Tinha só 16 anos quando a trouxe para casa… A rapariga que já andava por ali há muito tempo e provavelmente grávida, um ano mais velha.

Ele tinha apenas dezasseis anos, num sonho estranho e surreal onde o tempo escorria como areia por entre os dedos, quando a trouxe para dentro de casa… A rapariga, visivelmente grávida há já algum tempo, mais velha do que ele por um ano.

Inês estudava na mesma escola técnica que ele, apenas noutro ano. Por vários dias, João observava como a rapariga desconhecida se encolhia num canto e chorava em silêncio. Não lhe escaparam o ventre que se arredondava como uma fruta madura, as mesmas roupas vestidas durante duas semanas e o olhar vazio, desprovido de esperança, que pairava como fumo em noite de lua.

Como se soube, a sua história era conhecida por quase todos O neto de um empresário famoso em Lisboa andava com ela, e depois simplesmente desapareceu, partiu «por um assunto urgente» para o Porto. Os pais dele não queriam ouvir falar dela. Disseram-lho sem rodeios.

E os seus próprios pais, como se vivessem na Idade Média, com medo da «vergonha», expulsaram-na de casa e foram para a quinta. Uns compadeciam-se de Inês, outros troçavam dela pelas costas.

A culpa é dela. Devia ter pensado com a cabeça!

João já não aguentava olhar. Pensou e aproximou-se.

Não vai ser fácil, para de chorar. Proponho que venhas morar comigo, podemos até casar-nos. Mas digo-te já não sei mentir e não vou fingir que está tudo bem. Vou apenas estar ao teu lado e prometo que vamos dar conta.

Inês limpou as lágrimas e olhou para o rapaz. O que dizer Um rapaz normal, sem qualquer refinamento. E ela sonhava com um marido completamente diferente! Só que na sua situação não havia escolha e Inês seguiu-o.

Os pais ficaram chocados, a mãe suplicava a João que se arrependesse, mas ele manteve-se firme.

Mãe, não dramatizes, de alguma forma corre. Tenho duas bolsas, a normal e a social. Vou trabalhar extra, vamos conseguir!

Mas querias ir para a universidade!

E então? Vivemos de algum jeito. O pai trabalha a vida inteira na fábrica, tu na loja. As pessoas sem estudos também vivem de alguma forma. Mãe, isto não é o fim do mundo!

Inês mudou-se para o quarto de João. Cediu-lhe a sua cama, e ele passou para o sofá-cama desconfortável. Durante alguns dias ela foi muito calada. Como uma sombra, ia de mão dada com ele até à escola e de volta a casa, até que finalmente rebentou.

Já não aguento! Porque é que os teus pais me olham torto? Não lhes agrado! E porque não passas tempo comigo? Ficas nos livros ou desapareces nalgum lugar?!

João ficou surpreendido.

Não pensas que é normal? Bem, não lhes agradas, mas aceitaram-te e não te atormentam. Olham torto? Os teus próprios nem te querem ver. E os pais do pai da tua criança? Onde estão? Fico nos livros porque estudo e não quero ser expulso logo no primeiro ano. E a bolsa também me será útil. Desapareço? Porque trabalho extra e não tenho vontade de ver séries chorosas contigo.

Inês começou a chorar.

Porque falas assim?

Como? Disse que não sei mentir. E aliás, quando vamos ao cartório?

Não posso ir assim, compra-me um vestido bonito, com a cintura alta, para o ventre não se notar.

O que é que queres? Levaremos o certificado de gravidez, que vestido? Ainda preciso de juntar para o carrinho e o berço

A mãe agarrou na valeriana, mas lentamente reconciliou-se com a situação e olhava cada vez mais para as roupas de criança. Bem, nada de grave está a acontecer Deixem-nos viver, casem-se, e nós com o pai ajudaremos o que pudermos. Só que esta rapariga parece ingrata, sempre descontente com João, com eles, com o apartamento pequeno. Talvez quando der à luz, mude.

Mas Inês não planeava mudar. Quando João voltou sujo e fatigado da lavagem de carros, trazendo para o quarto uma gata magra que emergiu das sombras da noite como uma aparição, ela enfureceu-se.

Seu idiota! Para que é que nos serve esta gata esfarrapada? Tira-a! Expulsa-a do apartamento!

Mas João sorriu apenas.

Não, ela está grávida. Fica, portanto nem comeces. Melhor cala a boca e aquece-me o jantar.

Ah, sim?! Inês quase guinchou. Escolhe! Ou ela ou eu! Essa besta também me olha torto!

Para quê? João olhou para ela incrédulo. Esta é a minha casa e não tenho de escolher. Esta é a minha gata e se te incomoda, podes ir-te embora. Nem a mãe me impôs tais condições. Talvez seja altura de deixar de olhar para todos de cima?

Inês histerizou, chorou, invejou aquela gata magra e abandonada. Onde é que João teria visto o ventre nela? Mas o ventre surgiu a gata estava de facto grávida.

O rapaz estava cansado, mas quando a compaixão começava a assaltá-lo, afastava esses pensamentos. De alguma forma dariam conta. Inês daria à luz, acalmaria-se, e antes a gata diverti-los-ia. Os gatinhos fofos poriam todos num ânimo melhor.

Mas tudo decorreu de outro modo O avô, como uma figura surgida de névoas distantes, empresário conhecido em Lisboa, regressou de uma longa viagem de negócios e soube de tudo. Localizou o neto, ralhou-lhe e declarou que o cortaria do «dinheiro» se o bisneto fosse criado numa família alheia. E perder tal «bolsão» o rapaz temia bastante.

Inês partiu com ele ainda nesse dia, sem sequer se despedir de João. Por sorte tinha os documentos consigo (ia após as aulas ao médico). Pelas suas coisas fez sinal com a mão comprariam-lhe novas! E a essa escola técnica ordinária mais não regressaria!

João ficou arrasado Como assim? Nem se despediu, não telefonou, não disse palavra alguma. Deitou fora todas as coisas dela e sentou-se muito tempo sozinho na escuridão que ondulava como água, abraçando a sua gata.

A gata compreendia tudo. Encolhia-se silenciosamente nele, sentindo que era precisa. Compadecia-se, ronronava, consolava.

João aceitou sozinho o seu parto, não permitindo que a mãe nervosa e o pai desorientado se aproximassem da gata. Sentou-se junto dela, falou-lhe com doçura, tranquilizou-a. Verificava se tudo corria bem, e mantinha o telemóvel pronto, para o caso de ligar ao veterinário.

Tudo correu bem, a gata pariu quatro pequeninos. João substituiu o forro, trouxe água fresca e ração. Mais uma vez certificou-se de que estava tudo em ordem, e exausto fechou os olhos, sentindo como o mais pequeno gatinho se aninhava na sua mão, e pensou que às vezes os animais demonstram mais gratidão do que as pessoas, num mundo onde a lógica se desfazia como névoa ao amanhecer.Ele tinha apenas dezasseis anos, num sonho estranho e surreal onde o tempo escorria como areia por entre os dedos, quando a trouxe para dentro de casa… A rapariga, visivelmente grávida há já algum tempo, mais velha do que ele por um ano.

Inês estudava na mesma escola técnica que ele, apenas noutro ano. Por vários dias, João observava como a rapariga desconhecida se encolhia num canto e chorava em silêncio. Não lhe escaparam o ventre que se arredondava como uma fruta madura, as mesmas roupas vestidas durante duas semanas e o olhar vazio, desprovido de esperança, que pairava como fumo em noite de lua.

Como se soube, a sua história era conhecida por quase todos O neto de um empresário famoso em Lisboa andava com ela, e depois simplesmente desapareceu, partiu «por um assunto urgente» para o Porto. Os pais dele não queriam ouvir falar dela. Disseram-lho sem rodeios.

E os seus próprios pais, como se vivessem na Idade Média, com medo da «vergonha», expulsaram-na de casa e foram para a quinta. Uns compadeciam-se de Inês, outros troçavam dela pelas costas.

A culpa é dela. Devia ter pensado com a cabeça!

João já não aguentava olhar. Pensou e aproximou-se.

Não vai ser fácil, para de chorar. Proponho que venhas morar comigo, podemos até casar-nos. Mas digo-te já não sei mentir e não vou fingir que está tudo bem. Vou apenas estar ao teu lado e prometo que vamos dar conta.

Inês limpou as lágrimas e olhou para o rapaz. O que dizer Um rapaz normal, sem qualquer refinamento. E ela sonhava com um marido completamente diferente! Só que na sua situação não havia escolha e Inês seguiu-o.

Os pais ficaram chocados, a mãe suplicava a João que se arrependesse, mas ele manteve-se firme.

Mãe, não dramatizes, de alguma forma corre. Tenho duas bolsas, a normal e a social. Vou trabalhar extra, vamos conseguir!

Mas querias ir para a universidade!

E então? Vivemos de algum jeito. O pai trabalha a vida inteira na fábrica, tu na loja. As pessoas sem estudos também vivem de alguma forma. Mãe, isto não é o fim do mundo!

Inês mudou-se para o quarto de João. Cediu-lhe a sua cama, e ele passou para o sofá-cama desconfortável. Durante alguns dias ela foi muito calada. Como uma sombra, ia de mão dada com ele até à escola e de volta a casa, até que finalmente rebentou.

Já não aguento! Porque é que os teus pais me olham torto? Não lhes agrado! E porque não passas tempo comigo? Ficas nos livros ou desapareces nalgum lugar?!

João ficou surpreendido.

Não pensas que é normal? Bem, não lhes agradas, mas aceitaram-te e não te atormentam. Olham torto? Os teus próprios nem te querem ver. E os pais do pai da tua criança? Onde estão? Fico nos livros porque estudo e não quero ser expulso logo no primeiro ano. E a bolsa também me será útil. Desapareço? Porque trabalho extra e não tenho vontade de ver séries chorosas contigo.

Inês começou a chorar.

Porque falas assim?

Como? Disse que não sei mentir. E aliás, quando vamos ao cartório?

Não posso ir assim, compra-me um vestido bonito, com a cintura alta, para o ventre não se notar.

O que é que queres? Levaremos o certificado de gravidez, que vestido? Ainda preciso de juntar para o carrinho e o berço

A mãe agarrou na valeriana, mas lentamente reconciliou-se com a situação e olhava cada vez mais para as roupas de criança. Bem, nada de grave está a acontecer Deixem-nos viver, casem-se, e nós com o pai ajudaremos o que pudermos. Só que esta rapariga parece ingrata, sempre descontente com João, com eles, com o apartamento pequeno. Talvez quando der à luz, mude.

Mas Inês não planeava mudar. Quando João voltou sujo e fatigado da lavagem de carros, trazendo para o quarto uma gata magra que emergiu das sombras da noite como uma aparição, ela enfureceu-se.

Seu idiota! Para que é que nos serve esta gata esfarrapada? Tira-a! Expulsa-a do apartamento!

Mas João sorriu apenas.

Não, ela está grávida. Fica, portanto nem comeces. Melhor cala a boca e aquece-me o jantar.

Ah, sim?! Inês quase guinchou. Escolhe! Ou ela ou eu! Essa besta também me olha torto!

Para quê? João olhou para ela incrédulo. Esta é a minha casa e não tenho de escolher. Esta é a minha gata e se te incomoda, podes ir-te embora. Nem a mãe me impôs tais condições. Talvez seja altura de deixar de olhar para todos de cima?

Inês histerizou, chorou, invejou aquela gata magra e abandonada. Onde é que João teria visto o ventre nela? Mas o ventre surgiu a gata estava de facto grávida.

O rapaz estava cansado, mas quando a compaixão começava a assaltá-lo, afastava esses pensamentos. De alguma forma dariam conta. Inês daria à luz, acalmaria-se, e antes a gata diverti-los-ia. Os gatinhos fofos poriam todos num ânimo melhor.

Mas tudo decorreu de outro modo O avô, como uma figura surgida de névoas distantes, empresário conhecido em Lisboa, regressou de uma longa viagem de negócios e soube de tudo. Localizou o neto, ralhou-lhe e declarou que o cortaria do «dinheiro» se o bisneto fosse criado numa família alheia. E perder tal «bolsão» o rapaz temia bastante.

Inês partiu com ele ainda nesse dia, sem sequer se despedir de João. Por sorte tinha os documentos consigo (ia após as aulas ao médico). Pelas suas coisas fez sinal com a mão comprariam-lhe novas! E a essa escola técnica ordinária mais não regressaria!

João ficou arrasado Como assim? Nem se despediu, não telefonou, não disse palavra alguma. Deitou fora todas as coisas dela e sentou-se muito tempo sozinho na escuridão que ondulava como água, abraçando a sua gata.

A gata compreendia tudo. Encolhia-se silenciosamente nele, sentindo que era precisa. Compadecia-se, ronronava, consolava.

João aceitou sozinho o seu parto, não permitindo que a mãe nervosa e o pai desorientado se aproximassem da gata. Sentou-se junto dela, falou-lhe com doçura, tranquilizou-a. Verificava se tudo corria bem, e mantinha o telemóvel pronto, para o caso de ligar ao veterinário.

Tudo correu bem, a gata pariu quatro pequeninos. João substituiu o forro, trouxe água fresca e ração. Mais uma vez certificou-se de que estava tudo em ordem, e exausto fechou os olhos, sentindo como o mais pequeno gatinho se aninhava na sua mão, e pensou que às vezes os animais demonstram mais gratidão do que as pessoas, num mundo onde a lógica se desfazia como névoa ao amanhecer.

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Tinha só 16 anos quando a trouxe para casa… A rapariga que já andava por ali há muito tempo e provavelmente grávida, um ano mais velha.