— Tio, leve a minha irmãzinha — ela está sem comer há dias, — ele virou-se bruscamente e ficou boquiaberto!

Tio, por favor leve a minha irmãzinha. Ela está morrendo de fome

Aquela voz baixa, carregada de desespero, que se esgueirou entre o ruído da avenida, fezse presente de repente aos ouvidos de João. Ele corria não, disparava, como se um inimigo invisível o perseguisse. O tempo apertava: milhões de euros pendiam de uma decisão que precisava ser tomada naquele mesmo dia, num conselho clandestino. Desde que Rita, a sua esposa, desaparecera luz da sua vida, âncora da sua existência o trabalho tornouse o único sentido que lhe restava.

Mas aquela voz

João virouse.

À sua frente, uma criança de sete anos, esguia, descalça, os olhos marejados de lágrimas. Nas mãos segurava um pequeno embrulho, de onde surgia o rostinho de um bebé. A menina, enrolada num cobertor gasto e rasgado, gemia em voz baixa, enquanto o menino a apertava contra o peito como se fosse o único escudo num mundo indiferente.

João hesitou. Sabia que não podia perder tempo; precisava seguir adiante. Contudo, algo no olhar da criança ou naquele simples por favor perfurou o âmago da sua alma.

Onde está a mãe? perguntou suavemente, ajoelhandose junto ao pequeno.

Ela prometeu voltar mas já faz dois dias que não apareceu. Estou aqui, esperando, na esperança de que chegue a qualquer instante tremia a voz do garoto, assim como a sua mão.

O menino chamavase Miguel. A menina, Margarida. Eles estavam completamente sós. Nem bilhete, nem explicação só a esperança que o pequeno de sete anos segurava como quem se agarra a uma palha ao se afogar.

João propôs comprar comida, chamar a polícia, avisar os serviços sociais. Mas, ao ouvir a palavra polícia, Miguel encolheuse e sussurrou, com dor:

Por favor, não nos levem. Vão levar a Margarida

Naquele instante João percebeu que já não podia simplesmente partir.

No café mais próximo, Miguel devorou um pastel de nata faminto, enquanto João, cauteloso, alimentava Margarida com uma mistura comprada na farmácia ao lado. Algo há muito enterrado sob a armadura fria da sua rotina começava a despertar.

Lembrouse do número do assistente:

Cancelem todas as reuniões. Hoje e amanhã também.

Alguns minutos depois chegaram os guardas da polícia Costa e Silva. Perguntas rotineiras, procedimentos de praxe. Miguel, com a mão trêmula, apertou a mão de João:

Não vão nos entregar ao abrigo, vão?

João não esperava dizer aquilo:

Não entregarei. Prometo.

No balcão começaram as formalidades. Interveio então Lurdes Mendes, velha amiga e experiente assistente social. Graças a ela, tudo foi concluído rapidamente tutela provisória.

Só até encontrarem a mãe repetia João, quase para si mesmo. Só temporariamente.

Levou as crianças para casa. No carro, o silêncio era tão denso quanto o de um túmulo. Miguel segurava firme a irmã, sem fazer perguntas, apenas murmurando-lhe palavras ternas, confortantes, familiares.

O apartamento de João recebeuos com espaços amplos, tapetes macios e janelas panorâmicas que exibiam a vista completa de Lisboa, com o Tejo a brilhar ao longe. Para Miguel era como um conto de fadas jamais havia conhecido tanto calor e acolhimento.

João sentiase perdido. Nada lhe escapava nos bebês, nas fraldas, no calendário de alimentação. Tropeçava nas fraldas, esquecia quando alimentar, quando colocar a dormir.

Mas Miguel permanecia ao seu lado. Silencioso, atento, tenso. Observava João como quem vigia um estranho que pode desaparecer a qualquer momento. E, ao mesmo tempo, ajudava embalava a irmã, cantava canções de ninar, a deitava suavemente ao sono, como só quem o fez inúmeras vezes sabe fazer.

Numa noite, Margarida não conseguia adormecer. Chorava, rodopiava no berço, incapaz de encontrar um lugar para si. Miguel aproximouse, pegoua nos braços e começou a cantar baixinho. Em poucos minutos, a menina já dormia tranquila.

Você tem um dom incrível para acalmara comentou João, observando o gesto com calor no coração.

Aprendi a fazer isso respondeu o rapaz, simples, sem ressentimento, como quem aceita o fato da vida.

Então o telefone soou. Era Lurdes.

Encontrámos a mãe. Ela está viva, mas está em reabilitação dependência química, condição delicada. Se concluir o tratamento e provar que pode cuidar dos filhos, eles serão devolvidos a ela. Caso contrário, o Estado assumirá a tutela. Ou você.

João ficou mudo. Algo apertou o peito.

Você pode assumir a tutela oficialmente. Ou até mesmo adotálos, se realmente quiser.

Ele não tinha certeza de estar pronto para ser pai. Mas sabia que não queria perdêlos.

Naquela mesma noite, Miguel sentouse num canto da sala e começava a rabiscar com um lápis.

E agora, o que será de nós? perguntou, sem desviar o olhar da folha. A voz carregava medo, dor, esperança e o temor de ser abandonado outra vez.

Não sei respondeu João, honestamente, sentandose ao seu lado. Mas farei tudo ao meu alcance para vos proteger.

Miguel ficou em silêncio por um instante.

Vãose levarnos de novo? Tirarmee da tua casa?

João abraçouo firme, sem palavras. Queria, com a força daquele abraço, dizer: já não estás só. Nunca mais.

Não vos entregarei. Prometo. Nunca.

Foi então que percebeu: aquelas crianças já não eram coincidências. Tornaramse parte da sua própria essência.

Na manhã seguinte, João ligou para Lurdes:

Quero ser o tutor legal deles. Integralmente.

O processo foi árduo: inspeções, entrevistas, visitas domiciliárias, perguntas intermináveis. Mas João superou tudo, pois agora tinha um propósito real. Dois nomes fixos: Miguel e Margarida.

Quando a tutela temporária se transformou em algo permanente, João decidiu mudarse. Comprou uma casa nos arredores de Sintra, com jardim, espaço, cantos de pássaros ao amanhecer e o perfume da relva após a chuva.

Miguel floresceu diante dos olhos de João. Sorria, construía fortalezas de almofadas, lia em voz alta, trazia desenhos e os pendurava orgulhoso no frigorífico. Vivia genuinamente, livre, sem medo.

Numa noite, ao colocar o menino na cama, João puxou a coberta e acariciou-lhe o cabelo. Miguel o recebeu com um olhar de baixo para cima e, suavemente, disse:

Boa noite, papá.

João sentiu um calor profundo, quase a lacrima nos olhos.

Boa noite, filho.

Na primavera, a adoção foi oficializada. A assinatura do juiz formalizou o estatuto, mas no coração de João tudo já estava decidido há muito tempo.

A primeira palavra de Margarida Pai! tornouse mais valiosa que qualquer sucesso profissional.

Miguel fez amigos, inscreveuse num clube de futebol, às vezes chegava a casa acompanhado de uma turba barulhenta. E João aprendeu a fazer tranças, a preparar pequenos-almoços, a escutar, a rir e a sentirse vivo novamente.

Nunca planeou ser pai. Nunca buscou isso. Mas agora não conseguia imaginar a sua vida sem eles.

Foi difícil. Foi inesperado.

Mas acabou por ser a coisa mais bela que já lhe aconteceu.

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— Tio, leve a minha irmãzinha — ela está sem comer há dias, — ele virou-se bruscamente e ficou boquiaberto!