Trinta anos a trabalhar numa fábrica para dar um futuro melhor aos filhos; no meu septuagésimo aniversário juntaram-se para me oferecer apenas um cesto de flores entregue em casa

Trinta anos dobrei o tempo sobre máquinas de costura numa fábrica da Amadora, para que as minhas filhas tivessem uma vida melhor. No meu septuagésimo aniversário, juntaram-se todas e enviaram um grande cesto de flores com entrega ao domicílio. Fiquei, então, no meio do meu apartamento vazio, de bata e chinelos, a olhar para o cesto de flores do estafeta, e chorei sem tempo. Se alguém há quarenta anos me dissesse que eu ia estar assim aos setenta, teria pensado que era uma anedota macabra. Mas a vida gosta de ironias pesadas, daquelas que só compreendemos quando é mesmo connosco.

Nessa quinta-feira, acordei às seis em ponto, sem precisar. O hábito ficou de tantos anos a levantar-me ainda de noite para apanhar o elétrico e chegar ao turno da fábrica de costura antes do sino tocar.

Costurava fardas, batas, aventais. Lisboa tinha vestidos e batas para quem precisasse – mas quem precisava mesmo eram os filhos das mulheres às máquinas, com os dedos picados de agulhas e as cabeças cheias de sonhos. Porque para quê isso tudo, senão para elas?

O meu Joaquim, que Deus tenha, era ferroviário na CP. Juntos, fomos cuidando do lar. Não me queixo: tivemos o nosso. Primeiro um T0 em Benfica, depois veio a troca para um T2 em Alvalade.

Aquecimento pelo prédio, varanda de frente para um jardim com jacarandás. O essencial nunca faltou às meninas: roupa lavada, sopa quente, livros para a escola. A Leonor teve explicações de inglês; a Matilde fez um curso de informática, daqueles que estavam a dar moda. O Joaquim fazia noites e eu costurava mais depois do expediente, cortinados e vestidos de festa para vizinhas.

Valeu a pena, penso. Leonor licenciou-se em direito, tem hoje escritório de advogada no Porto. Matilde criou uma empresa de marketing, ou coisa assim, em Braga. Nunca entendi bem, mas pagam-lhe para isso, e é suficiente para mim. Orgulho-me muito delas. Só que esse orgulho, ultimamente, parece-me chá sem açúcar falta qualquer coisa e não sei bem o quê.

O Joaquim partiu há oito anos. Foi o coração. Não se despediu, adormeceu e não voltou. No primeiro ano as meninas ligavam todos os dias. No segundo, uma vez por semana. Agora, Leonor telefona aos domingos, depois do almoço, isso se não se esquecer. Matilde resume-se a SMS, secos, telegramáticos: “Mãe, está tudo bem? Beijinhos.” Eu respondo: “Está tudo bem, filha.” Que mais diria? Contava que falo com a televisão? Que ao sábado só a senhora da caixa do Minipreço diz-me “bom dia”?

Passei a semana toda a preparar o aniversário. Parva de mim, fiz cheesecake, aquele da receita da mãe, comprei toalha nova com desenhos de girassol. Tirei o serviço de porcelana, presente de bodas. Quatro lugares. Porque Leonor disse “faço o possível para passar”, e Matilde escreveu “logo vejo, depende do trabalho”.

De manhã, tocou o telefone. Leonor, com voz cansada: “Mãe, não consigo, tenho julgamento, anteciparam para hoje, não deu para recusar. No sábado passo, prometo.”

Uma hora depois, SMS de Matilde. Nem ligou. “Mãe, conferência no Porto, não chego a tempo, amo-te, no fim de semana compenso!!!” Três pontos de exclamação, como se pudessem ocupar a cadeira vazia.

Fiquei na cozinha, olhos nos quatro pratos, no cheesecake, naquela toalha alegre que agora parecia ridícula. Guardei tudo: pratos no aparador; a toalha dobrada; o bolo coberto para não secar.

Às três toca o intercomunicador. O estafeta é um rapaz ainda com acne, farda azul marinho. Carrega um cesto de flores, enormes rosas, lírios, umas flores exóticas. Uma carta: “Querida Mãe, muita saúde e tudo de bom! Leonor e Matilde”. O rapaz sorri: “Muitos Parabéns, Dona! Tem sorte, é muito amada.”

Segurei o cesto, pesado, coloquei-o no móvel do corredor, fechei a porta. Sentei-me no banco debaixo do bengaleiro, ali fiquei cinco minutos, ou vinte. As flores perfumavam forte, até enjoar naquele corredor pequeno.

Ao jantar, a Dona Graça ligou, a única vizinha com quem ainda converso. Setenta e cinco anos, mora em baixo, também sozinha. “Ó Maria dos Anjos, fazes anos, vem cá, tenho tarte de maçã.” Fui. Fiquei na cozinha dela até às dez. Graça não perguntou pelas filhas. Sabia de cor.

No sábado, Leonor apareceu. Sozinha, sem marido nem filhos. Três horas, das quais uma ao telemóvel na varanda, a tratar trabalho. Deixou um envelope com notas em cima da cómoda do corredor. Matilde desmarcou o fim de semana por SMS: “Aparecer no Natal, prometo, mãe!”

E foi aí que percebi. As minhas filhas gostam de mim. À maneira delas, entre audiências e reuniões. Amam-me como eu amava as costuras: honestamente, mas sempre de olho no relógio. Trabalhei trinta anos por elas e orgulho-me que não tenham de passar o mesmo. Só que ninguém me avisou que o troco de uma vida melhor seria este silêncio dentro das quatro paredes.

Eu e a Graça acabámos o cheesecake. As flores murcharam depois de uma semana. O envelope de Leonor ficou na gaveta onde Joaquim guardava os passes da CP.

Ontem comprei um bilhete para uma excursão à Serra da Estrela, autocarro de seniores, dois dias. A Graça vem comigo. Quando contei à Matilde ao telefone, estranhou:
“Mãe, desde quando viajas tu?!”
“Desde os 70, filha” respondi.

Três segundos de silêncio do outro lado. Depois: “Que fixe, mãe”, e mudou de assunto. Mas nesses três segundos ouvi mais do que em todos os pontos de exclamação. Um dia vai perceber, talvez quando também tiver uma cadeira vazia na mesa dela. Mas não fico à espera.

Tenho setenta anos. Pernas saudáveis, bilhete comprado e uma amiga no terceiro esquerdo que faz tarte de maçã. O Joaquim diria: “Não te lamentes, Anjinha, vai.” E vou.

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