Um jovem milionário descobre uma menina desmaiada, agarrada a dois bebés gémeos, numa praça coberta de neve.

Joaquim Morais, o jovem multimiliardário lisboeta, observava a neve cair através das amplas janelas do seu ático na Torre Morais. O relógio digital da secretária marcava 11h47, mas ele não tinha pressa de voltar para casa. Aos 32anos, estava habituado a noites solitárias de trabalho, rotina que lhe permitiu triplicar a fortuna herdada dos pais em apenas cinco anos.

Os seus olhos castanhos refletiam as luzes da cidade enquanto massageava as têmporas, tentando espantar a fadiga. O último relatório financeiro ainda estava aberto no portátil, mas as palavras começavam a desfazerse à sua frente. Precisava de ar fresco. Vestiu o sobretudo de cachemir italiano e dirigiuse ao carro, um Audi Q7, onde o seu AstonMartin já o esperava. A noite estava extraordinariamente fria, mesmo para o inverno lisboeta; o termómetro marcava 5°C e o forecast anunciava ainda mais frio durante a madrugada.

Joaquim conduziu sem rumo durante alguns minutos, deixandose embalar pelo ronco suave do motor. Pensava em números, gráficos e na solidão que lhe apertava o peito. Sílvia, a sua ama de chaves há mais de dez anos, insistia que ele precisava abrirse ao amor. Depois do desastre da última relação com Vânia, uma socialite que só se interessava pela sua fortuna, Joaquim resolveu dedicarse exclusivamente aos negócios. Sem se aperceber, acabou por perto do Parque Eduardo VII.

O parque estava deserto àquela hora, salvo por alguns operários que trabalhavam sob a luz amarelada das lâmpadas de rua. A neve caía em flocos grossos, criando uma paisagem quase surreal. Talvez um passeio ajude, murmurou para si mesmo. Ao estacionar, o ar gélido atingiu-lhe o rosto como pequenas agulhas. Os sapatos de couro afundaram na neve fofa enquanto percorria os caminhos, deixando pegadas que logo se apagavam sob mais neve.

O silêncio era quase total, quebrado apenas pelo cricrilar dos próprios passos. Foi então que ouviu um som fraco, quase imperceptível, que fez o seu coração disparar. Primeiro pensou ser o vento, mas o choro vinha da zona de jogos. Aproximouse com cautela; os escorregas e baloiços estavam cobertos por uma camada de neve, parecendo estruturas fantasmagóricas sob a luz pálida.

O lamento ficava mais alto. Veio de detrás de uns arbustos nevados. Joaquim contornou a vegetação e quase teve um susto. Ali, parcialmente coberta pela neve, jazia uma menina de não mais de seis anos, vestida apenas com um casaco demasiado fino para aquele frio. O que mais o surpreendeu foi que ela apertava dois pequenos bultos contra o peito.

Bebés, meu Deus!, exclamou, ajoelhandose imediatamente na neve. A menina estava inconsciente, os lábios num tom azulacinzentado. Com dedos trêmulos, Joaquim sentiu o pulso; era fraco, mas estava lá. Os bebés começaram a chorar ainda mais ao sentir o movimento. Sem perder tempo, tirou o sobretudo e envolveu os três na sua manta. Tirou o telemóvel, as mãos tremendo tanto que quase o deixa cair.

Dr. Pereira, sei que é tarde, mas é uma emergência. A sua voz soou tensa mas controlada.

Vou até à sua mansão de imediato. Não, não é por mim. Encontrei três crianças no parque. Uma está inconsciente.

Já vou, já vou. Depois ligou para Sílvia. Mesmo depois de tantos anos, ainda ficava impressionado com a rapidez com que ela respondia ao primeiro toque, independentemente da hora. Sílvia, preciso de três quartos quentes imediatamente e roupa limpa. Não são visitas. Trago três crianças, uma menina de seis anos e dois bebés.

Entendido, já está tudo pronto.

Lembrouse ainda da enfermeira que lhe tinha tratado o braço roto anos atrás, a senhora Duarte. Levou o pequeno grupo nos braços. A menina era surpreendentemente leve; os bebés, que pareciam gémeos, não deviam ter mais de seis meses. Felizmente, o seu Audi tinha um banco traseiro espaçoso. Ligou a climatização ao máximo e conduziuo o mais rápido que as condições permitiam até à sua mansão nos arredores de Lisboa.

A cada poucos segundos, dava uma olhada no retrovisor para verificar como estavam os pequenos. Os bebés tinham acalmado um pouco, mas a menina permanecia imóvel. A mente de Joaquim encheuse de perguntas. Como tinham acabado ali? Onde estavam os pais? Por que uma criança tão pequena estaria sozinha com dois bebés numa noite assim? Algo estava muito errado.

A Mansão Morais era uma imponente construção de estilo neoclássico, com três andares e mais de 1800m². Quando Joaquim atravessou as portas de ferro forjado, viu que muitas luzes já estavam acesas. Sílvia esperava no hall principal, o cabelo grisalho preso num coque habitual, vestindo um roupão sobre o pijama. Ó meu Deus!, exclamou ao ver Joaquim a carregar as crianças. O que se passou?

Encontreias no Parque Eduardo VII. respondeu ele, ainda ofegante. As quartos já estão prontos?

Sim, a suite rosada e duas salas contíguas no segundo andar. A senhora Duarte está a caminho. Joaquim subiu as escadarias de mármore, com Sílvia a seguilo.

A suite rosada, batizada assim pela decoração em tons suaves de rosa e creme, era a mais confortável da casa. Ele deitou a menina na grande cama com dossel enquanto Sílvia cuidava dos bebés. Vou dar-lhes um banho quente, disse a ama de chaves. Os seus anos de experiência com crianças eram evidentes nos movimentos seguros. O médico chega já?

Dentro de pouco. O timbre interrompeu a conversa. Era o Dr. Pereira, um homem de 60anos, médico da família Morais desde a infância de Joaquim. Apesar da hora, vestia impecavelmente o seu fato cinzento. Onde estão os pacientes?, perguntou, já a abrir a sua pasta.

Joaquim conduziuo até a suite rosada, onde a menina ainda estava inconsciente. O médico examinoua minuciosamente, controlando as constantes vitais e a temperatura. Diagnosticou hipotermia leve. Ainda bem que a tenhamos trazido a tempo, murmurou.

Pouco depois chegou a senhora Duarte, uma enfermeira corpulenta e afável de meiaidade. Juntamente com Sílvia, atendeu aos gémeos, que surpreendentemente estavam em melhor estado que a menina maior. É notável, comentou o Dr. Pereira após examinar também os bebés. Só têm um pouco de frio. A menina deve ter usado o próprio corpo para os proteger.

As horas foram passando lentamente. A senhora Duarte ficou com os gémeos na sala ao lado, onde Sílvia improvisou duas crias. Joaquim recusavase a separarse da menina, observando o seu rosto pálido enquanto dormia. Por volta das 3h da madrugada, ela começou a mexerse levemente, os pálpebras a tremer. De repente, abriu os olhos, verdes como esmeraldas, agora cheios de medo.

Ela tentou sentarse abruptamente, mas Joaquim a segurou suavemente. Calma, pequena, disse ele em voz baixa. Os bebés gritaram, onde estão?

Estão no quarto ao lado. A ama de chaves e a enfermeira estão a cuidarlos. Ela pareceu relaxar um pouco, mas o olhar permanecia apreensivo ao observar o luxo da suite: paredes em rosa suave, móveis elegantes, cortinas de seda que lhe pareciam ainda mais estranhos.

Onde onde estou? perguntou a voz quase sussurrada.

Na minha casa, respondeu Joaquim, sorrindo de forma reconfortante. Chamome Joaquim Morais. Encontreite a ti e aos bebés no parque. Desmaiá

Que nome bonito, Guiomar, sussurrou Joaquim, ao perceber que o nome que a menina murmurou era Guiomar. Quantos anos tens?

Seis, respondeu ela ainda trêmula. E os bebés?

Emma e Inês, não é? São os meus irmãos. A menção aos bebés fez o medo voltar ao rosto de Guiomar. Preciso de os ver, exclamou, tentando levantarse novamente. Calma, estão bem. Joaquim a segurou pelos ombros. Mas tens de me contar o que se passou, Guiomar. Onde estão os teus pais?

O rosto da menina contorceuse num terror puro. Não posso voltar atrás, disse, agarrandose ao braço de Joaquim com uma força inesperada. O pai vai fazer-lhes mal. Por favor, não leve os bebés. Sílvia, que acabara de entrar com uma bandeja de chocolate quente, trocou olhares de preocupação com Joaquim. Ninguém te vai fazer mal aqui, prometeu ele, apertando-lhe a mão trémula.

Guiomar soluçou. Tenho fome, tem chocolate quente? A menção de comida fez-lhe abrir a boca. Sim, vamos beber um chocolate quente e depois pode ser que a mãe?, murmurou, a voz a desvanecer.

Enquanto beberam chocolate ao ritmo de pequenos goles, Joaquim notou manchas amareladas nos braços de Guiomar, visíveis sob o pijama emprestado. As bochechas estavam afundadas; havia ainda sinais de sonolência. Sílvia trouxe uma travessa de sopa de legumes e pão fresco. O aroma fez Guiomar animarse, mas a comer devagar, como se o estômago ainda fosse um desconhecido.

Durante a refeição, Joaquim e Sílvia trocaram olhares carregados de significado. Havia algo muito mais profundo naquela história do que imaginavam. Quando terminou a sopa, Guiomar ainda insistia em ver os bebés. Só um olhar rápido, concedeu Joaquim. Levoua até à sala ao lado, onde a senhora Duarte dormia numa cadeira, enquanto os gémeos dormiam pacificamente nas crias improvisadas.

Guiomar entrou de puntas, examinando cada bebé com uma atenção que partiu o coração de Joaquim. Satisfeita, voltou para a sua cama. Dorme já, murmurou ele, ajeitando as mantas. Amanhã falaremos mais. Ela o segurou pela mão quando ele se afastou. Promete que não nos vai deixar?, perguntou com os olhos verdes suplicantes.

Prometo, respondeu ele, embora não lhe fosse totalmente claro contra quem prometia.

A madrugada seguiuse calma. Joaquim ficou ali, observando a menina dormir, sentindo uma vontade inexplicável de protegêla a qualquer custo. Quando acordou, percebeu que ainda chovia. Olhou pela janela e viu o parque ainda coberto de neve. As memórias da noite em que tudo começou lhe atravessaram a mente como um relâmpago.

Tomás Pereira, o detetive discreto que mantinha um escritório num antigo prédio da Baixa, não tinha placa na porta. Por isso Joaquim o tinha escolhido. Precisamos de total discrição, explicou Joaquim, enquanto o detetive folheava as fotos que Sílvia lhe fora dar. Quanto menos gente souber, melhor. Tomás assentiu, os seus 55anos já mostravam um rosto que passava despercebido pela multidão.

Tem a certeza que não quer envolver a polícia?, perguntou. Ainda não, respondeu Joaquim. Precisamos de entender melhor esta história. O caso de Guiomar e os bebés era estranho; o nome do pai, Roberto Matos, surgia em todas as pistas. Ele tem um histórico de 17 chamadas à polícia por altercados domésticos, contou Tomás, entregando-lhe um dossiê. ninguém nada fez. Tem contactos influentes.

Joaquim, ao ouvir o nome de Roberto, sentiu um arrepio. Ele é o pai, não? Perguntou. Sim, e adotou”. O detetive explicou que a menina tinha sido vista duas vezes nos últimos dias no parque, protegendo os bebés com o próprio corpo.

Tomás continuou: Os gémeos têm um fundo fiduciário de 10milhões de euros deixado pelos avós. Só poderão aceder quando atingirem 21anos. Joaquim sentiu a bile subir à garganta. É o mesmo dinheiro que o Roberto quer roubar. O detetive assentiu. Ele tem dívidas de jogo, ligações com mafiosos, e agora tenta o fundo das crianças.

Enquanto isso, na mansão, Sílvia supervisionava Guiomar enquanto ela brincava com os gémeos no salão. A menina cantava suavemente, como a mãe tinha feito antes, e o ambiente ficou caloroso. Joaquim sentouse ao lado dela e perguntou: Como estão os bebés hoje? Guiomar sorriu timidamente. Estão bem.

Mas, de repente, a menina chorou ao lembrarse da mãe: A minha mãe cantava para nós, mas já não pode. As lágrimas correram. Joaquim, tocado, colocou a mão no ombro dela. Tudo bem, Guiomar, não precisas falar agora. A pequena, porém, continuava a temer o pai.

Durante o almoço, a enfermeira Duarte trouxe sopa quente; Guiomar comeu devagar, mas os hematomas nos braços mostravam que algo horrível tinha acontecido. Sílvia, ao perceber, trouxe um lenço. Estás a ter fome, querida. Que tal um chocolate quente? Guiomar aceitou, mas o seu estômago ainda protestava.

Quando a noite chegou, a família improvisada decidiu assistir a um filme juntos. Os gémeos, Emma e Inês, riam enquanto a menina, agora mais confiante, desenhava na parede. Somos uma família, murmurou ela, apontando para a própria figura, para os bebés e para Sílvia.

Nos dias seguintes, a polícia começou a investigar Roberto Matos. A evidência apontava que o acidente de carro queCom o caso encerrado e a justiça ao alcance, Joaquim segurou a mão de Guiomar, sorriu para Sílvia e, enquanto os gémeos brincavam ao fundo, declarou que, finalmente, todos tinham encontrado o lar que sempre mereceram.

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