O céu de Lisboa naquela madrugada tinha a cor de chumbo, sem prometer sequer um raio de sol; apenas se tornava um pouco menos escuro.
Inês Oliveira estava ajoelhada no chão gelado dos azulejos das casas de banho da direção no oitavo andar de um prédio antigo no centro. As suas mãos estavam ásperas e feridas pelo cheirante forte da lixívia.
O único som era o vaivém teimoso do seu pano húmido, ecoando pelos corredores vazios. De repente, sentiu o telemóvel vibrar no bolso um laço incerto com uma realidade que lhe pesava sobre os ombros.
Eram cinco horas da manhã. A luz do ecrã partido feriu-lhe a palma fria da mão, como se fosse uma lareira abrasadora. Creche Os Pequenitos do Bairro, 24 horas. Inês, a Marta está a arder, disse a funcionária com voz cansada, embargada pela rotina. Quarenta e três graus. Anda a vomitar há três horas. Isto é uma creche, não é hospital. Tem vinte minutos para vir buscá-la, ou vamos chamar a Segurança Social e eles levam-na para o hospital.
A chamada caiu, deixando um silêncio angustiante. O coração de Inês dobrou o ritmo. Marta. O seu pequenino farol de esperança, apenas com oito meses.
Não foi ao gabinete registar saída. Nem levou o casaco. Apenas correu.
O ar de janeiro era como um soco gelado, uma muralha de agulhas de gelo, tornando difícil até respirar. Correu pela Avenida da Liberdade, os ténis gastos a patinar pelo passeio húmido, quase a perder o equilíbrio.
Quando finalmente entrou no átrio de luz fria da creche, sentia o peito feito de vidro moído.
A funcionária passou-lhe um embrulho quente e húmido Marta, adormecida, olhos sem brilho, a boca pequena entreaberta num respirar ofegante. Parecia um carvão quase a apagar-se.
Vou levá-la para casa. Tenho lá remédios, arriscou Inês, a voz quase a falhar-lhe.
O casa era um quarto de nove metros quadrados num rés-do-chão húmido em Alcântara, num prédio ao abandono. O frio lá dentro era pior que na rua, pois o vento entrava pelas frestas mal tapadas com fita-cola na janela partida. O aquecedor morrera há semanas.
Deitou Marta no colchão manchado, mãos a tremer no pequeno cesto de plástico que fazia de armário dos medicamentos. Estava vazio. A embalagem de paracetamol infantil era apenas plástico vazio.
Tentou inutilmente tirar uma gota com o conta-gotas, mas só saiu ar.
O telemóvel vibrou outra vez. Era o senhor Carvalho, o encarregado da limpeza.
Oliveira? Onde raio anda? O chefe está em cima de mim por causa do oitavo andar.
A minha filha está doente, senhor Carvalho. Tem febre alta Não a posso deixar. Hoje só, por favor.
Termino este registo com uma certeza: quanto mais difíceis forem os dias, mais força encontramos onde menos esperamos. O amor por um filho, aqui em Lisboa ou noutro lugar qualquer, é a coragem de todos os dias.
