Um Anel no Dedo de Outra Pessoa

O Anel na Mão Alheia

O telemóvel tocou no instante em que Lídia já carregava no botão do parquímetro. Tirou o telefone da mala e viu o nome Hugo no visor. Por alguma razão, não atendeu de imediato. Ficou mais um segundo a olhar para os números intermitentes do aparelho e só depois atendeu.

Lídia, olá. Olha, vou atrasar-me. A reunião ficou interminável, a seguir tenho de negociar, já sabes como é Vou dormir aqui, volto amanhã ao fim do dia.

No Porto?

Sim, no Porto. Sabes como isto é

Ela sabia. Trinta anos de casamento deram-lhe tempo de reconhecer tudo. Como ele alongava as vogais quando estava cansado. Como fazia pausa antes de já sabes se queria fechar o assunto. O sim dito com irritação de quem não quer mais perguntas.

Mas havia qualquer coisa diferente naquele dia.

Lídia guardou o telemóvel, virou-se e viu o carro dele. O sedan escuro que conhecia de olhos fechados, com um pequeno amolgadela no para-choques traseiro, que Hugo há anos prometia arranjar e nunca arranjou. Estava estacionado no canto longe do parque do centro comercial. Mesmo ali, na cidade deles. Nada de Porto.

Lídia não correu. Não ligou de volta. Ficou apenas mais um minuto imóvel, a olhar para o sedan escuro. Depois foi devagar para o seu carro, arrancou e foi para casa.

Em casa, pôs a chaleira ao lume, cortou pão, barrou com manteiga. Sentou-se à mesa, forçando-se a comer mesmo sem fome. Lá fora, uma chuva miúda de outubro caía, batendo ritmadamente no parapeito de zinco, o som incansável, estranhamente apropriado ao que sentia.

Ou não sentia. Era esse o espanto.

Esperava-se o pânico, as lágrimas, a raiva. Mas por dentro era silêncio e um frio seco, igual ao de uma sala onde o aquecimento nunca se liga.

No dia seguinte, ligou à irmã.

Ana não atendeu. Estranho. Ana atendia sempre mesmo nas alturas menos indicadas, sempre com aquele sim, estou apressado. Lídia tentou de novo, depois mais uma vez. À terceira tentativa chegou uma mensagem: Lídia, estou ocupada agora, depois ligo-te.

Esse depois estendeu-se por três dias.

Elas nunca tinham estado assim desconectadas. Quando se zangavam raro que fosse a trégua nunca passava de vinte e quatro horas. Ana tinha menos dez anos, e a diferença estava sempre presente: era impulsiva, irrequieta, sorria do próprio disparate e aparecia sem avisar com um bolo de maçã ou com novidades do bairro, falava sempre com entusiasmo de mais.

Lídia habituara-se. A chamadas da Ana, aos convites inesperados para jantar, ao calor que vinha sempre com a irmã.

Agora, três dias em silêncio.

Lídia decidiu não esperar mais. Lembrou-se que, há um mês, tinha levado umas coisas ao hospital de maternidade no bairro da Estrela. A amiga Teresa ia ser avó novamente e pedira-lhe que entregasse um saco de roupinhas para o recém-nascido. Ela só foi, entregou na portaria e saiu apressada, mas gravou na memória o caminho e o pequeno jardim com arbustos dourados junto à entrada, cena que lhe ficou pela beleza simples.

Por que se lembrou agora da maternidade, não saberia explicar. Foi como um clique, decisivo mas silencioso.

Chegou lá numa quarta-feira, perto do meio-dia.

Estacionou na mesma rua, um pouco antes do portão. Saiu do carro. As árvores tinham quase perdido todas as folhas, só algumas, teimosas, persistiam, amarelas. O frio obrigou-a a apertar o casaco.

Hugo apareceu pela porta lateral. Levava flores, pequeno ramo de cor branca e rosa, em celofane. Caminhava depressa, um pouco curvado como era habitual. Lídia, imóvel sob as árvores, achou quase inevitável que ele se virasse, a visse, que algo acontecesse. Não se virou. Entrou novamente.

Ela esperou ali, vinte minutos. Depois viu Ana.

A irmã saiu pela entrada principal, acompanhada por uma auxiliar que empurrava um carrinho-de-bebé. Ana ia ao lado, uma mão segurando o carrinho, no rosto uma expressão difícil de nomear. Não felicidade algo mais profundo, misto de cansaço e ternura. Como quem olha para algo absolutamente seu.

Lídia avançou um passo.

Ana levantou o olhar. Pararam, frente a frente, separados por uns metros da alameda, cabelos revoltos pelo vento outonal. A auxiliar desviou o carrinho discretamente e fingiu olhar para longe.

Lídia chamou Ana. Firme, mas Lídia via a tensão no pulso apoiado no carrinho.

Olá, Ana.

Ficaram caladas mais um pouco. Ana disse:

Entramos? Está frio aqui.

A salinha de visitas cheirava a desinfetante, radiadores demasiado quentes. Lídia tirou o casaco e sentou-se. Ana ficou de pé. A auxiliar saiu com o bebé.

Sabias que eu vinha? perguntou Lídia.

Não. Mas já esperava que mais cedo ou mais tarde

Ana calou-se, passou a mão pela testa, mudou o tom, meio zangada:

Lídia, não penses mal. Isto é gestação de substituição. Por ti. Queríamos fazer-te uma surpresa, sabias? Sempre quiseste um filho, e quando os médicos te disseram

Os médicos repetiu Lídia. Nem pergunta, só repetição.

Sim, aquele diagnóstico. Disseram-nos que não podias Por isso eu e o Hugo pensámos, serias mãe, por nosso presente

Ana interrompeu Lídia, erguendo a mão. Estás a usar o anel da mãe.

O olhar da irmã caiu sobre a mão. O anel no dedo anelar esquerdo, pedra vermelha, antiga, com gravação muito delicada era o anel da mãe delas. Tinham combinado, depois do funeral, que o usariam alternadamente, um ano cada. Da última vez estivera com Lídia. Depois, dera-o à Ana, que nunca devolvera, dizendo que perdera. Lídia ficou triste, mas não discutira.

Mas o anel estava ali. No dedo. O dedo das alianças.

Ana disse Lídia baixinho. Traz-me os documentos que o Hugo deixou no corredor. Vi a pasta.

Ana não respondeu. Olhava fixamente o anel, como se só agora o percebesse.

Lídia levantou-se, saiu e voltou com a pasta do suporte de vidro. Abriu. Relatórios médicos, atestados. Em nome de Lídia Maria Figueiredo. Leu rapidamente. Falavam de insuficiência primária, gravidez impossível, documento emitido há seis meses pela clínica Saúde & Bem-Estar.

Lídia nunca lá tinha ido, nem a ginecologista visitava há anos. Hugo sabia disso.

Fechou a pasta e olhou-a longamente.

Isto é falso disse finalmente.

Ana não respondeu.

Olha para mim, Ana.

A irmã ergueu os olhos. Estavam secos, mas havia algo destruído no interior.

Há quanto tempo?

Longo silêncio. Por fim, Ana disse:

Sete anos.

Lídia acenou. Sete anos. Ana teria trinta e oito, Lídia quarenta e oito. Vinte e três anos de casamento nas costas, e Hugo começara há sete anos um caso com a irmã.

Não disse mais. Vestiu o casaco, pegou na mala. Parou à porta.

O anel da mãe murmurou. Entregas-me esta semana. Senão participo o roubo.

Saiu.

Na viagem para casa não chorou. Ligou o rádio, ouviu algo indistinto, manteve os olhos na estrada. Num semáforo, parou ao lado de outro carro onde a música ressoava alto. Pensou distratamente que estava sem batatas em casa, tinha de comprar.

Depois pensou: sete anos! Eis.

Hugo voltou à noite. Entrou com o ar de quem vai enfrentar uma tempestade, o que dizia que Ana já lhe ligara. Pousou o saco, tirou o casaco, entrou na cozinha. Lídia estava sentada, chá à frente, fixava a janela.

Lídia começou.

Senta-te.

Sentou-se. Silêncio. Depois:

Eu entendo que isto parece

Hugo, basta. Diz a verdade. Não quero histórias de gestação de substituição. Não quero doenças imaginárias. Diz, só.

Demorou-se. Olhou a mesa, depois para ela, depois para a mesa, seja o que for que mexia nas mãos notou que virava a ponta da toalha. Sempre fazia isso, quando nervoso papel, cinto, toalha.

É verdade, são sete anos disse por fim. Não planeei. Aconteceu

Não me digas que aconteceu, Hugo.

Caiu outro silêncio. Por fim:

A criança é minha. Vou ser pai. Queremos ficar juntos.

Lídia ergueu a chávena e bebeu. Estava frio o chá. Pousou a chávena.

Tens a certeza? A criança é mesmo tua?

Hugo hesitou microsegundos demais antes de responder. Lídia notou.

Claro apressou-se. Um pouco depressa de mais.

Lídia assentiu.

Mais tarde, depois de ele ir dormir para a sala, Lídia deitada fitava o teto. Pensava naquela hesitação. Vinha-lhe à memória as confidências de Ana há dois anos, quando estivera apaixonada por um tal Bernardo, engenheiro civil que acabaria por ir para Braga e nunca mais lhe atendera o telefone. Ana sofrera muito, Lídia passara horas ao telefone, ouvindo desabafos.

Depois Ana recuperara pensou Lídia, e alegrou-se então.

Só mais tarde, de manhã, entendeu o resto.

Ligou à amiga Maria da Graça, que morava próximo do Bernardo, perguntando se teria contacto dele. Maria da Graça passou-lhe o número.

Lídia não ligou. Mas, quando Ana levou o anel, sentaram-se na cozinha e Lídia perguntou diretamente:

A criança é do Bernardo?

Ana pousou a chávena, derramando chá.

Como

Ana. É dele?

A irmã virou-se para a janela. Longa pausa. Lá fora, alguém passava um cão de trela, grande, branco, puxando para o outro lado.

Eu não sabia que ele ia embora murmurou finalmente. Já estava grávida. E ele simplesmente foi-se. Não atendia mais.

E o Hugo?

O Hugo ama-me. Disse que queria criar a criança como dele. Que não importava.

Lídia olhou para Ana. Para o rosto ainda bonito, as ondas vivas do cabelo. O anel da mãe já estava na mesa, entre as chávenas e as migalhas de bolo.

Tantas palavras por dizer: que Hugo não era herói nenhum, querer um filho alheio só para largar a mulher; que sete anos de mentira não viram amor nem por magia; que chamar a isto amor é estranho.

Mas não disse nada. Levantou-se, arrumou as chávenas, guardou o anel no bolso do avental.

Vai-te embora, Ana.

A irmã demorou-se um minuto, como se esperasse que Lídia mudasse de ideias. Depois vestiu o casaco, disse Lídia, adoro-te e saiu.

Lídia ouviu a porta fechar. Tirou o anel do bolso e ficou a vê-lo na palma da mão presente da mãe, da avó, já que a mãe o herdara e nunca o largou até ao fim. Pequena pedra vermelha, quase rubi sob a luz.

Enfiou-o no dedo médio. Não no anelar. Depois ligou ao pai.

Pedro Esteves atendeu logo.

Lídia, minha filha O que se passa? Estás diferente.

Pai, preciso de falar contigo. Posso ir já?

Quando quiseres, filha! Vem logo.

O pai morava na mesma cidade, casa antiga na rua das Palmeiras, onde Lídia e Ana cresceram. Meia hora depois, Lídia tocava à porta. O pai abriu, olhou-a e sem perguntas foi pôr água ao lume.

Sentaram-se na cozinha igual à da infância, as mesmas cortinas, prateleiras com frascos de especiarias, só mudando a mesa uns anos antes. Lídia falou calmamente, quase sem lágrimas. O pai escutava, sem interromper. Só suspirou profundamente quando ela falou do relatório médico falso; ela calou-se.

Continua pediu ele.

Ela explicou tudo. O carro, a maternidade, o anel, a pausa de Hugo, Bernardo, a possível paternidade, os sete anos.

O pai ficou muito tempo em silêncio, chá nas mãos, olhos perdidos na janela. Por fim:

Sabes que o Hugo trabalha na minha firma. Já há ano e meio.

Ela sabia. Hugo era financeiro na construtora do pai, o que lhe parecera lógico.

Ele vai sair disse Pedro Esteves, neutro. Como quem troca cadeiras velhas.

Pai

Lídia, não discutas. Faço tudo dentro da lei, sem barulho. Vou pedir revisão com o advogado pode ser que já tenha tentado meter a mão no que não devia.

Ela ficou a olhá-lo, setenta e cinco anos, cabelo todo branco, mãos de trabalhador. Homem que fez a firma do nada nos duros anos noventa, nunca de poucas palavras. Zangava-se devagar, mas a sua raiva silenciosa congelava qualquer um.

Não quero que, por minha causa

Isto não tem a ver contigo disse o pai. Tem a ver com ele. Ele escolheu.

Depois, quase com brandura:

Quanto à Ana Não sei o que disse. Também não compreendo. É minha filha, amoa. Mas o que fez vai levar tempo a digerir.

Pai, não quero que lhe cortes a vida.

Isso é assunto meu com ela, Lídia devolveu com doçura. Ocupa-te de ti.

Ocupar-se de si mesma era estranho. Lídia sempre se ocupara dos outros marido, casa, amigas, Ana. Trabalhava como contabilista numa empresa pequena; trabalho certo, rotina tranquila, manhãs a ir, tardes de volta, tudo previsível. Não reclamava. A vida era assim, calhou-lhe dessa forma.

Agora tinha de aprender outro arranjo.

O divórcio saiu quatro meses depois. Hugo pouco discutiu ensaiou conversa sobre partilhas, mas o pai de Lídia já tinha arranjado um advogado capaz, mudando de assunto rapidamente. O apartamento ficou para Lídia, como devia: dinheiro da entrada fora dado pelo pai, e havia prova disso.

Hugo saiu em novembro. A arrumação foi feita em dois serões: em silêncio, tudo corretamente embalado. Lídia ia dormir a casa da Teresa nesses dias, não queria ver Hugo retirar o que era dele. Na segunda vez, ao regressar e passar a vista pela estante, sentiu o vazio o espaço onde estiveram os livros de Hugo, saturado por trinta anos de presença.

Lídia colocou ali o vaso de ficus, que sempre ficara no canto. Parecia melhor assim.

Em dezembro, com o primeiro frio, Lídia foi finalmente a um centro médico de confiança, não àquele da falsa papelada. Fez exames completos. Esperou duas semanas pelos resultados.

A médica jovem, olhos exaustos mas atentos olhou os papéis, depois fitou Lídia:

Está tudo normal. Para a sua idade, melhor que o esperado. Nunca teve nenhuma insuficiência, garanto-lhe. Está saudável.

Lídia ouviu, calada.

Ouviu bem? Está tudo em ordem.

Ouvi. Obrigada.

Saiu. Lá fora ventava, neve oblíqua, parou um pouco no patamar. Passaram pessoas apressadas, outras devagar, uma mulher a empurrar carrinho, um senhor idoso com uma cadela daschund.

Lídia pensou: era isto. Sempre estivera saudável. Ninguém nunca lhe dissera que não podia ter filhos. Fora tudo mentira. Parte de um plano, uma desculpa, ou só a trapaça de Hugo para não olhar para o verdadeiro problema.

Não sabia o que sentir: alívio? Raiva? Amargura por trinta anos ao lado de alguém que mentiu tão leve? Provavelmente tudo junto, num nó desconfortável.

Foi até ao carro, a pensar na padaria.

Era um sonho muito antigo tão antigo que quase esquecera. Nos vintes, quis ter o seu espaço; pequeno, quente, cheirando a pão e canela, a fazer o que gostava e ver clientes felizes. Depois Hugo, depois o emprego, os anos o sonho ficou debaixo de tudo, quieto.

Agora, nada mais o abafava. Voltava à tona.

Em janeiro começou a estudar o assunto. Leu artigos, viu vídeos, pediu conselhos. Conhecidos apresentaram-lhe a D. Celeste, dona de uma pastelaria noutro bairro. Lídia foi lá conversar. Celeste era pequena, enérgica, com uns cinquenta anos, recebeu-a com café e tarte de cereja, explicou tudo: arrendamento, papéis, burocracia, dificuldades dos primeiros meses.

O essencial é não ter medo disse Celeste. Todos têm. Quem não tem, é irresponsável.

Lídia ouviu e pela primeira vez em muito tempo sentiu interesse de novo.

O pai, quando ela lhe contou, ficou calado e, por fim, só perguntou:

Precisas de dinheiro?

Pai, não. Tenho as minhas poupanças.

Não ofereço empréstimo. Ofereço mesmo.

Pai

Pronto. Mas se precisares, avisa.

O espaço surgiu em abril. Pequeno, loja de résdochão, antigo consultório, janelas para uma rua de plátanos. Dono quase reformado, aborrecido mas razoável no preço. Assinaram contrato longo.

As obras demoraram dois meses. Lídia ia lá diariamente assistir às mudanças. Montaram forno, bancadas, frigoríficos. Paredes em creme suave, prateleiras de madeira clara. Teresa ajudou nas cortinas e discutiram meia hora sobre tons, divertido e bom.

O nome apareceu fácil: Pão da Lídia. Simples, direto.

Abriram em junho. Lídia quase não dormiu antes, repassando listas enquanto avançava a madrugada. Acordou às cinco, foi cedo para a padaria, luzes acesas, forno ligado, primeira fornada. Quando o pão começou a crescer e o cheiro se espalhou pelo espaço minúsculo, Lídia sentou-se e permitiu-se, pela primeira vez, respirar fundo.

O dia via-se caótico e feliz. Vieram vizinhos, a Teresa com amigas, o velhote do cão que via sempre na rua. Venderam quase tudo. Às duas da tarde só restavam alguns pães e uma tarte de maçã.

Chegou a casa já tarde, exausta, costas doridas, mãos a cheirar a massa e fermento. Mas estava feliz não com alegria explosiva, mas tranquilo, uma firmeza nova, dela.

Com Ana não voltou a falar. Pensava na irmã, sobretudo ao acordar, cabeça ainda meio adormecida. Sentia algo estranho, não ódio, nem só mágoa; uma tristeza cheia, amarga no fundo. Viveram quarenta e cinco anos lado a lado está ali dentro, impossível ignorar.

Mas não conseguia retomar contacto. Não para castigar. Só porque não sabia como recomeçar, nem se fazia sentido. Nem tudo se recompõe.

O pai visitava Ana, Lídia sabia. Ele telefonou uma vez:

Fui ver a miúda. O rapaz está bem, saudável.

Que bom, pai.

Ela chora.

Sei, pai.

Nunca mais tocaram no tema. Pedro Esteves era discreto, não pedia reconciliações. Só aparecia, por vezes, na padaria, tomava café com croissant, lia o jornal. Lídia ia ter com ele, falavam do tempo, das notícias, dos negócios pequenos. Era bom.

Hugo não lhe ocupava o pensamento. Por vezes recordava jantares antigos, uma viagem às serras, o episódio do extravio da mala no aeroporto. Vinha, passava. Lídia deixava ir.

Sobre a verificação do pai à empresa não perguntava. Ele um dia resumiu: Apareceu uma coisa ou outra. Nada grave, só aborrecido. Ficou tudo resolvido, em silêncio. Ela assentiu. Silêncio, assim devia ser.

Havia outra coisa que lhe vinha à ideia. Nunca fora mãe podia ter sido, garantiu-lhe a médica. Trinta anos de vida ao lado de alguém que nunca, verdadeiramente, quis tentar, preferindo pôr sobre ela o peso da impossibilidade. Foi doloroso. Desses que doem no peito, à noite.

Mas Lídia sabia conviver com a dor. Ela existia, mas não dominava tudo. Havia perda, sim. Trinta anos passados assim, que podiam ter sido diferentes.

E havia também o aroma matinal do pão em junho. O velho com o cão que todos os dias comprava o mesmo pão de centeio e um pastel. Teresa, às sextas, para conversas de trás do balcão, como dantes. O pai, com o café ao pé da janela, a folhear o jornal.

Um quotidiano pleno de vida, dela.

Em setembro, ao fim de três meses de padaria, já confortável no espaço, Lídia saiu uma noite para respirar ar fresco. Dia longo: fornecedor novo, forno avariado, fila por croissants. Saiu à rua, de avental, cabelo puxado para trás, ficou a admirar o céu a escurecer além dos telhados.

Ele vinha do outro lado.

Levou meio segundo a reconhecê-lo Hugo, muito envelhecido num ano, curvado, num casaco novo, empurrando um carrinho pequeno com um bebé irrequieto que chorava alto. Hugo embalava o carrinho, mão na testa, e tinha um ar de cansaço transparente que ela nunca vira.

Ergueu o olhar.

Fitaram-se.

Uns segundos. O bebé chorava, folhas dançavam no chão, ouviu-se ao longe uma buzina.

Lídia não desviou os olhos. Só olhou, depois sorriu não para ele, nem para cena nenhuma: um sorriso íntimo, de quem entende alguma coisa até ao fim.

Depois virou-se e voltou para dentro da padaria.

Dentro, cheirava a pão, canela e um pouco de café. Atrás do balcão, Marta jovem ajudante que Lídia contratara em agosto arrumava os bolos restantes. Olhou para Lídia:

Está tudo bem, Dona Lídia?

Está, sim. E os restos?

Quase nada. Já só há duas tartes de maçã.

Guarda uma para o senhor Pedro. Ele vem amanhã.

Lídia foi à cozinha, tirou o avental, pendurou no gancho. Olhou as bancadas limpas, forno a arrefecer, os frascos das especiarias. O anel da mãe no dedo médio captou a luz, faiscando brevemente em rubi escuro.

Apagou a luz e foi ajudar Marta a fechar a caixa.

Lá fora, caía chuva miúda. Lídia foi a última a sair, fechou a porta, verificou o trinco. Esperou debaixo do toldo, vendo como a chuva brilhava no alcatrão, as janelas acesas do outro lado da rua.

Tinha cinquenta e cinco anos. Uma padaria cheirando a canela, um pai que tomava café pela manhã, uma amiga de sempre às sextas-feiras, o anel da mãe no dedo.

E ainda outra coisa, que começava, lentamente, a crescer por dentro sem nome, mas sensação de terra firme debaixo dos pés. Não era felicidade feita de ausência de dor. Era só vida: autêntica, finalmente sua, onde entrou vinda do frio para um sítio com calor.

A amargura persistia. Trinta anos com peso, mágoa de Ana num fundo próprio, ferida do que podia ter sido. Tudo real.

Mas ao lado disso, crescia outra coisa.

Ergueu a gola do casaco, pisou a chuva rumo ao carro, devagar. As folhas, moles, suavam sob os sapatos; o ruído da chuva sobre os ombros. Lídia pensou: amanhã vou tentar a receita do pão de mel com cominhos, que ando há muito a adiar.

Amanhã seria o dia.

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Um Anel no Dedo de Outra Pessoa