A famosa Avenida da Liberdade estava repleta de saltos bem engraxados, malas de grife e gente apressada que só via quem tinha carteira recheada. Um Mercedes-Benz Classe S preto, mais brilhante que pastelaria nova, estava estacionado em cima do passeio, enquanto o seu dono, de blazer caro e ego ainda mais caro, falava alto ao telemóvel junto à esplanada. De repente, rebentou a confusão. Um miúdo de cinco anos, de roupa suja e ténis gastos, irrompeu pela cena a arrastar um balde quase do tamanho dele e atirou um jorro de água imunda para cima do carro de luxo. Lama espalhou-se pelas portas como se fossem telas de arte moderna. O pessoal ficou boquiaberto, telemóveis ao alto, prontos para filmar o escândalo. O homem do Mercedes virou-se num salto, vermelho de raiva. O QUE É QUE FIZESTE, RAPAZ? berrou. O miúdo ficou ali, estático, agarrado ao balde vazio. O lábio inferior a tremer, mas os olhos fixos, desafiadores.
Você estacionou em cima da minha mãe.
Nem uma respiração se ouviu. O barulho do trânsito parecia que tinha ido de férias em agosto. O homem rico piscou os olhos, perdido. o quê?
O miúdo apontou para o passeio. Todos os olhos seguiram o dedo. Debaixo do pneu da frente, flores frescas esmagadas. Uma carteira de senhora semi-escondida, uma alça arranhada e presa debaixo da roda. As conversas começaram a fervilhar. O dono do carro recuou, agora branco como farinha. Eu não vi começou ele.
A voz do rapaz vacilou, quase a chorar. Ela estava a vender flores.
Dá-se qualquer coisa na cara do homem, que se ajoelha junto à roda, a puxar o que restava do ramalhete. Ao ver uma pulseira, a mão paralisa-lhe. Apanha-a devagar, o rosto a perder cor como café sem açúcar.
Não Leonor? sussurrou ele.
O garoto olhou-o, agora com lágrimas enormes a ameaçarem saltar. Conhece a minha mãe?
Antes que o homem respondesse, a porta de trás do Mercedes abre-se devagar por dentro. Uma voz fraca de mulher ouvira-se, cheia de surpresa e esperança: Mário?
O rapaz e o homem viraram-se ao mesmo tempo. E todos os que filmavam esqueceram-se até de respirar.






