– Tudo bem, não vamos expulsar‑te durante as festas. Prepara‑nos três quartos – as minhas irmãs e a minha sobrinha ficarão hospedadas. Tu ficarás a dormir na cozinha. – Dona Maria, e não importa que eu seja a única proprietária desta casa? Tenho até a escritura. Portanto, nem pensem em entrar; a polícia vai expulsar‑vos.

Está bem, não vamos expulsarte durante as festas. Preparanos três quartos as minhas duas irmãs e a sobrinha ficarão a dormir. Tu ficarás na cozinha.
Dona Inês, e não importa que eu seja a única proprietária desta casa? Tenho inclusive a escritura. Portanto, nem pensem em tentar entrar a polícia vai tirvos daqui.

Hoje, depois do turno, Mariana ia dirigirse ao Centro Comercial Colombo para as compras de Natal. Em duas semanas seria Ano Novo. A sua velha amiga Olívia a tinha convidado para a sua casa.

Mariana sabia que aquele dia reuniria uma grande turminha: a filha da anfitriã com o marido e os filhos, a irmã, a sobrinha estudante. Mariana costumava estar na casa da Olívia e conhecia todos. Por isso queria adiantar os presentes.

Escolher presentes era coisa sua, mas entregálos era o que lhe dava prazer. Já agora sentia o entusiasmo de perambular pelos corredores iluminados por luzes piscantes, observar as vitrines, ver o vendedor dobrar o papel brilhante em torno das compras.

Mas o humor da mulher desabou assim que pisou na rua. No parque de estacionamento, ao lado do carro, esperavaa Rita, irmã do seu antigo marido.

Mar! saudou Rita, tremendo. Há quanto tempo? Já estou congelada.

Boa tarde, Rita. Não esperava encontrála aqui.

Por quê? Somos família, afinal respondeu Rita. Durante vinte anos fomos tratadas como tal.

Felizmente já não somos retrucou Mariana, já a abrir a porta do carro.

Mas Rita a segurou.

Escuta, Mari, tenho um pedido. Na verdade, é da família inteira.

De que família, Rita? Já faz um ano que não tenho nenhum vínculo com a vossa. Não quero ouvir pedidos disse Mariana.

Não, ouve só. Não sei como repartiram os bens com o Micael, mas a mãe ainda pensa que a casa onde vives pertence à nossa família.

Vocês comprarama juntos, e ele decoroua durante dez anos. Toda a família celebrava lá o Réveillon e as festas de maio. E agora?

A mãe planeava reunir todo o clã na casa, pôr a mesa na varanda, como sempre fizemos. Mas tu não nos deixaste entrar. Partiste para lugar nenhum.

Por que me contas tudo isto? perguntou Mariana. Fui só visitar a amiga, decidi ir embora Perdão, esquecite de perguntar.

E esquece as reuniões familiares na minha casa. Quando eu e o Micael nos separamos, acordámos que o apartamento, o carro e a garagem ficariam a ele, e a casa a mim. Já está tudo legalizado. Agora podem reunirse no apartamento do Micael. Basta.

Mari, a mãe pediunos licença para, no dia 31, abrir a casa aos convidados como antes. Vai ser muita gente insistiu Rita.

A tal Dona Guilhermina Vasconcelos pediu isso? Estranho! Nunca a ouvi pedir nada, só fazer reclamações. Se quiser, passa a mensagem: eu não concordo. E arranja hotéis para a família.

Mariana entrou no carro, sem vontade de procurar presentes. Amanhã compro, pensou, e seguiu para casa.

Ela e Micael viveram quase vinte anos juntos. A casa de que Rita falava foi comprada há dez anos. Um ano antes, o marido anunciara que aos quarenta e cinco anos a vida ainda não acabou e que seguiria a construir com a sua jovem secretária.

Mariana não tentou impedir o homem, mas também não se deixou enganar. Ela ficou com a casa e os bens familiares; o exmarido recebeu um apartamento de dois quartos, um carro Toyota Corolla e a garagem.

Como a única filhaestudante, Inês, ainda dependia de Mariana, Micael não reclamou do saldo partilhado.

Alguns dias antes, Inês ligou e disse que passaria o Ano Novo no dormitório da universidade.

Mãe, não vais ficar chateada? perguntou. E nas férias volto a casa.

Depois disso, Mariana aceitou o convite da Olívia. Na companhia daquela gente, ninguém a faria sentirse só.

Sabendo que Rita não deixaria as coisas quietas, Mariana pressentia que ainda haveria turbulência. Não se enganou.

Naquela noite, a exsogra telefonou:

Mariana, não estás a assumir demasiado? Apropriastete a casa do Micael e agora achas que ninguém te pode desafiar?

Está bem, vamos celebrar o Ano Novo todos juntos na casa onde o meu filho gentilmente nos deixou ficar. Entendido?

Então, não vamos expulsarte durante as festas. Preparanos três quartos as minhas duas irmãs e a sobrinha ficarão a dormir. Tu ficarás na cozinha.

Dona Guilhermina, e nada que eu seja a única dona desta casa? Tenho os documentos. Não tentem entrar, a polícia vai expulsarvos.

Veremos quem expulsa quem! Mas prepara os quartos, trazemos tudo de comida, então não precisas cozinhar. E não te oposes, porque este Ano Novo ficarás a lembrar para sempre!

Na minha opinião, este ano a mãe do Micael enlouqueceu pensou Mariana.

Guilhermina nunca fora pacífica, mas o seu espetáculo surpreendeu a nora. Será que esperava que Mariana se assustasse e obedecesse?

Antes, Mariana era considerada a melhor nora; as duas outras aceitaram o papel de autoridade da sogra.

Agora, divorciados, as palavras da exsogra só despertaram perplexidade: que esperavam conseguir?

Enquanto isso, na casa da Guilhermina, o plano tomava forma.

Rita, tu e Alexandre ficam responsáveis pelas compras. Precisamos de tudo antecipadamente, para preparar o jantar da noite de 31 e da manhã do primeiro.

Vamos fazer gelatina e assados. Sofia e Lurdes cuidarão das saladas. Guardaremos tudo em contentores, e a louça para pôr a mesa vem da Mariana sabia que lhe restavam dois conjuntos de jantar, porque o Micael não levou nada quando mudouse.

Mãe, se ela se recusar a abrir a porta? perguntou Rita.

Que tente! Serão doze, toda a família. Vai ficar envergonhada! Como imaginas?

Ela abre a porta e, no alpendre, aparecem o tio Carlos e a tia Lúcia, o primo João e a prima Natália, entre outros. Pensa que vai fechar a porta? Deixaa entrar, ajudaa a pôr a mesa. É família!

No dia 31 de dezembro, às nove da noite, quatro carros pararam perante a casa nº 14 da Rua do Oriente.

Estranho disse Alexandre, marido da Rita. As luzes não acendem. Será que a Mariana não está em casa?

Onde poderia estar? Ela está em casa. E a Inês provavelmente chegou também. Eles estão a esconderse, a esquivarse de nós riuse Guilhermina. Toquem a campainha.

Mas ninguém respondeu ao toque e a porta não se abriu.

Espera, tenho as chaves insistiu Guilhermina. Sabia que a Mariana faria alguma coisa, então trouxeas.

A porta dos fundos abriuse e toda a comitiva entrou no pátio.

Aguarde, já abro a porta da casa. Ligue a luz e levem tudo para a cozinha, vamos pôr a mesa depressa. E a Mariana, se quiser, pode esconderse. Não a convidaremos à mesa.

Uns vinte minutos depois, um clamor ecoou no corredor.

Olha lá, a dona apareceu exclamou Alexandre.

Mas não era a dona.

Mariana, enquanto ajudava Olívia a pôr a mesa, recebeu um telefonema inesperado.

Senhora Mariana Nogueira? O alarme da sua casa disparou. A patrulha chegou ao local.

Há doze pessoas aqui, dizem ser familiares e que têm a sua permissão.

Eu não dei permissão a ninguém. Provavelmente são parentes do meu exmarido, invadirama casa sem convite.

Vai fazer um boletim?

Claro. Mas não estou na cidade, só volto depois de amanhã.

Os convidados não convidados foram levados à esquadra, onde ficaram algumas horas. Enquanto isso, na casa da Guilhermina, as saladas escorreram e o quente arrefeceu.

Quando Mariana regressou, o exmarido telefonou pedindo o boletim.

Mari, pensei que tinhas mudado a fechadura, não adivinhas?

Não mudei, porque não queria estragar a porta. Coloquei a fechadura antiga e usoa.

Por que, ao sair, trancaste a porta com a antiga?

Suspeitei que a tua mãe não se calaria e apareceria com os convidados explicou Mariana. Não queria que portas estragadas permitissem a invasão.

Então trancaste a porta antiga, com a chave que a tua mãe tem, e ainda ativaste o alarme? Provocasteos!

A família tinha a opção de passar o Ano Novo em casa, mas escolheram a polícia. Não fui eu que os fiz chegar lá.

Por que não avisaste a Rita que o alarme seria ligado?

Porque há placas na porta que dizem Protegido pela polícia. Todos leem.

Então passa o recado à tua mãe, à Rita, ao Alexandre e a todos: não volto a receber visitas.

Desta vez levarei o boletim, mas não acontecerá outra vez. A lei será aplicada com rigor

E assim terminou o sonho, onde casas, chaves e promessas se misturavam como sombras de Natal num labirinto de luzes piscantes.

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– Tudo bem, não vamos expulsar‑te durante as festas. Prepara‑nos três quartos – as minhas irmãs e a minha sobrinha ficarão hospedadas. Tu ficarás a dormir na cozinha. – Dona Maria, e não importa que eu seja a única proprietária desta casa? Tenho até a escritura. Portanto, nem pensem em entrar; a polícia vai expulsar‑vos.