardim frente ao prédio, nunca deixava de lhe lançar um elogio: Como está bonita, minha menina! Que senhora graciosa!

Quando passava diante dele, o senhor Domingos levantava delicadamente o barrete de lã ou a boina de feltro, com um sorriso de cortesia, e repetia a frase: “Que senhora bonita você é!”. Ela seguia para o trabalho de alma leve, cheia de sorrisos, ouvindo mais elogios ao longo do dia. Era verdade: parecia irradiar vitalidade e graça.

Um dia, a mulher percebeu que já não via o senhor Domingos no banco de jardim. Estranhou o seu desaparecimento e acabou por perguntar à vizinhança. Disseram-lhe que tinham levado o senhor Domingos para um lar em Cascais. A família não podia dar-lhe o cuidado que precisava: os filhos viviam longe, noutras cidades, e ele já contava noventa anos. Precisava de cuidados especiais, de apoio e de companhia constante.

E durante uns tempos, a mulher esqueceu as angústias acerca da sua própria velhice e passou a pensar no senhor Domingos, cujo nome completo era Domingos Augusto. Descobriu a morada do lar, comprou alguns mimos pastéis de nata, marmelada, frutos secos e ao domingo decidiu visitá-lo.

Lá encontrou o senhor Domingos, sentado numa poltrona, a saborear um pratinho de papas de milho com manteiga. Ao vê-la, o velho sorriu com ternura e exclamou: Oh, que alegria vê-la! Como está bonita, minha senhora! Que moça encantadora!. Outras senhoras e senhores idosos aproximaram-se e foram dizendo coisas agradáveis. Encheram-na de bons sentimentos.

Quando voltou a casa e se viu ao espelho, reparou que as faces estavam coloridas, os olhos vivos, os cabelos mais vibrantes e macios, as rugas suavizadas! Viu uma mulher simpática, até mais jovem do que realmente era. A beleza e juventude tinham regressado, numa magia singular.

Desde esse dia, passou a visitar o lar todos os domingos. Ajudava, conversava, ensinava danças de salão aos velhotes, não para se sentir mais jovem, mas porque lhe sabia bem, no fundo da alma, poder dar alguma alegria a alguém. Era reconfortante ouvir Como está bonita!, dito com sinceridade. Sentia-se como uma filha, uma neta para eles, e era tratada com o mesmo carinho.

Aprendeu nesse tempo que os outros são o nosso espelho um espelho não comum, mas mágico. Depois de um encontro com alguém sincero e afetuoso, renascemos, sentimo-nos mais leves, com outra postura, outros olhos e outros sorrisos. Mas há também quem nos faça sentir velhos antes do tempo, nos encurvem os ombros, nos roubem a luz.

Por isso, há que cuidar desses espelhos mágicos, dessas pessoas de bom coração que falam com alma. E há que tratar bem os mais velhos, pois enquanto eles existem, ainda somos jovens e podemos, nós também, ajudar. Era assim que pensava aquela mulher, que redescobriu a sua beleza e juventude. E ela estava, sem dúvida, certa.

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Uma mulher de cinquenta e seis anos começou a envelhecer. E não há nada de surpreendente nisso, é algo perfeitamente normal. O tempo chegou.